O Extra é um Gênio!?

Capítulo 18

O Extra é um Gênio!?

“Estou ferrado.”

Noel encarou o teto do dormitório como se ele tivesse lhe traído pessoalmente.

“Tipo — fim de jogo, reset total, sem salvar nada, tô lascado mesmo.”

Ele passou aandar em círculos, de bermuda do uniforme, camisa por dentro, cabelo uma bagunça. Uma única folha de pergaminho estava sobre a mesa, zombando dele com as palavras “Cronograma de Exames – Restam 6 Dias”.

Ele parou, apontou para ela como se estivesse viva.

“Você tava no livro. Lembro de ter lido sobre você. Eu dei um migué e pulei você.”

Ele soltou-se na cadeira, apoiando a cabeça nas mãos.

‘Tudo isso perseguindo cultistas, planejando infiltrações, se preparando para uma chacina literal… e eu esqueci do caralho do calendário acadêmico.’

Ele gemeu.

Com força.

“De todas as formas de morrer nesse mundo, eu nunca pensei que fosse por falha na teoria da mana.”

Noel chutou suavemente a mesa. Não com força. Só o suficiente para castigá-la por existir.

‘Seis dias. Seis. Porra. Dias. Nem me lembro a definição de um elo de runa básico, e esses lunáticos querem que eu escreva uma dissertação sobre fluxo teórico de feitiços e suas aplicações históricas?’

Ele olhou de volta para o pergaminho.

Depois para a mesa vazia.

Depois para a porta.

Só tinha uma opção restante.

“Hora de correr atrás do prejuízo como se minha vida dependesse disso.”

Porque, na verdade, dependia mesmo.

Noel saiu em disparada do dormitório como um homem em missão.

Uma missão para não morrer por causa de uma prova padronizada.

Quando as aulas terminaram, ele virou bruscamente em direção à biblioteca, ignorando todo mundo que tentou acenar ou falar com ele — inclusive Roberto, que tentou oferecer um pacote de castanhas assadas e recebeu um olhar de “não agora, cara, tô lutando pela minha vida acadêmica” em troca.

Ele entrou furioso no hall principal, achou o canto mais escuro e distante da biblioteca, e começou a pegar livros como se estivesse se abastecendo para o apocalipse.

Lógica Rúnica. Uso Histórico de Magia. Teoria dos Feitiços II. Estudos de Caso de Manipulação de Mana. Colapso de Mana: Como Não Matar a Si Mesmo. Até os mais chatos.

Empilhou-os até que a torre de papel e pergaminho bloqueasse a visão.

Sentou, estalou o pescoço.

E começou.

Página após página. Diagrama após diagrama. Rabiscos, anotações, sublinhados, interrogações.

Depois de três horas, esqueceu como se soleava a palavra “runas”.

Depois de quatro horas, percebeu que não tinha comido.

Seis horas, não tinha se mexido.

Às oito horas, estavairo sobre um livro intitulado “Falhas das Tétradas de Thaumaturgia da Segunda Era”, com a boca um pouco aberta, olhos vermelhos, dedos tremendo ao redor de uma pena que não escrevia nada coerente há duas horas.

‘Por que diabos tudo isso é útil? Quem se importa com o que velhos magos mortos pensaram sobre simetria de mana?’

‘Vou morrer. Vou morrer e nem vai ser algo legal.’

Ele se levantou abruptamente, cabelo arrepiado em cinco direções, encarando os livros com puro ódio.

“Nada gruda,” rosnou.

“Isso é pior que tortura. Pelo menos com tortura você desmaia no final.”

Ele deixou a cabeça cair na mesa com um baque abafado.

‘Se não conseguir enfiar isso na cabeça a tempo… Melhor jogar corpo fora na cova do gole-mago e dar no pé.’

Noel ficou ali, com o rosto meio esmagado no livro de texto, o leve aroma de tinta velha e desespero pairando no ar.

Ele levantou lentamente a cabeça, piscando como quem se recupera de uma concussão.

‘Ainda nada.’

