
Capítulo 21
O Extra é um Gênio!?
Quando o segundo Noel entrou, parou imediatamente.
A música pulsava pelos pisos—batidas rápidas e afiadas que faziam toda a sala parecer viva. Luzes dançavam nas paredes de pedra, espalhando tons de azul, vermelho e roxo, reflexos de cristais de mana pendurados no teto. Risadas ecoavam ao som da batida, o cheiro de álcool aromatizado e carne grelhada envolvia a multidão como uma segunda pele.
Havia estudantes por toda parte.
Centenas, pelo que parecia. Alguns ao redor do bar. Outros gritando de cima das mesas. Alguns já a metade da embriaguez, dançando nas bordas da sala.
E nenhum—nenhum—usava os uniformes rígidos da academia.
Camisas soltas, jaquetas folgadas, vestidos, botas de couro. Como se tivessem saído de um universo totalmente diferente.
Por um instante, Noel ficou ali, piscando como um idiota.
Ao lado dele, Roberto deu um apito baixo.
"Rapaz, esse lugar tá lotado," disse, batendo no ombro de Noel. "Vamos logo, drinks primeiro."
Eles se abriram caminho pela multidão e encontraram um espaço na balada.
O barman—uma mulher alta, com duas argolas no nariz e tatuagens de mana brilhando suavemente nos braços—deixou dois copos de dose na frente deles sem sequer perguntar.
Noel olhou o copo desconfiado.
Depois, olhou para Roberto.
"Você sabe que é ilegal beber antes dos dezoito anos, né?"
Roberto sorriu como se estivesse esperando por isso.
"Sim. E aí?"
Ele puxou duas identidades falsas do bolso da jaqueta e as balançou entre dois dedos.
"Vê? Totalmente legítimas."
Noel olhou para ele fixamente.
Depois para as IDs.
Depois de volta para Roberto.
Roberto deu de ombros. "O que eles não sabem, não faz mal. Além disso—a gente merece isso."
Noel soltou um suspiro pelo nariz, lutando contra um sorriso.
A lembrança veio mais forte do que esperava: noites embaralhadas, entrando escondido em baladas lá na Terra, uma carteira com uma identidade falsa horrível dentro, rindo demais com amigos que nunca mais veria.
'Que se dane. Depois de dois meses e meio de esforça, paranoia e provas, posso montar esse clima.'
Ele pegou a dose.
"Saúde, idiota."
"Saúde, estudioso."
Eles brindaram e engoliram as bebidas.
A queimação cortou o peito como uma soco.
Noel tossiu uma vez, riu e jogou o copo de volta no balcão.
A segunda dose pegou mais forte.
Não só a queimação—mas a temperatura agradável.
Ela escorreu pela garganta de Noel e se instale em algum lugar no peito, dissolvendo a tensão que ele nem sabia que carregava. O estresse, os cálculos, os alertas vermelhos na cabeça que nunca deixaram desde que acordou neste mundo… tudo ficou mais suave, como se a ponta tivesse sido lixada.
Ele se encostou no balcão, com os cotovelos para trás, olhando para a multidão de estudantes celebrando como se as provas nem existissem.
'Eu estou neste mundo há dois meses e meio.'
'Fingi uma vida. Espionei cultistas. Alderrei assassinos. Preparei-me para uma carnificina.'
'E agora estou aqui, bêbado com o que quer que seja aquilo, assistindo adolescentes dançarem sob cristais luminosos como se nada estivesse errado.'
Ele respirou fundo, sem muita vontade de rir.
Ao lado dele, Roberto virou o copo vazio de cabeça para baixo na bancada.
"Beleza," disse, com a voz meio rouca. "Esse foi péssimo. Vamos de novo."
Noel bufou. "De jeito nenhum."
"Cagão."
"Adulto responsável."
"Sai fora."
Noel sorriu.
Não era aquele sorriso típico, o sorriso afiado e reservado que fazia os outros ficarem na dúvida.
Era um sorriso de verdade.
Pequeno. Cansado. Mas genuíno.
'Que se dane. Só por hoje... não sou um planejador. Não sou um manipulador. Não sou um sabotador escondido nas sombras.'
'Sou só um cara.'
A música aumentou de volume, o ritmo mudou, e o chãobaixo deles vibrou como se toda a estrutura estivesse se movendo junto.
