
Capítulo 26
O Extra é um Gênio!?
Faltam 9 dias.
A noite envolveu a academia em um silêncio pesado enquanto Noel se infiltrava nas áreas restritas do Salão Principal, movendo-se com a paciência de um predador.
Ele não tinha como alvo o próprio salão de banquetes.
Ainda não.
Ele se dirigiu aos locais mencionados durante a reunião secreta—as salas subterrâneas, enterradas bem abaixo dos alicerces da academia. Lugares esquecidos. Lugares escondidos. Exatamente onde você esconderia algo que não quer que seja encontrado.
Noel atravessou corredores de serviçais e túneis de manutenção abandonados, coração firme, passos silenciosos.
A maioria dos estudantes dormia.
Os demais? Concentrados nos exames. Em rumores. Na vida comum da academia.
'Eles não fazem ideia do que está por vir.'
'E se eu não me mexer rápido demais... eles nunca vão perceber.'
Ele encontrou a velha escadaria de serviço escondida atrás de um armário de suprimentos—meio derrubada pelos anos de abandono—e desceu.
O ar subterrâneo era denso, pesado, carregando o cheiro seco e elétrico de mana antiga e pedra em desintegração.
Abaixo, os corredores subterrâneos se estendiam—longos, rachados, carregados de poeira. A única iluminação vinha de cristais de mana dispersos nas paredes, lançando sombras azuladas pálidas.
Fileiras de antigas salas de aula alinhavam-se ao longo do corredor.
A maior parte das portas estava apodrecida, algumas penduradas nas dobradiças. Os sinais estavam ilegíveis, corroídos pelo tempo. Aqui e ali, marcas de queimaduras antigas manchavam as paredes—fantasmas de feitiços há muito esquecidos.
Era o lugar perfeito para esconder algo letal.
Noel moveu-se cuidadosamente, de forma sistemática.
Verificando cada sala.
Algumas estavam vazias, apenas com mesas quebradas e estantes deformadas. Outras estavam seladas por barreiras rúnicas deterioradas, que brilhavam fraentemente ao seu toque.
Mesmo assim, ele prosseguiu.
'Os outros nem sequer sabem que a ameaça real existe.'
'Marcus enfrentará os atacantes quando chegar a hora. Ele é o herói da história.'
'Mas isso... isso depende de mim.'
Porque, se não as encontrasse logo—
todos morreriam.
Demorou um pouco.
Mais do que ele esperava.
Noel avançou mais fundo no labirinto de corredores colapsados e salas mortas, navegando entre poeira e silêncio.
Ele escaneava cada centímetro agora. Cada rachadura. Cada trecho exposto de pedra.
E então, encontrou.
Escondido atrás de uma coluna quebrada em uma sala semi-derrotada—um pequeno reator de mana enterrado na parede. O leve brilho de círculos rúnicos girava ao seu redor, delicado e mortal.
Ele se agachou.
Observou mais de perto.
Não era uma bomba no sentido tradicional. Sem pólvora. Sem fios.
Isto era pura engenharia de mana.
Uma estrutura de feitiço compacta, projetada para converter mana em força cinética—suficiente para fazer o hall desabar ao ser acionada.
Os círculos eram intricados.
Complexos demais.
Ele reconheceu alguns dos estabilizadores e marcadores de fluxo de energia dos seus cursos—mas outros? Estavam muito além de tudo o que ele tinha estudado.
Noel pegou seu caderno de bolso e começou a copiar os runas manualmente, esboçando seu fluxo, anotando os torções onde os estabilizadores se transformavam em fusíveis.
Depois de uma hora, ele recostou-se, frustrado.
'Não posso reescrever isso. Ainda não.'
Ele entendia o fluxo básico—mas os selos de compressão de mana de alto nível? As condições de ativação em camadas? Essas eram de outro nível completamente.
'Um erro pequeno e poderia acionar a sequência automaticamente.'
Ele passou a mão pelo rosto, pensando profundo.
Precisava entender aquilo. De verdade.
E isso levaria horas—talvez dias—se fizesse sozinho.
