
Capítulo 42
O Extra é um Gênio!?
O acampamento fervilhava antes do amanhecer.
Metais rangiam. Cascos batendo na terra macia. Ordens gritadas misturadas ao ritmo das cordas sendo tensionadas e da lona esticada.
O terreno de caça dos Thorne tinha se transformado em acampamento militar da noite para o dia—disciplinado, organizado e zumbindo de expectativa.
De sua tenda pessoal, perto do centro do campo, Noel saiu vestido de forma simples, com calças escuras e uma camisa cinza sob medida, o vento da manhã puxando suavemente as pontas soltas de suas mangas. Revenant Fang pendia confortavelmente ao seu lado, como sempre.
Ele tomou um gole de chá preto bem quente—amargo e forte—enquanto observava uma fila de criados escová-los carruagens e erguer as bandeiras com as rosas prateadas de sua casa.
"Parece que todo mundo está fingindo que sabe o que faz hoje de manhã," murmurou consigo, observando um criado quase cair enquanto carregava uma caixa.
"Senhor Noel," chamou uma voz atrás dele.
Era Serina, sua segunda mãe, vestida com um longo robe escuro, acompanhada por duas criadas. "Seu pai pediu que a família se reúna antes da chegada dos convidados. Devemos recebê-los formalmente."
"Entendido."
Ele colocou a xícara de lado e começou a caminhar em direção ao pavilhão frontal, onde o restante da família Thorne já começava a se reunir.
O lorde Albrecht permanecia como uma estátua no centro do grupo, com os braços cruzados atrás das costas, cercado por Kael, Damon, Livia e Sylvette.
Quando Noel se aproximou, a voz do patriarca ecoou, baixa e imensa. "Hoje não é dia de envergonhar esta casa."
Seus olhos varreram seus filhos, severos como sempre.
"Vocês falarão com elegância, agirão com moderação e se apresentarão como herdeiros de uma casa que merece o nome Thorne."
Kael sorriu de leve, de forma preguiçosa. Damon involuntariamente mexeu os ombros. Livia não disse nada, com os braços cruzados. Sylvette olhava para as tendas, com expressão difícil de ler.
Noel apenas assentiu. "Compreendido."
Albrecht olhou nos olhos dele por um breve momento, depois desviou o olhar—estava já na próxima tarefa.
De longe, ouviu-se o leve som trovejante de cascos.
As famílias nobres estavam chegando.
Até o meio da manhã, o caminho arborizado que levava até a seção da floresta sob domínio de Thorne virou uma avenida de desfile.
De carruagem em carruagem, adornadas com brasões nobres e bandeiras azuis e douradas, elas rolavam em vista. Guardas com armaduras reluzentes as acompanhavam, e até os cavalos pareciam conscientes de que estavam carregando realeza. Transports forrados de veludo deslizando sobre a terra, como se o próprio chão se curvesse para a nobreza.
Noel estava junto com sua família sob um pavilhão branco decorado com detalhes de prata, erguido para receber os convidados com dignidade. Com os braços cruzados, expressão neutra. Os demais permaneciam mais eretos, postura ensaiada e tensa.
A primeira carruagem a chegar trazia o brasão da Casa De Nivaria—uma snowflake prateada atravessada por uma espada.
De nela saiu Lorde Edric De Nivaria, alto e severo, com cabelos branco-loiro penteados para trás. Usava um longo manto azul escuro forrado de pele, olhos agudos e frios varrendo a família Thorne sem demonstrar emoção.
Logo atrás, veio Clara, radiante, vestida com um casaco azul claro que combinava com seus olhos. Assim que tocou o chão, seu olhar percorreu a fila.
E então—ela o viu.
"Noel!"
Ela quebrou a formação, caminhando rapidamente até ele.
Noel vacilou. "Clara."
"Você está bem?" perguntou, parando quase em cima dele, prestes a agarrar seus braços. "Ouvi dizer que ficou dias na enfermaria. Não conseguimos te ver depois… depois de tudo."
Ele deu um leve encolhido de ombros. "Ainda vivo. Acho que isso conta."
Ela franziu a testa. "Não encare assim. Estávamos preocupados."
Ele suavizou um pouco. "...Obrigadão."
Logo atrás dela, Lorde Edric clareou a garganta.
Clara suspirou e se virou. "Certo, cumprimentos formais."
Ela piscou rapidamente para ele antes de recuar ao lado do pai, recuperando a compostura.
Depois veio a Casa Lestaria.
Seu brasão—a silhueta de uma borboleta prateada cruzada por uma estrela—reluzia na lateral de uma carruagem branca, imaculada.
Primeira a descer, Lady Valeria von Lestaria, com postura régia e composta, com cabelos longos prateados e loiros, trançados em uma mecha que brilhava ao sol. Depois, encarando com graça, veio Elena.
Vestida com um sobretudo verde floresta com detalhes prateados, ela parecia uma nobre elfa de fato. Seus olhos se fixaram em Noel assim que desceu.
Avançou calmamente, com o olhar de cabeça aos pés—não com julgamento, mas com preocupação silenciosa.
