O Extra é um Gênio!?

Capítulo 39

O Extra é um Gênio!?

Da varanda do ala leste da propriedade Thorne, Kael Thorne encostou-se na grade de mármore frio, com os braços cruzados, os olhos fixos no pátio abaixo.

O sol da manhã reluzia na faixa prateada da armadura dos soldados que treinavam em formação. Mas Kael não os estava vendo.

Ele estava observando ele.

Noel Thorne estava no centro do ringue de duelo, com uma espada de treinamento de madeira na mão, rodeado por um grupo de guardas ofegantes — três deles agora estavam sentados na borda do campo, derrotados, suados e silenciosos de um jeito quase assustador.

A túnica azul-marinho do mais novo de Thorne grudava levemente às costas por causa do esforço. Seus movimentos eram rápidos, treinados. Seus pés eram precisos. Cada cavaleada de sua espada carregava intenção.

A mandíbula de Kael se apertou.

— Quem diabos é aquele? — murmurou.

Ao seu lado, Damon Thorne levantou uma sobrancelha, os olhos também focados na cena. Seu cabelo preto como uma corvo estava penteado e preso, as vestes imaculadas mesmo nesta hora. Um leve brilho em volta de seus dedos revelava que sua mana estava ativa — de modo sutil, sempre.

— Noel — disse Damon simplesmente, com a voz inexpressiva. — Aparentemente.

Kael deu uma risada curta, apertando ainda mais a borda da grade. — Besteira. Aquele ali não é mais o pirralho que não conseguia segurar uma espada direito há três anos.

— Não. Não é.

Logo abaixo, Noel virou para encarar o pequeno grupo de soldados ainda na lateral, dando ordens com um tom que não combinava com o garoto que eles lembravam. Ele se mantinha ereto. Olhos afiados. Confiante.

Comandante.

Os olhos de Damon se moveram para os de Kael. — Você percebe como eles escutam?

Kael manteve o silêncio. Não precisava responder.

A resposta era sim. E esse era o problema.

O estrondo de espadas de madeira voltou a ecoar enquanto Noel assumia outra postura — pronto para mais uma luta.

Os punhos de Kael estavam cerrados agora, os nós quase pálidos contra a grade. Damon, em contraste, permanecia imóvel — com as mãos escondidas nas mangas de suas vestes cerimoniais escuras, observando seu irmão mais novo se mover pelo ringue de terra como um homem possuído.

— Você está incomumente calado — murmurou Kael, sem tirar os olhos do campo.

Damon expirou pelo nariz. — Você viu também. Ele não estava só atacando às cegas.

Kael não respondeu.

— Os lampejos dele eram limpos. Não chamativos, mas firmes — continuou Damon, com uma voz calma, analítica. — A última finta e o passo — ele não aprendeu aqui. Não com os instrutores da casa.

Kael finalmente virou-se para olhar o irmão. — Então o quê? Fez algumas aulas particulares na academia. Que importância que isso tem?

A expressão de Damon permaneceu impassível. — É uma grande questão. Ele derrotou três dos nossos guardas sem suar. Eles não são elite, mas também não são fracos.

Kael rosnou. — São desregrado e arrogante.

— Eram, — corrigiu Damon. — Até ele colocá-los no chão.

Ambos ficaram em silêncio novamente. Logo abaixo, Noel terminou sua última luta, armando um desarme limpo, fazendo a espada de madeira do adversário escorrer pelo chão de terra.

Os guardas que assistiam aplaudiram com respeito. Alguns até acenaram com a cabeça.

Kael sorriu com desdém.

— Ele fala com eles como se fosse melhor do que eles, — murmuro.

— Ele é um Thorne, — respondeu Damon de forma seca. — É exatamente assim que ele deve falar com eles.

Kael olhou para ele de relance, surpreso.

Damon deu um leve encolher de ombros. — Ainda não gosto disso. Mas tenho que admitir… ele mudou.

Kael olhou novamente para o campo, os olhos estreitando-se.

— Não sei o que aconteceu com ele naquela academia, — disse frio. — Mas não confio nisso. Essa mudança tão rápida?

Damon não contestou. Simplesmente assistiu enquanto Noel pegava uma toalha de um suporte próximo, enxugando o suor da testa como se fosse uma rotina comum. Seu irmão tinha voltado mais forte, mais inteligente, mais afiado.

