O Extra é um Gênio!?

Capítulo 40

O Extra é um Gênio!?

Noel despertou com o calor dourado da luz matinal enchendo a grande janelona em arco. Uma brisa suave ingressava pelo parapeito entreaberto, movendo as cortinas e carregando consigo o aroma tênue de pinho e fumaça distante vindo da cozinha.

Seu corpo ainda doía um pouco da luta do dia anterior, mas eram os pensamentos na cabeça que pesavam mais do que os seus membros.

'A Caçada da Herança…'

É assim que chamavam. Não era um jogo, nem uma atividade sazonal. Era uma tradição centenária que funcionava tanto como espetáculo quanto como campo de prova. A cada ano, uma das grandes casas nobres de Valor a organizava em um território designado, e seus herdeiros—jovens e ambiciosos—eram lançados numa floresta controlada para enfrentar bestas mágicas e uns aos outros.

Um ritual de poder. De orgulho. Sangue.

'No romance, a Casa Lestaria levou a vitória. Elena brilhou mais… Marcus foi o azarão que chegou perto. O nome Thorne? Foi um mero detalhe.'

Ele lembrava disso. Mas o que vinha depois da Caçada era vago. Elena voltava… destoante. Não destruída, não traumatizada, mas mudada.

'E agora estou aqui. Uma variável nova com conhecimento demais e garantias de menos.'

'Não dá pra saber em que essa versão da Caçada vai se transformar.'

Um forte golpe na porta o tirou de seus pensamentos.

"Jovem mestre," veio a voz suave de sua criada pessoal do outro lado, "O senhor Thorne espera todos no café da manhã. A refeição já começou."

Ele colocou as pernas para fora da cama, esfregando o rosto.

"É, é. Tô indo."

Respirou fundo antes de se dirigir à porta.

'Acho que é hora de ouvir o anúncio oficial.'

A longa mesa de mogno se estendia ao longo do salão de jantar com teto alto, cercada por janelas imensas que deixavam a luz da manhã entrar. Bandeiras da casa tremulavam levemente ao vento, com sigilos bordados em ouro e azul escuro—cores de House Thorne.

Noel entrou na sala, e como sempre, o ar pareceu mudar ao seu redor.

No cabeça da mesa, estava Lorde Albrecht Thorne, com postura rígida e olhos como pedra esculpida. Sua presença silenciava a sala mais que qualquer grito.

Irmãos de Noel já estavam sentados.

À sua esquerda, Lady Mirelle, composta e graciosa, bebia seu chá como se fosse uma estratégia de guerra. Ao lado dela, Kael, o mais velho, exibia um sorriso passivo, o cotovelo repousando preguiçosamente na borda da cadeira decorada.

Próximo a Kael, Damon, mais corpulento e menos elegante, destruía um pão como se ele tivesse insultado sua família pessoalmente.

Do outro lado, Lady Serina ria suavemente de algo que Sylvette sussurrava no ouvido dela—sem dúvida, uma observação passivo-agressiva. Ao lado, Livia, impecável como sempre, embora seu sorriso parecesse mais estreito nesta manhã.

Noel foi até seu assento silenciosamente—ignorado pela maioria.

Até que o Patriarca falou.

"Este ano," começou Albrecht, com voz áspera de ferro, "a responsabilidade de organizar a Caçada da Herança fica com a Casa Thorne."

Um silêncio cortou o ambiente como uma lâmina destraçada.

"Espero competência absoluta de todos vocês," continuou. "Doze famílias nobres participarão. Lestaria, De Nivaria, Rhiannon, Baelcroft… e outras menos relevantes."

Todos assentiram. Exceto Noel. Ele apenas esperou.

O olhar do pai percorreu a sala. "Isso não é fingimento. É nossa chance de mostrar força. Nossa família sumiu na insignificância por tempo demais. Espero que nos levantemos das cinzas. Entendido?"

"Sim, pai," murmuraram em uníssono.

Mas quando os olhos de Albrecht pararam em Noel—frios, avaliadores—eles permaneceram um instante mais.

"Ouvi dizer," ele falou lentamente, "que você derrotou três dos nossos soldados recentemente."

Noel manteve a postura relaxada. "Foi isso mesmo."

