
Capítulo 43
O Extra é um Gênio!?
O sol do meio-dia filtrava-se entre nuvens finas, lançando luz dourada sobre o imponente pavilhão localizado no centro do acampamento. A tenda principal—mais espaçosa e luxuosa que as demais—havia sido reorganizada para acomodar a reunião de todas as famílias nobres. Bandeiras de veludo com o brasão de cada família pendiam dos altos postes que formavam a estrutura circular, e o aroma de madeira polida e pergaminho caro pairava no ar.
Um por um, os chefes das casas nobres entravam na tenda, acompanhados por seus herdeiros.Senhores, damas e futuros sucessores ocupavam seus assentos designados, todos dispostos de acordo com o prestígio de suas famílias. Murmúrios silenciosos preenchiam o espaço—sussurros de alianças, rivalidades e expectativas.
A família Thorne sentava-se próxima ao frontispício, como a tradição exigia da família anfitriã. O Lorde Albrecht Thorne estava no centro da sala, com as mãos nas costas, vestido com um casaco preto profundo forrado com vermelho e ouro.
Seu olhar percorria a sala, parando brevemente em cada casa. O silêncio se instaurou.
"Agradeço a todos por atenderem ao chamado," começou, sua voz firme e clara. "Como é tradição, realizamos a Caçada deste ano em homenagem à força, disciplina e legado."
Noel permanecia ao seu lado direito, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Não falou nada, seus olhos vagando pela maré de herdeiros sentados à sua frente. Rostos conhecidos destacavam-se—Elena von Lestaria, calma e orgulhosa; Clara de Nivaria, ao lado do irmão mais velho; outros que ele não reconhecia, cada um avaliando silenciosamente a concorrência.
Da lateral, guardas armados ficavam como estátuas, observando, mas sem intervir.
O Lorde Albrecht prosseguiu:
"Este evento não é simplesmente uma competição. É uma avaliação—do futuro. Seu desempenho falará mais alto que qualquer nome nobre que carregam. Casas já se ergueram e caíram por menos."
Ele fez uma pausa novamente.
"Amanhã, a Caçada começa."
As palavras caíram sobre a multidão como um trovão.
'Vamos lá,' pensou Noel, com os ombros se tensionando levemente.
Ao seu lado, Kael inclinou-se na cadeira com um sorriso suave. Damon, mais abaixo, cruzou os braços com um movimento de desprezo, como se o discurso tivesse entediado.
Do outro lado, Elena sentava-se com postura impecável, com uma expressão difícil de decifrar. Mas seus olhos cruzaram com os de Noel por um breve instante.
Tempo suficiente para ele se perguntar o que ela estaria pensando.
Enquanto o silêncio se estabelecia no pavilhão, uma mulher de cabelo prateado levantou-se. Sua presença comandou atenção imediata—Lady Erielle von Lestaria, matriarca da Casa Lestaria. Elegante e composta, sua voz soou clara e deliberada.
"Cada casa pode inscrever até três participantes. O objetivo é simples na estrutura, mas exigente na execução: caçar dentro do perímetro designado e acumular pontos ao longo de sete dias."
Uns suspiros se espalharam entre alguns dos jovens herdeiros.
Ela continuou, impassível.
"Vocês estarão por conta própria. Sem ajuda externa. Sem reforços. Precisam garantir sua própria comida, água e abrigo durante toda a caçada. Não é apenas uma questão de força—mas de resistência e sobrevivência."
Vários herdeiros entreolharam-se nervosamente.
Então, levantando-se do outro extremo da mesa, Lorde Darius De Nivaria acrescentou:
"Monstros foram cuidadosamente selecionados. Todos são do Nível de Iniciante, alinhados ao seu nível atual. Porém, o grau de ameaça interna varia."
Ele levantou três dedos.
"Comum—1 ponto.
Raro—3 pontos.
Elite—10 pontos."
