
Capítulo 41
O Extra é um Gênio!?
A escolta estava na estrada há horas.
O ar ficava mais frio à medida que subiam para terrenos mais altos, a floresta se espessando de ambos os lados. Pedras cobertas de musgo pontilhavam o chão, como dentes dispersos, e uma névoa começava a se estabelecer baixa entre as raízes de árvores retorcidas. O caminho ficava mais estreito e tortuoso do que antes, mas os carruagens avançavam sem demora.
Noel apoiava o queixo nas mãos, observando o dossel passar acima deles através da pequena janela da carruagem. Era uma sensação estranha, sair da propriedade dos Thorne não para ir à escola, mas para algo completamente novo. Diferente da rotina previsível da academia.
Aqui, o cenário era mais selvagem. Menos previsível.
'É aqui que tudo começa. O próximo cenário.'
'A Caçada à Besta.'
No romance, tinha sido um arco tenso, cheio de alianças, traições e jogadas de poder silenciosas entre as casas nobres. A casa de Elena von Lestaria segurou a vitória, e Marcus subiu de posição ao ficar em segundo, com o apoio de Clara.
E agora?
E Noel era uma peça nova no tabuleiro.
Ele recostou-se no banco. 'Até agora, nada mudou muito drasticamente. Sem grandes desvios… ainda.'
Porém, o pensamento não o confortava. Pelo contrário, o deixava mais atento. Sempre quieto demais costuma significar que algo está prestes a acontecer.
No diante, o cocheiro chamou uma pausa, e a escolta diminuiu a velocidade.
"Vamos parar aqui para o intervalo do meio-dia!" a ordem ecoou de cavaleiro em cavaleiro.
As carruagens começaram a entrar em uma clareira ao lado da estrada, larga o suficiente para montar um ponto de descanso temporário. Criados se movimentavam com eficiência, desembalando comida e água, enquanto guardas mantinham as mãos próximas às espadas.
Noel saiu da terra batida, alongando as costas com um suspiro silencioso. Atrás dele, Kael já tinha descido, ajustando as luvas. Damon veio por último, murmurando algo baixinho e esfregando o pescoço.
Pouco longe, as demais carruagens da família estavam chegando. Ele podia ver Sylvette saindo com graça lenta, Livia logo atrás, com uma expressão de nobreza no queixo, e ambas as mães não muito longe.
O olhar de Noel deslizou das mulheres para as árvores ao redor. A floresta se estendia em todas as direções — alta, silenciosa e aguardando.
'Madeira das Feras, hein.'
'Vamos ver do que você é capaz.'
Enquanto a maioria das pessoas se juntava perto dos carregadores ou se sentava em mesas improvisadas, preparadas por criados, Noel se afastou um pouco até as margens da clareira. Ele precisava de espaço.
E de ar puro.
Ele se agachou próximo a uma árvore grande, passando os dedos pelo chão, que estava macio — talvez por uma chuva recente — e o aroma da floresta era forte de pinho e musgo. Alguns pássaros cantavam por cima, mas, de outro modo, tudo estava silencioso.
Quieto demais.
Ele se levantou, esfregando as mãos, e virou-se quando uma voz familiar cortou a quietude.
"Saindo escondido já, maninho?"
Noel nem precisou olhar. A zombaria só podia ser de Kael.
Ele moveu ligeiramente a cabeça, assistindo os dois — Kael e Damon — andando em sua direção com sorrisos iguais. Mantinham uma distância, mas não por muito — só o bastante para parecer uma conversa casual e não o que realmente era.
Um teste. Uma demonstração de domínio.
"Sabe, a maioria dos nobres se mistura durante eventos familiares," Damon acrescentou, esticando os braços atrás da cabeça. "Você aqui sozinho meio que estraga a imagem."
"Não estou aqui para posar para pinturas," disse Noel sem se virar, com tom monótono. "Me avise quando tiver algo de sério para fazer."
Kael riu. "Falou como um cara que se acha demais. Aqueles duelos de volta pra casa realmente inflaram seu ego, né?"
O olhar de Noel se afiou, brevemente.
"Quer dizer os que eu venci três de uma vez?"
Damon avançou um passo, as mãos formando um leve punho. Mas Kael estendeu a mão para detê-lo, sorrindo toda hora.
