
Capítulo 12
O Extra é um Gênio!?
O café da academia estava cheio de movimento.
Risos, o tilintar de talheres e o suave burburinho das máquinas de café infundidas com mana preenchiam o espaço. A luz do sol invadia pelas janelas arrojadas, lançando manchas quentes de luz sobre mesas de madeira polida e assentos de veludo.
Noel estava sentado em uma das cabines próximas à janela, uma perna cruzada sobre a outra, bebendo de uma xícara de algo vagamente cafeinado e não exatamente horrível. Um prato de comida intocada descansava na sua frente — na maior parte, para enfeitar.
Ele não comia muito durante as conversas.
Ele apenas observava.
Uma sombra passou relutantemente pela janela.
— Ei, — disse Marcus ao deslizar para o assento em frente, deixando seu bandeja sobre a mesa. — Desculpe o atraso.
— Você não está, — respondeu Noel sem levantar os olhos. — Você chegou cedo. Roberto que está atrasado.
Justamente na hora —
— Oi, tô chegando na poeira, — disse Roberto, surgindo por trás de Marcus e jogando-se no assento ao lado com um suspiro dramático. — Vibe totalmente diferente.
Marcus revirou os olhos e entregou-lhe um garfo.
Roberto sorriu de orelha a orelha. — E é por isso que eu gosto de você, cara.
Noel deu mais um gole e recostou-se um pouco.
— Então. Estamos todos aqui. Um dia tranquilo, sem duelos, sem feitiços explodindo… Parece até estranho de tão normal.
Marcus riu. — Dá cinco minutos.
Eles mal tinham metade do prato quando Noel deixou sua xícara sobre a mesa e lançou um olhar para Marcus.
Não um de zombaria.
Sim… curioso.
— Certo, — disse, cutucando uma fatia de pão com o garfo. — Então, como vai com a Clara?
Marcus quase engasgou com a bebida.
Roberto piscou. Depois, sorriu largo.
— Ah não, — falou ele. — Vamos discutir isso agora?
Marcus levantou a mão, limpando a garganta. — Poderia ao menos esperar eu engolir, meu?
Noel sorriu de lado. — Achei que você estivesse engolindo seus sentimentos há tempo demais. Pensei em ajudar.
Marcus gemeu. — Você é de uma ignorância... inacreditável.
Roberto se inclinou como se fosse contar uma história. — Vamos lá, não nos esconda. Você tem treinado mais duro, ficado até mais tarde depois da aula — qual é o plano, Romeu?
Marcus esfregou a nuca.
— Quer dizer… não é nada de mais. Eu só… quero ser alguém com quem ela pode contar, sabe? Não só mais um cara que faz charme. Quero conquistar isso.
Noel levantou uma sobrancelha.
— Respeito.
— É? — perguntou Marcus.
— É, — disse Noel. — Mas não pense demais. Seja honesto. Ouça mais do que fala. E não se esforce tanto para ‘ser digno’. Ela não estaria perto de você se não achasse que você já é.
Marcus ficou encarando, boquiaberto.
Depois piscou.
— … Que conselho surpreendentemente bom.
Roberto virou-se lentamente para Noel, estreitando os olhos.
Depois, sorriu de lado.
— Putz. Agora dá dicas de paquera? E aí, Don Juan?
Marcus riu baixinho, bebendo do copo. — Você deu mole, hein.
Noel não se contorceu. Apenas deu mais um gole lento.
Depois, olhou para Roberto por cima da borda da xícara.
— Certo. E você, quem fala?
Roberto piscou. — Como assim?
Noel colocou a xícara com calma. — Já te vi na aula de condicionamento. A mesma menina senta ao seu lado toda vez. A mesma menina te entrega a toalha. A mesma menina que, claramente, você não ignora.
Marcus passou o olhar entre eles, sorrindo. — Ah, é? Isso é novidade.
Roberto levantou as mãos em sinal de rendição brincando. — Okay, okay — primeiro, ela só… é insistente.
— Uh-hum, — disse Noel de forma achatada.
Roberto estreitou os olhos. — Ela foi quem começou a falar comigo.
Marcus: — E você, heroicamente, deixou ela continuar desde então.
Todos riram.
Noel recostou-se novamente, deixando o silêncio cair até que alguém trouxesse o próximo nome.
Roberto sorriu de lado, com o olhar brilhando como um lobo que acaba de notar um fio solto.
— Certo, certo, — falou. — Você me pegou.
Ele se inclinou para frente, com os cotovelos na mesa.
— Mas vamos falar de você, Sr. Estratégico. Porque dizem por aí que alguém tem passado bastante tempo quietinho na biblioteca…
Noel não se mexeu.
— ...com Elyra von Estermont.
As sobrancelhas de Marcus se levantaram.
— Sem brincadeira. A Elyra? Vice-presidente do Conselho, gênio político, usa julgamento como perfume?
Noel suspirou, devagar e longo.
— Não somos nada.
Roberto sorriu. — Tem certeza? Porque ela não perde tempo com qualquer um, não.
Noel olhou para a xícara meio vazia.
Não respondeu de imediato.
Depois, sem levantar os olhos —
— Treinadores não jogam.
Disse com uma expressão neutra, como se fosse uma lei.
Marcus perdeu a compostura.
Quase engasgou com a bebida, rindo.
Roberto bateu na mesa. — Essa foi a maior indireta modesta e evasiva que já ouvi.
Noel deu de ombros. — Não é bem assim.
— Mas você não negou o tempo que passaram juntos, — retrucou Roberto.
Noel apenas ergueu uma sobrancelha.
— Devo? — perguntou ele, mais brincando do que sério.
Mais risadas.
O riso foi diminuindo aos poucos, substituído pelo ritmo tranquilo de talheres nas louças e murmúrios suaves nas mesas próximas. Outros estudantes passavam, alguns lançando olhares curiosos para os três — garotos da Classe A que, no papel, não deveriam se dar tão bem assim.
Noel recostou-se novamente na cadeira, com os braços cruzados, deixando o sol atravessar a janela alta do café.
Por um instante, quase parecia normal.
Mas o peso nunca foi embora de verdade.
Não para ele.
‘Não posso contar a eles por que estou realmente trabalhando com a Elyra.’
Ele olhou para Marcus — agora sorrindo, brincando com Roberto para ver quem ganhava na luta corpo a corpo.
‘Não posso interferir demais. Marcus precisa evoluir com esses eventos…’
Ele virou o olhar de volta para a xícara, observando a reflexão que se formava na superfície ondulante.
‘Só conversar com Elyra já mudou a linha do tempo. Ela nem fazia parte daquele arco no livro.’
Os lábios de Noel mal se mexeram, mas sua voz na cabeça estava firme.
‘Uma variável de cada vez. Não posso começar a reescrever tudo agora. Pelo menos, por enquanto.’
— Ei, Noel, acorda — disse Roberto, batendo de leve os dedos na frente dele.
Noel piscou uma vez.
— Hm?
— Tudo bem?
Noel assentiu, um pouco mais devagar do que o normal.
— É, só estou pensando.
Marcus sorriu. — Isso é perigoso.
Noel deu um leve sorriso.
‘Você não faz ideia.’