'Não dá pra confiar.'
Havia uma pessoa.
Alguém que vivia e respirava manipulação de mana.
Alguém que pudesse olhar para esses círculos rúnicos e ver suas fraquezas instantaneamente.
Professor Daemar.
Professor de manipulação de mana.
Rigoroso. Brilhante.
E, embora ainda não fosse de conhecimento público, Noel lembrava do romance:
'Ele está a um passo do nível de Arquimago.'
Um Arquimago.
Três patamares completos acima de Novato.
Um salto quase impossível para um mago comum sonhar.
'Se alguém pudesse me ajudar a entender essa estrutura sem perceber para quê ela serve... seria ele.'
Mas tinha que ter cuidado.
Daemar não podia saber no que ele realmente estava trabalhando.
Já começava a montar a ideia na cabeça:
Uma "missão" hipotética. Uma questão fabricada sobre teoria avançada de compressão de mana.
Suficiente para despertar o interesse de Daemar.
Suficiente para obter respostas reais e aplicáveis.
Sem levantar suspeitas.
'Apenas um estudante curioso sobre arquitetura de feitiços.'
'Nada suspeito mesmo.'
Noel fechou cuidadosamente seu caderno.
Agora tinha um plano.
Era hora de agir.
E o tempo estava se esgotando.
Faltam 9 dias.
Na manhã seguinte, Noel permaneceu com a cabeça baixa durante as aulas.
Interpretou seu papel perfeitamente: o primeiro ano um pouco cansado, um pouco estressado, só tentando sobreviver ao final do semestre.
Ninguém duvidou.
Depois das aulas, seguiu casualmente em direção ao escritório do Professor Daemar, uma pilha espessa de "notas de estudo" debaixo do braço.
Repetia mentalmente suas falas.
'É só uma hipótese. Uma curiosidade sobre estruturas de compressão de mana. Nada de estranho.'
Ao bater, a voz aguda e familiar de Daemar veio de dentro.
"Entre."
Noel entrou, fechando a porta suavemente atrás de si.
O escritório era como sempre—arrumado, frio, repleto de grimórios empilhados como armas precisas, diagramas de mana projetados acima da mesa, brilhando suavemente.
Daemar olhou para cima, de um conjunto denso de pergaminhos.
Noel tossiu.
"Professor, o senhor tem um momento?"
Daemar levantou uma sobrancelha, mas fez sinal para a cadeira à sua frente.
"Estou trabalhando, mas se for rápido."
Noel se sentou cuidadosamente.
Pegou algumas páginas de seu monte—diagramas completamente fabricados, imitando as estruturas rúnicas que tinha visto ao redor da bomba, mas sem copiá-las exatamente.
"Senhor, estou estudando teorias avançadas de compressão de mana para uma nota extra. Encontrei alguns exemplos em livros antigos e... tenho perguntas."
O olhar de Daemar se aguçou.
'Conectado.'
Noel manteve a expressão neutra, com olhos levemente cansados, fingindo ser um estudante curioso e dedicado.
"Essas estruturas—principalmente a forma como os nós de compressão de mana interagem com os gatilhos cinéticos—" ele tocou um dos esboços, "—não consigo entender totalmente como a estabilização deve funcionar. Parece quase... recursiva."
Daemar se inclinou para frente, examinando os diagramas.
Franziu a testa.
Não de forma desaprovadora.
De modo pensativo.
"Você não está errado. Camadas recursivas. Muito ineficiente, a menos que o projetista estivesse tentando criar um efeito de atraso."
Noel concordou lentamente. Anotou tudo.
"E se os selos de compressão estiverem ajustados demais...?"
"Eles criariam um ciclo de feedback catastrófico. Explosivo, potencialmente letal dependendo do material do núcleo." Daemar olhou-o com atenção. "De onde você tirou esses exemplos?"
Noel deu de ombros casualmente. "Pergaminhos arquivados no fundo da biblioteca. Coisas do Projeto de reconstrução da Idade Científica."
Não era exatamente mentira.
