O Extra é um Gênio!?

Capítulo 14

O Extra é um Gênio!?

Noel sentava de pernas cruzadas na cama, com um catálogo de trocas meio amassado aberto no colo.

O papel estava desgastado e um pouco queimado nas bordas—claramente usado. Cada item ganhava um brilho suave na página, animado por encantamentos fracos que piscavam ao toque.

Já tinha marcado duas vezes o item que precisava.

Nome: Amuleto do Tecelão do Véu

Tipo: artefato utilitário da classe ilusão

Função: altera temporariamente a aparência física (no máximo 30–45 minutos)

Tempo de recarga: 96 horas

Preço: 40 moedas de ouro

Noel olhou fixamente para o número.

Depois respirou fundo, de modo longo e silencioso, e deixou o catálogo cair na cama.

"Certo. Então isso é um não."

Mesmo se esvaziasse a bolsa de moedas do dormitório, contasse a prata escondida na escrivaninha e convertesse até o último bronze no cinto, talvez conseguisse juntar umas sete moedas de ouro.

Talvez.

E isso sem deixar nada para as refeições, suprimentos ou subornos—que estavam se tornando uma necessidade rápida.

'Muito caro.'

Ele se recostou com um cotovelo apoiado na cama, os olhos seguindo as rachaduras no teto.

Então a resposta veio como um sussurro.

'Na verdade… talvez não seja caro demais.'

Um sorriso lento surgiu nos lábios dele.

'Eu conheço alguém que poderia comprar metade desse catálogo antes do café da manhã.'

Sua mente voltou-se para Elyra von Estermont.

'E ela disse que íamos trabalhar juntos.'

A biblioteca estava silenciosa, mas não vazia.

Estudantes passavam entre as estantes como fantasmas, vozes abafadas quase um sussurro. Em algum lugar perto, alguém virou uma página alto demais e levou um olhar de morte por isso.

Noel já estava sentado na esquina habitual quando Elyra chegou.

Ela não falou imediatamente—apenas deixou a sacola ao lado da cadeira, sentou-se na sua, de frente para ele, e abriu um caderno preto grosso com graça treinada.

Noel esperou.

Depois se inclinou para trás, na casualidade.

"Preciso de algo."

Elyra não olhou para cima. "Hm"

"É importante."

Ela levantou os olhos agora—cinzentos e afiados.

"Defina importante."

Ele retirou a página dobrada do catálogo do casaco e a colocou aberta entre eles. Seu dedo deu um toque uma vez na lista marcada.

Ela leu uma, duas vezes. Depois olhou para ele.

"Isso não é uma ninharia."

"Não esperei que fosse."

Uma pausa.

Então:

"Eu consigo."

Noel piscou uma vez.

Só uma.

"Assim tão fácil?"

Ela ergueu uma sobrancelha.

"Não disse que era de graça."

"Um favor", ela resumiu.

Ele estreitou os olhos. "A gente está junto nessa."

"Estamos", ela respondeu. "Mas eu cuido das minhas contas."

Noel se inclinou um pouco para frente.

"Você nem vai me dizer qual é o favor?"

"Se eu dissesse agora", ela fechou o caderno com um estalo suave, "você pode dizer que não."

Ele a encarou.

Longo. Frio.

Três dias se passaram.

Noel manteve sua rotina—treinamento cedo, refeições silenciosas, aulas onde dizia o essencial para parecer presente e nada mais.

Mas algo era diferente.

Começou com olhares.

Não confrontantes. Apenas... curiosos. Persistentes.

Depois vieram os sussurros, aqueles que caíam ao seu redor quando entrava numa sala e voltavam a surgir quando saia.

Ele os ouvia em pedaços:

"Ele só aparece na biblioteca agora, né?"

"Com ela. Elyra."

"Thorne? Aquele cara do duelo?"

"Semana passada ela chamou ele pra reunião do conselho?"

"Ele não parece muito, mas tem algo errado com ele."

Noel fingiu não perceber.

Mas isso o incomodava.

Porque ele tinha percebido.

Cada olhar. Cada cadeira que se mexia. Cada voz que abaixava mais tarde demais.

'Era para eu estar no fundo da cena.'

'Um fantasma na multidão.'

Em uma manhã, ele estava na beira do campo de treinamento, com os braços cruzados, observando os outros lutando. Roberto acenou para ele se aproximar. Marcus sorriu.

Noel assentiu.

Mas não se moveu.

'Primeiro aquele idiota nobre. Agora isso.'

'Demais atenção. Merda.'

Ele cerrava a mandíbula, virou de costa e foi embora.

Era quase noite quando Noel recebeu a mensagem.