"Você melhorou."

Não era exatamente um elogio. Muito menos um insulto, também.

"Seus irmãos ainda têm dificuldades para vencê-los," acrescentou Albrecht, de forma direta, dirigindo o comentário ao lado da mesa.

Kael fez uma expressão de sorriso zombeteiro. Damon cerrava a mandíbula.

Lady Mirelle foi rápida em interceder. "Eles avançaram bastante desde então. O verdadeiro talento deles brilha no combate real, não no treino de brincadeira."

Lady Serina acenou com educação. "Com certeza. Tenho certeza de que se lhes fosse dada a chance agora, iriam se sair muito melhor."

"Talvez," disse Albrecht com um encolher de ombros. "Vamos ver logo mais."

E, de repente, a pressão na sala mudou.

Noel permanecia em silêncio. Não precisava falar. Seu silêncio tinha peso.

A tensão ainda pairava no ar, como uma tempestade que não passara. Kael foi o primeiro a falar, com voz calma, mas carregada de orgulho feroz.

"Vamos provar isso na Caçada, pai," disse, colocando seu copo de vinho com força suficiente para ecoar.

Damon concordou, resmungando sob a respiração. "Vocês vão ver. Dessa vez, não vão zombar da Casa Thorne."

Albrecht não respondeu imediatamente. Apenas recostou-se na cadeira, entrelaçando os dedos sob o queixo.

"Já ouvi promessas assim antes," disse. "O que quero agora são resultados. Não adianta só falar."

O maxilar de Kael se contraíu, mas ele assentiu. Damon bufou. Do outro lado, Livia rolou os olhos com a elegância de sempre.

"Falando em desempenho," continuou Albrecht, olhando para a filha mais velha, "Livia."

Ela endireitou-se imediatamente, perceptiva de algo pesado vindo.

"Você será unida a Veyron von Lestaria, filho mais velho da casa Lestaria."

Silêncio surdo caiu na mesa.

Livia piscou. "Eu… o quê?"

"Já está combinado," disse Lorde Thorne. "O casamento será oficializado durante a Caçada. Considere mais uma aliança fortalecida para a Casa Thorne."

Sua mão tremeu um pouco sobre o garfo. "Nem perguntaram o que eu quero."

O olhar de Albrecht cortou-a como uma lâmina.

"Porque seus desejos não têm relevância neste assunto."

"Pai—"

"Não é discussão, Livia."

Ela mordeu o lábio, furiosa, mas não disse mais nada. As omoplatas tensas e o olhar caído no prato ainda intocado.

Lady Mirelle parecia satisfeita. Lady Serina parecia hesitante, mas preferiu ficar em silêncio. Sylvette observava com interesse, um sorriso sutil e indecifrável nos lábios.

Noel assistia tudo silencioso, empurrando um pedaço de pão pelo prato sem apetite.

'Essa família é uma verdadeira ópera.'

E, mesmo odiando admitir, esse era o mundo em que havia nascido agora. Onde as escolhas nem sempre eram suas de fato.

Mas a dele?

Seu destino, ao menos, ele arrancaria das mãos deles com sangue, se preciso fosse.

Quando o último prato foi retirado da mesa e as criadas começaram a recolher os talheres em silêncio, Noel colocou seu guardanapo na mesa e aclarou a garganta.

"Posso pedir permissão para sair, pai?" perguntou, com tom firme.

Todos os olhares se voltaram para ele. Kael e Damon fizeram um sorriso zombeteiro sutil. Livia mal olhou pra cima. Sylvette piscaram com um sorriso vago, divertida.

Albrecht o observou por um momento. Não foi desaprovação exatamente. Nem aprovação.

"Tudo bem," disse finalmente. "Vai. Descanse, se precisar—seu desempenho nos próximos dias falará mais do que qualquer coisa que faça agora."

Noel se levantou, fazendo uma reverência formal, superficial.

"Entendido."

Albrecht falou de novo, com voz mais firme. "Tenho grandes expectativas em você, Noel."

Noel hesitou.

'Sei disso.'

Mas não disse nada. Apenas assentiu rapidamente e virou as costas à mesa.

