O Extra é um Gênio!?

Capítulo 36

O Extra é um Gênio!?

A manhã rompia suavemente sobre as torres orientais da academia, projetando sombras longas na praça de calçada onde várias carruagens nobres aguardavam, com brasões brilhando em ouro e prata.

Estudantes se reuniam em pequenos grupos.

Risadas. Despedidas. O barulho das malas sendo arrumadas.

Alguns se abraçavam.

Outros apertavam as mãos.

E alguns apenas davam acenos cansados — daqueles que diziam que sobreviveram sem precisar de palavras.

Noel estava a alguns passos de tudo aquilo.

Um pouco afastado.

Observando.

Ele vestia o mesmo casaco azul-marinho de nobreza em que tinha chegado há três meses — o acabamento prateado captando a luz.

Uma camisa branca, bem passada, por baixo, com as mangas cuidadosamente dobradas.

Botinas pretas lustrosas.

Seu cabelo, uma vez mais, penteado para trás, limpo e controlado.

No cinto, pendia o Presa do Retorno, sua bainha preta reluzindo levemente na luz suave. Não chamava atenção a menos que alguém estivesse olhando — mas, para Noel, seu peso era algo que o ancorava.

Ele passou uma mão com luva na manga do casaco, depois se virou quando uma voz chamou do caminho.

"Thorne!"

A voz era de um homem magro, mais velho, usando um sobretudo cinza — o cocheiro.

Ele estava ao lado de uma charrete elegante, preta com detalhes prateados, com o brasão de Thorne gravado em aço na porta. Os cavalos eram magros, fortes e totalmente imóveis.

"Ordem do Lorde Albrecht era para te trazer direto para casa," disse o homem com uma breve reverência. "Espero que sua viagem tenha sido… produtiva?"

Noel levantou uma sobrancelha.

"Defina produtiva."

O homem sorriu de forma seca, profissional.

"Assuntos da academia não são minha preocupação, meu senhor. Apenas faço a entrega."

De trás deles, vozes ecoaram pelo pátio:

"Ei! A gente escreve, viu?"

"Não esquece de visitar a Elarith!"

"Acha que a Academia vai estar reconstruída antes dos festivais?"

Noel olhou brevemente para trás.

Estudantes entrando em outras duas carruagens — destinadas a outros cantos do império.

Parte dele se sentia como um fantasma assistindo tudo de fora.

'Eles vão para casa. serem paparicados. fingir que tudo não passou de um pesadelo ruim.'

'Enquanto isso, eu estou indo direto de volta para o meu.'

Ele virou-se em direção à carruagem de Thorne.

A porta já estava aberta.

O interior era luxuoso: assentos de veludo preto, pequenas estantes para livros e até um porta-velas com uma garrafa de água gelada — intacta.

"Malas já estão garantidas," acrescentou o cocheiro, apontando para trás.

Noel assentiu uma vez, colocou a mão na moldura da porta e parou por um momento.

O sol bateu exatamente na bainha de sua espada.

'De volta ao inferno.'

Ele subiu e deixou a porta se fechar atrás dele.

O carro avançou um instante depois — as rodas fazendo um som suave ao passar por pedras, enquanto os portões da academia desapareciam ao fundo.

O interior da carruagem estava silencioso.

Demasiadamente silencioso.

Noel mexeu-se na poltrona, o veludo macio sob ele, e estendeu a mão até a pasta de couro ao seu lado.

De lá, tirou um pergaminho cuidadosamente dobrado — selado na manhã daquele dia com cera e cordão. Recém-chegado de um dos vendedores da academia.

Um mapa.

Ele quebrou o selo, desenrolou cuidadosamente no colo e recostou-se para estudá-lo enquanto a carruagem balançava suavemente na estrada.

O papel era grosso, escrito à mão com tinta, claramente caro — e valia cada moeda.

'No livro, só via nomes. Fronteiras. Descrições gerais.'

'Mas agora estou aqui. E preciso entendê-lo melhor do que ninguém.'

A primeira vista, o mundo estava dividido em três continentes enormes, cada um com sua forma e território distintos.

VALOR

O continente dos humanos.

Dominado pelo Império Valon, uma potência de força política, mágica e militar.

No seu centro: Valéria, a capital imperial — brilhante, antiga, assustadora.

A Academia Imperial de Vaelterra, onde Noel passara os últimos três meses, ficava aninhada na extremidade oeste.

Ordem, hierarquia, controle.

Seus dedos desceram de Valéria em direção ao sudoeste — para casa.

'A propriedade Thorne. Em Valor. Ainda perto demais de tudo o que quero evitar, e nada que eu possa fazer a respeito.'

ELARITH - O maior continente de longe.

Uma mistura de raças: elfos, anões, homens-bestas, reinos humanos dispersos.

Dividido por dezenas de regiões soberanas, casas guerreiras e zonas neutras.

A magia aqui era mais antiga, mais ligada à natureza, menos rígida do que na estrutura de Valor.

Separado de Valor pelo mar ao norte e conectado por cadeias de montanhas ao sul.

'Um pesadelo político, mas um tesouro de ruínas esquecidas, magia perdida e rancores antigos.'

VELMORA - O continente dos demônios.

Irregular, selvagem, perigosa — mas não inerentemente maligna.

Seu povo era frequentemente mal interpretado.

Culturalmente isolados, tanto por história quanto pela barreira natural das montanhas do sul.