E isso o tornava perigoso.

Kael desceu pelo corredor fora da câmara da varanda, com as botas fazendo barulho baixo no piso polido. Damon o seguia em silêncio.

— Agora ele anda como se fosse um prodígio — queixou-se Kael, quase sussurrando. — Como se pertencesse a isso.

Damon cruzou os braços. — Ele derrotou três dos nossos guardas.

Kael se virou de repente, os olhos queimando de raiva. — E daí?! Isso o torna um guerreiro agora? Você acha que o pai vai começar a elogiá-lo por aparecer e ficar balançando uma vara por alguns dias?

Damon não se moveu. — Está fazendo mais do que você esperava. E o pai percebeu. Não pense que ele não viu.

Kael fez cara feia. — Isso é que me deixa puto.

— Porque ele é uma ameaça agora? — perguntou Damon.

Kael apertou a mandíbula. — Não — porque ele devia ser nada. Uma sobra. O irmãozinho fraco que não conseguia segurar uma espada sem tropeçar. Estava seguro assim. Inofensivo.

— E agora não está mais.

Kael não respondeu. A silêncio dele dizia tudo.

Um longo silêncio tomou conta enquanto os dois irmãos caminhavam pelas salas do grande casarão Thorne — bandeiras, estatuas, legado.

— Você está pensando na caçada, — disse Damon finalmente.

Kael parou de andar. — Todos vão estar lá. Nobres. Senhores. Herdeiros deles. Até enviados da capital.

— E daí? — perguntou Damon, já sabendo onde isso ia chegar.

Kael virou-se, o rosto tranquilo. — É a oportunidade perfeita.

— Para fazer o quê, exatamente? — questionou Damon.

Kael não respondeu. Mas o olhar nos olhos dele dizia tudo a Damon.

A água estava morninha agora. Noel passou a mão pelo cabelo molhado, suspirando ao sair do banheiro rumo ao silêncio do quarto. Jogou a toalha numa cadeira e olhou no espelho. Sem camisa, cabelo bagunçado, olhos mais afiados do que antes.

— Droga, — murmurou. — Parece que sei o que estou fazendo.

Vestuíu-se com uma camisa escura folgada, deixou-a metade desabotoada e deitou na beirada da cama. Sua espada estava encostada na parede. Presa Fangedo Ilustre. A lâmina ainda parecia intimidante mesmo ali, quieta.

Ele se recostou, alongando-se, os ossos estalando enquanto soltava um gemido cansado.

— Três lutas, três vitórias. Não foi mal pra um “decepcção”, hein. — uma sobrancelha levantou-se num sorriso de canto da boca.

Os cavaleiros o subestimaram — como era de se esperar. Essa era a ideia. Ainda melhor era a expressão deles ao verem ele os derrubando.

Mas… algo não estava certo.

Ele voltou a sentar-se, franzindo a testa.

— Espera, aquele capitão, Maren — ele prestou atenção de verdade.

Não era surpresa. O que surpreendia era a sensação de que talvez — só talvez — outros também tivessem visto.

'Não. Impossível. Meus irmãos não ligam pra o que eu faço. Certo?' — pensou consigo mesmo.

Ele riu baixinho.

'Se eles estiverem assistindo, provavelmente estão tramando meu funeral.'

Noel levantou-se e foi até a janela. A propriedade Thorne se estendia lá embaixo — igual de sempre. Jardins bem cuidados, guardas patrulhando, campos de treino ainda parecendo iluminados ao longe, no entardecer que se despedia.

Já parecia tudo normal.

Mas ele não se sentia normal.

Nem mais.

— Não tenho ideia do que vai acontecer daqui pra frente, — murmurou. — Essa definitivamente não é a história que eu conhecia. Só tenho que seguir em frente… e torcer pra que os eventos principais não escapem demais do controle.

Seus dedos roçaram o quadro de janela gelado, a luz tênue da lua projetando sombras longas no chão.

— Voltei dos mortos por um motivo. —

Uma pausa. Seus olhos se estreitaram.

— Não. Eu sei por quê. —

Soltou um suspiro, como se a verdade amarga estivesse escapando lentamente.

— Aquela pequena missão. —

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