
Capítulo 4
O Extra é um Gênio!?
A manhã estava fresca, cortante com orvalho e o leve aroma de pinho vindo da mata leste.
Noel estava na escadaria da frente da propriedade, vestindo um casaco nobre azul-marinho com detalhes prateados e uma camisa branca impecável por baixo. Seus sapatos estavam lustrosos. Seus cabelos, pela primeira vez, estavam cuidadosamente penteados. A espada pendia com segurança à sua esquerda, a bainha preta reluzindo suavemente sob o sol nascente.
Ao seu lado, a grande mansão se erguia — elegante e fria, como um monumento às expectativas que ele jamais deveria atender.
A carruagem esperava no pé da escadaria. Preta, polida, com detalhes Prateados. Dois cavalos de pelagem negra pastavam silenciosamente sobre o calçamento de pedra.
A equipe permanecia alinhada ao lado das portas, expressionless.
E então a família chegou.
O Lorde Albrecht liderava a procissão. Estoico. Alto. Vestia um casaco de colarinho alto preto, com o brasão da família atravessado no ombro. Olhava para Noel como quem observasse uma estátua — procurando por fissuras.
Por trás dele vinham as esposas.
Lady Mirelle usava seda violeta profunda e um sorriso invisível, quase incompreensível.
"Você realmente vai viajar sozinho?" ela perguntou, a voz suave como vidro. "Que coragem."
Lady Serina dera um passo ao lado, com expressão mais tranquila, mas igualmente vazia.
"Cuide-se, querida. Seria uma pena se algo… acontecesse."
Noel inclinou levemente a cabeça.
"Vou fazer o meu melhor para desapontá-las."
Sorriso de Mirelle程 na face dela. Serina piscou, apenas uma vez.
Depois vinham os irmãos, cada um demonstrando diferentes graus de desinteresse.
Kael lançou-lhe um sorriso lento e deliberado. "Tente não envergonhar a família. Ou morrer."
Damon deu uma risada. "Provavelmente os dois."
Livia mal o notou.
Sylvette acenou de forma preguiçosa.
Noel lhes dirigiu uma única palavra: "Adeus."
Sem calor. Sem veneno. Apenas uma sentença definitiva.
O Lorde Albrecht avançou. Seus olhos cinzentos encontraram os de Noel.
"Você vai representar a Casa Thorne. Comporte-se à altura."
Noel assentiu. "Claro, pai."
Sem reação.
Apenas um leve levantamento de queixo.
Com isso, o patriarca virou-se e entrou novamente na mansão. Os demais o seguiram sem uma palavra, como lobos retornando à alcateia.
Noel ficou sozinho no topo da escadaria.
Então, virou-se, seus botas ecoando contra a pedra, e desceu em direção à carruagem que aguardava — silenciosamente, como um homem indo para uma encruzilhada, não para um destino.
Pouco antes de chegar à carruagem, Noel parou frente ao espelho alto pendurado na entrada externa do palácio — uma última exibição de vaidade aristocrática antes de entrar no mundo.
A luz da manhã o enquadrava perfeitamente.
Parecia uma pintura.
O casaco azul-marinho ajustado ao corpo, nas maneiras certas. A camisa branca, impecável, com a gola rígida, botões lustrosos. Seu cabelo dourado, levemente bagunçado, refletia o sol como seda fina. A espada à cintura acrescentava gravidade à imagem — disciplina, sem ostentação.
Um príncipe de uma história que ele nunca deveria pertencer.
Ele olhou por um longo segundo.
Depois deu uma risada interior, de humor amargo.
"Se eu tivesse esse rosto na minha última vida," murmurou, "talvez eu não tivesse morrido solteiro."
Um sorriso seco e passageiro brincou nos seus lábios.
Ele se afastou do espelho, a breve rachadura na sua armadura desaparecendo na indiferença fria.
Sem olhar para trás, Noel entrou na carruagem e fechou a porta atrás de si.
