
Capítulo 5
O Extra é um Gênio!?
A estrada se estendia infinitamente sob um céu cinza e opaco.
Noel estava sentado no banco da carruagem, mãos frouxas nas rédeas. Os cavalos avançavam a um ritmo constante, os cascos batendo ritmicamente no chão compactado. A névoa matinal pairava sobre as árvores de ambos os lados, densa e fria, como se o nevoeiro ainda não tivesse decidido se levantaria ou não.
Ao seu lado, uma cesta.
Pão envolto. Carne fatiada. Frutas secas. Uma cantina cheia de água.
Todos intocados.
Ele a havia preparado cuidadosamente antes de partir do local ontem. provisões de primeira classe. Aquelas só os nobres tinham. Aquelas que ele, uma vez, sonhara em ter.
Porém, no instante em que olhava para a comida, uma ânsia subiu pela sua garganta.
O estômago dele se contraiu ao lembrar.
Terra encharcada de sangue. Carne rasgada. Olhos arregalados na morte.
O cheiro de ferro e podridão ainda impregnava seus sentidos, por mais que tentasse esfregá-lo, livrar-se dele.
Ele olhou para frente, mandíbula cerrada.
'Você os matou. Você precisou. Mas isso não significa que não tenha acontecido.'
Seus dedos apertaram mais as rédeas.
Os cavalos não se importavam. A estrada também não.
A silência se alongava, quilo após quilômetro.
E Noel não proferiu uma única palavra.
Nem para o mundo.
Nem para si mesmo.
Era pouco depois do meio-dia quando o topo das árvores começou a se afinar.
A floresta se desfez, dando lugar a vastos e abertos chapadões. Do topo do próximo relevo, Noel finalmente os viu.
Valon.
Sua respiração ficou presa, sem aviso.
A capital do império se espalhava no horizonte como uma visão arrancada de uma lenda. Seus muros de pedra branca erguiam-se altos e imaculados, mais altos que qualquer castelo que tinha visto na vida. Igrezes douradas brilhavam à distância, cortando as nuvens como agulhas que entrelaçam o céu.
Bandeiras enormes em vermelho profundo e ouro imperial penduradas de torres—cada uma bordada com o símbolo da fênix imperial, asas abertas em chama eterna.
De lá, a cidade parecia viva. Movimento infinito. Fumaça saindo de chaminés distantes. Uma dúzia de carruagens subindo os morros. Naves mágicas pairando acima dos distritos comerciais. Glifos reluzentes em torres e telhados.
Era mais do que ele lembrava.
Mais do que o livro descreveu.
Mais do que a arte conseguiu captar.
'Quando li sobre Valon… imaginei algo grandioso. Mas isto?'
Superava a própria página.
Consumiu-a por completo.
Ele ajustou seu capote, agora limpo na maior parte das manchas de sangue, mas ainda gasto, e deu uma leve batida nas rédeas.
A estrada virou em direção à grande muralha, enquanto Noel permanecia em silêncio, o vento passando pelo seu rosto.
Por trás dele—silêncio e morte.
Adiante—civilização, magia e perigo, vestidos de ouro.
Quando Noel chegou aos portões da cidade, a fila se estendia por quase cem metros ao longo da rua.
Comerciantes com carroças carregadas. Agricultores com caixas de ervas e frutas. Viajantes a pé, alguns usando talismãs mágicos para se identificar como aventureiros. Nobres em carruagens elaboradas. Alguns mercenários com papéis na mão.
Todos esperavam.
Na porta, cavaleiros imperiais com armaduras prateadas movimentavam-se em ritmo rígido—checando documentos, lançando feitiços básicos de detecção, inspecionando cargas.
Noel diminuiu a velocidade da carruagem, empurrando-a atrás de um pequeno grupo de vendedores.
Ele olhava para a fila.
Ele poderia ter esperado.
Quase tinha vontade.
E então lembrou-se do brasão guardado na pequena bolsa do lado.
Um pergaminho enrolado. Selado. Inteiro.
A autoridade da Casa Thorne em tinta e cera.
Ele suspirou. Tirou-o do bolso, desenrolando-o o suficiente para mostrar o selo carmesim e o brasão.
Depois, levantou-o no ar.
Demorou poucos segundos.
Um guardião se endireitou, os olhos arregalados.
Outro cavaleiro se aproximou de lado, com armadura brilhando com o emblema imperial. Ele fez uma saudação formal.
"Desculpe-me, meu senhor. Não é necessário esperar. Por aqui, por favor."
