
Capítulo 6
O Extra é um Gênio!?
A luz do sol matinal escapava pela grande janela, filtrando-se através das cortinas de veludo e madeira polida. O ar permanecia imóvel—aquático, fresco e silencioso de uma forma que parecia pouco natural após dias de jornada e sangue.
Noel virou-se e abriu os olhos lentamente.
Por alguns segundos, não se moveu.
Simplesmente permaneceu ali, com os olhos no teto, deixando o calor da cama absorver a dor nas costas.
Sem sobressaltos de medo. Sem dor fantasma. Sem sangue.
Sentou-se lentamente.
Seu corpo reagiu imediatamente—sem esforço, sem dor.
Um novo começo.
Levantou-se, caminhou descalço até o outro lado do cômodo e pegou uma taça de água do decantador de cristal que estava na estante.
Depois virou-se para a escrivaninha.
A maleta estava exatamente onde Gareth a deixara—couro preto elegante, fecho de prata polido.
Noel abriu-a com um clique suave.
Dentro, tudo estava perfeitamente dobrado e organizado em compartimentos.
Dois conjuntos completos do uniforme formal da Academia Imperial—casaco azul-marinho com ombros dourados, camisa branca com botões, gravata fina preta, calças escuras.
Ele passou o dedo sobre o tecido.
De alta qualidade. Sob medida. Encanmamentos sutis entrelaçados na forração.
Abaixo deles, um uniforme de treino cinza e azul—leve, flexível, claramente feito para movimento e resistência.
Por baixo das roupas, uma capa de pergaminho de couro, alguns documentos oficiais selados com cera e uma pasta espessa rotulada:
"Materiais de Orientação da Academia – Turma A"
Noel pegou a pasta, sentou-se na escrivaninha e abriu a primeira página.
"Seja bem-vindo à Academia Imperial de Valor. Você está entre os melhores."
Ele bufou uma risada.
Depois virou a página.
A segunda página era um pergaminho dobrado, grosso e com uma escrita bem feita. Noel o abriu cuidadosamente.
Ele se desdobrou três vezes.
E continuou desdobrando.
Quando terminou, o mapa ocupava quase metade da mesa.
"Não estou acreditando nisso," murmurou.
A Academia Imperial de Valor não era apenas uma escola.
Era uma zona fortificada. Uma cidade em miniatura.
No centro, o Edifício Principal da Academia—uma estrutura com torres pontiagudas, cinco andares acima do solo e quem sabe quantos subterrâneos. Cada andar era codificado por cores e rotulado com divisões de classes.
Turma A – Andar Superior.
Turma B – Quarto Andar.
E assim por diante, até a Turma F.
"Então, os melhores realmente sobem acima do resto," pensou Noel. "Faz sentido."
Radialmente, ao redor da torre central, havia torres especializadas, cada uma dedicada a diferentes disciplinas mágicas:
Teoria dos Elementos – uma torre alta, com clima em constante mudança no topo.
Constructos e Invocações – marcados por pentagramas brilhantes e círculos estáveis.
Combate e Aperfeiçoamento – baixa e reforçada, com marcas de queimadura visíveis até no desenho do mapa.
Para o oeste, duas áreas de treinamento—uma rotulada "Campos Abertos", a outra "Acesso Somente ao Instrutor".
Para o sul e leste, um conjunto espalhado de áreas rotuladas:
Mercado dos Quartos dos Estudantes
Alameda dos Ferreiros
Cafés e Tavernas Públicas
Corredor da Biblioteca
Banhos do Jardim
Arena de Duelo
Pavilhão Médico
E ao redor de tudo: uma parede secundária, alta e marcada com runas, cercando a academia como uma segunda coluna vertebral.
Logo fora dela?
Valon.
Mas a academia tinha suas próprias regras. Seu próprio ritmo. Seu próprio pulsar.
Noel recostou-se e fez uma respiração lenta e profunda.
"Uma cidade dentro de uma cidade."
"E eu acabei de ser jogado no último andar."
Ele dobrou o mapa novamente, agora com mais cuidado.
"Vamos evitar ficar confortáveis."
Por baixo do mapa, havia um documento bem impresso, de cor creme, selado com um brasão de cera: uma estrela de cinco pontas envolta em chamas.
Noel quebrou o selo e desdobrou o pergaminho.
CÓDIGO DE CONDUTA DA ACADEMIA – OBRIGATÓRIO
A linguagem era precisa. Rígida. Uma espécie de polidez burocrática que tentava parecer amistosa enquanto destacava o quão fácil era ser expulso.
