
Capítulo 37
O Extra é um Gênio!?
As folhas estavam mais frias do que ele se lembrava.
Não por causa do clima—fria pela ausência de som, pela familiaridade sem calor.
O olhar de Noel se abriu lentamente, ajustando-se à luz tênue da manhã que filtrava pelas pesadas cortinas do seu quarto de infância.
A mesma cama com dossel.
Os mesmos tetos altos e mobília de madeira entalhada.
A mesma sensação estéril de incenso e dinheiro antigo.
Ele se sentou lentamente, respirando fundo, com os músculos rígidos da viagem. Uma dor suave permaneceu nas costas, do tipo que vem não de uma batalha—mas de tentar por muito tempo parecer tranquilo.
Ele rolou as pernas pra fora da cama e deixou os pés tocando o piso de pedra polida.
'Três meses passados, e parece que nunca saí daqui.'
Descalço, caminhou até o banheiro—com azulejos de mármore e uma pia que brilhava com prata polida. A água quente caía, um conforto raro nesta casa, e ele ficou sob o chuveiro por mais tempo do que pretendia.
O vapor preencheu o cômodo.
Ele não aliviou o peso que carregava nos ombros, mas deu-lhe tempo para respirar.
Depois de limpar-se e se secar, vestiu as roupas que estavam deixadas para ele:
Um casaco nobre cinza escuro, com detalhes pretos, de gola alta. Uma camisa branca nova por baixo. Calças pretas justas, e suas botas—polidas até refletirem a luz.
Ele prendeu o cinto, depois pegou Revenant Fang, apoiada contra o guarda-roupa. A espada se encaixou suavemente na bainha na altura do quadril, o peso familiar.
Ele foi até o espelho e hesitou por um momento.
Cabelo penteado. Roupas impecáveis. Postura ereta.
O reflexo que lhe devolvia era exatamente o que a Casa Thorne esperava.
E, ainda assim—
'Não sei exatamente o que ele acha de Noel Thorne.'
'Não de mim. De mim mesmo. Do original. Aquele que eu substituí.'
'Eu não era o protagonista deste mundo. Não ia ver o que vinha a seguir.'
Ele deu um sorriso leve, sem humor, para seu reflexo.
Depois se virou.
O(a) mordomo chegaria a qualquer momento agora.
E o Patriarca não gostava de esperar.
Um toque suave na porta.
Noel se virou no instante em que o mordomo entrou, fazendo uma reverência precisa e treinada.
"O Senhor Patriarca irá recebê-lo agora."
Noel deu um aceno silencioso e o acompanhou pelos corredores do manor—passagens longas de pedra fria, ladeadas por retratos de família que pareciam encarar de forma acusadora suas molduras douradas.
Quanto mais avançavam, mais silencioso tudo ficava.
Os passos de Noel ecoavam pouco contra o mármore até atingirem as portas do escritório—madeira castanho escura, entalhada com o brasão dos Thorne: uma cabeça de leão envolta por espinhos.
O mordomo abriu uma porta com um rangido suave.
Noel entrou.
O escritório era vasto, antigo, cheio de livros que exalavam cheiro de tempo e conhecimento. Uma única janela alta deixava entrar um feixe de luz que atingia a mesa polida no centro do cômodo, como um holofote.
Sentado atrás dela estava Lorde Albrecht Thorne.
O homem não se levantou. Não precisava.
Estava sentado, mas de alguma forma mais alto que o ambiente ao redor.
Seu porte era imponente—ombros largos, costas retas, uma postura que fazia homens se sentirem menores sem precisar dizer uma palavra.
Seu cabelo, antes negro azulado, estava brilhando em prateado, nas têmporas, penteado para trás, impecável. Seu rosto angular transmitia severidade: maçãs do rosto altas, nariz afilado, boca que parecia ter esquecido como sorrir.
Vestia um casaco nobre de corte militar—preto, com detalhes vermelhos sangrentos e acometido por um brasão de leão em prata. Nada de joias. Nenhum anel. Apenas um selo na mão esquerda, brilhando discretamente sob a luz.
Porém, mais do que sua aparência—
Era a aura que transmitia.
Não era magia.
Era... peso.
Como ficar diante de uma estátua de pedra que poderia ganhar vida se você dissesse a coisa errada.
Noel se aproximou do centro da sala e fez uma reverência baixa, mas controlada.
"Pai."
Lorde Albrecht não fez sinal para que ele se levantasse.
Seus olhos—friamente, cinza pálido—o estudaram em silêncio por um longo instante. Não como um pai que vê seu filho.
Como um homem avaliando um bem.
Finalmente, sua voz soou baixa e firme:
"Você voltou."
Noel se levantou novamente, encarando-o sem recuar.
"Sim."
Mais uma pausa.
Os olhos de Albrecht se fixaram na espada ao seu lado.
Depois, voltaram para ele.
"Você mudou."
Não foi um elogio.
Nem uma acusação.
Apenas uma observação.
'Vamos ver onde isso leva.'
Lorde Albrecht não ofereceu um assento.
Ele nunca fazia.
Noel permaneceu diante da mesa, braços ao lado, postura ereta, cada movimento calculado.
O silêncio no escritório era absoluto, salvo pelo sussurrar da lareira no canto—um som mais cerimonial do que reconfortante.
"Você enviou uma carta," disse finalmente Albrecht. "Uma carta curiosa."
Noel não respondeu. Apenas esperou.
"Imagino que seu conteúdo fosse verdadeiro," continuou o homem. "Que suas feridas na volta foram consequência de... uma coincidência infeliz."
O tom dele deixava claro que não acreditava em coincidências.
Mas também não ia insistir nesse ponto.
