O Extra é um Gênio!?

Capítulo 9

O Extra é um Gênio!?

O sol da manhã lançava um dourado pálido sobre os telhados da academia.

Noel estava diante do espelho, ajustando sua gravata. O uniforme caía perfeitamente: paletó azul-marinho bem passado, camisa branca sem uma mancha e uma gravata atada com precisão silenciosa. Nada de ostentação. Apenas limpo.

Seu reflexo o encarava — imóvel, indecifrável.

Mas por dentro?

Ele pensava.

“Até agora, duas peças se moveram.”

Ele ajustou as manchetes nas mangas.

“Elena foi uma oportunidade casual. Uma intersecção aleatória.”

Ele fechou o casaco.

“Selene... não foi. Eu sabia onde encontrá-la. Aquela clareira sempre foi seu refúgio, mesmo no livro.”

Ele hesitou.

Depois sorriu de lado.

“Nunca esperei que ela me notasse, contudo.”

Ele passou a mão pelos cabelos, puxou uma vez a gola e expirou lentamente.

Hoje era o verdadeiro começo.

Cerimônias. Aulas. Estrutura.

Hoje, os papéis começaram a se formar.

E Noel Thorne — aquele sem falas, sem cenas, sem futuro no roteiro original — já estava no palco.

Ele agarrou sua pasta, pendurou-a no ombro e saiu do cômodo.

O auditório era simplesmente majestoso.

Foi esculpido em pedra encantada, com tetos tão altos que desapareciam em runas flutuantes e luz dourada. Fileiras de assentos em degraus, preenchidas com estudantes do primeiro ano, se curvavam em arcos elegantes ao redor de um palco elevado no centro.

Lanternas flutuantes pairavam acima, emitindo uma iluminação suave, sem piscar nem aquecer. As paredes brilhavam suavemente com encantamentos de proteção. No frontispício, um grande emblema — uma fênix entre chamas e estrelas, o selo da Academia Imperial.

Noel ocupou um assento próximo ao degrau superior esquerdo, observando em silêncio enquanto o clima se enchia de murmúrios e sussurros empolgados.

Então as luzes se apagaram.

O silêncio que seguiu não foi forçado.

Foi natural. Absoluto.

Porque o homem que entrou no palco não precisava chamar atenção.

Ele era atenção.

Nicolas Von Aldros, Diretor da Academia Imperial.

Não aparentava mais do que quarenta anos — alto, bem construído, com cabelo loiro-prateado preso de forma solta com uma fita, e olhos como aço temperado. Mas algo nele parecia mais antigo do que o próprio tempo.

Não cansado. Não exausto.

Apenas... antigo.

O jeito como se movia, a postura — era como se o ar ao seu redor esperasse permissão para se mover.

“Sejam bem-vindos”, disse, sua voz tranquila — mas que ecoou pela câmara como um feitiço.

“Cada um de vocês está aqui hoje não por nome ou riqueza. Mas por potencial.”

Ele percorreu as fileiras.

Seu olhar passou por Noel.

E por um instante — fez uma pausa.

Depois seguiu adiante.

“Vocês estão às portas de algo maior do que vocês mesmos. Poder não dá significado. Propósito dá. E sem controle, o poder é apenas outro tipo de fracasso.”

Noel sentiu o peso dessas palavras se estabelecerem no peito.

Um murmúrio percorreu a multidão.

O diretor Aldros falou novamente.

“Alguns de vocês irão se destacar. Outros cairão. Essa é a natureza do que cultivamos aqui.”

Ele sorriu de leve — quase com tristeza.

“Sejam bem-vindos à Academia Imperial de Valon.”

As luzes subiram novamente.

O silêncio foi quebrado.

E o futuro começou.

A plateia esvaziou-se em ondas.

Estudantes se agrupavam, guiados por funcionários e sigilos flutuantes que projetavam nomes, nomes de turma e linhas de mana coloridas pelo chão. As linhas pulsavam suavemente — uma forma elegante de administrar o caos.