"Relaxa. Ainda não é hora."
Noel estreitou os olhos. "Hora do quê?"
Mas Kael não respondeu. Samarou apenas, batendo nas costas do irmão.
"Vamos lá. Não vamos gastar energia com ele agora. Guarda para o verdadeiro evento."
Ele assistiu enquanto eles se afastavam, cerrando a mandíbula.
Sabia aquele tom. Aquele olhar.
Algo vinha aí.
E, qualquer que fosse, eles planejaram juntos.
Mesmo assim, ele não seguiu. Apenas olhou de novo em direção à floresta escura, estreitando os olhos.
'Não gosto disso.'
Noel voltou ao centro do acampamento, onde as carruagens haviam sido abertas e os criados se movimentavam como uma engrenagem bem ajustada. Caixas reforçadas, tonéis de água potável, recipientes de armas lacrados — tudo parecia excessivamente calculado para ser apenas uma "caçada".
Uma grande mesa de estratégia tinha sido montada sob uma cobertura bege. Ao redor, alguns nobres comentavam sobre mapas flutuantes marcados com runas brilhantes. Fronteiras tremeluziam na parchment — setores da Madeira das Feras, claramente delimitados para cada casa participante.
Ele não entrou na conversa, apenas ficou perto da borda, deixando os olhos percorrerem toda a configuração.
Então—
"Thorne."
Ele se virou.
Sylvette estava sentada numa bancada alguns passos de distância, segurando uma xícara de chá. Sua expressão era difícil de decifrar — delicada, de traços quase de boneca, escondendo algo afiado por trás.
"Você não está com os outros?" perguntou, casual, sentando-se na cadeira em frente.
"Ouvindo Livia reclamar que vai ser vendida em casamento? Prefiro comer vidro." Ela deu um gole no chá. "Este lugar é mais quieto. Menos cansativo."
Noel sorriu de leve.
"Justo."
Ela o olhou por cima da borda da xícara.
"Você mantém distância. Mesmo agora."
Ele deu de ombros.
"Não é exatamente convidado para as sessões de convivência familiar."
"Não confunda silêncio com indiferença," ela disse, colocando a xícara na mesa. "Eles estão de olho. Mais do que nunca."
'Percebi.'
"Só não fique confortável demais. Este lugar?" Ela olhou ao redor do acampamento. "Não perdoa erros."
Noel recostou-se, estudando-a.
"Isso aí é um conselho?"
Os olhos de Sylvette se estreitaram um pouco.
"Deveria ser óbvio." Uma pausa. "Quer um tapinha na cabeça ou algo assim?"
Ele sorriu de canto e levantou-se.
"Agradeço o calor de irmãzinha."
Quando virou as costas, ela falou de novo — fria, sem emoções.
"Não confie em ninguém."
Ele parou.
"Nem em você?"
"Principalmente em mim."
Um vento soprou pelas árvores, fazendo o tears e armaduras rangerem.
Noel se afastou sem dizer palavra.
'Forma estranha de desejar "boa sorte", mas ok.'
O sol se punha baixo, tingindo a Madeira das Feras com um tom âmbar escuro. Sombras se alongavam, como dedos espalhados no chão coberto de musgo.
Noel ficou perto da margem do acampamento, longe das lanternas tremeluzentes e do burburinho ao redor das fogueiras.
Ele tinha tirado seu casaco, ficando de camisa escura e regata, com as mangas arregaçadas. A espada — Presa do Resquício — descansava no seu colo, enquanto ele a afiava lentamente, com movimentos calmos e deliberados.
A lâmina não precisava realmente ser afiada. Ela vibrava levemente, como se estivesse viva, alimentada por tensão, perigo e expectativa. Mas o movimento ajudava a esclarecer a cabeça.
De trás dele, o acampamento permanecia ativo — soldados patrulhavam, criados apagavam as fogueiras à noite, nobres dentro de suas tendas conversando sobre estratégias ou orgulho familiar.
De tempos em tempos, sentia os olhares sobre si. Uns curiosos. Outros… menos amigáveis.
'Deixem olhar.'
Um galho quebrou atrás dele. Noel não se mexeu.
"Treinamento após o horário?"
