O Extra é um Gênio!?

Capítulo 48

O Extra é um Gênio!?

Sua visão começava a ficar turva.

Sangue escorria pelas têmporas, quente e pegajoso. Sua feroz, fraca e escorregadia de tão suada e vermelha. Cada respiração parecia uma lâmina nos pulmões, e o ar tinha cheiro ácido, de fumaça e de carne queimada.

Do outro lado da clareira, a serpente voltou a se erguer.

Estava ferida. Cega de um olho. Coberta de cortes e queimaduras. Mas não estava desacelerando. Pelo contrário, parecia mais raivosa.

Noel não conseguia sequer levantar mais o braço esquerdo.

— Porra… Isso não tá funcionando.

Ele se levantou, quase cambaleando, com os joelhos tremendo sob o peso do corpo. A lâmina na mão parecia pesar uns cem quilos.

Seu coração batia mais forte do que o sibilar da fera.

— Se eu errar mais um passo, se tropeçar uma vez… estou morto. Chegou. Fim da linha.

E aí, algo fez "clique".

Uma pulsaçã0. Fraca… mas profunda.

Revenant Fang… vibrava.

Era como se a espada estivesse adormecida até então. Mas, de repente, ela ganhou vida na sua mão.

Então aconteceu.

O mundo desacelerou.

Não literalmente — mas sua mente explodiu em clareza. A dor, o caos, os sons — tudo silenciou, comprimido em um ruído de fundo como estática. Pela primeira vez desde o início da luta, Noel viu tudo.

O ângulo do próximo ataque da serpente. A tensão na coluna. A mudança de peso na sua espiral. O padrão do vento. O brilho das cinzas no ar.

Tudo.

Uma notificação sussurrou na beira de sua consciência:

[Habilidade Ativada – Revenant Fang: Clareza sob ameaça]

"O usuário ganha um foco perceptivo extremo durante situações de risco de vida. O tempo parece desacelerar enquanto os instintos se aguçam e a precisão aumenta."

Noel respirou fundo — intenso, firme, controlado.

— Certo… Você queria briga, né?

Seus olhos se afiaram. Sua postura ficou ereta.

A dor não desapareceu — mas deixara de importar. Cada respiração era uma conta. Cada movimento, uma decisão.

A serpente se moveu rápido — mas Noel agora era mais rápido.

Ele desviou de uma investida antes mesmo dela começar, os olhos fixos na leve hesitação na espiral da criatura que indicava exatamente onde ela iria atacar. Poeira levantou com o impacto que esmagou o chão ao seu lado, mas ele já tinha desaparecido, as botas deslizando na terra queimada.

Ele não pensou. Não hesitou. Só viu — de forma clara, instintiva, precisa.

Cada brecha, cada mudança de peso, cada fraqueza ficou cristalina. A criatura era forte, mas previsível — e, neste momento, estava cega de um lado.

Noel levantou a mão direita sem hesitar, mana se formando em suas pontas dos dedos.

— Bola de fogo.

A magia se ativou instantaneamente — mais rápida, mais densa, mais estável do que nunca. Ele não a lançou de forma aleatória ou mirando na cabeça. Girou o pé, inclinou-se na direção do movimento e deu um leve giro de pulso para ajustar o arco da magia.

A bola de fogo voou, cortando o ar entre fumaça e cinzas — e atingiu diretamente o olho remanescente da serpente.

O efeito foi imediato.

Um grito rasgou o ar enquanto a fera recuava de dor, retorcendo-se violentamente contra as árvores. As chamas se agarraram à cavidade destruída, queimando mais fundo, alimentadas pela mana corrompida que escorria dela.

Noel não esperou convite.

Correndo para frente, com a espada baixa, mana já acumulando em suas pernas. A criatura era cega, furiosa e desorientada.

Era a chance.

Ele ia agarrar ela.

O mundo permaneceu silencioso em sua mente — focado, frio, preciso.

Noel passou por baixo da serpente retumbante, desviando de espirais que balançavam às cegas, a centímetros de distância. Seus sentidos seguiam tudo: o padrão de espasmos, a troca de peso, o exato instante em que a cabeça da fera iria cair de novo.

Ele subiu em uma raiz inclinada e se lançou nas costas da serpente, agarrando uma crista rachada de escamas para se equilibrar. A criatura virou-se violentamente — mas Noel acompanhou cada movimento, quase tranquilo, os joelhos flexionados, olhos fixos na parte de trás do crânio dela.

