O Extra é um Gênio!?

Capítulo 38

O Extra é um Gênio!?

O som de metal se chocando soou agudo no ar frio da manhã.

Ainda era cedo — aquela hora que a maioria dos nobres jamais ousaria sair da cama — mas o pátio de treinamento da Casa Thorne já estava vivo. Dezenas de soldados treinavam em formação, lâminas brilhando sob o sol nascente, vozes dando ordens, pés batendo no chão de pedra.

Noel entrou no pátio aberto sem dizer uma palavra.

Seu casaco havia desaparecido, substituído por uma túnica de treinamento escura sem mangas e calças ajustadas. Seus botas estavam bem presas. Seu cabelo estava preso para trás. E na cintura, como sempre, pendia a Presa Visionária, firmemente presa na bainha de couro gasta.

Cabeças se viraram.

Um a um, os soldados pararam a meia distância, com os olhos se voltando para ele.

Alguém deu uma risadinha perto dos postos de tiro com arco.

Outro sussurrou em voz baixa: "Parece que o riquinho quer suar com os verdadeiros homens."

Noel ignorou.

Ele atravessou o pátio em passo tranquilo, parando pouco antes da praça central de combate. Seus passos na terra faziam um leve estalo ao tocar o chão.

Deixou cair a sacola de treino, alongou os braços lentamente e começou a fazer sua sequência de aquecimento.

Giros de pescoço. círculos nos ombros. avanços profundos. Tudo suave. Controlado. Como um ritual.

Alguns soldados perceberam.

A maioria apenas sorriu de canto.

"Acha que ele perdeu o foco?" um murmurou. "Deveria estar em uma varanda, tomando chá."

Outro riu. "Talvez esteja tentando impressionar o papai de novo. Patético."

'Podem falar o que quiserem, eu nem ligo.'

'Barulho não muda o corte da minha lâmina.'

Noel passou a praticar treinamentos de movimentação.

Passos para frente. giros de lado. transferências de peso.

Depois, nas formas.

Com a espada desembainhada, ele executava movimentos limpos — transições entre posições, golpes precisos, posturas de recuperação.

Não era rápido.

Não era exibicionista.

Apenas afiado e eficiente.

Com o tempo, os murmúrios começaram a diminuir.

Mas os sorrisos sarcásticos permaneciam.

E acima de tudo, de uma plataforma elevada perto da parede da armeria, um par de olhos calmos e afiados observava cada movimento em silêncio.

Noel se movimentava com fluidez pelo espaço de luta.

Passo invertido. diagonal para baixo. mudança de guarda. contragolpe. reposição.

Ele não era rápido.

Não era chamativo.

Mas era deliberado. Preciso.

Para os soldados que assistiam das bordas do pátio, no entanto, precisão era a última coisa que eles respeitavam.

"Tsc. Olha a postura dele," zombou um. "Vai acabar se quebrando antes de conseguir quebrar alguém."

"Ele está mesmo dando golpes com força?" outro questionou. "Isso é só aquecimento, no máximo."

"Não tem força na movimentação. Parece que só está passando o tempo."

"Ele nem tenta finalizar com força. Sem falar que parece que está só fazendo charme."

"Já vi escudeiros baterem mais forte que isso," completou um terceiro, cruzando os braços. "Aposto que está segurando para não quebrar uma unha."

Mais risadas se espalharam.

Noel não reagiu.

Nem um olhar. Nem uma expressão de irritação. Nem um sinal de que tinha ouvido.

Ele passou para uma sequência de golpes ascendentes, transição para uma rotação de passo e, por fim, concluiu o movimento com um contra-ataque limpo — tudo ainda com calma, ainda concentrado.

"Tente impressionar alguém?" um gritou mais alto. "Porque não está funcionando."

"Melhor voltar a polir talheres," sugeriu outro, mal disfarçando o desprezo.

E, mesmo assim, Noel permaneceu em silêncio.

Ele recolheu a espada, voltou para a posição inicial e começou tudo de novo, do começo.

Seus movimentos não mudaram.

Sua concentração não vacilou.

E o silêncio que ofereceu a eles? Foi mais perturbador do que qualquer insulto.

Alguns de quem zombava fizeram uma pausa — não por respeito, mas por desconforto.

Porque eles esperavam arrogância.

Esperavam ego.

O que receberam foi disciplina.

O capitão Maren estava à beira do pátio, com os braços cruzados atrás das costas, expressão difícil de decifrar.