A carruagem começou a rolar de forma constante pelo caminho de cascalho, as rodas esmagando pedra e terra enquanto a propriedade Thorne desaparecia no horizonte.
Noel ficou sozinho, de braços cruzados, olhos semi-fechados, observando as árvores passarem pelo pequeno janela. Carvalhos altos ladeavam a estrada, suas folhas refletindo flashes de verde e dourado sob o sol matinal. Passarinhos cantavam em algum lugar acima. Uma brisa leve soprava. O céu, limpo.
Era pacífico.
Raramente, demais.
Até demais.
Ele recostou-se na poltrona, deixando os dedos baterem distraidamente na empunhadura da espada na cintura. Revenant Fang, nome do sistema. Não encantada, não lendária — mas ligada. Evolutiva.
'Vamos ver se tudo não passou de teatralidade,' pensou.
O primeiro dia passou sem incidentes.
Sem bandidos. Sem feras selvagens. Sem anomalias mágicas. Apenas o cocheiro — um homem de seus cinquenta e poucos, silencioso e focado — e a estrada aberta.
Noel aproveitou para pensar.
Sobre o livro.
Sobre Marcus e os outros.
Sobre como ninguém deles sabia o que vinha pela frente.
E sobre como ele — alguém que nunca deveria existir — agora estava no jogo.
Por pouco tempo.
Ainda não.
Ele não podia arriscar mover as peças cedo demais. Um passo errado, uma borboleta fazendo barulho demais, e a história poderia se desintegrar de maneiras que ele não previa.
'Permaneça invisível,' lembrou-se.
Comeu com moderação a comida do compartimento da carruagem. Descansou enquanto o sol se punha e a carruagem parou na estrada por aquela noite.
Sem fogueira. Sem conversas.
Apenas um cobertor, uma porta fechada e uma lâmina perto da mão.
Dormiu com um olho aberto.
Por precaução.
O segundo dia começou como o primeiro.
Silêncio.
O céu agora estava encoberto, uma camada de cinza opaco cobrindo o sol matinal. A estrada curva suavemente por colinas baixas e matagais que ficavam mais densos a cada passo.
Noel observava tudo com os olhos semicerrados.
Algo parecia… errado.
A carruagem trepideu ligeiramente ao virar da estrada principal para um caminho mais estreito — menos cascalho, mais terra. Mais árvores.
Demais árvores.
Ele se inclinou para frente, batendo uma vez na parede de madeira que o separava do cocheiro.
"Este não é o caminho principal para Valéria," disse, de forma plana.
Sem resposta.
Ele bateu de novo — mais forte.
"Onde estamos?"
A carruagem não parou.
Os olhos de Noel se aprimoraram.
Ele estendeu a mão para a porta, empurrou-a para fora num movimento suave, aterrissando na terra com um baque brando. Seus sapatos escorregaram um pouco no chão irregular, mas ele se recuperou rapidamente, a mão já na espada.
A carruagem andou mais alguns metros antes de parar.
O cocheiro desceu.
Não olhou Noel nos olhos.
Noel avançou, puxando a espada até a metade da bainha com um movimento controlado. O brilho prateado do aço refletiu a luz baixa.
A lâmina pairava a um palmo do queixo do homem.
"Fale."
O cocheiro tremeu. "S-Sou desculpa…"
A empunhadura de Noel não vacilou. "Não foi suficiente."
"Eles… eles têm minha família," disse, com a voz trêmula. "Disseram que, se eu não seguisse por essa estrada, matariam eles. Eu não quis… por favor, não queria isso!"
Os olhos de Noel permaneceram frios.
Porém, seus pensamentos aceleraram.
'Mercenários. Ou pior. Conheciam a rota. Sabiam do cronograma. Isso foi planejado.'
E então—
sons de galhos quebrando atrás dele.
Ele se virou—
Figuras emergiram das árvores. Dez deles.
Capeias negras. Espadas desembainhadas. Máscaras cobrindo tudo, menos os olhos.