Ele levantou Revenant Fang — e ela pulsou novamente.

Desta vez, a lâmina pareceu ganhar vida.

Não vibrou com magia — vibrou com objetivo.

Noel não gritou. Não respirou. Só empurrou a espada com toda a força e mana que tinha sobrando.

A lâmina atravessou entre duas escamas queimadas, bem acima da articulação do espinhal.

Não houve resistência. Ela penetrou como se a serpente tivesse esperado por aquilo.

A criatura se retraiu de um golpe. Depois de outro. Seu corpo convulsionou — e então ficou imóvel.

Silêncio absoluto.

Noel caiu ao lado da carcaça fria, meio de costas, meio na terra sangrenta. Seus braços recusaram-se a se mover. Seus pulmões ardiam. A espada permanecia cravada na carne, ainda vibrando suavemente — como um coração que não percebeu que o corpo já tinha morrido.

Então, veio a voz.

[Fera morta — Serpente Mutante (Núcleo Especial)]

[Experiência no Núcleo de Mana: +10,00%]

[Progresso Atual: 47,32% — Núcleo de Mana de Novato]

Noel olhou para o texto flutuante, com o peito subindo e descendo lentamente.

— Claro que era de Nível Especialista. Por que não seria?

Deixou a cabeça cair de lado, descansando na terra, fechou os olhos por um momento, deixando a dor chegar até ele.

— Na próxima… trago uma porra de uma equipe.

Elena chegou à clareira correndo, só diminuindo o ritmo ao ver o corpo.

A serpente jazia imóvel — caída em uma espiral retorcida, sangue e fumaça saindo de seu crânio estilhaçado. O ar era pesado com carne queimada e magia. Perto da cabeça, Noel sentava-se, encostado no chão, rosto pálido, braços moles, a espada ainda cravada na vítima.

Ela correu até ele.

— Noel!

Seus olhos se abriram ao som do chamado, primeiro sem foco, depois afiados novamente. Ele soltou um suspiro gasto.

— Você atrasou, — murmurou, voz áspera, mas carregada daquela mesma secura.

— Você matou… sozinho? — ela perguntou, ajoelhando ao lado dele.

Noel deu um encolher de ombros fraco.

— Era feio. Não pergunte pelos detalhes.

Ela tentou invocar mana de cura, mas as mãos tremiam. O fluxo não estava firme — ela não tinha talento pra isso, ainda mais sob pressão. Ele percebeu.

— Para, — disse baixinho. — Só escuta por um segundo.

Elena fez cara de aprovação, mas obedeceu.

Ele olhou nos olhos dela e, mesmo parecendo à beira de desmaiar, seus olhos permaneciam firmes.

— Diga que foi você quem matou.

As palavras cortaram como gelo. Ela piscou, surpresa.

— O quê?

— Assuma a responsabilidade, — disse ele. — Diga aos nobres que foi você quem acabou com ela. Assim, garante sua primeira colocação, seu lugar ao sol. Ninguém precisa saber o resto.

Ela o encarou, abalada. — Noel, eu não posso—

— Pode e vai. Já vi o quanto isso significa pra você. Você não é como os outros. Você trabalhou duro por tudo. Isso te coloca no topo, onde você tem que estar.

— Eu não ganhei isso, — ela falou, com a voz tensa.

Ele deu um sorriso cansado.

— Ninguém importante vai perguntar. Eu não me importo com glória. Eu só quero dormir e acordar inteiro. Você realmente acha que eles acreditariam que a NóideLixo foi capaz de matar uma coisa dessas?

Ela hesitou. As palavras dele eram egoístas, sinceras e pesadas ao mesmo tempo.

A barreira brilhou enquanto os nobres maiores atravessavam a clareira, cercados por guardas em armaduras polidas e magos vestidos com as cores das famílias. O silêncio que se seguiu à chegada foi absoluto. Até o vento pareceu prender a respiração.

O Lorde Albrecht Thorne liderava o grupo, olhos fixos na serpente caída. Sua expressão nem se alterou ao ver Noel desmaiado ao lado do cadáver. Mirelle estava ao seu lado, braços cruzados, olhar frio e calculista. Os demais chefes das casas nobres — Lestaria, Nivária, e outros — seguiam de perto, alguns cochichando entre si ao verem tudo aquilo.

Uma serpente mutante — morta. E só dois estudantes presentes para testemunhar.