"Fico feliz que tenha se recuperado," ela disse suavemente. "Houve… muitos rumores."
Noel assentiu. "Nada muito grave. Só precisei de um tempo."
"Ainda assim. Estou feliz que esteja bem."
Ele deu um pequeno sinal de concordância. "Você também."
Um sorriso sutil apareceu em seus lábios antes de ela retornar ao lado da família.
Mais casas passaram, ao todo doze.
Cada chefe de família era recebido formalmente por Lorde Albrecht Thorne, que permanecia como uma estátua de ferro ao lado da entrada do pavilhão principal. Os convidados eram então conduzidos até a sala de reunião circular onde começariam as negociações de verdade.
Noel não tentou se destacar. Sabia como essas coisas funcionam. Estava presente, educado e estrategicamente esquecível.
Seus irmãos, por sua vez, exibiam sorrisos e charme—Kael conquistando filhas de casas menores, Damon bateu na costas de nobre e trocava sorrisos com filhos de outras famílias aristocráticas.
Noel observava tudo com uma espécie de diversão distanciada.
'Todo mundo desempenhando seu papel… acho que vou continuar jogando o meu.'
Quando a onda de cumprimentos formais começou a diminuir, e os nobres dispersaram-se em direção às suas tendas ou se juntaram ao grupo sentado sob o pavilhão central, a atmosfera rígida relaxou um pouco.
Noel, agora de lado sob uma árvore próxima, puxou a gola do seu casaco escuro. A luz do sol filtrando pelo dossel above criava sombras fugazes em seu rosto. Soltou um suspiro silencioso, finalmente aproveitando um momento em que ninguém tentava impressionar ninguém.
De repente, ouviu passos—mais leves, rápidos, familiares.
"Noel!"
Ele se virou.
Marcus marchou em direção a ele, vestido com roupas de viagem—coletando couro marrom prático sobre uma túnica escura. Não estava vestido para cerimônia, nem para as boas-vindas iniciais. Serventes raramente estavam.
Mas o sorriso no rosto dele era genuíno.
"Pô, que bom te ver."
Noel deu um leve aceno, olhos se estreitando sutilmente. "Não esperava te ver aqui tão cedo."
"Chegamos mais cedo," disse Marcus, parando ao seu lado. "A família da Clara gosta de chegar na hora. E, claro, de ser formal. Demais."
"Diz isso pra mim," murmurou Noel.
Marcus riu, depois seu rosto ficou mais sério. "Ei. Eles falaram o que você fez. O que aconteceu na ataque. Os professores, os superiores—disseram que suas ações ajudaram a minimizar os danos."
Noel deu de ombros, tentando desviar. "Fiz o que precisava."
"Ainda assim," continuou Marcus, com a voz firme, "você salvou vidas. Sei que você não curte elogios, mas… obrigado. Pelo que fez."
Noel desviou o olhar, desconfortável com a sinceridade. "Não foi por eles."
"Eu imaginei," disse Marcus com um sorriso de meia-lua. "Mas não muda o fato de que tudo isso fez diferença."
Houve um breve silêncio. Apenas o tempo de uma brisa passar suave, agitando os galhos acima.
Depois, Marcus acrescentou, "Vai no jantar de boas-vindas hoje à noite?"
Noel balançou a cabeça. "Provavelmente não. Muito papo fiado, pouca comida."
Marcus riu. "Idem. Se puder, vou escapar mais cedo."
O pavilhão principal—uma tenda enorme, ricamente decorada, próxima ao centro do acampamento—estava organizado para a reunião dos chefes das casas. Bandeiras de veludo com brasões familiares decoravam o interior. Longas mesas de carvalho estavam dispostas com porões de cristal, louças finas e pratos de prata, embora, por ora, nada tivesse sido servido. Este era um espaço para a política, as conversas mais formais ficariam para depois.
Lorde Albrecht Thorne permanecia perto da mesa central, com os braços cruzados atrás das costas, falando com uma mulher de cabelos prateados e roupa de um verde profundo—Lady Ilvanna von Lestaria, matriarca da Casa Lestaria e avó de Elena. Sua expressão era calma e cômoda, mas seus olhos nunca deixaram de analisar.
Ao lado, Lorde Gaius De Nivaria, alto e forte, com um olhar calculista, conversava com uma jovem nobre—Lady Virelle de Casa Marquin, outra casa influente das províncias orientais.
Em volta deles, nobres circulavam, trocando cumprimentos disfarçados e avaliando uns aos outros com sorrisos treinados.
Albrecht mantinha a postura firme, mas comedido. "Esperamos manter os padrões de uma família anfitriã. A Floresta dos Monstros é dura—quem não estiver preparado, logo mostrará suas fraquezas."
Lady Ilvanna assentiu lentamente. "E aqueles que sobreviverem a ela não serão mais meros herdeiros, mas provas de legado."
Gaius, com um sorriso, acrescentou: "Desde que sobrevivam, claro."
Um sorriso de secura passou por alguns nobres próximos. A tensão sutil se fazia presente sob a formalidade—cada família aqui lutando por poder, influência, ou pelo menos para não ficar atrás.