Ele não era de tirar conclusões precipitada. Para a Casa Thorne, poder falava mais alto que postura, e linhagens nem sempre traduziam talento real. Já tinha visto mais de um moleque tentar manejar uma espada como se fosse brinquedo.

Mas isso…

Seu olhar se estreitou, acompanhando cada movimento de Noel.

A postura. Balanceada. Firmada no chão. Não perfeita, mas quase.

Os golpes eram controlados e intencionais, sem movimento desperdiçado em nenhum ataque.

A forma — didática. Não era a mais chamativa, nem a técnica mais recente da capital — mas era um dos estilos clássicos.

Maren murmurou para si mesmo.

"Será que esse é o jovem que eu lembro?"

Ele olhou para o pequeno grupo de soldados que zombavam à beira do treino. O ruído deles agora era como zumbido de mosquito — olhos pouco treinados julgando de longe.

"Isso é prática diária, ele tem uma base melhor que a de muitos dos meus soldados," pensou Maren em silêncio.

Essa era a grande diferença.

A maioria dos nobres exibia-se para se sentir superior.

Este, ao contrário, buscava melhorar.

O capitão inclinou levemente a cabeça.

Sua percepção de mana estendeu-se por um momento, passando pela presença de Noel.

Ainda um núcleo de Novato, sem dúvida — mas resistente. Refinada. Aquela que foi moldada por esforço de verdade.

E, mais importante…

Ela estava crescendo.

'Se continuar assim… não será uma personagem secundária nesta família por muito tempo.'

Maren exalou lentamente. Um canto da boca se abriu numa expressão de leve sorriso.

"Interessante."

Noel guardou sua espada de treinamento com um clique suave, virou-se para o grupo de soldados sussurrantes no canto do pátio. Sua expressão era indecifrável, mas seus passos eram deliberados — e carregados de intenção.

As risadas morreram na hora em que ele se aproximou.

Um deles, o mais barulhento antes, tentou disfarçar com um sorriso. "Boas técnicas, jovem mestre. Não achava que você tinha isso em si—"

"Nome," Noel interrompeu com firmeza.

O homem piscou. "Eh… Daron, senhor."

Noel apontou para ele. Depois para os outros dois que mais riam. "Vocês três. No centro do pátio. Agora."

Eles se olharam, inseguros.

O olhar de Noel se tornou sério.

"Vocês estavam barulhentos o bastante há pouco. Presumo que isso signifique que confiam na própria habilidade." Sua voz caiu um pouco, fria e nivelada. "Ou a boca é mais forte que a postura?"

Daron abriu a boca, fechou, e acenou firmemente com a cabeça. "Sim, jovem mestre."

Noel passou por eles, parando alguns passos adiante, virou-se de volta e cruzou os braços.

"Vocês são soldados da Casa Thorne. Ou seja, servem minha família."

As palavras ficaram no ar como uma guilhotina.

"Não sou seu companheiro de bebidas. Não sou seu parceiro de treino. Sou seu superior. E, a menos que sua patente tenha mudado nos últimos cinco minutos, você não deve falar de forma desrespeitosa sobre um Thorne, como se estivesse acima dele."

Ele deu um leve ombro, relaxando os músculos, a voz ainda completamente calma.

"Querem zombar do meu jeito? Então, vamos ver como é o de vocês de perto."

O pátio ficou em silêncio. Até os outros guardas pararam para assistir.

E, pela primeira vez naquela manhã, Maren parecia realmente entretido.

Noel ficou no centro do pátio, com a mão solta na empunhadura da espada de treino de madeira. Os três soldados estavam ao lado, trocando olhares tensos entre si.

O capitão Maren avançou com uma expressão ligeiramente carrancuda, com os braços cruzados.

"Jovem mestre," disse calmamente, "presumo que queira estas sejam duelos corretos, e não uma briga."

Noel confirmou com a cabeça. "Exatamente. Quero você como árbitro."

Maren arqueou uma sobrancelha. "Entendido." Ele virou-se para os homens. "Regras padrão de combate, então. Um contra um. Quem surrender primeiro, largar a arma ou ficar incapacitado — perde. Sem mana, sem magia, sem artefatos. É só técnica com espada."

Ele lançou um olhar direto aos soldados. "Quem trapacear, responde perante mim."

Os soldados engoliram em seco.