Elena levantou lentamente ao ver a aproximação do grupo. Limpou a sujeira do uniforme, tentando controlar a respiração. O coração batia acelerado, mas sua voz não tremeu ao falar.

— Acabou. Eu matei a besta.

O silêncio foi quebrado.

Vários olhares se voltaram para ela. Alguns arregalaram os olhos. Boatos se espalharam como ondas na água.

O olhar de Albrecht se moveu da garota para o cadáver, depois para Noel, que ainda não se mexia desde que chegaram.

— E ele? — perguntou o velho.

— Ele manteve ela ocupada tempo suficiente pra eu dar o golpe final, — disse Elena, escolhendo cada palavra com cuidado. — Se ele não tivesse distraído, eu não teria tido chance.

Não houve aplausos. Nem gritos de vitória. Somente um reconhecimento silencioso. Alguns magos foram verificar o corpo, lançando feitiços de análise sobre os restos.

Um deles olhou para cima. — Núcleo de Adepto, — confirmou. — Corrupido. Talvez aprimorado artificialmente.

Isso chamou atenção. Mesmo a expressão de Albrecht mudou levemente.

Mirelle torceu a língua. — E isso foi autorizado a chegar às zonas internas? Quero os responsáveis interrogados —

Elena permaneceu imóvel, postura ereta, deixando as vozes ao redor ficarem em segundo plano. Ainda sentia o calor do sangue de Noel nas mãos pontando a pele.

Ela tinha mentido.

Mas apenas porque alguém decidiu desaparecer.

O interior da tenda de comando era iluminado por orbes dourados flotantes, agora fracos, danificados, instáveis ou simplesmente desativados. A mesa central era larga, de madeira escura, cercada por nobres que permaneciam em silêncio rígido.

Elena ficou na cabeça da mesa, com o uniforme rasgado, sujo de terra e sangue, mas com a postura impecável. As mãos unidas atrás das costas, e sua voz firme, mesmo sob o peso que a pressionava.

— Não havia orbes na área quando o ataque começou, — declarou com clareza. — Não acionaram os mecanismos de proteção. Não tivemos aviso, suporte ou mesmo comunicação.

Ela fez uma pausa, deixando a frase pairar no ar.

— Noel Thorne foi o primeiro a reagir. Ele enviou os outros embora, sozinho, e manteve a atenção da fera enquanto eu me reagrupar. Quando voltei, ela já estava ferida. Consegui terminar a luta usando uma combinação de combate corpo a corpo e magia de fogo. O corpo confirma o padrão de dano."

Um murmúrio percorreu a sala.

Lorde Albrecht Thorne estava sentado no extremo oposto, com as mãos unidas, expressão indecifrável. Não olhou uma só vez para Elena durante seu relato. Seu olhar permaneceu fixo nas orbes.

— A serpente entrou em nosso perímetro, — disse lentamente. — Corrupida, aprimorada, e deixada sem controle numa zona onde os herdeiros deveriam estar protegidos.

Em seguida, fez um gesto brusco.

— Vocês. Quero todos os agentes Thorne responsáveis pela gestão do perímetro aqui, agora.

Dois guardas imediatamente se moveram.

— Essa foi minha caçada, — continuou, com a voz elevando como ferro sendo triturado. — Eu a organizei. Com meu nome. E vocês deixaram isso acontecer no meu território?

Mirelle permaneceu ao lado dele, silenciosa, com os lábios cerrados, mandíbula apertada. O silêncio dela dizia mais do que qualquer acusação.

Elena permaneceu imóvel, com os olhos fixos à frente.

— Não sei exatamente como a corrupção se espalhou, — acrescentou com cuidado, — Mas a serpente não agia naturalmente. Demonstrou comportamento direcionado, rastreamento avançado e agressividade seletiva. Suspeitamos de interferência."

As orbes ao redor se moveram, piscando novamente. Algumas, visivelmente danificadas, mostravam vídeos distorcidos — formas desfocadas, imagens trincadas, estática.

— Apaguem todos os registros, — ordenou Albrecht. — Todas as câmeras, logs de entrada e saída. Quero respostas antes do anoitecer.

O silêncio que se seguiu foi sufocante.

Finalmente, Elena permitiu-se expirar, uma única vez. Um olhar ao lado mostrou Noel sendo levado em uma maca por curandeiros da academia, com a espada calada repousando contra o peito como uma promessa silenciosa.

Ninguém pediu a sua versão da história.

E exatamente assim ele queria.

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