Daemar concordou com um aceno, aceitando a explicação.
Depois passou os próximos vinte minutos explicando como essas estruturas eram construídas—e, mais importante, como poderiam ser manipuladas ou desestabilizadas com segurança, sem acionar toda a cadeia.
Noel anotou com afinco.
Cada palavra importava.
Quando Daemar finalmente se recostou e voltou a consultar seus pergaminhos, dispensando-o com um gesto, Noel recolheu suas coisas rapidamente e saiu do escritório.
O corredor estava vazio.
Ele se apoiou na parede de pedra fria, respirando devagar.
"Agora posso enfrentá-los."
Faltam 8 dias.
Cada noite, Noel retornava aos corredores subterrâneos escondidos.
Armado com seu novo conhecimento, trabalhava lentamente—modificando círculos de mana, introduzindo falhas controladas, interrompendo cascatas sem ativar os alarmes.
Era um trabalho meticuloso.
Horas de carving cuidadoso, disrupções precisas nos runas, equilíbrio de mana sob pressão.
Todos os dias, ia às aulas.
Treinar.
Estudar.
Sorrir para Marcus e Clara.
Agir normalmente.
E, todas as noites, arriscava tudo bem sob os pés da academia.
Faltam 7 dias.
As paredes da academia zumbiam de excitação.
Rumores de um evento especial rodavam por toda parte—uma festa de encerramento de semestre, os cartazes começando a surgir.
Borda dourada.
Bandeiras vermelhas.
Uma grande celebração.
Noel observava tudo como um cortejo fúnebre disfarçado.
'Sete dias.'
A notícia veio no meio da manhã.
Os alto-falantes de cristal de mana embutidos nas paredes da academia se acenderam com um zumbido agudo, silenciando conversas nos corredores e salas de aula.
Uma voz—calma, cerimonial e inconfundivelmente oficial—ecoou por todo o campus.
"Atenção, estudantes e professores. Por ordem do Conselho da Academia, temos o orgulho de anunciar o Grande Banquete de Encerramento do Semestre. Uma celebração para homenagear o seu esforço e conquistas neste semestre."
Noel ficou congelado na mesa.
Estudantes ao seu redor aplaudiram, riram, até gritaram de alegria.
Alguns começaram a sussurrar sobre roupas, parceiros de dança, festas após o evento.
Mas para Noel?
Cada palavra parecia uma contagem regressiva.
'Agora é oficial.'
'Não há mais como recuar.'
Dentro de horas, os cartazes começaram a aparecer.
Paredes decoradas com detalhes dourados e vermelhos, letras brilhantes prometendo uma noite de celebração, comida fina e dança sob luzes encantadas.
O Banquete seria realizado no Salão Principal—claro.
O mesmo Salão que ele sabia estar preparado para explodir sob seus pés.
O mesmo local onde Marcus e os outros teriam que lutar pela vida contra atacantes ocultos.
'Isso realmente está acontecendo.'
Noel passou pelos cartazes, o coração pulsando forte.
Ninguém percebeu como seus ombros ficaram tensos.
Ninguém viu como suas mãos se fecharam levemente ao lado do corpo.
Estavam ocupados planejando roupas, escolhendo com quem dariam um convite para dançar, pensando em quais professores poderiam aparecer, que comida seria servida.
Ninguém pensou na morte.
Ninguém pensou nas bombas.
Noel se forçou a respirar, devagar e com firmeza.
'Faltam seis dias.'
'Ainda não terminei.'
Ele não poderia parar o banquete.
Mas ainda podia impedir o pior.
Ele tinha que.
Nessa noite, quando o sol se pôs por trás das torres da academia e os pátios ficaram longas sombras, Noel ficou sentado sozinho na sua mesa.
A sala estava escura, iluminada apenas por uma tênue lâmpada de mana.
Uma folha de pergaminho em branco diante dele.
Ele bateu a caneta na borda uma, duas vezes, pensando.
'Não pode parecer óbvio. Sem impressões digitais. Sem rastros.'
