
Capítulo 419
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
O destino era uma coisa tão engraçada.
Ele sempre forçava alguém a seguir por um caminho específico, por mais improvável que fosse. E tinha aquela habilidade peculiar de realizar isso de forma quase imperceptível.
Era, também, um fenômeno que Kaden começara a sentir desde seu tempo na masmorra da Morte Arruinada com Asael.
Naquela época, ele tinha refletido sobre o destino, mas agora…
Agora, Kaden mal tinha o luxo de pensar nisso, pois era puxado, como se uma corda estivesse atada a ele, para eventos que nunca imaginará.
Esses mesmos eventos estavam acontecendo na paisagem pálida da Ponte Congelada.
Kaden e Rea andaram pelos Oito Pequenos Montes de forma aleatória durante a manhã até o meio-dia.
Agora eles entendiam o porquê de isso ter acontecido.
Os monstros dentro das montanhas eram fáceis de matar.
Eles eram especializados em apenas um sentido e eram extremamente assustadores na forma como usavam esse Poder do Sentido. Kaden ficou maravilhado com a aplicação deles, pois era algo novo para ele.
Mas eram esses mesmos poderes que tornavam as Oito Montanhas uma prova difícil de passar.
Se alguém perdesse o sentido da visão e encontrasse os monstros sem olhos da terceira montanha — criaturas fofas com olhos por toda a pelagem branca e rosa — então a pessoa estaria completamente morta; e de uma maneira horrível.
E assim eram organizadas as montanhas.
Cada montanha arrancava um sentido seu ao você estar prestes a entrar na próxima. Era uma regra absoluta.
E você perdia exatamente o sentido que precisaria para sobreviver na próxima montanha.
Isso tornava a primeira montanha fácil, mas as demais um verdadeiro inferno na Terra. Ou seja, se seguisse a ordem correta.
Ao escolherem caminhos aleatórios, Kaden e Rea, mesmo perdendo seus sentidos, conseguiram matar os monstros relativamente fácil.
Embora Kaden conseguisse manter alguns fragmentos de seus sentidos graças à sua transcendência e sua Vontade Única. Mas Rea perdeu tudo.
Era uma visão engraçada ver Rea tão indefesa. Kaden se divertiu bastante com o processo, pois foi a primeira vez que ouviu Rea respirando fundo, azucrinando, xingando sem restrições.
No entanto, comparado às ofensas que Kaden geralmente escutava de Inara, as de Rea eram bastante polidas.
Havia outro problema relacionado às Oito Montanhas além delas mesmas. E era estar do lado de fora, bem visível para todos, após o meio-dia.
Nesses momentos, a névoa surgia, e toda vez — malditamente — Kaden sentia um arrepio.
Ele tinha a sensação de que alguém, não, muitos, estavam o observando toda vez que isso acontecia. E algo dentro dele sempre tremia com aquilo. Não por medo, mas por uma sensação que dizia: "Caramba, conheço esse sentimento!"
Era fraco, mas Kaden conseguia perceber perfeitamente. Curioso, um dia ele tentou sondar a névoa com sua percepção, e um som semelhante a um gemido invadiu seus sentidos.
Logo em seguida, ele retraiu sua percepção, sentindo uma repulsa ainda maior e uma sensação de estranheza em relação à névoa.
Desde então, Kaden evitava usar sua percepção e se refugiava dentro de uma tenda improvisada feita por Rea.
Ela também era a cozinheira.
Isso era outro assunto para se falar.
A comida de Rea era péssima. Kaden nunca acreditou que pudesse ter problemas estomacais até experimentar a comida dela.
Ele tinha vontade de vomitar tudo. Mas não o fez.
Rea olhava para ele com olhos penetrantes, desafiando-o a não comer o que, segundo Kaden,:
"Você me obrigou a cozinhar, e eu me esforcei bastante para fazer tudo isso. Então, vai comer tudo."
Como ele poderia negar, olhando para aqueles olhos vazios e vermelhos de Rea? Kaden aceitou seu destino e comeu.
E, depois disso, ele não despertou no Espaço Atemporal da Morte. Por um momento, considerou imaginar que poder teria recebido.
Era um pensamento estúpido, mas às vezes Kaden se deixava levar por isso.
No entanto, desde aquele dia, Rea parecia estar um pouco mais aberta, e Kaden passou a compartilhar seu conhecimento culinário com ela.