Noel seguiu a direção marcada como “Turma A – Torre Superior”.

Ela atravessava corredores largos de mármore, ladeados por janelas de vitral. Cada painel retratava cenas lendárias — magos conjurando cidades do nada, guerreiros envoltos em chamas divinas, estudiosos manejando tinta como lâminas.

Noel avançava silencioso, olhos atentos.

Cada detalhe importava.

Cada passo lhe ensinava algo.

Eventualmente, o corredor se abriu numa escadaria em espiral, escavada na pedra branca. Os degraus não rangiam. Sussurravam. Como se até a arquitetura soubesse quem deveria passar por ali.

Após alguns minutos, chegou ao último andar, com o coração firme.

À sua frente, uma porta gravada com runas — já aberta. Dentro, uma luz suave entrava pelas janelas altas. Mesas de madeira polida estavam dispostas em uma formação curva, todas voltadas para um palco elevado no centro.

Ele entrou.

O topo da torre.

O espaço reservado para os melhores.

Ele não sorriu.

Mas algo no peito dele parecia... firme.

“Seja bem-vindo ao palco.”

A sala de aula estava silenciosa, quase demais.

Poucos estudantes já estavam sentados. Alguns conversavam baixinho, outros revisavam notas ou canalizavam mana distraidamente pelos dedos. Noel escolheu um assento no meio do arco — perto o suficiente para observar, longe o bastante para não ser notado.

As paredes estavam gravadas com glifos que amorteciam mana, e runas suaves pairavam acima de cada mesa — prontas para acender ou registrar mediante comando. Não parecia uma sala de aula comum.

Parecia um campo de prova.

Alguns minutos passaram.

Então, a porta se abriu sem fazer som.

Entrou um homem, alto e magro, vestido com uma longa túnica escura com detalhes violeta. Seu cabelo era quase branco, penteado de forma cuidadosa. Seus olhos — violeta pálido — varriam a sala como lâminas.

Professor Daemar.

Ele não falou de imediato. Ficou no centro, com as mãos cruzadas atrás das costas, deixando o silêncio aprofundar.

Os últimos sussurros se extinguiram instantaneamente.

Quando finalmente falou, foi suave. Medido. Sem esforço.

“Manipulação de mana”, disse, “não é questão de força. É questão de controle.”

Deixou a frase pairar por um momento.

“Um feitiço de fogo não impressiona. Um feitiço de fogo com intenção, precisão e timing é que impressiona.”

Olhou ao redor novamente, mais devagar desta vez.

“Se algum de vocês veio aqui para mostrar serviço, sugiro que vá embora. Esta aula é para quem deseja dominar a única coisa que define toda magia.”

Ele levantou uma mão.

Mana cintilou no ar ao redor, como névoa presa na tempestade.

E então parou — no ar.

Dezenas de fios brilhantes pairaram, suspensos em completo silêncio.

Sem uma centelha. Sem uma trepidação.

Então ele estalou os dedos.

Os fios se enrolaram de volta na palma da mão e desapareceram.

O silêncio que seguiu não foi nervoso.

Foi de respeito.

Noel se inclinou um pouco para frente.

“É, não está blefando.”

Estudantes começaram a chegar enquanto o professor Daemar finalizava sua demonstração, cada chegada silenciosa alterando discretamente o clima da sala.

Primeiro entrou Marcus.

Cabelos escuros, alto, com uma expressão meio áspera, mas sólido — movia-se com a confiança silenciosa de quem não tem nada a provar, só tudo a lutar.

Ao lado dele, Clara, com expressão calma, olhos atentos. Ela sorriu ao ouvir algo que Marcus disse, ajeitando um fio de cabelo atrás da orelha enquanto encontravam assentos perto do centro.

Noel os reconheceu na hora.

O núcleo da história.

