O Extra é um Gênio!?

Capítulo 10

O Extra é um Gênio!?

O pátio nos fundos da torre principal estava fervilhando de barulho.

Estudantes descansavam em bancos de mármore, agrupados sob árvores que ofereciam sombra ou ao redor dos bonecos de treino no círculo de treinamento. O ar era preenchido por conversas, risadas e explosões de mana cintilando de práticas casuais de magia.

Noel tinha acabado de sair do corredor principal quando ouviu seu nome.

Barulhento.

Chegando a ser demais para ser coincidência.

— Então é verdade, hein? Deixaram aquele cara entrar na Classe A?

Algumas cabeças se viraram. Um pequeno grupo de estudantes se havia reunido perto do caminho central, com os olhos fixos em um garoto alto que permanecia de braços cruzados, com a voz aguda e convencida.

Callen Draive.

Filho da Casa Draive—uma casa nobre menor, com um ego grande. Uniforme preto usado um pouco além do necessário. Espada na cintura. Cabelos loiros penteados para trás. E um sorriso que dava vontade de jogar um soco.

— Quero dizer, todo mundo sabe que a Casa Thorne caiu, né? — Callen continuou, em um tom alto para que todos ouvissem. — Mas botar alguém como ele aqui? O que vocês fizeram, Thorne? Rogaram? Compraram algum favores?

Noel nem sequer mudou o passo.

Passou direto pelo grupo, com as mãos nos bolsos e o olhar fixo à frente.

Isso só fez Callen rir ainda mais alto.

— Olha só! Sem força de vontade também! Normal.

Noel parou.

Virou-se.

Inclinou a cabeça levemente.

— Você… me conhece?

O sorriso de Callen tremeu.

— Não me surpreende que não se lembre — ele cuspiu. — Você sempre foi de passar despercebido.

Noel piscou uma vez.

Depois sorriu — de forma calma. Quase preguiçosa.

— Então por que você está tão desesperado pelo meu nome agora?

Alguns estudantes deram risada.

A expressão de Callen escureceu.

— Desafio você para um duelo.

O povo começou a mexer-se.

Noel levantou uma sobrancelha.

Antes que pudesse responder, Marcus deu um passo à frente, vindo de trás da multidão.

— Ei, ei— Callen, sério? — ele falou. — Vamos lá. Não faz isso.

Callen bufou. — Recuar, plebeu. Aqui não é palco seu.

Noel levantou uma mão, com a palma aberta, o olhar ainda fixo em Callen.

— Pode deixar — falou a Marcus.

Depois virou-se para o desafiante.

— Aceito.

E sorriu, um pouco.

'Vamos dar um espetáculo.'

Eles seguiram até a arena oficial de duelos — uma plataforma circular embutida no piso de pedra do pátio sul. Ela era cercada por wards brilhantes e runas gravadas, projetadas para conter tanto magia quanto impulso.

Estudantes seguiram em massa.

Sussurros correram mais rápido que passos.

— Não é Noel Thorne?

— Aquele que dizem ter comprado o lugar na Classe A?

— Ouvi dizer que ele nem consegue usar feitiços de verdade…

Noel ignorou tudo.

Caminhava com passo firme, com uma espada de madeira desajeitadamente pendurada sob o braço. Sua expressão não mudou, nem mesmo quando Callen marchava à frente, como se já tivesse vencido.

O público se alinhava na borda exterior.

No final da plataforma, estava o Professor Daemar, com os braços cruzados, olhos violetas observando ambos como um falcão caçando a presa.

— Sem magia a não ser que eu diga o contrário — disse Daemar, com uma voz que carregava sem precisar gritar. — Formato padrão. Primeiro a desarmar ou rendição direta encerra o combate.

Callen saudou com um gesto dramático de sua espada de madeira.

Noel apenas assentiu levemente e entrou na arena.

Callen deu um sorriso de escárnio. — Você sempre foi lento para responder. Comedido.

Noel deu um bocejo — de verdade.

— Desculpe, você ainda está falando?

O público reagiu — alguns tossiram, outros riram.

Callen apertou ainda mais sua espada de madeira.

'Ótimo', pensou Noel. 'Continue ficando irritado. Assim fica mais arisco.'

Daemar levantou uma mão, com tom neutro.

— Comecem.

Callen foi o primeiro a agir.

Ele avançou, rápido e agressivo, sua espada de madeira cortando o ar com precisão treinada.

Noel nem sequer tentou desviar.

Ele se esquivou para o lado.

A lâmina passou a centímetros do seu rosto.

O público rugiu — primeiro, pensando que Noel tinha hesitado. Mas, enquanto Callen se virou para se recuperar, Noel já se reposicionava, calmo, impassível.

Callen bufou e avançou de novo — mais rápido, agora com uma finta e um golpe ascendente.

Noel recuou lentamente.

A lâmina passou bem na frente do seu rosto.

Depois de novo — Callen desfechou uma sequência de golpes: diagonal, lateral, por cima.

Todos eles erraram.

Não porque Noel estivesse recuando. Ele não estava.

Simplesmente, ele não estava lá quando a espada chegava.

Se movimentava com esforço mínimo. Apenas o suficiente. De forma eficiente. Calculada.

De fora, comemorações ecoaram.

— Está acotovelando ele!

— Vamos, Callen!

Eles não perceberam.

Mas Callen sim.

Ele começava a suar.

Respirava mais rápido.

Noel não tinha atacado sequer uma vez.

