O Extra é um Gênio!?

Capítulo 20

O Extra é um Gênio!?

A sala de exames estava gelada. Muito gelada. Como se tivesse sido encantada especificamente para matar a motivação e sugar a vontade de viver da sua coluna.

Mas aqui não havia magia alguma.

Nem encantamentos.

Somente filas e mais filas de mesas, com pergaminhos brancos dispostos diante de cada estudante, canetas e tinteiros cuidadosamente posicionados. No fundo da sala, um grande relógio de latão marcava o tempo lentamente. De maneira agonizante.

Noel estava perto do fundo, curvado sobre sua folha em branco, encarando as perguntas como se elas lhe devessem dinheiro.

"Defina os princípios do atraso de glifos em cascata em feitiços de barreira estruturada."

"Compare as teorias de origem elemental propostas pelo Archimage Hurein e a escola dissidente de Eastmar."

"Detalhe a proporção adequada de mana para um feitiço de foco de fogo de tripla essência, projetado para driblar a resistência ao encantamento."

Noel piscou uma vez.

Depois de novo.

Depois baixou a cabeça sobre a mesa, numa silêncio absoluto e exausto, sem alma.

'Quem diabos é Hurein e por que ele está na minha vida?'

Ele se endireitou, pegou a caneta e tentou focar. Estudou. Mais ou menos. Mais como empurrou tudo até seu cérebro derreter na almofada.

Ainda assim.

Escreveu algumas linhas tênues. Uma definição razoável. Uma comparação. Mas, na terceira pergunta, a tinta começou a borrar e tudo na página poderia ter sido escrito em dragão antigo.

Sua escrita desacelerou. Seu maxilar travou.

Quanto mais tentava se lembrar, mais a memória escorria pelos dedos como água.

Ele olhou ao redor.

Todos os outros rabiscavam, concentrados, calmos.

Elena parecia estar resolvendo a paz mundial no canto superior. Selene nem piscou. Marcus? Já na segunda metade da folha.

Noel observou sua própria página.

Três linhas.

Isso era tudo.

'Isto é o inferno. Não. É pior que o inferno. Pelo menos no inferno te deixam gritar.'

Rascunhou algo que parecia uma estrutura de feitiço — mas, honestamente, também poderia ter sido uma batata.

Então o fiscal chamou:

"Falta dez minutos."

'Dez minutos? Dez?! Ainda nem metade dessa página foi escrita sem papo cabeça!'

Forçou mais duas frases de puro pânico, rezou para que fosse legível e contentou-se em largar a caneta justo quando o fiscal gritou:

"Acabou o tempo."

Canetas abaixadas. Pergaminhos enrolados. Noel recostou-se, olhando ao nada.

Sem alma.

'Um exame concluído. Nenhuma dignidade restante.'


No dia seguinte, os campos de treinamento estavam em ebulição.

Estudantes alongavam, treinavam exercícios, ajustavam o equipamento. O céu estava claro, o sol brilhando como se estivesse pessoalmente interessado em ver as pessoas sofrerem. O instrutor Rauk estava na frente, de braços cruzados, com um sorriso malicioso já se formando no rosto.

"Avaliação física. Vocês sabem como funciona. Sem melhorias de mana. Sem besteiras mágicas. Apenas vocês, seu corpo e se estão ou não deram uma relaxada o semestre inteiro."

Noel estava perto do final da fila, com as mãos no bolso, a mente ainda parcialmente traumatizada pelo exame de teoria.

'Certo. Sem runas. Sem redações. Só movimento. Eu consigo fazer movimento.'

O teste começou simples — percurso de obstáculos.

Noel passou na corrida, rápido, limpo, eficiente. Não quis mostrar serviço, não virou no ar, nem tentou impressionar alguém.

Ele simplesmente se moveu.

E funcionou.

Depois veio resistência: flexões, barras, corrida com peso.

Metade da turma parecia pronta pra desabar na terceira rodada.

Noel?

Respirando com dificuldade. Suando demais.

Mas ainda em pé.

'Deixe os espertos ficarem no topo do quadro de teoria. Eu vou conquistar minha posição na pista.'


Último desafio: luta de treino.

Rauk lhe passou uma espada de madeira simples.

