
Capítulo 15
O Extra é um Gênio!?
Noel estava sentado na margem da cama, girando a moeda de obsidiana entre os dedos enquanto examinava o pedaço de papelão minúsculo que vinha junto com ela.
A escrita parecia ter sido feita por alguém apressado — ou bêbado.
Ele ajustou o olhar na linha próxima à parte de baixo e murmurou: "Vamos ver que tipo de mentira você está escondendo..."
E lá estava ela.
"Para ativar o efeito do Véu da Tecelã, é necessária uma pista biológica da forma pretendida. Cabelo, sangue, unha. Sem exceções."
Noel ficou olhando para ela por um segundo.
Depois novamente.
"Porra…"
Ele deixou o papel cair na cama, como se tivesse sido ofendido pessoalmente, e se jogou para trás, com os braços abertos.
'Claro que precisa de DNA. Porque, por que diabos não haveria?'
'Só uma vez, gostaria de pegar algo útil que não venha acompanhado de uma porrada de condições.'
Ele ficou ali um momento, deixando o teto julgá-lo em silêncio.
Depois, sentou-se novamente em um barulho de esforço, pegou o amuleto, e o colocou no casaco.
Ele olhou para o relógio.
21h46.
Ainda havia tempo.
Continuava escuro lá fora.
E se aqueles três idiotas mantivessem sua rotina de sempre…
'Hoje é a noite.'
Ele vestiu o casaco, certificou-se de que a lâmina na cintura estava firme, e saiu do quarto silenciosamente.
'Vamos lá fazer um corte de cabelo.'
O campo do colégio estava silencioso nesta hora — exatamente do jeito que Noel gostava.
Sem luzes. Sem passos. Apenas o vento frio sussurrando pelos corredores de pedra, como se algo esquecido estivesse passando.
Ele se moveu rápido, porém silencioso, entrando num canto na penumbra próximo às salas de encantamento.
De lá, tinha uma vista perfeita da velha escadaria — aquela que levava às galerias de manutenção debaixo do setor de laboratórios. A mesma rota que os três pequenos notívagos usavam toda hora sem parar.
Ele se agachou, encostado na parede, uma mão descansando casualmente na empunhadura da lâmina.
O relógio bateu dez horas.
E, com certeza — lá estavam eles.
Três silhuetas surgiram de um corredor lateral. Capuzes para cima, casacos apertados, olhos fixos à frente.
Não falaram. Não hesitaram.
Eles se moveram com a confiança de quem já faz isso várias vezes.
'Porra de moleques ousados.'
Noel observava.
Esperou.
Antes de chegarem ao hatch, um deles virou-se — verificando rapidamente atrás de si.
O vento levantou a borda do capuz dele.
E foi tudo o que Noel precisava.
Cabelos vermelhos. Pele pálida. Mandíbula afiada. Uma pequena cicatriz perto da maçã do rosto.
"Peguei você, seu safado."
Ele não o seguiu desta vez.
Não precisava.
Continuou agachado na escuridão, fixando aquele rosto na memória como se fosse um alvo pintado numa parede.
'Um dos alunos do Rauk. Grupo C. Aula de corpo a corpo.'
'Essa é minha chance. E não vou perder.'
O hatchrangevo aberto lentamente.
E eles deslizaram para o túnel debaixo dos laboratórios de encantamento, exatamente como sempre.
Sumiram em segundos.
Noel se levantou, torceu os ombros e se misturou de volta ao corredor.
'Agora só preciso chegar perto o suficiente para pegar um pedacinho.'
'Amanhã, você vai sangrar cabelo, seu idiota.'
O sol ainda nem tinha surgido completamente quando Noel chegou ao campo de treinamento.
Do jeito de sempre.
Corrida leve.
Flexões.
Exercícios de deslocamento.
Inspire. Expire. Fluxo de mana. âncora. Compressão. Controle.
'O caos à noite. Rotina de manhã. É assim que se mantém a sanidade.'
O frio mordia sua pele, mas ele não se importava. Gostava disso. A dor o ajudava a focar.