Roberto apontou para as escadas do canto, por onde os estudantes desciam para um segundo nível—rindo, gritando, com drinks na mão.
"Vamos lá," disse. "Ainda não acabou."
Noel não hesitou.
Ele seguiu.
A escada para o piso inferior era larga, esculpida em pedra polida que refletia suave sob a luz colorida. Enquanto desciam, o som mudava—não mais forte, exatamente, mas mais profundo. Mais pesado.
Bass.
Bass de verdade.
Noel parou no meio da descida e ficou completamente parado, olhando.
A sala abaixo parecia tirada de um sonho de fantasia moderna. Cristais nas paredes projetavam luzes em volumes e cores que se moldavam e se desdobravam, refletindo pelos pedaços de vidro pendurados, criando ondas sobre a multidão. O chão pulsava ao ritmo da batida, com um ritmo profundo que atravessava azulejos imbuídos de mana, que brilhavam a cada passo.
'Isto… isto não deveria existir.'
No outro lado do recinto, uma plataforma sustentava uma figura que parecia um DJ, ajustando botões de um painel coberto por runas. Ondas de som encantado saíam de cristais de alto-falante colocados nos cantos, sincronizadas com as luzes.
A música não era orquestral, nem refinada.
Era rápida. Intensa. Moderna.
E, surpreendentemente, boa.
Noel piscou lentamente.
'Este mundo... é medieval na estética, com certeza. Mas isto? Isto é algo completamente diferente.'
'Pularam a tecnologia. Foram direto do fogo às baladas alimentadas por mana.'
A multidão enchia o espaço—estudantes dançando, gritando, se movimentando como se não tivessem preocupação no mundo. As roupas também ajudavam nisso. Vestidos, túnicas sem mangas, botas, jaquetas cortadas, joias que brilhavam suavemente com encantamentos—ninguém parecia sair de uma academia tradicional.
E Noel?
Ele se sentiu deslocado por uns cinco segundos.
Depois, sorriu de novo.
'Nada mal, Valor.'
'Nada mal mesmo.'
Roberto cutucou-o com o cotovelo. "Quer dançar?"
Noel olhou para ele, sério. "De jeito nenhum."
"Já sabia. Então, drinks?"
"Agora sim, você falou a minha língua."
Continuaram andando, o ritmo da música acompanhando-os como um batimento cardíaco adicional.
O andar de baixo não era só uma pista de dança.
Era uma balada de verdade.
Balões de mana infundida flutuavam perto do teto, pulsando ao som da batida. Runes brilhantes contornavam o chão como circuitos, reagindo ao movimento de quem dançava acima deles. Cabines nas bordas—algumas descontraídas, outras claramente reservadas, elevadas por telas que refletem suavemente para bloquear o som de fora.
A música aqui era mais aguda. Mais agressiva. Como se tivesse dentes.
E funcionava.
Roberto pegou duas bebidas de uma bandeja flutuante que zippava por ali como se tivesse vida própria. Entregou uma a Noel e ergueu a taça em um brinde silencioso.
Noel cruzou o copo com o dele e deu uma golejada.
Doce. Fria. Com certeza alcoólica.
Dessa vez, deixou a bebida queimar lentamente, com os olhos procurando o público.
E então—ele os viu.
Marcus, sentado com Clara em uma das cabines do canto, conversando com Elena, que usava um rabo de cavalo baixo e roupas casuais que, de alguma forma, ainda a faziam parecer que comandava a sala. Ao lado deles, Laziel Varn, de cabelo verde, reclinado de lado como se fosse dono do sofá, e Garron Bale, de braços cruzados, bebendo de uma caneca que parecia pequena ao segurar nas mãos.
Eles pareciam relaxados. Humanos. Como colegas de classe, não personagens de uma história de guerra esperando para acontecer.
'Somos todos só crianças hoje à noite, hein?'
Lá do outro lado, Elyra estava com seu círculo habitual de estudantes nobres—estilosa, serena, já mergulhada em alguma conversa que Noel não se importava o bastante para adivinhar. Ela varreu o ambiente uma vez, olhou brevemente para ele e seguiu adiante, sem demora.
Noel respirou fundo.
'Nada de uniformes. Nada de regras. Nada de títulos.'
