
Capítulo 19
O Extra é um Gênio!?
A última campainha do dia ecoou pelos corredores da academia como um suspiro de alívio para a maioria dos estudantes.
Mas não para Noel.
Para ele, era o início do verdadeiro trabalho.
Ele caminhava pelo corredor agora silencioso em direção ao escritório de Daemar, com a pasta sobre o ombro, metade de um caderno já preenchido com anotações cada vez mais caóticas, sob o braço. Seus olhos eram afiados, mas o cansaço ficava atrás deles como um peso.
Uma batida na porta.
Uma pausa.
Então a voz seca e conhecida:
"Entre."
Noel entrou.
O escritório era exatamente como na última vez que o visitou—arrumado, frio, cheio de livros, prateleiras organizadas nas paredes sem uma ponta de poeira.
Exceto por uma coisa.
No centro da sala, agora, estava um aparato mágico elegante—um pedestal metálico feito de aço preto e obsidiana, com três orbes suavemente brilhantes suspensos acima dele, pulsando como um batimento cardíaco.
Daemar estava ao lado, ajustando as configurações com uma mão e girando uma chave de runa com a outra. O brilho intensificou. Com um zumbido baixo, os orbes brilharam intensamente e projetaram uma grande esfera de diagramas de mana e circuitos de feitiços no ar. Camadas de runas e linhas de fluxo giravam ao redor de um ponto de ancoragem central como uma constelação viva.
Noel encarou.
"Ok. Isso é incrível."
"Você chegou cedo," disse Daemar sem olhar para cima.
"Estou desesperado, preciso passar nas provas," murmurou Noel, deixando seu caderno numa mesa ao lado e retesando os ombros.
Nesse momento, Daemar tocou uma das orbes. Um arco brilhante se iluminou na projeção.
"Comece por aqui. Ciclo interno de mana. Explique o processo. Em voz alta."
Noel deu um passo à frente, observando os glifos.
Sem medo desta vez.
Apenas foco.
E talvez, no fundo, um pouco de fogo.
Noel ficou a poucos passos da projeção flutuante, os olhos vasculhando a espiral de runas e canais de mana se movendo lentamente no ar.
Apontou para o nó central.
"Este é o âncora, certo?" perguntou. "Tudo sai daqui."
Daemar assentiu de forma breve.
Noel continuou, traçando uma das linhas brilhantes com o dedo.
"Esse ramo controla a distribuição inicial. Se o ciclo se romper aqui,"—tocou uma runa secundária—"você terá instabilidade na camada externa. Loop de feedback, talvez até uma retaliação se seu foco não estiver firme."
Daemar não disse nada.
Apenas observou.
Noel seguiu em frente.
"E o anel externo—essa é a linha de regulação. Controla a taxa de fluxo. Está ligada à respiração e ao ritmo cardíaco durante a conjuração, né?"
Ainda sem resposta.
Então Noel continuou falando, sua voz misturando curiosidade e certeza. Não recitando—conectando. Peça por peça. Pergunta por pergunta. Como se estivesse construindo a estrutura na cabeça enquanto falava.
Cinco minutos se passaram.
Depois dez.
E, quando terminou de percorrer o ciclo completo do diagrama, Daemar lentamente deu um passo à frente e desativou a projeção com um toque.
Silêncio.
Então—
"Você leu adiantado."
Noel balançou a cabeça.
"Não. Só... escutei. Captei as coisas. Juntei os pontos."
Daemar o encarou por um instante longo.
"Você entendeu isso mais rápido do que a maioria dos segundos anos."
Noel piscou. "Huh."
"Não deixe subir à cabeça."
Noel sorriu de lado. "Nem sonharia."
Mas por dentro?
'Claro que sim.'
A câmara de treinamento sob o escritório de Daemar era menor que o campo principal, mas saturada com encantamentos em camadas— runas no chão, linhas tênues gravadas nas paredes, áreas de supressão tecidas no teto.