Mais adiante na mesa, Kael e Damon Thorne haviam formado seu próprio grupo de jovens nobres para conquistar e competir—trocar elogios de espadaria, feitos mágicos e conquistas passadas. Kael falava com facilidade, sua simpatia mascarando uma ambição fria. Damon ria alto, falando de manequins de treino destruídos e vitórias de esgrima.
Eles construíam alianças.
Noel, por sua vez, não estava em lugar algum.
Alguns nobres perguntaram sobre ele—após tudo, o rapaz tinha causado impacto após o ataque. Albrecht respondeu com tom neutro, "Ele estará preparado."
Ninguém questionou mais. Ainda.
Noel permanecia à margem do acampamento nobiliárquico, com os braços cruzados, expressão difícil de decifrar. De onde estava, tinha uma visão perfeita do pavilhão principal. Observava o fluxo de cumprimentos, manobras políticas e arrogância casual com o mesmo desinteresse tranquilo de sempre.
'Igual ao livro… máscaras, sorrisos e todo mundo fingindo que não quer acabar com a garganta uns dos outros.'
Kael e Damon riam com alguns herdeiros de casas menores—um deles até tentou flexionar o bíceps como se aquilo fosse prova de coragem. Isso fez uma sobrancelha de Noel se arquear levemente.
Uma voz suave o trouxe de seus pensamentos.
"Não gosta de encontros assim?"
Ele se virou.
Elena von Lestaria estava ao seu lado, postura relaxada, porém com aura régia até em seu jeito casual. Hoje, ela usava uma jaqueta de caça feita sob medida em prata e branco, cabelos trançados de forma discreta na volta, o pingente prateado pendurado no pescoço.
"Pode dizer que sim," respondeu Noel. "Muita conversa."
Ela sorriu suavemente. "Você não mudou muito."
"Bem, faz pouco tempo, e algo assim não muda a gente com facilidade."
Ficaram em silêncio por um momento. Do pavilhão, risadas e vozes de convidados chegando ecoavam ao longe.
Elena inclinou a cabeça na direção da multidão. "Ouvi dizer que te internaram depois do ataque. A gente… não soube de muito mais."
"Estou bem," respondeu Noel simplesmente. "Não queria visitas."
"Mas as pessoas estavam preocupadas," ela disse suavemente, sem acusação—apenas de forma sincera.
Os olhos de Noel passaram breves segundos por ela, depois voltaram ao grupo. "Agradeço, mas prefiro me recuperar quieto."
Elena concordou, como se esperasse essa resposta. "Ainda assim… fico feliz que esteja bem. Você fez mais do que a maioria naquela noite. Alguns de nós te devíamos isso."
Noel deu um meio-sorriso. "Não esperava agradecimentos. Só queria que menos gente morresse."
Pausa.
De repente, Elena riu. "Você não é muito bom em aceitar gratidão."
"Não sou lá muito bom em fingir que sou algo que não sou."
Ela sorriu, dessa vez até os olhos brilharam. "Gostaria que pudesse fazer isso também."
O sol começava a se pôr quando Noel voltou ao acampamento Thorne. A luz dourada tinha se transformado em âmbar, lançando sombras longas sobre a grama macia e as tendas de lona alinhadas como soldados em formação.
As tochas noturnas já haviam sido acesas pelos criados, as chamas tremulando em suportes de cristal feitos para proteger do vento. Ao longe, o murmúrio de risadas e o tilintar abafado de taças ainda ecoavam do pavilhão central, onde a maioria dos nobres permaneceu para prolongar seus jogos políticos.
Não deu atenção a nada disso.
Passou pelos guardas que protegiam o complexo das tendas dos Thorne, acenou brevemente para aquele que abriu a aba para ele e entrou na sua moradia designada.
Não havia luxo, nem decoração extravagante. Apenas o básico: uma mesa simples, um colchão limpo, um suporte para a espada e uma pia no canto.
Ele tirou o casaco e deixou cair na cadeira próxima. Revenant Fang deslizou facilmente para seu suporte, a lâmina ainda limpa—embora ele não soubesse por quanto tempo isso iria durar, uma vez que a caça começasse.
Sentou-se pesadamente na beirada da cama, cotovelos nos joelhos, olhos fixos na lona do toldo que tremulava suavemente com a brisa.
'Amanhã eles vão explicar as regras. Quanto tempo ficaremos lá fora, como vai funcionar a pontuação… aquela bagunça toda.'
Passou a mão pelo cabelo, soltando o penteaperto que tinha feito de manhã.
'Não importa. Já sei como isso termina.'
Pelo menos—antes de tudo.
Mas agora?
Agora, ele era o desconhecido.
A variável.
O motivo pelo qual essa história não seguia mais o roteiro.
Deitou-se na cama, com os braços atrás da cabeça, olhando para o tecido do teto que se movia suavemente com o vento.
'Não importa se as linhas são diferentes… só preciso aprender a interpretar entre elas.'
E, com esse pensamento, fechou os olhos.
E o acampamento lá fora começou a silenciar lentamente, preparando-se para o dia que viria.