'Este lugar parece que não faz parte da história.'
Pegou mais um gole.
Deu-se ao luxo de respirar fundo.
Encostou-se na grade acima da pista de dança, com a bebida na mão, enquanto a música vibrava pelos ossos como uma criatura viva. Pela primeira vez em meses, sua cabeça não girava com planos ou riscos a calcular.
Estava simplesmente... ali.
E, pela primeira vez?
Isso bastava.
Roberto voltou do bar com outra bebida e uma expressão irritantemente convencida.
Noel levantou uma sobrancelha. "Por que você parece que vai falar uma coisa estúpida?"
Roberto apontou para o outro lado da sala.
"Lá. É ela."
Noel seguiu o olhar.
Lá estava ela. A mesma garota que sempre acabava ao lado de Roberto na aula de condicionamento. Cabelos pretos curtos, olhos brilhantes, vestida com algo perigosamente próximo do ilegal na academia. Ria com umas amigas, com o drink na mão, balançando um pouco ao ritmo.
Noel virou-se para Roberto.
"Você está brincando?"
Roberto apenas sorriu. "Este é o destino, meu cara. Não vim até aqui para desperdiçar."
"Então fala com ela."
"To tentando!"
Noel revirou os olhos. "Vai lá."
Roberto hesitou meio segundo—suficiente para Noel dar um empurrão em direção à garota.
"Ei—" Roberto se segurou, endireitou a jaqueta e começou a andar.
Noel assistiu enquanto ele se ia.
'Vai se dar mal.'
Ele sorriu para a bebida.
Depois franziu a testa.
Estômago mudou. Uma pressão familiar apareceu.
'Ah. Merda.'
Ele deu o resto da bebida para dentro e se levantou.
"Álcool nesse mundo também atrai merda, né."
Murmurou para si mesmo, balançou a cabeça e foi se esgueirando pela multidão para o corredor dos fundos, onde sinais encantados brilhavam o suficiente para não passar despercebido.
Ao caminhar, olhou uma última vez para trás, em direção à festa.
'Uma noite. É só isso.'
'Uma noite para parecer normal.'
E então desapareceu na porta.
O corredor até os banheiros era tranquilo, em comparação com a confusão lá fora. As paredes ainda de pedra, agora polidas e lisas, com sigilos suaves pulsando acima de cada porta—azul para o masculino, vermelho para o feminino.
Noel abriu a porta, entrou, e suspirou.
Silêncio.
Ar frio.
Encostou-se na pia por um momento, olhando-se no espelho.
'Cabelo uma bagunça. Olhos parecem que não dormi a semana toda.'
'Mais ou menos isso.'
Ligou a torneira, molhou o rosto e se inclinou—tentando aliviar o efeito do álcool só o suficiente para ficar atento.
Então, a porta rangeu ao abrir.
Pés.
E uma voz familiar.
"Noel?"
Ele olhou de canto.
Marcus.
Ainda de roupas casuais, com as mangas encolhidas, mais relaxado do que o habitual, mas igual de firme. Sorriu ao chegar perto da pia ao lado dele.
"Não esperava te ver aqui," disse Marcus. "Achava que você estaria de volta no dormitório, planejando os próximos cinco anos."
Noel bufou. "Pois é... até os espectros precisam de uma noite de folga."
Marcus deu uma risada, secando as mãos. "Você tem estado quieto ultimamente."
"Gosto de silêncio."
Marcus assentiu. "Entendo."
Permaneceram ali por um instante. Não foi desconfortável—simplesmente... natural.
Depois, Marcus se endireitou.
"Olha," disse, voltando-se para a porta, "tem uma cabine lá em cima. Eu, Clara, Elena, os outros. Você devia se juntar a nós."
Noel levantou uma sobrancelha. "Você tem certeza?"
Marcus deu de ombros. "Por que não? Você é da Classe A, né? No topo na manipulação de mana? Você conquistou seu lugar."
Noel piscou uma vez.
Depois, deu um sorriso pequeno, quase relutante.
'Isso é novo.'
'Um convite... sem expectativas.'
Ele passou as mãos pelos cabelos, ajustou a jaqueta, e seguiu Marcus para fora.
E assim, Noel saiu do banheiro—
e entrou em um círculo do qual não esperava fazer parte.