Noel respirou fundo, rolou os ombros. "Daron. Vamos começar."

O soldado entrou no ringue, com postura incerta. As mãos estavam muito fechadas na empunhadura, os cotovelos abertos demais.

Os olhos de Noel o escaneavam como uma águia.

Maren levantou a mão. "Comecem!"

Daron deu um passo à frente —

E foi tudo.

Noel avançou com um único passo, derrubando a espada numa diagonal brutal.

CRAC!

A arma de Daron voou de suas mãos, caindo no chão com som de impacto. O homem cambaleou para trás, piscando assustado.

Noel não deu seguimento. Ficou ali, calmo, controlado, com a lâmina apontada para baixo.

Daron segurou o pulso, surpreso. "…Que diabos?"

Maren nem pestanejou. "Fim da luta."

Suspiros e murmúrios dispersos correram pelo pátio.

Noel olhou para o próximo. "Você."

O segundo homem entrou — um pouco mais devagar dessa vez. Com a espada mais alta, mais cauteloso.

"Segunda luta," chamou Maren. "Comecem."

Dessa vez, o homem não atacou. Circulou ao redor. Noel o acompanhou, deslizando um pé de cada vez.

Então, o homem avançou — uma golpe horizontal limpo, mirando a barriga de Noel.

Noel se abaixou, girou o ombro numa rotação e acertou as costelas do adversário com a parte plana da espada.

O homem gemeu e caiu de joelhos.

Outro golpe, rápido e rasteiro — tocou a mão na espada com precisão. O homem assobiou e largou sua arma.

"Fim da luta."

Noel não comemorou. Não sorriu.

Virou-se para o último.

O último soldado parecia pálido, mas avançou.

Maren acenou novamente. "Última luta. Comecem."

Este tinha melhor equilíbrio. Postura sólida. Sabia lutar.

Noel esperou.

O confronto veio rápido — espadas colidindo em uma saraivada de golpes. Este não caiu imediatamente. Esquivou bem. Ajustou-se rapidamente.

Mas Noel não forçou por velocidade. Deixou a luta respirar.

Absorvia golpes com movimentos mínimos. Rolava com o impulso. Deixava o soldado cansar-se.

Então, quando o soldado exagerou na tentativa de um golpe descendente—

CLACK. Noel girou e bateu na espada dele com uma raspagem de costas.

O homem cambaleou. Noel parou a poucos milímetros da garganta dele, com a ponta da espada quase tocando.

Silêncio.

Então, a voz de Maren, calma e definitiva: "Fim da luta."

O capitão Maren permaneceu no lugar, com os braços cruzados, seguindo com o olhar o jovem Thorne que se afastava do círculo de combate.

Sem dizer uma palavra.

Sem se exibir.

Apenas precisão silenciosa e controle aterrador.

O silêncio no pátio virou silêncio de espanto. Até as zombarias anteriores sumiram diante do impacto.

Todos os soldados estavam agora assistindo.

Maren exalou pelo nariz, com pensamentos mais aguçados que sua expressão.

"Três duelos. Três vitórias. Nem ao cansaço."

Ele olhou para o homem que deu a melhor luta em Noel — ainda massageando o pulso dolorido, olhos arregalados de incredulidade. Os demais nem levantaram a cabeça.

"Ele não é chamativo," murmurou Maren em segredo. "Mas, meu Deus, é eficiente."

Gostava de ver isso no movimento de Noel, na força dos golpes, na leitura de cada adversário como um livro já bem conhecido. Não era instinto. Era disciplina. Repetição. Treinamento implacável.

"Quem ensinou isso pra ele?"

Noel ficou sozinho agora, com a espada apoiada no ombro, olhando para as manequins de treino com uma expressão distante.

Ele não deu atenção aos olhares surpresos.

Não buscou aprovação.

Não precisava.

Era isso que deixava os homens desconcertados. Não as vitórias — eles já tinham visto gente ganhar luta — mas o foco silencioso, a lâmina de navalha escondida sob uma máscara educada.

Maren coçou o queixo.

"Esse vai sacudir as coisas. Que a Casa Thorne esteja pronta ou não."

Ele virou-se para o resto dos soldados.

"Voltando aos treinos," ordenou.

Eles dispersaram como ratos.

Mas, de tempos em tempos, um deles lançava um olhar para Noel.

Continuando a observar.

Ainda sem entender exatamente o que tinham acabado de testemunhar.

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