Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 214

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Fokay — Cidade da Dor

Semanas se passaram.

Houve semanas em que Rea nunca deixou de sair para o mercado treinar, preparar a mente, tudo isso com um único objetivo: alcançar o Nível Intermediário.

Ela teria adorado treinar até o último instante do seu limite, mas o teste para se tornar uma Acólita de Lamentos estava logo ali, impedindo que ela pudesse adiar mais tempo.

Ela estava sem tempo, afinal.

Então, neste exato momento, ela estava parada na frente da porta da prisão, observando-a com olhos apreensivos, suas mãos tremendo ao lado do corpo enquanto tentava se controlar para não tremer.

Porque, por mais que se preparasse, Rea sempre se via à beira de ser completamente engolida pelos medos das pessoas que perambulavam pelo mercado, sempre tendo que se conter antes de chegar ao ponto de não voltar.

Então, ela não conseguia imaginar como se sairia lá dentro — daqueles que supostamente eram os piores de todos.

Ela ergueu lentamente a cabeça, os olhos percorrendo o edifício à sua frente, observando sua beleza assustadora e macabra.

Como tudo na Cidade da Dor, as paredes da prisão eram banhadas em cinza sem vida, riscadas com manchas de musgo escuro, teimosamente agarrado às pedras — prova silenciosa de quantos anos aquele lugar resistira. O prédio tinha a forma de uma catedral, seu corpo austero e inflexível, com uma torre que parecia perfurar o próprio céu, criando a ilusão de que poderia atravessar até mesmo as nuvens que tentavam escapar de sua sombra.

As janelas eram circulares, não feitas de vidro comum, mas de aço cristalizado que brilhava como quartzo sob a luz cinzenta e turva.

A porta de entrada se abria largamente, não tão alta quanto um portão de gigante, mas ampla o suficiente para qualquer pessoa comum passar. Sua superfície, preta-acinzentada e fria, carregava um símbolo da igreja gravado profundamente na madeira e no ferro: o rosto de uma mulher chorando, suas lágrimas esculpidas com tanto detalhe que capturavam a luz tênue como se brilhassem infinitamente, escorrendo por suas bochechas.

Rea tinha essa sensação estranha toda vez que olhava para o símbolo da Igreja. Era como se algo dentro dela tremesse, dando a impressão de que, se olhasse por muito tempo, algo enterrado bem fundo no seu interior pudesse despertar.

E ela definitivamente não gostaria disso.

Por isso, ela nunca olhava por muito tempo, temendo o que poderia acontecer se ousasse.

Segurando a respiração, Rea se recompôs e começou a pensar em todas as razões pelas quais fazia aquilo.

De todas as razões por que se permitia ser torturada pela dor.

De todas as razões por que escolheu viver essa vida triste, sem brilho, cinza, sem alegria e sem calor.

Sim… ela precisava lembrar por que aceitara viver sempre no inverno, e nunca na primavera.

Ela precisava disso para manter a própria essência.

E era simples: ela queria vingança pelo seu avô e a retomada do Thornspire.[1] - Nome de uma torre ou fortaleza na história.

'…e assim como você está pronto para morrer pelo seu objetivo, eu estou pronta para me perder na dor…' pensou Rea, de repente tomada por uma vontade de falar com ele, com aquele homem que uma vez a fez perceber uma falha em seu modo de pensar.

Como ele estava agora?

Ele morreu por causa do seu objetivo?

Perdeu-se enquanto o perseguia?

Encolheu-se e esqueceu o motivo pelo qual começou?

Como estará aquele jovem que não temia nada?

E… o que ele diria se ela lhe dissesse o que estava disposta a perder por seu objetivo?

Ele ficaria feliz? Orgulhoso? Ou até mesmo… indiferente?

Rea não sabia. Afinal, ela só tinha conversado com ele uma vez, e isso nem de longe foi suficiente para entender seu caráter. Mas, ainda assim… tinha certeza de que ele não zombaria dela, não chamaria ela de tola.

Ou talvez ele a chamasse de tola… mas só para depois dar um conselho.

Com isso, ela esboçou um sorriso amargo, com um toque de dor.

O único sorriso que conseguiu fazer agora.

'…que pessoa interessante.'

Num mundo afogado em uma cornucópia de medo, onde o medo estava em toda parte, ele… praticamente não tinha medo de nada?