Pela esquina do olho, um movimento.
Ele não precisava olhar para saber.
Selene.
Mesma hora. Mesmo lugar. Todo dia.
Trança azul presa firmemente. Livro de mana flutuando ao seu lado. Precisão em cada passo. Gelo formando na palma da mão antes mesmo de chegar ao centro do campo.
Noel não falou nada imediatamente.
Ela também não.
Então, como sempre:
"Bom dia", ela disse sem olhar para cima.
"Bom dia", ele respondeu, mantendo a respiração equilibrada.
Era só isso.
Toda semana, esse pequeno trecho de conversa.
Sem silêncio constrangedor. Sem papo de mentira.
Apenas entendimento mútuo envolvido no ar frio e na disciplina.
'Ela é inteligente. Se mantém reservada. E nunca falha uma sessão.'
'Faz sentido nos darmos bem — ficando na nossa.'
A boneca de treino diante dele quebrou com o próximo golpe.
Ele passou para o próximo sem hesitar.
'Vamos manter assim.'
A sala de treinamento já tinha gente quando Noel entrou.
Pisos de madeira, paredes reforçadas, estantes de equipamentos de combate dos dois lados. Alguns estudantes já se alongando, outros brincando de socar ou se esticando como se um deles realmente se importasse.
E, bem no centro de tudo — o Instrutor Rauk.
Com ombros largos, braços cruzados, aquele tipo de cara que parecia capaz de levantar até um dragão se pedissem gentilmente. Cabelos grisalhos, presos numa cauda baixa e prática. Quando falou, sua voz soou como um tambor de guerra:
"FAREMOS uma espécie de treinamento. Entranhas leves. Sem melhorias. Se eu pegar alguém brilhando, correrá até vomitar."
Um coro de gemidos se espalhou pelo grupo.
Rauk sorriu.
"Boa. Agora, cale a boca e escolha um parceiro."
Roberto deu um cotovelo em Noel, sorrindo. "Comigo de novo?"
Noel balançou a cabeça.
"Hoje não."
Roberto piscou. "É?"
"Quero tentar alguém diferente."
Ele já estava analisando o grupo.
E lá estava ele.
Cabelos vermelhos. Pele pálida. Silêncio.
O cara ajustava os elásticos das luvas na borda do tatame, ocupado com seus próprios pensamentos.
'É esse. Vamos jogar, maldito.'
Noel se aproximou, de maneira casual.
"Topa uma rodada?"
O rapaz olhou para cima, quase sem piscar, e assentiu.
Sem palavras.
Perfeito.
Eles entraram no ringue.
Rauk levantou a mão.
"Mantenham o jogo limpo. Comecem."
Noel não foi o primeiro a se mexer.
Ele ficou ali, relaxado, com a lâmina na mão, respirando calmamente.
O rapaz de cabelo vermelho não era nada exibido. Não ficava se impondo. Não falava bobagens.
Ele veio para cima de Noel — rápido.
Postura firme. Passo controlado. Seus golpes não eram descontrolados, mas também não eram padrão da academia.
Noel bloqueou os primeiros golpes, mas não muito bem.
De propósito.
Ele tropeçou um pouco. Deixou uma investida desequilibrar. Deixou o cara pensar que estava vencendo.
'É… você já fez isso antes. Mas não aqui.'
'Essa postura não é de manual.'
Manteve-se na defensiva, permitindo que o adversário avançasse.
Rauk gritava do lado: "Mexa suas pernas, Thorne! Isso aqui não é balé!"
Noel não respondeu.
Estava ocupado observando como o rapaz movia o peso — rápido demais para um iniciante.
'Você foi treinado. Mas não aqui. Alguém te ensinou fora da grade.'
'E, se eu tiver razão, a espada não é sua única arma.'
Deixou que o cara "acertasse" um golpe leve na lateral das costelas e recuasse, respirando pesado.
Ele não estava cansado.
Estava calculando.
'Um pouco mais. Uma janela. Um movimento.'
E aí, ia conseguir o que veio buscar.
Noel manteve o ritmo lento, na defensiva, previsível.