Noel hesitou—mas concordou com a cabeça.
Guiou a carruagem para fora do caminho principal, passando à margem da fila. Cada cabeça virou ao seu lado—alguns curiosos, outros invejosos. Alguns apenas cansados.
Ele sentiu cada olhar.
Seus maxilares se apertaram.
'Você não esperou. Porque podia.'
Ele desviou o olhar da multidão.
'E eles assistiram. Porque não podiam.'
Os portões se abriram para ele como nunca fariam na antiga vida dele.
E ele odiou o quão fácil foi.
Assim que passou pelo portão, o mundo explodiu em cores e sons.
Valon estava vivo.
As ruas se alargavam, pavimentadas em pedra branca brilhante, gravada com runas que pulsavam suavemente sob a superfície—guiando o tráfego, controlando o calor, quem sabe mais. Lâmpadas de cristal flutuavam acima como estrelas suaves, acesas mesmo sob o céu nublado.
Prédios altos de ambos os lados, adornados com detalhes de ouro e janelas de vidro encantado. Alguns tinham varandas com plataformas flutuantes, onde nobres conversavam no ar, com copos na mão.
Painéis de mercado vibravam de vida. Vendedores gritando em pelo menos quatro idiomas. Comerciantes vendendo joias encantadas, mantos que se aqueciam sozinhos, livros que falavam. O cheiro de especiarias—alecrim, canela, açafrão—tomava o ar.
Uma criança passou correndo atrás de uma bola de luz flutuante. Um mago a seguiu, rindo.
Bestas mágicas trotavam ao lado de guardas com armaduras polidas—de lobos de mana a rinocerontes blindados com chifres de obsidiana. Uma construção até tinha uma caveira de wena acima da porta, com runas brilhantes gravadas ao longo dos dentes.
Noel não falou.
Não piscou.
Apenas observou, deixando-se absorver pelo som, pelas cores e pelo movimento.
Era demais. Rápido demais. Perfeito demais.
E ainda assim—
Era real.
'Todas aquelas noites lendo sob uma lamparina, imaginando este lugar… Eu estava longe de chegar lá.'
Seus dedos tremeram nas rédeas.
Por um momento, apenas um momento—
Esqueceu-se do sangue.
À medida que avançava mais dentro de Valon, a cidade mudava.
Distritos nobres substituíam praças de mercado. Pedra de calçada virou mármore. O ar ficou mais limpo—mais fino, quase—carregado com algo antigo e mágico.
E então, na extremidade mais distante da cidade, além de uma avenida cercada de árvores e de uma barreira de mana reluzente, ele viu.
A Academia.
Ela se ergueu como uma fortaleza e uma catedral ao mesmo tempo—torres antigas que spirais se elevando ao céu, runas de prata gravadas em cada superfície. Muros maciços circundavam todo o complexo, separado do resto da cidade. Nem mesmo os habitantes de Valon podiam atravessar sem permissão.
Um portão maior que qualquer outro que tivesse passado, esculpido de ébano e ouro. Um emblema brilhante flutuava acima: uma estrela de cinco pontas envolta em chamas e penas.
O brasão da Academia Imperial de Valor.
À medida que a carruagem se aproximava, o sigilo pulsou uma vez—reconhecendo o selo em seus documentos.
Os portões se abriram.
Noel não falou. Simplesmente observou.
Não era apenas uma escola.
Era uma cidade dentro de uma cidade.
Havia torres e praças, jardins suspensos no ar, passarelas que serpenteavam entre os edifícios como pontes no céu. Dezena de estudantes se moviam pelos terrenos—alguns caminhando, outros deslizando em discos encantados ou montando bestas de mana.
A densidade de magia o atingiu como uma onda.
Não era só onde os estudantes treinavam.
Era onde se formariam os próximos governantes, guerreiros, santos e monstros.
Noel exalou lentamente, quase inaudivelmente.
'Então é aqui que tudo começa.'
A carruagem parou suavemente logo dentro dos portões da academia.
Antes mesmo de sair, uma voz veio de baixo.
"Senhor Noel Thorne?"
Ele olhou pela borda.
Um jovem, talvez com vinte e poucos anos. Alto, bem cuidado, vestido com uma versão ajustada do uniforme da academia—cinza carvão com detalhes dourados. Um brasão polido reluzia no peito, marcado com o sigilo da logística.
"Sim," disse, descendo.
O rapaz fez uma ligeira reverência, depois endireitou-se com um sorriso treinado.
