
Capítulo 2
O Extra é um Gênio!?
As folhas eram macias demais.
Essa foi a primeira coisa que Noel percebeu.
Não eram lençóis hospitalares ásperos. Sentiam-se como seda—frios, suaves, luxuosos. E o ar... não tinha cheiro de antisséptico. Nada de odor químico, nem de vazio esterilizado. Cheirava a... ervas secas, livros empoeirados e algo quente pulsando por baixo de tudo isso.
Mana.
Ele não sabia exatamente como tinha aprendido essa palavra.
Simplesmente sabia.
Seus olhos se abriram lentamente.
O teto acima dele não era de mosaicos manchados. Era uma pedra lisa, de um tom cinza-branco polido, com detalhes dourados formando linhas retas e intricadas. Uma luz azul flutuava num canto—flutuava, suspensa no ar, pulsando suavemente como um batimento cardíaco.
'...Ok. Isso aqui não é UTI.'
Ele se assustou ao se sentar rápido demais.
Não havia perfusão. Nem tubos. Nenhuma dor.
Na verdade, ele se sentia... forte. Seus músculos respondiam imediatamente. Nada de rigidez. Nada de cansaço. Apenas movimentos limpos, como se seu corpo estivesse recém-lubrificado e feito do zero.
Ele olhou para baixo.
As mãos. Estáveis. Pálidas, mas não doentes. Dedos longos, pele lisa. Fortes.
Definitivamente, não eram as dele.
"...Que merda," murmurou, com a voz rouca, mas clara.
Ele afastou os lençóis e se levantou.
Seus joelhos não tremeram.
Não gritaram.
Ele deu um passo lento, cauteloso, atravessando o piso de mármore frio. Seus pés encontraram a pedra polida—não ladrilho, nem vinil. Brilhava como obsidiana, refletindo a luz daquela lâmpada flutuante acima.
O cômodo era enorme—pelo menos três vezes maior que seu apartamento na Terra. Tinha teto alto. Cortinas de veludo escondiam janelas altas, quase sem deixar entrar luz do sol. Estantes repletas de livros. Uma mesa enorme com uma pena e cartas lacradas. Um guarda-roupa talhado com símbolos élficos. E tapetes grossos, macios de pisar.
Tudo exalava nobreza. Luxo. Fantasia.
'Isto não é um sonho.'
Ele se virou de repente, o coração batendo forte.
'Isto não é um puta sonho.'
Noel caminhou até a parede mais distante, na direção do espelho de moldura prateada que brilhava no canto, mas parou na metade do caminho.
Ainda não.
Primeiro, fechou os olhos e respirou fundo.
O ar parecia elétrico.
Magia.
Ele não precisava de manual. Estava no ar, no cômodo, dentro dele. Podia sentir uma força se curvando no peito—como um segundo batimento pulsando sob a superfície. Uma sensação de calor que não era sangue nem respiração.
'Mana,' pensou novamente.
'Este mundo funciona com mana.'
Não era uma dúvida. Era uma verdade.
E, de alguma forma, quase inacreditável, seu corpo entendia isso.
O espelho era enorme. Ornado. Envolvido por moldura de folhas de prata e fênixes esculpidas em voo. Era mais alto que ele e brilhava sem uma única mancha ou rachadura.
Noel ficou na sua frente.
E olhou fixamente.
O que refletia não era um jovem de vinte e poucos anos morrendo na Terra.
Era um menino. Não—um jovem, talvez uns dezesseis no máximo. Alto para a sua idade. Magro, mas com ombros fortes, provenientes de horas de treino com espada e disciplina, não de musculação ou sobrevivência desesperada.
Cabelos loiros, bagunçados, grossos e desalinhados, mas de alguma forma com um quê de requinte. Pele clara, pálida, mas sem sinais de doença. E então, seus olhos—afiados, verdes profundos como esmeraldas rachadas, com um olhar tão frio e analítico que quase parecia inumano.
Eles não piscavam.
Ele também não.
"...Hã," sussurrou Noel. Ele se inclinou lentamente.
Sem linhas familiares. Sem bochechas abatidas. Sem cicatrizes de quimioterapia.
'Esse rosto... não é meu.'
Sua mão levantou para tocar a mandíbula.
A mão do espelho seguiu na mesma sincronização exata.
Ele virou a cabeça para esquerda, depois para direita.