Noel a pegou, rolou o ombro uma vez e entrou no ringue.

O adversário veio rápido, golpes selvagens, força demais. Noel não bloqueou tudo — mas também não precisava.

Deixou o cara gastar o fôlego.

Então contra-atacou — três golpes limpos, sequenciais, como se fosse uma engrenagem.

Acabou a luta.

Ele saiu do ringue e recebeu alguns olhares de estudantes próximos — a maioria surpresa. Alguns apenas assentiram.

'Melhor que ser chamado de "aquele estranho da biblioteca". Vou ficar com isso.'

Rauk passou por ele, bufando em aprovação.

"Boa, Thorne."

Noel limpou o suor com um sorriso de canto.

"Obrigado, Instrutor."

A arena de magia estava vibrando de tensão.

Estudantes se alinhavam nas bordas, assistindo enquanto, uma a uma, as colegas entravam na circunferência e tentavam não se envergonhar. Os instrutores sentados numa longa bancada com cristais de avaliação, pontuando controle, eficiência e estabilidade. A potência também contava — mas só se você não explodisse primeiro.

Noel aguardava silencioso no canto da área de preparação, com os braços cruzados, tentando não pensar na pergaminho de teoria que havia acabado com sua alma há 48 horas.

"Thorne," chamou um dos professores.

Ele avançou, entrou no círculo.

O instrutor lhe passou uma lista: conjuração menor de elementos, raio de ataque médio, estabilização de escudo, construção de agulha de mana.

Carga padrão de exame.

Ele assentiu.

Não falou.

Fechou os olhos. Respirou uma vez.

E lançou o feitiço.

Uma esfera de água do tamanho exato surgiu na palma da mão — estável, translúcida, sem uma gota fora do lugar.

Depois, um relâmpago de energia cinética atravessou a arena, atingindo o alvo bem no centro, sem causar uma ondulação no ar.

Veio o escudo — sólido, consistente, sem brilho ou tremor.

Por fim, a tecelagem: moldou mana bruta em uma construção básica e manteve-a no ar, com fios entrelaçados firmemente, como se tivesse sido costurada por um alfaiate.

Quando terminou, silêncio.

Então alguém na plateia sussurrou: "Que caralhos".

Um dos examinadores ajustou os óculos, murmurando para outro.

Noel saiu do círculo como se nada tivesse acontecido.

'Nada chamativo. Mas limpo.'

A última etapa do exame de manipulação de mana era aquela que derrubava a maioria dos estudantes:

Construir um círculo de feitiço completo a partir de mana bruta. Pela memória. Sem conjurar — só a estrutura.

Cada aluno recebia uma tela de mana limpa pairando no ar, na sua frente — como escrever com tinta brilhante, mas qualquer erro poderia desestabilizar o círculo e queimar a sua nota até o chão.

Sem grimórios.

Sem molde de cola.

Apenas conhecimento. Precisão. Nervos de aço.

O professor andava lentamente pela sala, com a voz fria e firme.

"Vocês podem escolher o feitiço. Mas o círculo deve estar completo. Simetria, clareza, estabilidade. Comecem."

Noel se posicionou diante da sua tela, com as mãos ao lado.

Pensou na câmara de treinamento.

No Daemar.

Nesse mesmo feitiço.

Carvão Vermelho.

Um feitiço um pouco acima de seu nível, entrelaçado na cabeça como instinto após aquela noite.

Levanta a mão direita.

Fecha os olhos.

E começa.

Fios de mana azul-branca saltaram à vida na ponta dos dedos enquanto ele começava a traçar o círculo no ar — lentamente, suavemente, deliberadamente. Cada arco corresponde ao que Daemar havia desenhado. Cada estabilizador pousou exatamente onde devia. Os glifos pulsaram suavemente ao se encaixar, cada um desenhado com uma confiança que não pertencia a alguém de nível Iniciante.

Não olhou para ninguém. Não precisava.

Sintonia o instrutor parou de caminhar atrás dele.

Sentiu o silêncio se apertar.

Sempre que a mana ao redor reagia como se estivesse reconhecendo algo que ainda não devia estar ali, ele percebeu.

Terminou o último anel, exalou —

E cambaleou.