Foi construída para conjurações focadas, não para exibição.
Daemar estava no centro, sem casaco, com as mangas arregaçadas. Sua mão se movia lentamente no ar enquanto começava a canalizar mana.
"Observe com atenção."
Noel ficou mais atrás, os olhos fixos em cada detalhe.
A mana de Daemar se acumulava limpa, sem excessos. Seus movimentos eram precisos, eficientes—não havia desperdício. Uma esfera suave de luz emergiu na palma da mão dele.
"Iluminação básica. Formação de fio de mana. Pouco deves gastar do núcleo," disse. "Sua vez."
Noel assentiu.
Fez uma respiração.
Fechou os olhos.
Focou.
Deixou a mana agir, como tinha praticado durante o treinamento físico—mas agora com propósito. Uma forma.
Moveu a mão do mesmo jeito que Daemar.
E uma luz se formou.
Tamanho perfeito. Sem faísca, sem cintilação.
Exatamente igual à do professor.
O professor piscou uma vez.
Não disse nada.
Seguiu em frente.
Próhechizo—uma brisa suave, conjurada a partir de uma torção de vento elemental.
Daemar mostrou, Noel copiou.
Perfeitamente.
Depois, uma onda de defesa de nível baixo — magia de barreira.
Mesmo resultado.
Cada demonstração, Daemar esperando corrigir alguma coisa.
Mas não havia nada a corrigir.
'Ele está replicando perfeitamente. Isso não deveria ser possível em nível Iniciante. O núcleo dele não aguenta complexidade—mas a execução é impecável.'
Daemar cruzou os braços enquanto Noel mantinha a última barreira firme.
Ainda sem falar.
Noel levantou uma sobrancelha.
"… Fiz algo errado?"
O tom de Daemar era seco. Controlado.
"Não. Você fez exatamente certo. É isso que me preocupa."
Daemar deu um passo para trás, com expressão impassível, ajustando as mangas.
"Certo," disse. "Mais uma."
Ele levantou a mão novamente—mais devagar, os dedos se movendo com mais complexidade. A essência de mana no ambiente mudou, ficando mais densa. Os glifos que ele traçava no ar eram mais intrincados. O círculo levou mais tempo para ser construído.
Uma espiral tênue de fogo surgiu acima da palma da mão dele—flutuando, pulsando ao ritmo de sua respiração. Mais brilhante. Mais pesada. Um zumbido silencioso preencheu a câmara.
"Isto é chamado de Crimson Coil," explicou. "Combustão controlada, fluxo de mana triscado, estabilização em múltiplas camadas. Observe a estrutura."
Ele não mencionou que era nível Adepto—um degrau completo acima do Iniciante.
Noel, ainda tranquilo, assentiu.
Focou-se.
Começou a construir o círculo.
Linha por linha.
Seguiu exatamente a estrutura de Daemar—curvas, âncoras, estabilizadores. O brilho de sua própria mana começou a subir ao redor da mão, enredando-se nas runas com uma clareza quase sobrenatural.
Daemar se aproximou, com as sobrancelhas ligeiramente levantadas.
'Ele realmente está construindo.'
'Ele não deveria conseguir.'
A runa final estava na metade quando Noel engasgou.
Seus ombros se tensionaram.
A pele ficou extremamente pálida—muito pálida.
Suor começou a escorrer pela testa.
"Droga," murmurou entre dentes, as mãos tremendo. "Demais..."
O feitiço rachou—apenas uma faísca—e se desfez antes de completar a formação.
Ele recuou meio passo, segurando a coxa, o peito subindo e descendo como se tivesse corrido uma milha.
Daemar não se mexeu.
Apenas observou o após-imagem do feitiço de Noel desaparecer do ar.
'Aquele círculo estava perfeito. Tudo, exceto o combustível.'
Noel olhou para cima, com o maxilar cerrado, olhos afiados apesar do tontura.
"...O que foi aquilo?"