"Bem-vindo à Academia Imperial. Meu nome é Gareth Wren, seu guia designado. Vou cuidar da sua orientação hoje."
Noel acenou com a cabeça de forma seca. "Estou bem."
Gareth piscou, por um momento desconcertado pela falta de demonstração de formalidade.
"Claro," ele falou rapidamente. "Vou levar a carruagem até o seu dormitório designado. Você foi colocado na Classe A."
Noel ergueu uma sobrancelha. "Por aptidão?"
"Sim," confirmou Gareth, já assumindo as rédeas. "Não pelo status. Apenas os melhores núcleos avaliados e talentos entram na classe A."
Noel não respondeu. Mas a informação ficou gelada no fundo do peito dele.
Nem tinha tentado, e já o colocaram no topo.
O que aconteceria quando ele realmente se esforçasse?
Ele virou-se, deixando Gareth assumir o controle dos cavalos, e caminhou ao lado da carruagem enquanto seguia para o setor dos dormitórios.
A torre do dormitório da Classe A ficava na extremidade dos terrenos da academia, um pouco isolada do restante das construções.
Não era apenas um prédio—era uma declaração.
Pedras polidas, arcos de veias de prata, varandas largas com vista para a cidade abaixo. Lâmpadas encantadas iluminavam o caminho mesmo durante o dia, e a entrada era guardada por duas estátuas imóveis de magos encapuzados com espadas na mão—silenciosas, brilhantes e longe de serem decorativas.
Quando Gareth parou o carrinho, Noel avançou, os olhos percorrendo as runas que brilhavam suavemente na pedra. Segurança, percebeu. Provavelmente letal.
"Este será seu local de residência durante seu tempo na Classe A," disse Gareth, descendo e abrindo a porta. "Você vai descobrir que os dormitórios não são divididos por linhagem, mas por talento."
Noel assentiu brevemente. "Faz sentido."
Juntos, descarregaram a carruagem.
Gareth estendeu a mão para o saco de roupas—as sujas de sangue.
Ele parou. Sobrancelha se contraiu.
"…Devo perguntar?"
"Não," disse Noel simplesmente, entregando o pacote à mão do guia. "Só as limpe. Discretamente."
Gareth hesitou por um momento demais. Depois acenou com a cabeça. "Claro."
O interior do dormitório era espaçoso— tetos abobadados, pisos de madeira escura, uma cama de quatro postes com cortinas cinza suaves, e um banheiro privativo atrás de uma porta de cristal. A iluminação mágica se ajustava suavemente com seus movimentos. Uma escrivaninha já tinha uma maleta de couro esperando por ela.
"A maleta contém seu pacote de orientação," Gareth explicou. "Mapa do campus, cronograma das aulas, instruções de acesso ao código de mana e protocolos do dormitório. Se precisar de qualquer coisa, a recepção funciona dia e noite."
Noel deu uma volta na sala. Parou na janela. Olhou para baixo.
Tudo estava quieto.
Perfeito.
"Obrigado," disse.
Gareth fez uma ligeira reverência. "Seja bem-vindo à Academia, Lorde Thorne."
E então saiu— levando consigo a lembrança ensanguentada dos últimos três dias de Noel.
Névoa saía lentamente ao redor da borda da banheira, subindo em espirais suaves para o ar quieto.
Noel ficou sentado com os braços apoiados na borda, o peito quase na superfície da água quente. A banheira era enorme—mais como uma piscina rasa—de pedra de veias negras, encantada para manter a temperatura perfeita.
Seus olhos estavam semi-fechados.
Sua respiração, pela primeira vez, estava firme.
Ele ainda sentia a dor nos braços. O dorso de antigas contusões. O corte na lateral, que quase cicatrizara, sob uma pomada de cura que encontrou no armário privado do dormitório.
Mas nada doía tanto quanto o silêncio.
Era um silêncio que não pressionava—esperava. Paciente. Observando.
Ele apoiou a cabeça nas pedras suaves.
Pela primeira vez desde que acordara neste mundo, ele não estava fugindo.
Não estava lutando.
Não estava fingindo.
Apenas… parado.
Seus olhos se perderam no teto, onde uma luz suave pulsava como um batimento, vindo de um cristal de mana que brilhava.
"Você está aqui", lembrou a si mesmo, quase um sussurro.
"Ainda respirando."
E, mais quieto ainda:
"Vamos ver quanto tempo isso dura."
Ele fechou os olhos.
Deixou a água levar o peso.
E, pela primeira vez em três dias, Noel dormiu.