Olhou para a página de novo.

Palavras. Símbolos. Diagramas. Tudo se misturando numa grande ofensa acadêmica.

‘Por que diabos isso não cola?’

Ele bateu o livro com força suficiente para assustar a bibliotecária lá no corredor.

Deitou-se na cadeira, encarando o teto com uma expressão de derrota total, puro desdém.

“Ok,” murmurou. “Tudo bem. Não consigo fazer isso sozinho.”

Começou a andar de um lado para o outro.

‘Preciso de ajuda. De ajuda de verdade. Alguém que entenda esse troço e não passe o tempo todo me substituindo pelo livro de tanto repetir o que está escrito como se fosse a palavra definitiva.’

Primeira ideia: Elyra.

Inteligente. Organizada. Rigorosa com o tempo.

Ela recebeu uma mensagem rápida dele.

Dez minutos depois: “ocupada. Trabalho no conselho. Não morre.”

‘Ótimo. Valeu por nada, vice-presidente de incentivo vago.’

Depois: Marcus.

Ele avistou ele pela janela — já estudando com a Clara.

Pareciam tranquilos.

Concentrados.

E, mais importante, ocupados.

‘Não vou atrapalhar isso. Mau movimento. Passo.’

Roberto?

Imaginou o cenário.

“E aí, mano, vamos revisar a mecânica do feitiço?”

“Claro. Mas... e se a gente fizesse no café? Com uma torta?”

Imediatamente, um não.

‘Aquele idiota me faria jogar trivia de mana com biscoitos e sem progresso algum.’

Última opção: Selene.

Ela era uma gênio, com certeza. Mas eles não eram exatamente próximos. Ela mal falava com alguém fora das saudações formais.

Pedir ajuda do nada?

‘Desesperado… mas não suicida.’

Isso deixava uma pessoa pensando numa única alternativa.

Alguém rígido. Sem rodeios. Meio assustador.

E, infelizmente… muito, muito boa em teoria mágica.

Noel gemeu.

‘Aff. Acho que vou ter que implorar pro Daemar.’

Noel estava na porta do escritório do Professor Daemar, como quem vai confessar um crime de guerra.

Corredor vazio. Silêncio total. Até as velas flutuantes pareciam piscar de modo mais ameaçador que o normal.

Ele encarou a placa na porta.

Professor Daemar – Departamento de Manipulação de Mana.

‘Rigoroso. Sorriso zero. Sadista mágico.’

Aperfeiçoou a respiração.

Depois mais uma.

Virou-se e começou a caminhar para longe.

Parou.

‘Não. Nada de fugir.’

Rodou sobre os calcanhares, voltou pra porta como se não tivesse tentado fugir, e bateu.

Um tap, tap, tap forte.

Pausing.

Então a voz.

“Entre.”

Noel abriu a porta e entrou.

O escritório era exatamente como esperava — organizado, frio, cheio de livros que irradiavam poder e decisões ruins. Professor Daemar estava sentado atrás da mesa, postura perfeita, olhos violeta examinando um pergaminho.

Ele não levantou o olhar.

“Você não está na minha agenda.”

Noel limpou a garganta.

“Sim, eu sei. Desculpa. É que… eu preciso de ajuda.”

Daemar ergueu os olhos lentamente.

O silêncio foi brutal.

“Com o quê?”

“Teoria dos feitiços,” Noel disse. “E praticamente tudo relacionado ao exame da semana que vem.”

Outro silêncio.

Daemar inclinou a cabeça levemente.

“Quer uma orientação?”

“É, mais ou menos,” Noel respondeu de forma seca.

Isso fez o canto da boca do professor esbugalhar um pouco.

Só um pouquinho.

Daemar colocou a pena na mesa.

“Tá bom. Senta aí.”

Noel piscou.

“…Sério?”

“Se você veio até aqui, deve ter esgotado as opções lógicas já.”

“Uau. Valeu pelo voto de confiança.”

“Não discuta. Abre suas anotações. Vamos começar do começo.”

‘Caramba. Ele aceitou?’

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