Rea balançou a cabeça, deu um passo após o outro e caminhou em direção à porta da prisão, seus pés tocando suavemente o chão rochoso, com um último pensamento ecoando na sua mente…

'Era como se ele fosse feito especialmente para me intrigar… para me atrair… para me fazer questionar…'

E funcionou.

Ela ficou intrigada.

E ela queria ver aquele seu noivo destemido.

E ver…

Ele ainda seria destemido?


Dentro da Prisão da Cidade da Dor.

A igreja já havia preparado tudo para a missão de Rea.

Para facilitar que ela sentisse e experimentasse as emoções negativas dos prisioneiros, decidiu colocá-los todos em uma única sala, enfrentando seus medos, suas dores, suas mágoas bem de uma vez só.

Na verdade, não foi a decisão mais sábia.

Ela poderia ter optado por fazer isso aos poucos, dando tempo ao cérebro de descansar e se recuperar entre as ondas. Mas não, ela decidiu engolir tudo de uma vez.

E aqui estava, no meio de uma sala ampla, cinza, vazia, sem nada ao redor além de prisioneiros acorrentados, espalhados pelas paredes como ornamentos grotescos.

Todos estavam acordados. Alguns olhavam com medo, outros com desdém e ódio, alguns com olhares lascivos, outros com prazer malicioso ao verem uma presa nova, e alguns com nada, com expressões vazias, como se a própria vida já os tivesse abandonado.

Seus rostos pareciam máscaras, mas, como alguém que pudesse enxergar o medo, Rea sabia melhor do que ninguém que, na maioria das vezes — se não sempre — as pessoas escondem suas verdadeiras emoções por trás dessas máscaras que usam na sociedade.

Rea respirou fundo.

'Eu sou Rea Thornspire, filha de Eliot Thornspire e Fatou Thornspire. Neta de Deimos Thornspire.'

Repetiu as palavras várias vezes para se firmar.

Após minutos de silêncio, ela abriu os olhos mais uma vez. Olhando ao redor, para os homens e mulheres acorrentados, com suas expressões retorcidas… deixou tudo aquilo penetrar na sua mente e, então…

…ativou sua habilidade.

Uma torrente de emoções a invadiu como uma cachoeira. Ela cambaleou instantaneamente, o corpo oscilando, a mente se estilhaçando em incontáveis pedaços, quase desabando por completo.

Levantou as mãos para cerrar a cabeça, os joelhos fraquejaram, antes de cair de joelhos com um soluço horrendo.

Ficou ali, de cabeça baixa, mãos cavando o crânio, enquanto sentimentos corruptos dos prisioneiros a devoravam por todos os lados…

A dor de ver sua família sendo massacrada bem diante de seus olhos, seus gritos marcados profundamente na sua alma, tão intensamente que até o silêncio parecia ecoar a sua morte de novo.

A vontade de apodrecer numa prisão esquecida pelo mundo, seu nome rasgado da memória até mesmo pelos ratos que se esqueceriam de que você alguma vez viveu.

A dor de ver os entes queridos cuspi-la como veneno.

A dor de matar esses mesmos entes queridos, não por ódio, mas porque eles nunca aceitariam você, e você não aceitava a rejeição deles.

O pecado de mergulhar no sangue deles, arrastar seus corpos quebrados com necromancia, só para forçá-los a te amar quando suas almas nunca o fariam.

O pecado de estuprar sua própria mãe, encher seu ventre com sua semente, depois matá-la e ao bebê, escondendo seu crime na terra como se o próprio chão a blindasse contra a ira dos céus.

O pecado de trair seu marido com a irmã dele, a mulher que, pecaminosamente, amava o irmão e queria provar você por ressentimento, até que seus jogos tortuosos terminaram com corpos mutilados na cama, enquanto bebia seu sangue.

A tristeza de perder o amor da sua vida para um gângster rico que nunca soube do seu sorriso, das suas cicatrizes, do seu calor — e que a levou embora como se ela fosse apenas uma mercadoria qualquer.

A dor de fracassar após arranhar, sangrar, queimar, implorar, fazer de tudo — e só cair na linha de chegada, uma piada cruel que só os deuses ririam.

Enquanto Rea suportava e vivia cada uma dessas emoções, sua mente se despedaçava, rasgada como papel frágil. Ela caiu de face no chão, seu corpo espasmos, seus olhos chorando lágrimas de sangue.

E naquele instante, ela soube instintivamente…

…que iria falhar nesta missão.

—Fim do Capítulo 214—

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