Ele voltou sua atenção para a frente, mantendo a face impassível.

Então, uma nova presença se sentou ao seu lado.

“Posso me sentar aqui?”

Noel olhou de relance.

O menino tinha ombros largos, pele bronzeada, cabelo curto e escuro, com um sorriso fácil. Uma espada na cintura — não para enfeite. Sua postura dizia que sabia usá-la.

“Noel, né?” perguntou. “Sou Roberto.”

Noel deu um aceno breve. “Sim. Pode ficar.”

Roberto deixou a mochila no chão e estendeu a mão.

Noel a segurou, firme, mas sem amizade excessiva.

‘Não aparece no livro. Um trunfo inesperado.’

“Acho que agora somos colegas de mesa,” comentou Roberto com um sorriso. “Espero que não seja muito competitivo.”

Noel levantou uma sobrancelha. “Só quando faz diferença.”

Uma entrada silenciosa chamou sua atenção — Selene entrou na sala.

Ela não fez som ao caminhar, cabelo azul preso de forma arrumada, olhos afiados e distantes. Ela acenou brevemente para Noel, que retrucou com um gesto discreto.

Depois veio Elena von Lestaria.

Graziosa, composta, indecifrável. Seus olhos varreram a sala enquanto caminhava firme até uma cadeira vazia, sem hesitar.

E por último —

A porta se abriu mais uma vez.

E silêncio caiu novamente.

Lady Elyra von Estermont entrou com toda a sutileza de uma declaração.

Seu uniforme trazia o brasão vermelho do conselho estudantil, adornado em prata. O cabelo trançado, prático, o olhar cinza que se movia como lâminas entre os alunos.

Noel percebeu a mudança.

Não medo.

Nem admiração.

Mas cálculo.

Ela sentou-se perto do frontispício. Sozinha. Por escolha.

‘E lá está ela. A aranha do conselho.’

Os atores tinham chegado.

E a cortina estava prestes a subir.

Daemar fez um gesto com a mão, e runas brilhantes se acenderam ao redor de cada mesa, formando barreiras de luz. Uma tênue cintilação se espalhou para cima — campos de contenção.

“Vamos começar com algo simples”, disse. “Formação básica de esfera. Se não conseguem estabilizar mana bruta numa construção básica, saiam. Esta academia não é lugar apenas de teoria.”

Um murmúrio de tensão percorreu a sala.

Noel não hesitou.

Inspirou fundo. Conectou-se internamente. Deixou a mana responder.

Foi mais lento que os outros — menos imediato que Selene, menos suave que Elena. Mas veio.

Calor preencheu sua palma.

Modelou com cuidado.

Uma pequena esfera de mana se formou acima da sua mão — azul-clara, firme, tremeluzindo levemente.

Não impressionante.

Mas estável.

Ele segurou por mais tempo que alguns. Menos destaque, mais controle.

Não olhou ao redor.

Mas alguém mais observou.

Elyra, de seu assento perto da frente, olhou por sobre o ombro. Seus olhos travaram com os de Noel por um instante. Nenhuma reação. Apenas análise.

Depois desviou o olhar.

Marcus lutava — sua esfera se formava, mas se deformava constantemente. Clara se inclinou, sussurrando dicas. Ele deu uma risadinha, tentou de novo.

O orbe de Selene era perfeito. Um cristal de gelo suspenso no ar, imóvel.

O de Elena, elegante — forma impecável, canalização graciosa.

Roberto não conseguia moldar mana, mas sua mão brilhava tenuemente com um reforço interno — um talento diferente.

Daemar passou silencioso por cada fileira, inspecionando.

Quando chegou à mesa de Noel, parou por meio segundo. Não mais do que isso.

Mas foi o suficiente.

Depois, seguiu adiante.

Noel respirou fundo.

“Não foi mal.”

“Tampouco espetacular. Mas estou aqui.”

E por agora… isso era suficiente.

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