Dessa vez, a sala ficou totalmente silenciosa.
"Os participantes usarão uma braçadeira de mana conectada a um dispositivo," disse Lady Mirelle Thorne, sua tonalidade desta vez fria como sempre. "Se sua vida estiver em perigo iminente, ela ativará um feitiço de escudo e extrairá você do campo. Mas—"
Ela deixou o silêncio pairar.
"Isso também significa desqualificação."
"Podem planejar suas estratégias à vontade. Trair, sabotar, fazer o que for preciso para vencer."
A última palavra caiu pesada, como uma pedra.
Todo herdeiro endireitou-se na cadeira.
Noel permaneceu imóvel, com os lábios cerrados, pensando.
'Sete dias de caos. Sem ajuda. Todo mundo competindo. Alguns esperando a hora de te apunhalar assim que tropeçar. Parece a minha cara essa party.'
No seu tenda designada, Noel sentou-se na ponta de uma cama de viagem, olhando fixamente para a lâmina repousando sobre os joelhos.
Revenant Fang. Polida. Silenciosa. Pronta.
O polegar de Noel passou pelo fio da bainha.
"Então, vale tudo mesmo, hein?"
"Sabotagem, apunhalar pelas costas, estimular seus inimigos a entrarem em covis de bestas Elite—cara, eu apostaria que até daria pontos por criatividade."
Ele deu uma respiração baixa, ajustando a alça que segurava a bainha nas costas. A lâmina ficaria numa leve diagonal—pronta para puxar de repente. Do jeito que ele gostava.
Memorizara o que pudesse dos mapas.
A zona de caça designada cobria vários quilômetros de floresta densa. Com base no terreno pelo qual passaram até aqui, Noel esperava árvores gigantes, chão irregular e muitas fontes de água natural—se soubesse onde procurar.
E ele sabia exatamente onde ir.
"Primeiro passo—ir fundo. Se afastar bastante enquanto os outros ainda estão tentando tirar uma meleca sem serem atacados."
Ele se levantou, testando o equilíbrio da espada nas costas.
As regras não permitiam comida. Nem água. Nem ferramentas. Apenas uma arma.
Ele estufou o peito, torcendo o pescoço.
"De boa. Só preciso desta lâmina e uns dias bem quietos para acumular pontos enquanto os outros correm feito cabeça de tubarão."
Sentou-se na ponta do tenda e abriu uma bolsinha de viagem pequena. Dentro, tinha algumas bandagens embrulhadas, um fogo de pedra (pederneira) para fazer fogo, e um núcleo de cristal que servia para recarregar lentamente a mana com o tempo.
Era um equipamento básico de sobrevivência—nada de extraordinário. Mas ia dar conta do recado.
"Vai ter umas fontes de água por aí. Tem que ter. Impossível soltarem os nobres no mato sem água."
"A menos que estejam se sentindo especialmente ousados neste ano."
Um sorriso se desenhou em seu rosto.
"Dane-se. Tô até ansioso pra isso.
Ele encaixou a espada na alça, saiu do barraco e olhou na direção das árvores ao longe.
O vento ao longe agitou as folhas. O cheiro de musgo e casca era forte no ar. Em algum lugar, um animal deixou um uivo distante.
A competição começaria ao amanhecer.
E Noel?
Planejava sumir antes que a maioria deles arrumasse as coisas.
Debaixo da tenda de lona da família, Marcus sentava-se de pernas cruzadas no chão, ajustando as alças dos braceletes de couro em seus antebraços.
Na frente dele, Clara de Nivaria ajustava os fechos do casaco de caça, o cabelo escuro preso numa trança prática e os olhos azuis atentos enquanto conferia seu equipamento.
"Tudo preparado?" perguntou Marcus, olhando pra ela.
"Quase," respondeu Clara, puxando as botas. "Mas não adianta muito se a gente não for inteligente."
Marcus sorriu meio de lado. "Então vamos fazer isso juntos, né?"