Era Maren, chefe da guarda dos Thorne. O guerreiro veterano avançou, com os braços cruzados, o olhar afiado e avaliador.
"Apenas rotina," respondeu Noel. "Ajuda a pensar."
Maren concordou com um gesto, andando ao redor do toco até ficar de frente para ele.
"Você está diferente de quando saiu. Mais silencioso. Mais difícil de decifrar."
Noel parou de afiara a lâmina.
"Pois é. Morrer uma vez costuma fazer isso com um cara."
Maren levantou uma sobrancelha.
"Isso é uma piada?"
"Meta-metade."
Um breve silêncio se estabeleceu entre eles. A brisa voltou a soprar, agitando as folhas das árvores altas ao redor.
"Vamos nos mover para o ponto de montagem ao amanhecer," finalmente disse Maren. "As outras casas nobres devem chegar até o meio-dia. Então—"
"Três dias de caça," completou Noel. "Sei as regras."
Maren o observou por um momento. Depois—
"Cuide-se. Especialmente com seus irmãos por perto."
Noel olhou nos olhos dele.
"Sempre cuido."
E assim, o homem se virou, caminhando silenciosamente sobre a terra com seus passos leves.
Noel respirou fundo. Seus olhos levantaram-se para o céu escuro, onde estrelas tênues piscavam entre as brechas nas nuvens.
Em algum lugar entre aquelas árvores, algo esperava.
E seu instinto não parara de dar voltas desde que chegaram.
O céu agora era de um azul azulado, pontilhado com estrelas que brilhavam através de véus finos de nuvens. Um frio percorreu as árvores enquanto a noite se consolidava completamente sobre o acampamento temporário dos Thorne, aninhado na borda da floresta.
Apesar da hora, a área fervilhava de atividade.
Criados se moviam como formigas coordenadas — armando tendas, cravando pedras de proteção encantadas para marcar o perímetro, carregando caixas de suprimentos dos últimos carruagens. O cheiro de fogueiras e couro envernizado preenchia o ar.
Alguns guardas já patrulhavam — alguns por dever, outros por nervosismo. A Madeira das Feras ficava bem perto, a apenas uma pedra de distância, e, embora ainda estivessem fora dos limites de caça, sua presença era impossível de ignorar.
Noel permanecia na borda do campo, braços cruzados, observando a movimentação.
Contava pelo menos quinze tendas já montadas — estruturas de lona reforçada, espaçadas em formato de meia-lua ao redor do ponto central. Cada uma ostentava o brasão dos Thorne, destinadas a abrigar membros da família principal e alguns retentores.
Logo atrás, tendas menores surgiam em filas ordenadas. Para guardas, criados e equipe de viagem.
Mais de 150 pessoas — talvez até 200, quando as demais casas nobres chegarem.
'É uma operação militar de verdade,' pensou Noel, observando um grupo carregando caixas de comida preservada, congeladas por magia. 'Eficiente, pelo menos. Vou dar pontos a eles.'
Fogueiras flutuantes no ar, encantadas para manter a posição e brilhar. Uma barreira de mana de baixa saturação cintilava na beira da floresta — proteção básica, suficiente para afastar uma fera curiosa ou duas.
Perto da tenda de comando, Maren dava ordens enquanto conferia uma longa lista de checagem com outro oficial.
Ele respirou lentamente, deixando o ar frio invadir seus pulmões.
Ainda sentia o cansaço do treinamento do dia — dores dorminhocas, músculos tensos — mas era aquele cansaço bom. Aquele que fazia ele se sentir vivo.
Deu a volta em direção ao círculo de fogueiras, onde alguns jovens criados trocavam histórias e riam. Ele não se juntou a eles.
Em vez disso, foi até sua própria tenda — maior que a maioria, embora ainda modesta perto das hospedagens principais da família.
Ele puxou a aba, entrou e deixou a lona fechar atrás de si.
"Amanhã," pensou, desabotoando a espada. "Amanhã chegam os convidados. Tomara que ninguém seja burro o suficiente para tornar as coisas interessantes logo no começo."
Apagou a pequena lâmpada interna, deitou-se completamente vestido e olhou para o teto de tecido.
Hoje à noite, a floresta os observava.
Amanhã, eles seriam postos à prova.