O Extra é um Gênio!?

Capítulo 1

O Extra é um Gênio!?

A sensação estéril de antisséptico impregnou o ar como uma segunda pele. Máquinas sussurravam suavemente ao seu lado—constantes, rítmicas, indiferentes. Um monitor cardíaco silencioso pulsava com linhas verdes, cada batida um lembrete teimoso de que ele ainda estava ali.

Noel permanecia imóvel


A cama do hospital rangeu ao seu respirar. Seu corpo parecia de chumbo—ossos frágeis, músculos oco, pele esticada sobre o pouco que restava. A luz da manhã mal filtrava pelas cortinas pálidas, pintando o cômodo branco com tons frios, sem cor.

'Este lugar cheira a morte', pensou, secamente.

Seus olhos, antes verdes afiados, agora opacos de exaustão, vasculharam o teto. Havia pequenas rachaduras próximas à luminária. Ele as contara dezenas de vezes antes. Não tinham se movido. Diferente de tudo o mais na vida dele.

Tik. Tik. Tik.

O relógio na parede zombava dele.

'O que será a vida, afinal?'

'Uma viagem sem volta num carro ruim, sem freios?'

'Ou uma piada cósmica onde a punchline é: "Você morre de qualquer jeito"?'

Uma risada sem fôlego escapou, mais rouca do que divertida. Falar—pensar—ficou mais difícil, mais pesado nesses dias.

Ele tinha vinte e dois anos.

Vinte e fudidos dois.

E já estava morrendo de câncer terminal.

'Tanto faz o "tempo de sobra", hein?'

Ele rememorou—breves flashes. Seu antigo apartamento, pequeno e bagunçado. Livros empilhados no chão. O brilho frio de um monitor durante madrugadas. Uma vida dedicada a ler romances de fantasia e desmontar enredos com precisão cirúrgica. Essa era sua terapia. Ficção sempre foi melhor que a realidade. Mais limpa. Mais honesta.

A realidade não se importava se você era inteligente. Não se importava se jogava limpo. Ela simplesmente... continuava a bater.

Ele se mexeu levemente, uma dor irrompendo nas costas como estática.

'Nem pra cagar sem parecer que corri uma maratona. Patético.'

A bomba de soro pingava ao seu lado, o som constante, irritante. Lembrou-lhe a tortura com água.

Engoliu em seco. A boca tinha gosto metálico.

'Ninguém te avisa o quão chato é morrer.'

O silêncio voltou.

Não vinha visita nenhuma. Nenhuma família aguardava. Nenhuma lágrima foi derramada.

E tudo bem. Ele odiava pessoas falsas. Não precisava de um primo distante chegando com flores e falsa compaixão. Já tinha queimado a maioria das pontes anos atrás. De propósito.

Mas mesmo assim... nem seu coração era tão frio a ponto de a solidão não doer um pouquinho.

Só um pouquinho.

Fechou os olhos. O zumbido das máquinas o acompanhava. Assim como o frio amargo que se infiltrava mais fundo em seu peito.

'Talvez amanhã eu não acorde,' pensou.

'Talvez seja o melhor presente que esse hospital me deu.'

A porta abriu com um leve rangido, rompendo o silêncio como um sussurro numa capela. Passos leves, cuidadosos. Um ritmo familiar. Turno da manhã.

"Bom dia, Noel," veio uma voz que soava excessivamente animada para um lugar como aquele.

Ele não se incomodou em virar a cabeça.

Era ela novamente—a enfermeira com o sorriso cansado e a voz de sol. Talvez final dos vinte, quem sabe. Coque castanho, sombras quase invisíveis sob os olhos, mãos que tremiam sutilmente ao ajustar a bolsa de soro. Jamais se lembrava do nome dela.

Ele também não se importava em lembrar.

"Como estamos hoje?" ela perguntou, com voz suave enquanto checava seu prontuário.

Os lábios de Noel se contorceram.