O cercavam formando um círculo perfeito.
Todos em silêncio.
Noel suspirou.
"Claro."
Fez um passo para trás, assumindo uma postura baixa. Agora, a espada completamente desembainhada, brilhando na pouca luz.
Os assassinos avançaram.
Dez contra um.
Sem magia.
Sem backup.
Apenas uma espada e instinto.
Ele não hesitou.
Pivotou, rápido, baixo — no momento exato para evitar a adaga apontada para seu pescoço.
O aço reluziu.
Ele contra-atacou sem pensar, a lâmina cortando as costelas do inimigo. Um grito afiado. Sangue na terra. Um caído.
Os demais avançaram.
Dez no total. Ao redor. Coordenados.
Noel recuou, mantendo a espada ereta, respirando firme.
'Muita gente.'
Sem mana agora. Ainda não podia usá-la direito.
Mas o corpo lembrava-se.
O velho Noel — aquele que treinava sozinho enquanto a família o ignorava — havia ensinado cada movimento à memória muscular. Formas de espada. Esquivas. Paradas.
Este corpo não hesitava.
Noel esquivou-se de um golpe de lâmina, usou a empunhadura para atordoar a garganta mascarada, then virou-se e atravessou outro com a lâmina.
Dois.
Virou-se — pegou uma lança com a parte plana da espada, desviou-a, e bateu com o ombro no atacante, jogando-o ao chão.
Eles se reagruparam rapidamente.
Circulando. Pressionando. Forçando-o a se mexer.
A respiração acelerada, controlada. Mas os braços já doíam.
Os golpes ficaram mais lentos.
Um punhal cortou suas costelas. Uma chutes o fez cambalear para trás.
Estão me cansando.
Ele matou mais um.
Três.
Mas ficava cada vez mais difícil.
O sangue escorria do braço. A visão começava a ficar turva nas bordas.
Novamente eles avançaram.
Mais rápidos.
Ele tentou respirar — mas o peito estava apertado. Os músculos tremendo. As pernas ardendo.
Muita gente.
Rápido demais.
E então—
Aconteceu.
Um pulso na parte de trás do crânio. Frio e intenso.
[Habilidade Ativada: Revenant Fang]
[Clareza Aumentada – Foco em Combate Elevado]
[Atualização de status: Evolução Adaptativa ativada]
O mundo desacelerou.
Não literalmente — mas na sua mente.
De repente, ele soube.
Onde cada inimigo estava.
De onde viria o próximo ataque.
A distribuição de peso, postura, aberturas —
Tudo aquilo, como um tabuleiro de xadrez se desenrolando em combate.
Ele não pensou.
Ele se moveu.
Lâmina cortando limpidamente uma garganta exposta. Virando. Parando golpes. Desviando dois, deixando cair um terceiro. Sangue jorrando em arcos, cobrindo a terra a cada movimento.
Quatro. Cinco. Seis.
Respirando pesado agora. Cortado de ferimentos. Olhos ardendo.
Sete. Oito.
Inconformado, cortou a espinha do nono.
Só sobrava um.
O último assassino avançou com um grito selvagem.
Noel se abaixou, desviou e deu uma única rasteira — limpa.
O homem caiu.
Noel cambaleou, ofegante, coberto de sangue, não inteiramente seu.
A espada tremeu na sua mão.
A visão embaçada.
Mas ele estava vivo.
A clareira agora estava silenciosa.
Dez corpos espalhados ao redor de Noel, a grama banhada de vermelho sob eles. A respiração pesada, os membros doendo com cada pulso.
Ele ficou de pé no centro, coberto de sangue, camisa rasgada, lado sangrando — mas vivo.
O cocheiro, ainda ajoelhado atrás da carruagem, o encarava com olhos arregalados e horrorizados.
Noel virou-se lentamente para ele, expressão indecifrável. Fria. Focada.
Enfaixou a espada.
"Levante-se."
O homem se levantou rapidamente, tremendo.