Leu em silêncio, deslizando linha por linha.
Regra 1 – Tolerância Zero contra Discriminação Racial.
Todos os estudantes, independentemente de raça ou origem, são protegidos pela Lei de Igualdade Imperial. Discriminação resultará em investigação imediata e, se confirmada, expulsão instantânea, sem direito a defesa.
"Eles não brincam em serviço."
Regra 2 – Saída somente com autorização.
Sair dos muros da academia sem permissão explícita de um instrutor certificado ou do Diretor resultará em suspensão, investigação ou expulsão definitiva, dependendo da intenção.
"Nem dá para passear por aí."
Regra 3 – Conduta no dormitório por nível.
Cada nível de classe tem seus regulamentos no dormitório, fiscalizados por guias específicos. Quebra de regras pode significar rebaixamento ou perda de privilégios.
Noel levantou uma sobrancelha ao ler isso.
"Vou ter que perguntar ao Gareth o que significa 'privilégios'."
Regra 4 – Combate não autorizado é proibido.
Todas as disputas devem ser solicitadas e aprovadas pela Comissão de Arena da Academia. Luta fora dos zones designados sem permissão é infração grave—mesmo que ambos concordem.
Regra 5 – Restrições ao uso de mana.
Não é permitida a conjuração de magia em espaços públicos sem autorização específica para treino. Feitiços fora das zonas autorizadas podem resultar em punições de contenção ou perda do direito de conjuração.
E duas regras que não eram tão óbvias:
Regra 6 – Obrigatoriedade de frequência às aulas.
Ausência de palestras ou práticas guiadas sem causa documentada leva a penalidades na avaliação. Falta constante pode resultar na reclassificação de nível. Estudantes da Turma A são monitorados diretamente.
"Vigiados. Entendi."
Regra 7 – Proibição de entrada em zonas restritas.
Certas áreas da academia são classificadas por nível de acesso. Entrar sem autorização prévia é considerado traição mágica, independente da intenção. Punições incluem expulsão ou detenção pela Ordem Imperial.
Noel abaixou a folha.
"Seguram a rapaziada na linha. Ou eles pegam fogo tentando."
Dobrou as regras e as colocou de lado.
A academia oferecia tudo—conhecimento, poder—mas observava tudo também.
No fundo da maleta, sob as regras, Noel encontrou um livrinho final—mais fino, organizado em couro rígido, com um símbolo em relevo na capa:
"Manual do Manacode – Edição da Academia"
Ele abriu.
A primeira página tinha uma única frase, em tinta prateada, centralizada:
"Toda vida possui mana. Poucos aprendem a usá-la."
Noel virou para a próxima página.
O CORPO DE MANA
Um órgão espiritual localizado próximo ao coração. Todo mundo tem um. Apenas alguns o despertam para uso consciente.
Uma vez ativado, o corpo de mana absorve energia do ambiente e a armazena, permitindo ao usuário moldá-la através de vontade, concentração e técnica.
O corpo pode expandir-se. Fortalecer-se. Evoluir.
É tanto seu motor quanto seu limite.
DOIS CAMINHOS DE MANA
Uso externo – Magia
Feitiços elementais, barreiras, encantamentos, invocações, canalização de energia fora do corpo.
Uso interno – Aperfeiçoamento
Aceleração de velocidade, força, tempo de reação, percepção, reforço corporal—mana que flui para dentro de si mesmo, aprimorando-o.
Noel parou, relendo novamente.
"Então lutadores brutos e magos gênios usam o mesmo combustível."
"Só que de maneiras diferentes."
RANKS DE PODER
O livrinho apresentava o sistema claramente:
Iniciante – Controle básico de mana.
Competente – Conjuração estável. Começo do refino do núcleo.
Ascendente – Manipulação avançada. Criação de feitiços possível.
Arquimago – Domina domínios, quebra limites mágicos, cria sistemas originais.
Manacode – Acesso ao Roteiro de Mana, a forma lendária de reescrever a realidade. Nenhum usuário confirmado há mais de um século.
Noel recostou na cadeira lentamente.
Sua mão foi instintivamente até o peito—sobre o coração.
Sentiu-o fraquamente agora.
Uma pulsação quente.
Como algo esperando para ser usado.
"Todo mundo começa como Iniciante… mas nem todos sobem."
"Até onde posso chegar com isso?"
Ele fechou o livrinho.
A academia oferecia mais que apenas conhecimento.
Oferecia poder.
E, pela primeira vez desde que acordara nesse mundo…
Noel quis descobrir até onde poderia ir.