"Como um vegetal apodrecido, obrigado."

Um instante de silêncio constrangedor.

Ela deu uma risadinha educada, mais por hábito do que por diversão, e voltou a verificar os sinais vitais. "Bem, seus números estão estáveis. Isso é bom."

"Certo. Estáveis enquanto eu estou escapando pela narina. Viva a ciência."

'Ela não reagiu a isso. Boa jogada.'

Ele virou levemente a cabeça, o suficiente para captar sua silhueta contra a luz da manhã. Uniforme limpo, postura cuidadosa. Os olhos evitavam os dele. A maioria deles evitava. Era um lembrete ambulante de que até jovens morrem. Ninguém gostava disso.

"Você não precisa fingir, sabe," murmurou.

Ela olhou para ele, confusa. "Fingir o quê?"

"Que se importa. Essa enfermeira sorridente e de olhos brilhantes. Você tem pelo menos mais uma dúzia de pacientes para cuidar. Faça sua ronda e economize o discurso motivacional."

Seus lábios se abriram—depois se fecharam novamente. Mandíbula tensa.

"Eu me importo," ela disse baixinho.

Noel bufou. "Claro. E eu sou o próprio Papa."

Ela não disse mais nada. Terminou de atualizar o monitor, conferiu o soro. As mãos um pouco mais rápidas do que antes.

Ele olhou para fora, para nada em particular.

'Por que eles se dão ao trabalho?'

'Você não conforta os mortos. Você os enteja.'

"Tente descansar um pouco," ela disse finalmente, e virou-se para sair.

Ele esperou até ouvir o clique da porta fechando atrás dela.

Então, por um momento, algo brilhou dentro dele.

Culpa? Talvez.

Ela só fazia seu trabalho. Talvez realmente se importasse, à sua maneira.

'Porra,' pensou. 'Ela provavelmente chora no carro durante almoço. E aqui estou eu, sendo um ingrato de merda.'

Mas o sentimento passou tão rápido quanto veio.

Ele fechou os olhos novamente.

Só, sozinho.

Sempre.

A sala do hospital estava silenciosa. Excessivamente silenciosa.

Parede bege abafadas. Diplomas enfeitando as paredes. Uma pequena janela que não abria. Tudo estéril, clínico, e porra de bege.

Noel sentou-se de frente para o médico, braços cruzados. Ele odiava aquele cômodo. Era como esperar o veredicto de um júri—exceto que ele já sabia que era culpado.

O médico—homem na faixa dos cinquenta, careca, com óculos que não lhe cabiam bem—apoiou as mãos na mesa e esclareceu a garganta.

"Noel," começou, "vou ser direto."

'Ótimo,' pensou Noel. 'Sem rodeios. Uma espécie rara.'

"Você tem câncer metastático em estágio avançado. Disseminado para pulmões, fígado e coluna."

O cômodo não girou.

A visão dele não ficou turva.

Nem um suspiro dramático. Nem uma câmera se aproximando lentamente como nos filmes.

Apenas... silêncio.

Depois, risada.

Noel riu. Áspera, amarga, curta.

"Sério?"

O médico assentiu, visivelmente desconfortável. "Gostaria que não fosse."

"Foda-se," resmungou Noel, recostando-se na cadeira. "Achava que era só um pulmão colapsado ou alguma merda assim. Isso é nível avançado."

"Podemos começar um tratamento agressivo," ofereceu o médico suavemente. "Quimioterapia ou radioterapia. Não irá curar, mas pode te dar mais um tempo."

"Tempo para quê? Maratonar mais animes e morrer vomitando tudo ou dormir silenciosamente?"

O médico permaneceu em silêncio.

Claro que permaneceu.

Não era uma conversa—era uma formalidade. Uma etiqueta antes do inevitável.

Noel olhou para o teto. Aqui não havia rachaduras.

"Qual a estimativa?" finalmente perguntou.