'No romance, eles são inimigos. No começo. Mas, eventualmente... aliados.'

'Se a história ainda segue o roteiro de verdade.'

Noel dobrou o mapa novamente, desta vez mais lentamente.

Ele não precisava memorizar tudo de uma vez.

Mas tinha que guardar uma coisa:

'Este mundo é maior do que só nobres e política.'

'E eu não sou mais só um personagem de fundo.'

Ele recolocou o mapa na pasta, recostou-se e olhou pela pequena janela, enquanto a paisagem passava rápida.

Campos.

Caminhos ondulados.

Sombra tênue das montanhas ao longe.

E, além delas —

Casa.

A paisagem passava em um silêncio tranquilo.

Campos se transformaram em florestas densas.

O caminho imperial, antes bem asfaltado, começou a rachar, torcendo para algo mais antigo — menos trafegado.

Noel, acomodado na carruagem de veludo, com os braços cruzados, um pé descansando sobre o joelho oposto.

Ouviu o sutil barulho das rodas das outras duas carruagens na comitiva.

Algumas vozes abafadas. Risadas. Um estudante gritando uma última despedida por uma janela aberta.

Noel não respondeu.

Num cruzamento largo, coberto de samambaias, a comitiva diminuiu o ritmo.

As outras carruagens desvincularam-se — uma voltando para as províncias do norte, a outra rumo à costa dos comerciantes.

A de Noel virou para o sul.

Seu caminho agora era só dele.

O cocheiro falou pela fresta da frente, com voz formal e firme:

"Terras do Lorde Thorne, logo à frente. Chegaremos antes do pôr do sol, salvo qualquer atraso."

Noel assentiu brevemente e se apoiou na moldura da janela, olhando para fora.

O ar já tinha outro cheiro. Mais pesado. De pinho, pedra e distância.

À frente, as cordilheiras finalmente se revelaram — picos jaguados, com neve no topo, elevando-se ao longe, formando a barreira natural que divide Valor de Elarith.

E, encravada na base dessas montanhas —

A propriedade Thorne.

Ainda imponente.

Ainda sombria.

Ainda mais parecida com uma fortaleza do que com uma casa.

Ele sorriu interiormente, levemente.

'Bom saber que mantêm a consistência.'

'Não quero ser recebido de volta com algo quente ou alegre. Isso deslocaria toda a estética da família.'

Conforme a carruagem subia a última encosta, os portões de ferro preto apareceram à vista.

Dois guardas, em armadura completa, com lanças na mão, faces ocultas sob o helm.

Mesmo uniforme. Mesma resposta silenciosa.

Noel ajustou o casaco, passou a mão na manga para tirar uma poeira e estendeu as pernas.

'Três meses lá fora, três meses crescendo de força.'

'Vamos ver se a casa de Thorne ainda me considera o menorzinho da turma.'

A carruagem parou.

Os portões começaram a se abrir.

E Noel se inclinou um pouco, com expressão séria.

Os portões de ferro negro rangiram ao abrir, ecoando pelas árvores.

A carruagem avançou, as rodas fazendo som de pedra ao passar pelo limiar da propriedade Thorne — um lugar construído com mais pedra do que calor e mais orgulho do que afeto.

Ao entrar no pátio interno, Noel aproveitou para olhar ao redor.

Mesmo torre.

Mesmas estátuas.

Mesmo ar de formalidade frio marcada em cada detalhe da propriedade.

Nada tinha mudado.

Quase nada.

No topo das escadarias, duas figuras familiares aguardavam: um mordomo e um cavaleiro.

Ambos se curvaram ao verem a carruagem parar.

O cocheiro desceu e abriu a porta para ele.

Noel saiu lentamente, sua capa mexendo ao vento, a espada ao lado.

"Lorde Noel," cumprimentou o mordomo, olhando para baixo. "Seja bem-vindo de volta."

Noel acenou com a cabeça.

"Não precisa parecer tão animado. Alguém pode pensar que você sentiu minha falta."

O mordomo não sorriu. Nem nunca sorria.

"Preparamos seus aposentos. Seu pai falará com você amanhã."

"Claro que vai," murmurou Noel.

O cavaleiro ao lado assinou com rigidez, e os dois se afastaram enquanto ele passava por eles, subindo as escadas de pedra.

As portas do grande hall se abriram silenciosamente.

E o silêncio engoliu-o por completo.

No interior, o cheiro era de móveis polidos, livros antigos e memórias mais frias ainda.

A equipe se movia silenciosamente. Sempre assim. Treinada para isso.

Noel caminhou pelos corredores com facilidade, passando pelo salão principal, pelo grande refeitório e pelos retratos de ancestrais que pareciam desaprovar sua própria existência.

Ele não parou.

Não olhou para trás.

Seu quarto ficava no puxado leste, no segundo andar.

Quando chegou à porta, não hesitou.

Abriu.

Entrou.

E deu um suspiro de alívio.

Sua mala já estava ali.

Uma pequena lareira acendia uma fogueira tênue — provavelmente acenderam antes de sua chegada.

O quarto estava exatamente como deixara.

Livros ainda intocados.

Mesa impecável.

Cama grande demais para ser confortável.

Noel colocou sua espada cuidadosamente na parede, ajustou o colarinho do casaco e sentou-se na beirada da cama.

Olhou para o chão por um longo momento, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

Depois —

Deitou-se.

Fechou os olhos.

E permitiu-se respirar.

Por um tempo.

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