Nem uma vez.

E, mesmo assim, não tinha levado um único golpe.

— Você— — Callen cuspiu. — Fique parado!

Noel sorriu sutilmente.

— Por quê? Você está indo tão bem em acertar o ar.

A próxima investida de Callen veio com fúria, não com técnica.

Um golpe horizontal largo para desequilibrar Noel.

Dessa vez, Noel avançou em vez de recuar.

Giratou o corpo, deixando o golpe escorregar de forma inofensiva pelo ombro, e com um movimento de pulso—

Crack.

A espada de madeira dele bateu na do Callen na posição perfeita.

A arma voou das mãos de Callen, caindo com estrondo no chão da arena.

Suspiros ecoaram ao redor.

Noel deu um passo à frente.

Levou a espada.

Apontou diretamente para o rosto de Callen.

— O duelo acabou.

Silêncio.

O público, o professor, até Callen — pararam.

O combate tinha sido limpo.

Precisamente.

E totalmente desigual.

Callen ficou imóvel, com o peito arfando e o rosto corado. Os dedos se mexiam como se tentassem ainda segurar a espada que agora ficava a vários metros de distância.

Noel não se mexeu.

A sua espada de madeira pairava a poucos centímetros da testa de Callen.

A postura dele era perfeita.

Ombros relaxados. Pés na linha. Pegada firme e tranquila.

Poderia ficar assim o dia todo.

'As aulas de kendo serviram pra algo depois de tudo.'

Ele abaixou a espada.

Virou-se.

Começou a sair da plataforma.

Mas Callen ainda não tinha acabado.

— N-NÃO! Eu não acabei!

O grito veio junto de uma rajada de mana — quente, descontrolada, furiosa.

Noel girou justo quando Callen levantava a mão, símbolos arcanos piscando na pele dele. Fogo se enrolava nos dedos, formando uma conjuração perigosa e instável.

O público gritou em aviso.

Mas, antes que Callen pudesse lançar o feitiço—

Um estalo agudo ecoou na arena.

O fogo desapareceu num instante, arrancado do centro dele por uma onda de magia de cancelamento.

Ao lado dele—Professor Daemar.

Com uma mão segurando o ombro de Callen.

A outra pairando logo atrás do pescoço, mana pulsando em um laço violeta denso.

— Já chega — disse ele, com a voz tranquila.

— Não precisava usar magia sem permissão. Em violação à regra dois, linha quatro, subseção três.

Callen abriu a boca.

— Pode economizar — retrucou Daemar.

Com um movimento de pulso, um selo de mana apareceu ao redor do pulso de Callen, como uma braçadeira luminosa.

— Você está suspenso pelo dia. Se tentar lançar outro feitiço, sua vaga na Classe A será perdida.

Callen franziu a testa de frustração, mas não falou mais nada.

Foi escoltado para fora da arena em silêncio.

Noel observou tudo com a mesma expressão de antes — nenhuma.

Acima, em uma das passarelas superiores que dava vista para a arena de duelos, Lady Elyra von Estermont estava com os braços cruzados, olhava fixamente para a plataforma abaixo.

Ela não aplaudiu.

Não se moveu.

Não disse uma palavra.

Mas tinha visto tudo.

Desde o momento em que Noel entrou na roda, ela observou cada movimento dele — desligado, mas deliberado, casual, porém controlado.

Nunca tentou se exibir.

Nunca jogou para a plateia.

Mas cada ação tinha uma intenção.

E quando ele desarmou Callen?

Sem esforço.

'Sem movimento desperdiçado. Sem hesitação. E sem necessidade de aplausos.'

Seus olhos cinzentos se estreitaram levemente.

'Então é assim que chamam o "nobre inútil"'

Ela inclinou a cabeça, com a trança caindo sobre um ombro.

'Interessante.'

Depois, sem dizer nada, virou-se e foi embora.

Noel nem sequer a vira.

A multidão começava a dispersar.

Alguns sussurravam. Outros riam. Alguns lançavam olhares curiosos na direção dele — meio confusos, meio desconcertados. Ele ignorou todos e saiu calmamente da plataforma, pegando seu casaco numa banco próximo.

Ele não esperava que alguém fosse falar com ele.

Então, quando uma mão o bateu no ombro, ele se assustou — só um pouco.

— Cara — Roberto disse sorrindo — aquilo foi arte.

Noel piscou.

— Arte?

— É, cara! Você fez ele dançar como um frango sem cabeça por cinco minutos. Melhor do que aula.

Noel encolheu os ombros. — Eu só… estava alongando.

De trás deles, Marcus se aproximou. Parecia mais sério — mas não frio.

— Obrigado por não me envolver naquela confusão — disse.

Noel olhou para ele. — Não parecia justo arruinar sua reputação por causa de um duelo.

Marcus deu uma risada. — Você tem a língua afiada. E uma espada ainda mais afiada.

Noel não respondeu. Não de imediato.

Ele não estava acostumado a esse tipo de elogio — sem expectativas ou condescendência.

Mas o clima ao redor deles era leve. Sincero.

Roberto deu um tapinha no seu cotovelo. — Você é sempre assim calmo, ou foi só por efeito?

Noel deu um sorriso tênue, quase relutante.

— Eu fico entediado facilmente.

Os três seguiram de volta para o prédio principal.

Noel ainda se sentia meio fora do lugar com eles — como um fantasma numa festa alheia.

Mas não foi embora.

E talvez esse fosse o começo.

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