Ao sair do salão de jantar, o peso nos ombros dele aliviou um pouco—mas a pressão das expectativas continuava, presa à sua espinha como ferro frio.

'Eles estão esperando uma explosão. Vou dar uma explosão. Ah… vocês vão ver o novo Noel Thorne.'

O pátio interno da Casa Thorne fervilhava de movimento.

Servidores corriam entre os estábulos e os depósitos, arrumando provisões e caixas de equipamento. Cavalos alinhados em fileiras, selas limpas, crinas bem cuidadas. Bandeiras decorativas ostentando o sigilo da casa — uma cabeça de lobo prateada sobre um campo preto — tremulavam nas carruagens principais.

Noel ficou de lado, com os braços cruzados, observando tudo.

Suas próprias malas estavam feitas desde a manhã. Não por serviçais—ele mesmo as havia preparado. Velho costume, talvez. Ou apenas a necessidade de sentir que controlava alguma coisa.

Um dos tratadores se aproximou. "Jovem mestre Thorne. Sua carruagem será a quarta na fila, com os demais herdeiros. Você viaja junto com os senhores Kael e Damon."

'Que maravilha.'

Ele deu um aceno curto e dispensou o rapaz com um gesto de mão.

De longe, pôde ver Kael e Damon montando em seus cavalos. Ambos trajando couraças de viagem adornadas com o brasão da família. Riam de algo que um dos cavaleiros tinha dito. Ambos fingiam que Noel não existia.

"Negócio como sempre," murmurou para si mesmo.

Lady Serina passou por ele, trocando duas palavras com duas criadas. Quando percebeu Noel, deu-lhe um breve sorriso, suave, mas distante. "Tome cuidado de descansar, querida. O caminho até a Floresta das Bestas é longo."

Ele fez uma leve reverência. "Sim, Lady Serina."

Lorde Albrecht ficou na frente da carruagem principal, com as mãos atrás das costas, inspeccionando cada correia e trava com atenção silenciosa.

Mesmo de longe, Noel sentia a presença do homem como uma espada pendurada no pescoço.

'Vou provar pra eles.'

Mas não por eles.

O som de cascos no pedra ecoou pelo castelo dos Thorne, enquanto o comboio finalmente começava a se mover.

Eram meio-dia, mas o céu permanecia nublado—um cinza opaco que pressionava tudo como um peso. As carruagens avançavam uma a uma, cada uma sob escolta de guardas armados a cavalo. Mais de uma dúzia no total, algumas carregando provisões, outras, nobres, empregadas e equipe.

Noel estava na quarta carruagem, com a coluna ereta, braços cruzados. Do lado oposto, Kael fazia pose de arrogante, com as pernas esticadas e o coturno cruzado. Damon ficara junto à janela, batendo os dedos na moldura de madeira.

Sem uma palavra.

Nem desde que entraram na carruagem.

E isso lhe bastava.

'Nem sonho com uma fase de convivência familiar mesmo.'

A carruagem rangeu suavemente enquanto seguia pela estrada na floresta. Lá fora, a paisagem passava devagar—colinas onduladas, árvores esqueléticas, pássaros girando ao longe. Algumas vilas ou postos comerciais apareciam às vezes, mas nenhuma tentava interromper o comboio nobre.

Um criado cavalga ao lado, transmitindo ordens a intervalos. Pelo que Noel entendeu, pretendiam montar acampamento perto de um posto às margens de um rio ao anoitecer.

Kael bocejou teatralmente, quebrando o silêncio. "Tomara que ninguém roncando. Ia estragar a aparência de nobreza que todo mundo precisa manter."

Noel não respondeu.

Damon bufou. "Fica tranquilo. Tenho certeza que o mais novo vai se enfiar numa esquina e dormir lá fora, se a gente pedir na boa."

O olhar de Noel se virou pra ele, calmo e impassível.

"Tô mais útil acordado do que vocês dois dormindo."

Kael riu. "Cuidado, irmão. Essa língua tua pode te meter numa encrenca algum dia."

'Pode apostar.'

Mas Noel permaneceu em silêncio, apenas relaxando na cadeira, olhando para fora novamente.

As árvores ficavam mais densas. O caminho estreitava.

E, além do horizonte, aguardava a Floresta das Bestas.

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