
Capítulo 17
O Extra é um Gênio!?
“Tô te vendo, seu moleque.”
Noel murmurou as palavras entre os dentes, gravando na própria cabeça, com os olhos presos na estudante de cabelo vermelho sentada três fileiras à frente.
O cara não fazia muita coisa.
Sentava ereto. Parado. Muito parado. A coluna dura o bastante para parecer militar, mas relaxada o suficiente para não chamar atenção. Escrevia anotações com a mão direita e trocava olhares silenciosos com as duas sombras ao seu lado—sua turma de sempre.
Eles não falavam com mais ninguém.
Não olhavam para mais ninguém.
Toda vez que um colega se aproximava ou tentava trocar uma palavra?
Olhar de gelo. Linguagem corporal fechada. Aquela leve inclinação do ombro que gritava “não enche o saco”.
Funcionava.
As pessoas evitavam eles agora.
Noel os observava como uma águia.
Ele se mexeu na cadeira, a caneta descansando entre dois dedos, fingindo quase não prestar atenção na aula.
'Preciso aprender cada trejeito seu. Como se senta. Como caminha. Como respira. Porque daqui a algumas semanas, eu serei você.'
O ruivo passou uma nota para a garota à sua esquerda—com capuz, silenciosa, com cara de perigosa.
Ela não sorriu.
Apenas leu, concordou com a cabeça.
'Engraçado. Pequenas notas secretas na aula. Pena que vou roubar sua cara de foca.'
Noel sorriu para si mesmo e recostou na cadeira, os olhos nunca deixando o alvo.
A missão estava lançada.
O sino soou. Os livros fecharam com estrondo. As cadeiras arranharam o chão. Os alunos se espalharam pelo corredor como uma corrente rompendo uma represa.
Noel ficou imóvel.
Não imediatamente.
Ele observou.
O rapaz de cabelo vermelho e sua turma levantaram-se juntos—como um relógio. Sem trocar uma palavra, mas movendo-se em sincronia. Velozes demais para parecer casual, relaxados demais para serem normais.
'São estranhos.'
Saíram da sala sem olhar para trás. Noel esperou quinze segundos completos, então se misturou à multidão.
Ele não os seguiu na direção deles. Isso seria burro.
Alguns corredores atrás. Olhos sempre na frente. Cabeça ligeiramente inclinada para baixo. Mantinha um espelho refletor na visão periférica para captar os ângulos sem parecer flagrante.
O trio se movia pelos corredores como fantasmas. Não ficavam. Não conversavam com ninguém. Alguns estudantes tentaram acenar para eles—receberam olhares mais gelados do que o inverno.
'Pois é. Ninguém vai se juntar a essa turma.'
'Paranoia? Ou elitismo de merda? Talvez ambos.'
O de cabelo vermelho olhou por cima do ombro uma vez. Só uma.
Noel inclinou a cabeça, ajustou o passo e deixou outro grupo de estudantes bloquear sua linha de visão.
Ainda estavam livres.
Seguiram para o anexo sul—um espaço neutro entre os departamentos—e então se dividiram.
Igual ao dia anterior.
Ele se encostou numa coluna, puxou um livro gasto e fingiu ler.
Olhos sempre atentos.
Memória sempre registrando.
'Preciso apenas ser exato. Não preciso chegar perto.'
A lâmina de Noel cortou o ar, limpa e afiada.
Depois de novo.
E de novo.
O manequim de madeira balançou sob o impacto, as runas reativas de mana brilhando fracamente a cada golpe.
Ele realizava seu treino com o mesmo ritmo que praticava desde o dia um—transições fluídas, movimentos ajustados, controle perfeito.
Mas… algo parecia estranho.
Não errado.
Melhor.
Ele não estava respirando com esforço. Não como antes. Sua resistência não estava se esgotando como deveria. Sua velocidade de reação estava mais rápida. O controle de mana, mais limpo. E seus golpes?
Mais afiadas.
Ele parou no meio do movimento, franzindo a testa.
'Tenho treinado todos os dias desde que cheguei, mas… isso não é normal.'
'Essa velocidade. Essa força. Como minha mana responde como se estivesse afinada comigo—não é só esforço.'
Olhou para as mãos, flexionou os dedos.
'O Noel original… treinava também. Muito. Sem parar.'
'Mas esse corpo?
'Esse corpo? Esse maldito corpo é insano.'
'Cara, depois do que tive que aguentar na minha última vida, até que consigo apreciar isso. Mas meu Deus, isso aqui é outra coisa.'
'Força, velocidade, mana, resistência—é como se tudo estivesse só... esperando pra ser usado.'
Ele deu um passo pra trás, firmou-se no chão e tentou algo novo—misturar um pouco de mana na próxima investida, não só para ganhar velocidade, mas para dar peso.
O manequim quebrou.
Não só a camada externa.
O núcleo se partiu limpo.
Noel olhou para a madeira estilhaçada por um segundo, depois riu baixinho.