A voz de Daemar era calma, mas a cabeça dele pensava rápido.
"Um pouco avançado," disse. "Queria ver uma coisa."
Noel estreitou os olhos. "Isso não era nível Iniciante."
"Não. Não era."
"Está tentando me matar agora?"
Daemar quase sorriu.
"Você não morreu. Quase conjurou."
Noel piscou.
E então, apesar da náusea, sorriu.
'É isso aí que eu quis dizer.'
Noel se sentou na beirada do banco, limpando o suor da testa com a manga do uniforme. As mãos ainda tremiam um pouco pelo esgotamento de mana.
O ar na câmara de treinamento ficou quieto.
Daemar estava a alguns passos, braços cruzados, observando—não com o olhar frio de um professor prestes a repreender, mas com algo mais calmo.
Algo mais ponderado.
'Aquele feitiço deveria ter colapsado na metade do círculo. Devia ter desfeito antes que as runas tomassem forma.'
'Mas não aconteceu. Ele se sustentou.'
Daemar deu um passo à frente e reativou a projeção.
Noel olhou para cima, ainda ofegante. "Terminou?"
Daemar demorou a responder. Em vez disso, tocou na interface brilhante até exibir um modelo padrão de circuito de mana—nível Iniciante, simplificado. Ajustou um pouco e apontou para o nó em que Noel tinha feito esforço.
"Você não falhou," disse. "Sua saída caiu porque seu núcleo não foi feito para suportar compactação de runas de nível Adepto. Mas a formação em si... estava limpa."
Noel levantou uma sobrancelha. "Então... mandei bem?"
"Você foi melhor do que esperava," disse Daemar de forma direta. "Não é elogio. É observação."
Noel sorriu de lado. "Anotado."
Daemar desligou a projeção e deu de costas.
"Não vou suavizar as coisas pra você. Se continuar demonstrando esse nível de controle, vou esperar resultados à altura."
"Pode deixar," disse Noel. "Não preciso de canetinha na mão."
Daemar parou na porta, quase se virando de volta para ele.
"Sei disso."
E assim, saiu de lá, o casaco caindo atrás dele com precisão contundente.
Noel recostou-se, deixando o silêncio se estabelecer.
Corredores estavam quietos quando Noel saiu da câmara de treinamento. A maioria dos estudantes já estava em seus quartos ou dormindo nos escritórios. O ar tinha aquela calma pesada, que só vem após um dia de esforço demais.
Ele não apressou o passo.
Tampouco se arrastou.
Seu corpo ainda parecia torcido como uma toalha espremida, mas não era a dor que o atrasava—era... algo mais.
Algo que ficava replayando na cabeça dele.
Os círculos.
O fluxo de mana.
Como tudo tinha se encaixado na cabeça dele sem precisar pensar.
Como instinto.
Chegou ao quarto e entrou, fechando a porta com um clique suave. Jogou o casaco na cadeira. Nem se deu ao trabalho de acender a lâmpada.
A luz da janela já era suficiente.
Sentou na cama, com os cotovelos nos joelhos, encarando o chão.
'Eu não deveria conseguir fazer aquilo.'
'Aquela magia era acima do meu nível. Meu núcleo não sustentaria. Mas eu construí a maldita como se tivesse conjurado há anos.'
Esfregou as mãos lentamente.
Depois olhou para elas.
'O que diabos é isso?'
'Não sei exatamente como sei. Mas sei. Como se... estivesse apenas lá. Como respirar.'
Soltou uma risada silenciosa, sem humor. Apenas — surpreso.
'Este corpo. Esta mente. É como se eu fosse feito pra isso.'
Encostou-se no teto, olhos arregalados na penumbra.
O [Quest: Salvar o Mundo] pisca suavemente no canto da visão.
Ele não olhou para ele.
Não desta vez.
Porque agora?
Pela primeira vez desde que acordou neste mundo...
Ele tinha a impressão de que talvez, apenas talvez—
ele realmente pudesse fazer isso.