"Se os tratamentos forem eficazes… talvez um ano. Sem eles? Seis meses. Talvez menos."

Ele soltou um suspiro baixo. "Acho que vou cancelar minha inscrição na academia."

O médico não riu.

Noel se levantou. As pernas pareciam ocas, mas resistiram. Virou-se para sair, parando na porta.

"Ei, doutor."

"Sim?"

"Obrigadão por não me enrolar."

O médico deu um sorriso cansado. "De nada."

Ele saiu andando, com as mãos nos bolsos.

Não chorou.

Não ligou para ninguém.

Não gritou pro céu.

Antes da notícia, comprou um pacote de cigarro—só por precaução, apesar de ter parado há dois anos—acendeu um fora do prédio e observou a fumaça se enrolar em direção a um céu que parecia demasiadamente azul para a notícia que acabara de receber.

'Então é isso, hein?'

'Foda-se, destino.'

E o vento não respondeu.

O sol tinha mudado de posição.

Uma luz quente escorria preguiçosamente pelas cortinas, tingindo o quarto do hospital com âmbar e dourado. Pó dançava nos raios como estrelas cadentes sem lugar para ir.

Deitado, lentamente, dolorosamente, até que voltou a encarar a janela. O travesseiro cedeu sob sua cabeça. Mal conseguia levantar o braço, mas conseguiu puxar a cortina o suficiente para espiar lá fora.

Não era lá grande coisa a vista.

Um estacionamento. Uma árvore ao longe. Um céu que parecia ter algo melhor para fazer.

Mas era melhor do que olhar paredes brancas.

Seu peito subia e descendo em respirações superficiais.

'De novo isso', pensou.

Tardes como essa o faziam pensar demais. A dor não era aguda o bastante para distraí-lo e o silêncio entre os bipes era demais.

Seus olhos permaneciam na janela, na fatia do céu visível.

'O que é a vida, realmente?'

Não esperava resposta.

'Um teste enorme sem gabarito? Uma punição por pecados que não lembro de ter cometido?'

A pergunta girava dentro dele, mais profunda que o sarcasmo.

Ele se lembrou de um livro que leu aos dezessete anos. Uma saga de fantasia com espadas, dragões e tragédia. Amou e odiou ao mesmo tempo. O final o destruiu.

O mundo tinha acabado em fogo.

Sem heróis. Sem esperança. Só silêncio.

Costumava gritar com o autor nos fóruns, digitando rancores intermináveis sobre "potencial desperdiçado" e "nihilismo barato". Mas agora? Agora compreendia um pouco melhor.

'Coisas morrem. Histórias chegam ao fim. Pessoas se quebram. Essa é a verdadeira fantasia—achar que podemos escapar disso.'

Observou um pássaro pousado na árvore ao longe.

Pequeno. Insignificante.

Belo.

A garganta dele se apertou de surpresa.

'Foda-se.'

Seus olhos arderam. Só um pouquinho.

'Por que esse mundo idiota tem que ser tão bonito justo quando estou prestes a partir dele?'

As cores pareciam mais vivas. O ar, mais limpo. Como se o universo tivesse guardado seus melhores truques para a hora final, só para bagunçar com ele.

E funcionou.

Pela amargura—pelo ódio às pessoas e seus sorrisos falsos—ele também amou coisas.

Amou histórias. Amou tempestades, piadas ruins e a sensação de vencer um jogo às três da manhã com um saco de batatas fritas geladas na mesa.

Amou estar vivo.

Mesmo que fosse injusto.

Mesmo que doísse.

'Essa vida... era cruel. Mas era minha.'

E isso, de algum modo, tornava tudo mais bonito.

O cômodo agora estava mais escuro.

Não pelas luzes—elas ainda brilhavam, zumbindo suavemente acima dele—mas por outra coisa. Um tipo de escuridão que se infiltrava pelos desvios do tempo e se fixava nos ossos.

Noel não conseguia mais se mover muito.