O mesmo estranho encarando de volta.
'Mas parece meu.'
Seu coração acelerou. Não por pânico—mais como um trovão distante, devagar e pesado.
Sua respiração formava uma leve névoa no vidro. Ele a limpou.
"Quem diabos é você?" murmurou.
Sem resposta.
Apenas aquele mesmo rosto. Frio. Nobre. Distante.
E então—um brilho.
Algo em sua mente estremeceu.
Um pulso por trás dos olhos.
Não dor.
Memória.
Não dele próprio.
Começou com um nome.
Noel Thorne.
Naquele instante, quando ecoou na cabeça dele, algo se quebrou.
Uma cascata de imagens invadiu seu cérebro—fragmentadas, desconexas, como pedaços de uma fita de filme passando fora de ordem.
Ele tropeçou para trás, segurando a cabeça.
Visão turva—não por dor, mas por sobreposição.
Golpes de espada numa arena de treinamento.
Vozes severas berrando ordens.
Mesas de jantar cercadas por nobres em silêncio.
Um tutor particular dando aula sobre teoria de mana e etiqueta.
Uma sala de aula, teto alto, giz brilhando no ar formando glifos.
Tudo isso era ele—mas não era.
'Que merda é essa... ?'
Ele caiu de joelhos, cerrando os dentes.
As emoções lá fora—distantes. Dormentes. Filtradas por camadas de disciplina e indiferença.
Esse outro Noel—filho de um nobre—ele não sorria. Não chorava. Não gritava.
Ele estudava, observava, suportava.
Um aluno elite. Distante. Sem destaque na hierarquia social, apesar das habilidades.
Um personagem de pano de fundo numa jaula de ouro.
E então—silêncio.
A onda de memória cessou abruptamente, como uma torneira fechada de repente.
A respiração de Noel estava pesada e trêmula.
Ele pressionou uma mão contra o mármore para se estabilizar.
'Essas memórias... não eram minhas... mas posso senti-las.'
Sabia a disposição da sala sem precisar olhar.
Podia recitar um exercício básico de controle de mana sem precisar de livro.
Recordava um aniversário que nunca foi dele—e que ninguém jamais comemorou.
Ele se levantou lentamente, encarando mais uma vez o menino no espelho.
"...Então você foi um fantasma na sua própria história," disse, em voz baixa.
'Noel Thorne. Um nome que não lembro de ter lido. Uma face que nunca apareceu no elenco original.'
Ele estreitou os olhos.
'Por que diabos eu despertaria como você?'
Obviamente, o espelho não tinha resposta.
Mas o nome ainda ecoava na sua cabeça.
Noel Thorne.
E não parecia coincidência.
Noel se deixou cair pesadamente na cadeira mais próxima, uma poltrona de alto respaldo revestida de tecido vermelho-escuro. A madeira era escura, polida, entalhada com ranhuras elegantes que exalavam aristocracia. Seus dedos agarraram os apoios como se fossem cordões de salvação.
Seu coração ainda acelerava.
Aquele nome—Noel Thorne.
As memórias. O espelho. A mana.
Era tudo demais, rápido demais. Mas era real.
Então, algo na parede chamou sua atenção.
Uma bandeira carmesim pendurada acima da lareira, ostentando um brasão de prata: uma espada entrelaçada com três estrelas sobre um círculo de chamas.
E, num instante—
Foi como uma lâmpada acendendo na cabeça dele.
Ele prenderam a respiração.
Já tinha visto aquele brasão antes.
Não nesta sala.
Nem nesta vida.
Mas na capa de um livro que devorou na escola, sem dormir, obcecado.
Um romance.
Uma fantasia longa, brutal e assombrosa que nunca saiu da sua cabeça.
Sob o Gelo do Mundo Rachado.
O nome destruiu como um tiro.
Sentiu o peso dele atravessando o estômago.
'Não... não pode ser.'
Levantou-se, recuando como se o brasão tivesse crescido dentes.
Mas as memórias vieram inundar de qualquer jeito.
A história. O enredo.
Três continentes—Valor, Velmora e Elarith.
Uma academia mágica na capital humana—Valon.
Um menino chamado Marcus, uma menina nobre chamada Clara, a prodigiosa fria Selene, a elfa de olhos dourados Elena, a vice-presidente da corte astuta Elyra...