Toda vez que o cabelo vermelho girava, Noel parecia praticamente bloquear, escorregando a posição só um pouco, deixando o inimigo sentir que tinha controle.
'Tem que vender a jogada. Se ele acha que estou mole, não vai se defender bem.'
E funcionou.
O cara ficou mais ousado — avançando, mais rápido, mais preciso, com mais peso em cada golpe. Os estudantes ao redor começaram a notar.
Alguns sorrisos. Algumas conversas sussurradas.
"Acha que o Thorne é tudo isso?"
Noel ouviu, mas ignorou.
Ele deu um passo para trás — depois mudou de posição só um pouquinho.
Rauk chamou de novo do lado: "Última rodada! Faça valer!"
'Perfeito.'
Noel abaixou-se, deixou o cara puxar para cima, e no exato momento, seu braço relampejou.
Um sussurro de mana se formou na ponta da sua espada de madeira — não suficiente para brilhar, nem para que alguém percebesse, mas o suficiente para afiá-la de forma anormal.
Ele virou bruscamente e cortou para cima — não na carne, não na pele.
Mas no cabelo.
A lâmina passou tão perto que quase gemeu.
E um único fio de cabelo vermelho voou pelo ar, como uma brasa morrendo.
Ele caiu no tatame exatamente enquanto Noel deixava seu adversário lançar um golpe direto no ombro dele, derrubando-o com um baque firme.
Ele tocou o chão, respirou fundo, e soltou um "Legal mesmo".
O ruivo não falou nada. Apenas assentiu e foi embora.
Por algum motivo, Noel não se moveu imediatamente.
Ficou olhando para o teto.
Sorriu de leve.
'Peguei você, seu safado.'
Devagar, Noel se levantou, massageou o ombro onde a pancada atingiu. Ia ficar roxo depois, mas ele não se importava. A dor o fazia se sentir vivo. Lembrou-lhe que era real.
Ao redor do tatame, ninguém prestava atenção — mais uma derrota. Mais um combate. Apenas mais uma falha silenciosa do "Filho do Thorne".
Ele olhou para baixo.
Um pequeno tufo de cabelo vermelho estava perto da borda do tatame, quase imperceptível.
Exceto para ele.
Rapidamente o prendeu na palma da mão e o escondeu na manga, depois se levantou e escovou a poeira do casaco.
'Um fio de cabelo. Um problema resolvido.'
'E talvez, só talvez…'
Seus olhos vasculharam a sala. Alguns estudantes ainda cochichavam, mas não sobre ele.
'...com essa "derrota," as pessoas finalmente vão parar de procurar tanto.'
Ele passou em frente a Rauk, com um aceno cansado.
O instrutor franziu a testa, mas ficou calado.
Noel saiu do hall de treinamento sem mais dizer nada, com passos leves e missão cumprida.
Ao chegar de volta ao dormitório, a noite já se estabelecia silenciosa — apenas o ranger antigo do piso de madeira e o zumbido distante das luzes de mana no teto.
Ele trancou a porta, jogou o casaco na cadeira e se sentou na beirada da cama.
Depois, puxou a manga e tirou o pequeno feixe de cabelo vermelho.
Desfez um pequeno saquinho de pano sob a cama, uma caixa selada com runas que preparara dias atrás, e colocou o cabelo lá dentro, deixando-o repousar no centro do arranjo de runas.
Um sutil pulso de luz passou pelas linhas.
'Mais um passo.'
Ele se encostou na parede, respirando fundo.
Todo o peso saiu de seus ombros de repente.
A sala ficou silêncio. Nenhuma movimentação. Nenhum barulho.
Só ele.
E um fio de cabelo roubado que talvez fosse a chave para tudo.
'Faltam dois meses.'
'Agora tenho a face... só falta me tornar o espectro.'
Ele fechou os olhos por um segundo, deixando a mente ficar limpa.
Amanhã seria um dia normal.
Mas hoje à noite?
Hoje à noite, ele havia vencido.
Ninguém sequer suspeitava.
E era exatamente assim que ele gostava.