Somente um mensageiro estudante, que o encontrou na volta dos treinos noturnos.

"Senhora Estermont manda: escadaria oeste, primeiro andar. Agora."

Noel não hesitou.

A escadaria era pouco iluminada, sem uso depois do expediente. Um ponto perfeito de zona morta nas rotas de patrulha da academia.

Elyra já estava lá quando ele chegou.

Ela não parecia mais uma nobre—sem jaqueta com detalhes de prata, sem broche do conselho. Apenas preto simples da academia, cabelo preso em uma trança baixa, rosto neutro.

Na mão: um pequeno saquinho de veludo.

"Pega," ela disse, jogando para ele.

Ele o pegou facilmente, sentindo o peso imediatamente.

Noel abriu o saco.

Dentro, enrolada em tecido preto, havia uma moeda de obsidiana lisa, com runas tênue que se mexiam sutilmente ao seu redor.

Ele a virou na palma da mão. "Parece legítima."

"É. Testei ela mesmo."

Ele assentiu uma vez. "Obrigado."

"De nada," ela respondeu. Então fez uma pausa.

"Na próxima vez, não nos encontramos na rua aberta."

"Não estamos exatamente no meio do pátio."

"Não importa," ela disse. " Os boatos estão crescendo. Rápido."

Ele exalou. "Sim. Notei isso."

Ela inclinou a cabeça, estudando-o.

"Te incomoda?"

Noel virou a moeda de obsidiana entre os dedos, observando as runas que tremulavam como óleo sob a luz da lua.

Depois deu de ombros.

"Não realmente."

Ele sorriu de lado. "Não disse que gostava. Só que não me incomoda."

"Difícil de enganar."

Noel se recostou na parede, a moeda entrando no bolso.

"Já me chamaram de piores. Rumores são ruído. Já lidei com coisa pior."

Ela inclinou um pouco a cabeça, continuando a estudá-lo.

"Você não parece do tipo de quem gosta de ser o centro das atenções."

"Não sou."

"Então por que não revida?"

"Porque isso significa que eles importam."

Elyra fez um som de desdém com a língua. "Frio."

"Eficiente," Noel corrigiu.

Ela retirou de dentro do casaco uma nota pequena e dobrada, entregando-a a ele.

"Na próxima reunião, não será na rua aberta. As pessoas estão começando a falar. Prefiro não dar motivos."

Ele desdobrou a nota. Uma linha, simples e clara:

"Alameda da alquimia – Escadaria B. Sexta badalada. Venha sozinho."

Noel levantou o olhar. "Dramático demais?"

Ela sorriu. "Se não fosse, você apareceria?"

Ele resmungou discretamente e guardou a nota no bolso interno.

"Aliás, obrigado pela moeda."

Elyra acenou com a mão, dispensando. "Só não quebre, perca ou faça algo irresponsável com ela."

"Pra mim, isso é tudo que faço."

"Ótimo. Vai ser uma maravilha."

Ela virou-se para sair, lançando um último olhar por sobre o ombro.

"E tenta não parecer tão misteriosa o tempo todo. Está matando seu estilo de 'nobre invisível'."

Noel deu de ombros preguiçosamente. "Acho que vou ter que começar a ser chato mesmo."

"Boa sorte com isso."

O corredor ficou vazio enquanto os passos de Elyra desapareciam nas escadas de pedra.

Noel ficou onde estava, encostado na parede, com os braços cruzados.

O peso da moeda no bolso agora era firme. Pesado—não pelo peso, mas pelo significado.

'Pronto. Isso foi feito.'

Conseguiu o que queria. O Amuleto do Tecelão do Véu. Uma máscara limpa. Um passe por portas trancadas.

E uma dívida de favor.

'Pois é... isso dói.'

Ele se afastou da parede e começou a caminhar, passos lentos reverberando pelo corredor vazio.

Agora estava silencioso. Muito silencioso.

Aquela calma que se instala bem antes das coisas começarem a acontecer.

'Falo que quero ficar invisível. Manter distância.'

'Mas as rachaduras estão aparecendo.'

Ele pensou na luta. Nos olhares. Nos boatos. Elyra. A porra da moeda na casaca.

'A minha versão de mim que deve se encaixar não existe mais. Aqui, nem com esse rosto. Nem com esses movimentos.'

Noel suspirou e olhou para o céu noturno através da grande janela no final do corredor.

Estrelas piscavam timidamente lá em cima, distantes demais para se importar.

'Que se dane. Um passo de cada vez.'

'Eu tenho a máscara.'

'Agora só preciso invadir uma base secreta de culto sem morrer.'

Ele virou a esquina e desapareceu nas sombras dos corredores da academia, silencioso como sempre.

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