Noel assentiu uma vez.
"Sim. Resolvi isso."
Albrecht deu uma leve inclinada na cadeira, com os dedos entrelaçados na frente.
"Você voltou com mais do que um simples pulso. Seu nome foi mencionado no relatório pós-evento enviado pela academia. Várias vezes."
Noel não respondeu.
"Vieram a te ver na confusão. Participou. Interviu. Conquistou reconhecimento—embora tenha evitado a cerimônia."
"Eu estava inconsciente."
Albrecht levantou uma sobrancelha.
"Uma desculpa conveniente. Mas que não vou contestar."
Ele pegou de uma gaveta um pergaminho lacrado, com o brasão imperial estampado na cera.
"Uma homenagem da academia. A primeira concedida a um Thorne em mais de uma década."
Ele colocou sobre a mesa, sem fazer sinal de entregar a ele.
"Não é fama que valorizo," disse. "Mas prestígio é uma moeda. E você acabou de depositar algo que nos estava faltando."
Os olhos de Noel se voltaram ao selo, depois de volta ao pai.
'Então é assim que a aprovação se mostra.'
"Eu esperava pouco de você," acrescentou Albrecht. "Você deu mais. Isso... é aceitável."
Noel deu uma respiração curta, seca, de divertimento.
"Elogio alto. Vou mandá-lo gravar."
O homem mais velho não vacilou.
Levantar-se, finalmente—lento e deliberado.
Mesmo na idade, a presença dele não tremia. Sua altura, postura e quietude mantinham o peso de sempre.
Noel continuou em pé, com o olhar firme.
Albrecht passou pelo computador de escrivaninha e se dirigiu às janelas amplas, olhando para os jardins ao norte da propriedade.
"Você ficará aqui durante o fechamento da academia," disse. "Vamos ver se sua utilidade foi uma anomalia—ou o começo de algo maior."
Ele virou-se de volta.
"Por ora, está dispensado."
Noel fez um aceno preciso.
Depois virou as costas e saiu, com o pergaminho lacrado ainda na mesa atrás dele.
As portas se fecharam com um estrondo sutil, abafado pelo tempo e pelo silêncio.
Noel voltou a adentrar o corredor de pedra polida e luz fria, ladeado por retratos de antepassados cujos nomes ele mal se lembrava.
Caminhou lentamente.
Não porque estava cansado.
Mas porque cada passo parecia atravessar a vida de alguém diferente.
Servidores passaram por ele em silêncio—olhos baixos, passos suaves. Eles não o cumprimentaram. Não precisavam. Foram treinados para isso.
Noel passou a mão levemente na grade entalhada da escada ao descer para o corredor leste.
Era tudo igual.
A mesma fragrância de cedro e cera.
As mesmas janelas pesadas.
A mesma calmaria gélida que pairava nos corredores, como uma névoa que nunca se dissipa.
'Tudo aqui lembra de um Noel que não sou eu.'
'E todo mundo espera que eu continue interpretando seu papel.'
Ele entrou por um dos corredores laterais e saiu no pátio dos fundos—agora vazio, os jardins preservados, porém abandonados. Estátuas de guerreiros sem rosto alinhadas nas bordas. Uma fonte seca no centro, como uma relíquia esquecida.
Ele se lembrou—de forma vaga—de um momento do romance:
Um escândalo futuro.
Uma vergonha que mancharia o nome da Casa Thorne.
Sua queda.
Mas os detalhes eram vagos. Uma cena. Uma página. A casa virou um exemplo. Rumor de fundo. Nada mais.
Naquela época, não importava.
Agora?
Importa.
'Estou em uma casa com um futuro que não compreendo totalmente.'
'E não sei quais peças já estão em movimento para destruí-la.'
Noel empurrou a porta e voltou ao seu quarto.
A luz tênue entrava pelas cortinas fechadas. A lareira já apagou.
Ele não se incomodou em reacendê-la.
Sentou-se na beira da cama, desabotoando lentamente seu casaco, um por um, até que a rigidez da formalidade se dissesse e ele pudesse simplesmente respirar.
Sua espada encostada na parede. As botas guardadas ao lado.
Tudo em silêncio novamente.
Mas sua mente não.
Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, com os dedos entrelaçados.
'No romance, a Casa Thorne tinha um nome.'
'E esse nome virou um aviso.'
O livro não dedicou muitas páginas a isso.
Só uma ou duas linhas.
Menções a escândalos, traições, vergonha que se desenrolaram fora da cena—nos bastidores, longe do centro da história.
O protagonista não se envolveu.
Noel quase não prestava atenção nisso na época.
Mas agora?
Agora ele vivia no lugar que estava destinado a cair.
Dormindo em seus corredores.
Carregando seu nome.
E, pior de tudo?
'Não sei quando começa. Não sei quem dá o primeiro passo. Não sei nem se eu já comecei.'
Ele se recostou, deixando os ombros afundarem na mattress.
Olhando para o teto.
Pensou em Lorde Albrecht.
A presença dele.
Sua postura.
Seu controle.
Não havia magias explícitas—mas Noel podia sentir.
A mana bruta enterrada sob a pele do homem. Ainda. Silenciosa. Letal.
"Ele é um combatente de nível Arquimago."
"Um dos mais fortes do continente de Valor."
"E mesmo assim... a casa ainda queima no final."
Como um homem assim permite que sua família apodreça?
Como um guerreiro desse nível fica quieto enquanto as paredes desabam ao seu redor?
A menos—
"A menos que—"
"A menos que ele não se importe."
"Ou talvez... seja ele quem inicia o incêndio."
Esse pensamento o deixou mais frio do que a própria mansão poderia jamais fazer.