Até mover os dedos parecia puxar tijolos debaixo d’água. A boca seca, os pulmões como accordes cansados, chiando a cada inspiração. O monitor ainda pulsava ao seu lado, mas o ritmo estava mais lento. Oco.

Tik. Tik. Tik.

O relógio zombava dele de novo.

'Ainda aqui', pensou. 'Sério? Nem pra morrer na hora certa?'

Deixou os olhos fecharem.

O ar parecia mais frio. Não do cômodo. Dentro dele.

Um frio que não estava na pele—mas sob ela. Enroscado no peito, como uma frostbite.

Ele sabia o que era isso.

A reta final.

A sua respiração prendeu-se—um suspiro agudo, depois a soltura.

Não era pânico. Nem disso.

Não tinha túnel de luz. Nem hinos. Nem uma revelação dramática.

Apenas... um corpo que falhava. Silencioso. Sem graça.

'Então é isso, hein?'

Ele esperou por arrependimento.

Esperou por uma onda esmagadora de medo. Ou dor. Ou tristeza.

Mas não havia nada de dramático. Nenhuma montagem épica. Nenhum flashback de uma vida passando rápido.

Apenas quietude.

Um estranho tipo de paz. Não quente. Mas também não fria.

Plano. Vazia.

Como estar na borda de um penhasco, olhando para a neblina.

Seus dedos tremeram. Uma vez. Duas.

Depois pararam.

'Acho que não tenho direito a um adeus.'

Beep…

Beep…

Silêncio.

Não havia dor.

Sem som.

Sem cor.

Apenas preto—profundo, absoluto, infinito.

Não do tipo de escuridão que você vê quando fecha os olhos, mas algo mais pesado. Uma coisa que parecia ter peso. Como se pudesse sufocar o universo.

Noel flutuava nisso.

Ou talvez ele não estivesse. Não havia sentido de corpo. Nem respiração. Nem coração batendo. Nem calor.

Apenas pensamento.

'É isso mesmo?'

A própria voz dele ecoou no vazio, embora os lábios não se movessem. Nenhum ouvido ouvira.

'Sem chamas, sem asas, sem portões dourados. Nem um resquício de fogo do inferno. Só o vazio. Que furada, hein?'

A quietude pressionou.

Por um segundo, ele sentiu... nada. Nem paz. Nem medo.

Apenas nada.

Então—

Uma faísca.

Um puxão, repentino e violento, como se fosse arrancado das profundezas debaixo d’água.

E então—

Ar.

Noel respirou com dificuldade.

Suas costas arquejaram levemente enquanto o ar pulsava nos pulmões como gelo. Os olhos se abriram de repente.

Ele não estava mais no hospital.

Parede de pedra. Tetos altos. Uma lâmpada azul-filha oscilando acima de sua cabeça, emitindo um brilho mágico suave. Cortinas de veludo ricas. Uma mesa entalhada, um guarda-roupa ornamentado, e uma cama demais para ser dele.

Tudo cheirava limpo. Excessivamente limpo.

Como cheiro de madeira polida e ervas secas. E algo a mais—mana. Ele não sabia como sabia dessa palavra, mas tinha aquilo. Flutuando no ar como estática.

Devagar, tremendo, ele se assentou.

Seu corpo se sentia… diferente. Não apenas curado.

Mais jovem.

Mais forte.

Olhou para baixo—mãos que não pareciam suas. Não magras e consumidas. Não marcadas por hematomas de soro.

'...Que porra é essa?'

A voz dele saiu mais rouca do que imaginava. As palavras pareceram alienígenas na boca.

E novamente escaneou a sala.

Estantes de livros, repletas de volumes encadernados em couro, cobriam uma parede. Uma lareira sem fogo do outro lado da cama. Tudo exalava nobreza. Magia. Fantasia.

Não era a Terra.

Não poderia ser.

Ele engoliu seco, murmurando baixinho.

"Onde porra... estou?"

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