Ele mergulhou a pena na tinta e escreveu com traços rápidos e deliberados:
Ao Diretor,
Você deve ficar de olho no Professor Caldus.
Ele não é quem parece ser.
Seja discreto.
Você não quer que a reputação da academia mais prestigiada de Vaelterra sofra consequências irreversíveis.
— Um observador preocupado.
Noel releu uma vez.
Curto.
Conciso.
O suficiente para gerar dúvida.
O suficiente para fazer o Diretor ficar cauteloso, sem apontar dedos diretamente contra ele próprio.
Perfeito.
Ele dobrou a carta delicadamente, lacrou com cera comum—sem marcas, sem assinatura—e colocou dentro de um envelope simples.
Mais tarde, sob o manto da noite, ele deslizou o bilhete na caixa de mensagens segura junto à torre administrativa—a reservada para comunicações confidenciais ao corpo docente superior.
A caixa brilhou brevemente, absorvendo a carta em seus feitiços de contenção selados por mana.
Noel ficou ali por um momento, encarando a caixa vazia.
'Agora saiu das minhas mãos.'
O problema?
Ele sabia como o sistema de mensagens funcionava.
As cartas eram organizadas por ordem de chegada.
E, com o próximo banquete, os estudantes estavam inundando o conselho e a administração com petições, congratulações, pedidos de festa, sugestões, reclamações.
Ninguém podia prever quando—ou se—sua mensagem seria lida a tempo.
Mas era tudo o que podia fazer.
Por enquanto.
Ele virou-se e desapareceu novamente nas sombras, com o vento frio soprando ao redor das torres.
Faltam 6 dias.
O campus da academia começou a vibrar de energia.
Decorações surgiam em todos os edifícios. Luzes de mana eram penduradas entre as torres, pisca-piscando em padrões intricados. Estudantes corriam entre aulas e provas de roupas, praticando danças formais nos pátios abertos, rindo como se o mundo não pudesse lhes tocar.
Noel observava tudo de um canto tranquilo do andar superior da biblioteca, com os braços cruzados.
'Eles não fazem ideia.'
As bombas estavam resolvidas.
Todas as noites, nos últimos dias, Noel infiltrava-se nos túneis subterrâneos, trabalhando meticulosamente, sala por sala.
Usando tudo que tinha aprendido com Daemar—e toda cautela que possuía—ele modificou cada círculo de mana explosivo.
Cuidadosamente, silenciosamente.
Eles não iriam mais detonar corretamente. A cadeia se romperia antes que a energia pudesse ser totalmente acionada.
Não era uma solução perfeita.
Se alguém fizesse uma alteração física novamente, ainda poderiam ser recuperados.
Mas, a menos que os conspiradores fizessem uma inspeção completa—o que era improvável tão perto do evento—ele havia ganhado tempo.
Salvou vidas.
'Fiz minha parte completamente.'
'Agora cabe ao Marcus agir contra os atacantes.'
Mesmo assim, mesmo com esse peso um pouco aliviado, Noel não conseguia relaxar.
Ele não havia esquecido da segunda fase—a equipe de ataque que atingiria o Salão Principal diretamente durante o caos.
Essa parte ainda vinha.
E Marcus nem sabia disso ainda.
Noel tinha que estar pronto para agir, empurrar eventos onde fosse necessário, sem se revelar.
Mas, neste momento?
Ele estava no limite.
Todos os dias, era preciso mais esforço para se arrastar até as aulas.
Todas as noites, era preciso mais força de vontade para manter-se alerta, fingir que nada estava errado, esconder a exaustão com sorrisos fáceis e olhos semicerrados.
E, lá no fundo de tudo, uma voz sussurrava:
'Você está sozinho nisso.'
'Ninguém vai te salvar se tudo der errado.'
Noel respirou fundo e fechou os olhos por um momento, bloqueando os sons de risadas, de celebrações.
'Seis dias.'
'Mais seis dias.'
Ele iria aguentar.
Precisava.
Porque, se não fizesse, ninguém mais viveria tempo suficiente para se arrepender.