Ela ficou encantada por finalmente aprender a cozinhar. Essas coisas não eram ensinadas na Igreja.
Por mais que estivesse feliz, Kaden apenas recebia dela um sorriso curto que sumia rápido.
Finalmente, os dois noivos haviam passado pelas oito montanhas, sem ganhar nada além de traumas provocados por aberrações de monstros de aparência estranha.
Rea, em particular, tinha o rosto contorcido de irritação intensa.
Ela ficou completamente sem sentidos até que saíssem da última montanha. E só agora o Deus-Abrangente percebeu o quanto eles eram importantes.
"Foi... estranho", murmurou Rea, ao lado de Kaden, na encosta coberta de ervas brancas, "Eu sabia que os sentidos eram importantes. Mas nunca imaginei que fosse tanto assim."
Ela vestia o mesmo vestido, seu cabelo balançando como cinzas brancas, fazendo ruídos de crepitar ao toque do vento.
"Concordo", acenou Kaden, com as mãos apoiadas no peito, "Mesmo tendo meus sentidos, eles estavam severamente enfraquecidos. Foi como se eu tivesse sido desconectado de uma parte importante da realidade."
Os olhos de Rea se arregalaram imediatamente, ela virou a cabeça na direção de Kaden, e assentiu várias vezes,
"Exatamente!" ela gritou, com a voz surpreendentemente clara, "Senti o mesmo! Como se tivesse perdido um pedaço da realidade. Uma com a qual eu interagia e tomava como garantida."
Depois, sua voz ficou mais baixa, num tom pensativo, com a testa franzida,
"Sem a visão, não via mais imagens nem cores. Via nada, só escuridão. Era uma tortura não poder ver meus anéis lindos."
Kaden sorriu ao ouvir falar dos anéis. Mas Rea continuou, indiferente,
"Depois, veio o audição. Não ouvia mais o vento, sua voz, nem minha própria voz…"
Rea gemeu neste momento. Foi uma experiência traumática. Falar e nem saber se estava falando. Isso a fazia se sentir completamente sem força, pois ela não sabia se dizia as coisas corretamente, se usava o tom adequado e tudo aquilo que ela nunca tinha percebido que prestava atenção sem perceber...
Por um momento, naquela montanha, Rea achou que perderia a cabeça. Felizmente, ela já estava traumatizada desde pequena por uma deusa, então acostumara com aquilo.
Ela se recompôs, terminou suas palavras, olhando para a visão estranha diante de si.
"…cada sentido que perdemos foi mais do que simplesmente perder uma habilidade inata com a qual nascemos…"
"É perder a capacidade de interagir com uma parte muito específica do mundo ao nosso redor." continuou Kaden, então sorriu, "Isso me fez refletir... pessoas cegas, surdas ou até incapazes de sentir tato ou paladar…"
Ele virou a cabeça, encarando profundamente os olhos de Rea,
"…vivem a mesma realidade que a gente? E os que têm mais sentidos? Eles veem o mundo ao redor com mais clareza por ter mais formas de interpretá-lo?"
"Ou até aqueles com sentidos únicos? Será que eles estão interagindo com uma parte do mundo que nem sequer percebemos?"
Kaden não sabia por que pensava nisso tudo, mas a experiência nas oito montanhas coçava uma dúvida muito importante na sua mente.
Ele parecia estar a um passo de aprofundar sua compreensão sobre percepção. Mas não era suficiente.
Nunca é o suficiente.
'Quem sabe, se eu perdesse todos os meus sentidos, conseguiria entender melhor?' pensou, com as mãos suavemente cerradas em punhos, mas já era tarde demais.
Rea queria avançar e chegar logo na masmorra.
"São perguntas válidas. Mas é surpreendente…"
Ela lançou um olhar de esguichada para ele,
"Você não é tão burro assim." disse Rea, "Na verdade, você não se parece nem um pouco com um Filho da Guerra."
Kaden deu de ombros. "Esse papo está ultrapassado. Todo mundo já sabe disso."
Rea revirou os olhos com o tom arrogante dele. Ela olhou novamente para a frente, encarando a Ponte Congelada envolta na névoa.
Os dois fizeram uma careta feia.
"De novo essa porra de névoa…" amaldiçoou Kaden.
"Está pronto?" perguntou Rea, exausta. Mesmo ela odiando essa névoa, embora não tivesse o nível de percepção de Kaden.
"Sim," respondeu Kaden, passando a mão pelo cabelo, "vamos acabar com isso."