Clara olhou para ele como se a resposta fosse óbvia.
"Claro. Desde antes da academia treinamos juntos. Sabemos o ritmo um do outro."
Ela fez uma pausa. "Só falta mais uma coisa."
Marcus piscou. "Mais uma?"
"Elena. Ela é a melhor em teoria e se sai bem na prática. Com ela, cobriríamos todas as cartadas."
Marcus esfregou a nuca. "Não tenho certeza se ela é do tipo de se juntar assim…"
Alguns minutos depois, os dois se aproximaram de Elena von Lestaria, que ajustava firme a pegada das suas gêmeas espadas curtas. Sua postura era elegante, mas tensa—concentrada.
"Oi, Elena," cumprimentou Marcus. "A gente tava pensando—"
"Não," ela respondeu imediatamente, nem levantando o olhar.
Clara levantou uma sobrancelha. "Você nem sabe o que a gente quer."
"Quer formar uma equipe. Fico lisonjeada. Mas não posso."
Ela finalmente olhou para ambos, com a voz equilibrada. "Tenho que sair na frente."
Marcus franzia o cenho. "Você não precisa provar nada—"
"Preciso sim."
Elena se virou de costas. "Boa sorte lá fora. Só… não atrapalhem."
A conversa deixou uma tensão sutil entre eles enquanto ela se afastava, indo sozinha ao acampamento de equipamentos.
Clara suspirou. "Acho que somos só nós dois, então."
Marcus hesitou. "Não necessariamente."
Ele virou o olhar para o acampamento, onde uma figura solitária estava perto das árvores, ajustando uma espada preta nas costas.
Noel.
"Quer ele?" perguntou Clara, com os braços cruzados. "Ele... é imprevisível."
Marcus sorriu de leve. "Exatamente. É disso que precisamos."
Marcus atravessou a clareira com Clara ao lado, dirigindo-se às árvores onde Noel permanecia sozinho. Sua espada negra, Revenant Fang, descansava descontraidamente nas costas, e seus olhos estavam fixos na floresta densa à frente—calculando, distante.
Ele não se virou quando eles se aproximaram.
"Noel," chamou Marcus.
Um instante. Então Noel finalmente virou o rosto de lado.
"Vocês parecem prestes a me pedir algo que vou me arrepender de ouvir."
Clara cruzou os braços. "Queremos fazer uma equipe. As regras permitem. Com você, teríamos uma chance melhor de lidar com qualquer surpresa."
Noel olhou para eles plenamente agora, com expressão difícil de decifrar.
"Quer me na sua equipe de caça?"
Marcus assentiu uma vez. "Sim. Você é rápido. Inteligente. E, bem… não tem medo de fazer o que for preciso."
Noel ficou alguns segundos observando, depois deu uma risadinha silenciosa.
"Tentador. Mas eu passo."
Clara franziu a testa. "Por quê?"
"Porque já tenho um plano," Noel disse, com a voz baixa e firme. "E ele não envolve ficar junto com ninguém."
Marcus piscou. "Vai fazer sozinho?"
"Exatamente. Eu trabalho melhor sozinho." Ele ajustou a alça da espada nas costas. "Menos ruído e menos surpresas, entende?"
A testa de Clara se aprofundou. "Nossa. É uma forma encantadora de dizer 'não, obrigado.'"
Noel deu de ombros. "Não disse que vim fazer amigos."
Marcus respirou fundo. "Ainda o mesmo Noel de sempre, né?"
Um breve silêncio se instaurou.
"Boa sorte," disse Marcus por fim, estendendo a mão.
Noel olhou para ela. Então, após uma breve pausa, apertou firme.
"Você também."
Clara deu um aceno que misturava irritação e respeito relutante.
Enquanto os dois se afastavam, Noel voltou seu olhar para as árvores ao longe.
'Fazer solo é a única forma de ficar à frente dessa merda de história…'