Uma súbita onda de pressão atingiu a testa. Sangue escorreu do nariz, lento e quente.

'Droga.'

Ele passou o braço na testa, olhos fixos no círculo.

Estável.

Completo.

Baixou as mãos, os ombros tremendo levemente pelo esforço, mas a expressão?

Imperturbável.

O instrutor não disse nada.

Apenas anotou algo silente na sua tela de cristal e seguiu adiante.

Noel nem piscou.

Até o final da semana, a praça da academia fervia como uma feira no dia da execução.

Estudantes se aglomeravam ao redor de dois grandes painéis de aviso de madeira cravados na parede de pedra fora do hall principal. Os quadros estavam recém-informados por penas encantadas que atualizavam nomes e notas com traços precisos, quase arrogantes.

Um quadro mostrava o ranking global — uma soma das notas teóricas e práticas. O que determinava quem permanecia na Classe A... e quem era rebaixado.

O outro listava os melhores colocados por disciplina — físico, conjuração e manipulação de mana.

Noel estava atrasado.

De propósito.

Ele não queria se esbarrar em multidões ou lidar com fofocas. Mas, na metade do almoço, Roberto entrou na sala de jantar, com o rosto vermelho, agitando os braços como um lunático.

"Thorne! Sai fora pra fora!"

Noel levantou uma sobrancelha, limpando a boca com a manga da camisa.

"Por quê?"

"Você só… cara, vem ver."

Minutos depois, Noel estava no limite da multidão, de braços cruzados, ouvindo os murmúrios se espalhar como fogo.

"Elena voltou pro top cinco."

"Selene ficou em terceiro geral. Sem surpresa."

"Marcus em sexto."

"Espera, Roberto chegou em cinquenta e seis? Caramba."

"Por pouco, cara. Sorte dele que consegue segurar uma espada."

Noel deu um passo mais perto.

Listagem de Rankings — Top 60 (Classe A)

1º — Elena von Lestaria

2º — Selene von Iskandar

6º — Marcus

56º — Roberto Gael

60º — Noel Thorne

Olhou para aquilo.

Último na Classe A.

'Claro. Os testes escritos me destruíram.'

Mas depois, olhou para o outro quadro.

Classificação por disciplina:

Condicionamento físico:

8º — Noel Thorne

Conjuração:

4º — Noel Thorne

Manipulação de mana:

1º — Noel Thorne

2º — Selene von Iskandar

'Caralho, primeiro!' Noel permaneceu imóvel.

'Isso não é bom. Era pra eu passar despercebido. Merda.'

A agitação na praça ainda permanecia atrás deles enquanto Noel e Roberto caminhavam por uma rua lateral de pedra, afastados da praça principal da academia.

O sol já tinha baixado, lançando faixas douradas longas sobre os telhados, e a brisa tinha cheiro suave de madeira queimada e carne assada dos tavernas próximas.

Por ora, não conversaram muito.

Noel andava com as mãos nos bolsos, expressão indecifrável.

Roberto ao lado, braços atrás da cabeça, sorrindo de orelha a orelha.

"Você sabe que destruiu o quadro de classificação, né?" ele finalmente disse.

Noel não respondeu.

"Você tirou a Selene do primeiro lugar na manipulação de mana. Isso é quase você dar um tapa numa deidade e sair andando."

Noel soltou uma respiração baixa.

"Não foi minha intenção bater em ninguém," murmurou. "Só quis não morrer."

Roberto riu. "Pois é, você não morreu mesmo. Não posso dizer o mesmo do otário que apostou que você ia acabar na Classe C."

Viraram a esquina e avistaram a pequena taverna — paredes de pedra, um sinal de madeira que rangia suavemente com a brisa, luz de vela tremulando pelas janelas.

Era um dos poucos lugares perto da academia onde estudantes podiam relaxar sem serem vigiados.

Roberto abriu a porta e olhou por cima do ombro.

"Bebidas por minha conta," disse. "Pro cara que ficou em último nas provas e ainda fez todo mundo ficar nervoso."

Noel levantou uma sobrancelha.

Depois sorriu — só um pouco.

"Deve ser forte."

Entraram.

E a porta se fechou atrás deles.

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