“Então é isso. O treino acabou de verdade. Eu não estou mais só evoluindo—estou me transformando.”
Pegou uma espada de treinamento mais pesada e fez alguns golpes de uma mão só, canalizando um pouco de mana pelo braço.
Fluidamente. Equilibrado. Sem resistência.
Depois fez o mesmo com a outra mão.
Resultado igual.
'Então posso lutar como um cavaleiro... e conjurar como um mago.'
Parou, respirando fundo, ombros erguidos.
'Existiam cavaleiros mágicos nas histórias. Monstros, a turma toda. Feras que rasgavam exércitos como manteiga.'
'Eles eram raros. Temidos. Vigiados.'
Sorriu.
E então riu—baixo, áspero, fora de si.
"Ehehehehe…"
Escapou antes que pudesse controlar.
Olhos arregalados, sorriso afiado, postura solta como um predador que desfila a primeira vez em semanas.
Dois estudantes passando perto desaceleraram.
Um deles murmurou, só alto o suficiente:
"Você viu aquele doido?"
"Não olha pra ele, que ele faz alguma besteira com a gente."
Noel piscou.
Fez uma careta, limpou a garganta.
E imediatamente voltou a expressar uma atitude neutra, como uma máscara encaixando no rosto.
Voltando para o manequim, assumiu a postura, ombros relaxados, olhos desinteressados.
'Beleza, beleza… talvez dê pra diminuir o ritmo um pouco, Thorne.'
'Não dá pra parecer louco na cara de todo mundo.'
Depois, na quietude do seu quarto, Noel ficou sentado na janela, olhando o céu que começava a escurecer. A adrenalina do treino tinha desaparecido. Aquela expressão de antes? Agora, sumiu. Não tinha mais nada ali para matar o clima.
[Missão: Salvar o Mundo]
Aquela frase definitiva, gravada na ponta da visão como uma cicatriz que não se consegue apagar.
Ele não precisava ver para sentir.
Estava sempre ali. Sempre esperando.
'Salvar o mundo', ele resmungou amargurado. 'Claro. Fácil.'
'Vai me passar um roteiro, ou vou ter que ficar vagueando até uma coisa explodir?'
Deitando-se, cruzou os braços.
'Sei das desgraças. Dos mortos. Do número de corpos.'
'Mas não sei a causa. Não a verdadeira. Só como o Marcus limpou a sujeira.'
E aí está a diferença. Essa é a razão de não poder só ficar de braços cruzados e deixar o enredo acontecer.
Se esperar demais, as pessoas morrem. Se agir cedo demais, pode estragar tudo.
Olhou para as mãos, tranquilas.
'Não importa. Já morri uma vez. Não vou fazer disso um hábito.'
O cheiro de pergaminho queimado misturado com tinta de mana enchia a sala de aula.
O novo professor—um sujeito magro, de óculos quadrados e sem paciência—andava de um lado para o outro na frente do quadro com runas, dando a aula num ritmo que dava até medo.
"Feitiços têm estrutura. Emoção é poder. Perder o controle de um, você perde o outro. Você lança fogo com a mão, mas começa na barriga. Entendido?"
Alguns estudantes murmuraram concordância, já quase desacordados.
Noel sentou-se lá atrás, meio distraído, uma perna pulando sob a mesa. Essas aulas eram um saco—sem movimento, sem luta, só diagramas e monólogos.
Então alguém se levantou na frente da classe.
Senhora Vivianne Rellhart.
A representante da turma.
Alta, com uma elegância inabalável de quem nasceu na nobreza, com cabelo castanho claro preso com fita de seda e olhos cor de avelã que sempre pareciam convidados a se aproximar—mesmo quando traziam notícias ruins. O uniforme impecável, postura perfeita, sorriso tão educado que quase parecia uma armadilha.
Ela tossiu suavemente, deixando o silêncio cair na sala.
"Só um lembrete," ela disse, com tom amigável, "que as provas do primeiro trimestre começam na semana que vem."
Silêncio absoluto.
Noel piscou uma vez.
Depois franziu a testa.
'Espera… o quê?'
'PROVAS?'
O professor assentiu sem interrupções.
"Sim. Escritas, práticas e interdisciplinares. Vocês receberão o cronograma pelo guia do alojamento ainda hoje."
Estudantes ao redor suspiraram, se jogaram nas cadeiras, murmuraram xingamentos.
Noel permaneceu lá, imóvel.
'Semana que vem? São seis dias. Ainda nem acabei metade das anotações de feitiços.'
'Tô caçando uns zé-ruela em túneis, não revisando matrizes de feitiços.'
Vivianne voltou a sentar-se graciosamente, como se nada tivesse acabado de declarar guerra às provas.
Noel encarou o vazio, com os olhos fundos.
'Vou passar dessa. Não na luta. Não numa batalha épica contra um vilão.'
'Vou failar na prova de teoria de mana e vou ser expulso por incompetente.'
'Detesto esse lugar.'