Todos eles eram discutidos, torcidos, chorados.
Ele se lembrou das arcos de guerra. Das traições. Dos segredos. Da descida à desesperação.
E do final.
O maldito final.
O mundo mergulhado no fogo e no vazio.
Todos mortos.
Heróis falharam. Vilões venceram.
Tudo caiu por terra.
E agora—
Agora ele estava naquele mundo.
Dentro de uma história que já tinha dado errado.
Dentro do corpo de um personagem que nem lembrava que existia.
Ele passou a mão nos cabelos loiros, com olhos arregalados.
"...Que porra de isekai doente é essa?" murmurou.
E então—
O ar vibrou.
O ar mudou.
Num segundo, tudo ficou parado—silencioso, estranho.
No próximo, ele começou a zumbir.
Como estática deslizando pelo corpo.
A luz da lâmpada flutuante acima dele piscou uma vez, depois ficou mais forte. Ainda mais forte. Até não ser só uma luz—mas uma presença. Algo que não é físico, mas que existe ali.
Então—
Um som sem som.
Uma tela translúcida apareceu na sua frente, flutuando no ar como um holograma de filme de ficção científica.
Ela pulsou uma vez e exibiu:
[Bem-vindo, Noel Thorne]
[Inicializando Protocolo de Sincronização de Alma...]
[Nível do Núcleo de Mana: Iniciante]
[Missão Única Ativada: SALVAR O MUNDO]
Noel piscou.
Olhou fixamente.
Depois, falou sem entusiasmo: "Ah, vamos lá."
Passou a mão pelo holograma. Ele brilhou, mas não sumiu.
[Nota: Esta é uma diretriz única. Falhar resultará no colapso do universo.]
"…De brincadeira, né."
Ele esfregou os olhos, então olhou para o teto como se pudesse fitar alguma divindade responsável.
"Então esse é meu prêmio? Pego câncer, fico apodrecendo num hospital, e, em vez de paz, vou jogar uma porrada de fantasia com stakes apocalípticos?"
Sem resposta.
Ele apontou o dedo para o texto flutuante e fez uma cara azeda.
"E nem mesmo me matou no Truck-kun."
Nada.
Sem voz divina. Sem tutorial do sistema. Apenas aquele lembrete piscante de que o mundo ia acabar—and aparentemente, ele era o único capaz de impedir isso.
"Quem escreve essas mesmices?" murmurou.
Mas seu coração já não tava mais no sarcasmo.
Porque isso não era brincadeira. Era sério.
E o sistema acabara de revelar a maior reviravolta de todas:
[Missão Única: SALVAR O MUNDO]
Noel encarou as palavras brilhantes.
[Missão Única: SALVAR O MUNDO]
Ela pairava ali, como uma ameaça disfarçada de presente.
Seu lábio torceu.
"Não."
A palavra saiu fria, definitiva, implacável.
Ele cruzou os braços.
"Não é meu mundo. Não são minhas pessoas. Não é minha porra de problema."
Virou as costas para a tela e começou a andar de um lado ao outro. As botas—porque, sim, aparentemente tinha botas agora—tinham barulho no chão de pedra.
"Procure algum escolhido com complexo de herói. Pegue o Marcus. Ele é o protagonista. Li o livro, sei como isso funciona. Ele é sua pessoa."
A tela não se moveu.
Não desapareceu.
Não ligou para ele.
Ele bufou pelo nariz, parou e apontou o dedo para ela.
"Sério. Acabei de morrer. Deveria estar tomando mojitos cósmicos em algum lounge de almas agora, não jogando modo difícil de RPG."
A mensagem permanecia inalterada.
Ele tentou arrastar a tela com o dedo—nada.
Então, a mensagem pulsou uma vez.
[Rejeição de Missão Única Detectada.]
Noel piscou.
"Espera, o quê?"
A mensagem mudou.
[Não é possível recusar uma Missão Única.]
[Se falhar—o mundo irá perecer.
E você morrerá.]
Silêncio.
Cru, impassível.
Noel ficou parado, congelado.
O brilho da tela iluminou seu rosto, e por um instante, não havia sarcasmo nos seus olhos. Apenas compreensão. Pesada. Fria. Real.
'Isso... não é um jogo.'
Ele inalou lentamente, os ombros caíram, e a última ponta de negação se dissipou como névoa ao sol.
"...Droga."