"Você — você matou todos…"
Noel não respondeu.
Dirigiu-se ao corpo do líder — aquele que movimentou-se primeiro, deu ordens silenciosas, coordenou a emboscada. Com os melhores equipamentos e botas mais finas.
Agachou-se ao lado do cadáver e pegou sua lâmina ainda cravada no peito do homem. Limpou-a.
Depois — sem cerimônia — cortou a cabeça do homem.
Um golpe limpo.
Ela caiu no chão com um baque surdo.
O cocheiro retesou-se violentamente.
Noel levantou-se novamente, segurando a cabeça pelos cabelos. Sangue escorria constantemente do pescoço separado.
Afastou-se do motorista, deixando a cabeça aos seus pés.
"Isso é por minhas duas nobres esposas, da Casa Thorne," disse, com a voz gélida. "Entrega. Sem nome. Sem palavras. Elas saberão exatamente o que significa."
O cocheiro acenou freneticamente.
"E isto—" Noel puxou o recorte da sua jaqueta e entregou uma carta lacrada, marcada apenas com o brasão da Casa. "Entregue ao meu pai."
O homem pegou a carta, as mãos trêmulas.
"O que… o que eu digo a ele?"
A voz de Noel agora era mais baixa, medida.
"Diga que estou vivo. Que foi uma emboscada. E que não quero que esse incidente manche o nome da nossa casa."
O cocheiro o encarou, pasmo.
"Você — está protegendo eles?"
Nos olhos dele, Noel respondeu calmamente.
"Estou me protegendo."
Virou-se e saiu.
"Você só tem uma missão. Não a falhe."
O cocheiro carregou a cabeça, envolveu-a em um pano e montou em um dos cavalos, galopando na direção oposta.
Noel assistiu ao homem desaparecer entre as árvores.
O sangue dobreava nele.
Pegajoso. Quente. Pesado.
Noel olhou para o casaco azul-marinho, agora destruído — rasgado, cortado, encharcado de sangue vermelho. Sua camisa branca estava ainda pior. Mancha total. Rasgada na lateral onde uma faca tinha roçado nele.
Fez uma respiração lenta e a descarou, camada por camada.
A pele dele brilhava com suor e sangue. Alguns pedaços eram seus, a maioria não.
O cheiro o golpeou de repente — ferro, terra e algo mais. Morte.
Ele se virou das vítimas, enjoado —
Evomitiu.
A bile caiu no chão da floresta.
Suas mãos tremeram enquanto se apoiava nos joelhos, cuspindo, respirando com os dentes cerrados.
'É só o choque,' disse a si mesmo.
'Foi eles ou eu.'
Porém, as imagens permaneceram.
A forma como um dos homens olhara para ele. O lampejo de medo antes do fim. O peso da espada na carne.
Primeira morte dele.
Dez mortos.
Real ou não, parecia… demasiado real.
Ele se levantou lentamente, enxugou a boca e se obrigou a seguir em frente.
De volta aos corpos. De volta ao trabalho.
Encontrou um dos assassinos com equipamento quase limpo — capa cinza de viagem, armadura de couro leve, roupa e calças simples. Funcional. Resistente. Sem manchas.
Disse rapidamente, com dor ao mover-se por causa do ferimento.
Depois enrolou as roupas nobres ensanguentadas num saco extra do transporte.
'Custava muito para queimar,' pensou sem sentir, 'seria um desperdício.'
Enfeyou a espada na cintura novamente e subiu ao banco do motorista.
As rédeas estavam estranhas em suas mãos — demasiado calmas, considerando tanta morte.
Acendeu-as.
Os cavalos começaram a mover-se.
De volta à estrada. De volta à academia.
Mais uma vez, a floresta se fechava ao redor.
E Noel Thorne — aquele invisível extra — desapareceu por trás de uma máscara de sangue e silêncio.
Porém, desta vez, algo dentro dele mudou.
Algo que ele não podia reverter.