
Capítulo 380
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Vaela Aurora Crimson estava ajoelhada no meio da masmorra, com o rosto mascarado revelando olhos que brilhavam em paz e tranquilidade.
Sua aparência não mudou um ápice.
Ela usava calças pretas justas e uma camisa de manga vermelha. Nas costas, o símbolo do Véu Carmesim estava belamente gravado. Suas pernas estavam envoltas por botas pretas altas, feitas para atuar em campos lamacentos e de grama.
Suas mãos agitavam-se, movendo-se abaixo e ao redor do tapete de flores vermelhas que a cercava como uma maestrina em uma orquestra. As flores pareciam brilhar e cantar junto com ela.
Ao seu lado, um balde de água e outros materiais, como pó de folhas vermelhas trituradas e sangue de bestas de ranking Mestre, descansavam tranquilamente.
Ela usava cada um desses ingredientes na ordem certa e com concentração, fazendo as flores brilharem com uma tonalidade mais vibrante.
À sua frente, no meio desse jardim avermelhado, erguia-se ameaçadoramente uma estátua. A estátua era pintada de preto e vermelho, feita de pedra e aço derretido, retratando a figura de um homem.
Um homem de cerca de dezoito anos, com rosto mascarado que não escondia o brilho rubro de olhos estrelados. Vestia roupas imperiais, emanando uma aura luxuosa, enquanto uma espada vermelha como sangue pendia de seu cinto.
No peito do homem, o símbolo do Véu Carmesim: um par de olhos que gotejavam sangue.
Toda a estátua brilhava como estrelas em uma noite escura.
Abaixo, o nome da entidade estava gravado com beleza, emanando um poder avassalador.
O Ceifador — Senhor do Carmim, Portador das Estrelas.
De tempos em tempos, era possível ver as crianças salvas das mãos do Cerveau caminhando ao redor. Todas, sem exceção, faziam uma reverência de respeito a Vaela.
Depois, elas se curvavam mais profundamente diante da escultura do Ceifador e seguiam seu caminho.
Eles já tinham crescido. Todos carregando uma Origem.
— Você ainda cuidando das flores? — uma voz ressoou atrás, pesada e rouca.
Vaela não precisou parar ou virar a cabeça para saber quem falava. A chegada dessa pessoa vinha acompanhada do cheiro de cinzas e do som de aço rangendo em pausa.
— É o aniversário do meu querido, Arquiteta — respondeu Vaela, derramando sangue verde no chão ao redor das flores — Tive vontade de deixar este lugar mais luminoso.
— Você pretende fazer algo por ele? — perguntou Nihilia, sem se aproximar de Vaela.
A Vidente nunca gostou que ela se aproximasse de suas flores, que ela chamava de Flores do Ceifador, porque sempre exalavam cheiro de cinzas.
Uma coisa grosseira de se dizer, considerando que ela era quem a fazia trabalhar dia e noite.
Todo esse esforço para forjar engrenagens e artefatos do Véu Carmesim.
Ela se sentia explorada, percebeu. Ainda assim, Smith não ousava reclamar. Da última vez, ela foi obrigara a construir a estátua de Kaden do zero.
Além disso, Arquiteta não odiava realmente sua posição atual. Já fazia tempo que ela podia dedicar-se inteiramente à sua arte.
Agora, podia.
Fazia dois anos. O Véu Carmesim não esperava que ela fizesse algo além de criar artefatos. Qualquer outra coisa, ela era livre para fazer o que quisesse, desde que o Carmim permanecesse intacto.
De certa forma, ela nunca tinha se sentido tão livre, apesar da rotina agitada.
Liberdade… que conceito estranho.
— Por ora — falou Vaela, trazendo Smith de volta à realidade — a única coisa que posso fazer pelo meu querido é aumentar sua fama. Os mundos precisam saber o quão grandioso é o Ceifador.
Smith sorriu ao ouvir suas palavras, com olhos escuros marcados por uma emoção intensa.
A Vidente finalmente interrompeu seu trabalho. Com calma, exertou força nas pernas e endireitou a coluna. Girou a cabeça, olhando para Smith acima de seu ombro esquerdo,
— Onde estão os quatro Apóstolos? — perguntou.
— Todos estão atualmente em missões — respondeu Smith. — A Carmim nos contactou; ela concluiu sua missão. Prata já está voltando, enquanto Careca está perguntando se pode simplesmente eliminar todos eles.
— Diga a ele que, se fizer isso, ficará sob os cuidados do Antropólogo pelos próximos três meses.
Smith tentou segurar uma risada. Já via a Careca batendo a cabeça no chão ao ouvir aquilo.
Nada era mais infernal para as crianças do que estar sob o Antropólogo. Ele nunca parava de falar sobre todos os eventos passados, num discurso interminável.
Era uma tortura.
— E a Branca? — perguntou Vaela de novo. — Esperei que ela fosse a primeira a concluir.
Smith deu de ombros. — Você sabe como ela é. Nunca leva nada a sério. Mas ela ligou ontem à noite, dizendo que concluiria hoje.
Vaela assentiu discretamente, depois olhou para o alto, para o sol amarelo que brilhava como um disco no céu branco. Uma aura pensativa a envolvia por todos os lados.
Smith imediatamente ficou em silêncio. Quando a Vidente entrava nesse estado, era sinal de que uma missão logo seria dada.
E, de fato,
— O Império Celestial? — ela perguntou quase sussurrando.
— A coroação da nova imperatriz, Sora Asterion, será realizada daqui a uma semana. Já está definida. —
— E os da Pagoda e aqueles lobos fedidos, o que vêm fazendo? — perguntou Vaela.
— Como sempre — respondeu Smith. — A Pagoda continua misteriosa. É difícil saber seus movimentos, pois não conseguimos entrar lá. Parece que escolhem os membros de forma estranha.
— Quanto aos lobos, dizem que eles estão rondando o Império Celestial. Já conseguiram pegar metade da antiga Cidade Prateada e transformaram em uma cidade de crime de catadores, com urina, fezes e sangue por toda parte.
O rosto de Nihilia torceu-se de desgosto. — Devemos fazer alguma coisa? —
Vaela virou a cabeça, balançando negativamente. — Não há necessidade. Nosso foco não é isso. Nosso verdadeiro interesse é o Reino dos Lobos.
— Por quê? — perguntou Smith.
— Algo que quero conquistar — ela respondeu simplesmente. — White não fica muito longe de lá, certo? —
— Sim.
— Então diga a ele para ir direto lá. Ele receberá as instruções de sempre na missão.
Ela sorriu, os olhos brilhando com estrelas carmesim intensas,
— Diga para olhar o céu à noite em dois dias.
— Uma estrela carmesim lhe entregará a mensagem.
O corpo de Smith estremeceu de admiração, depois fez uma reverência profunda,
— Certamente, Vidente. — Disse, com voz carregada de amor e devoção—
— Louvado seja o Ceifador! — gritou de forma fanática.
O sorriso de Vaela se ampliou,
— Louvado seja o Ceifador.
…
Enquanto isso, dentro de uma mansão luxuosa que exalava sangue e medo…
— Quero que você diga — sussurrou uma voz.
A voz vinha de uma velha, tão idosa que seu rosto parecia uma carne e ossos destruídos. Seu corpo era curvado, tremendo constantemente.
Porém, a adaga que escorria sangue não tremia um só instante em sua mão enrugada. Ela fixou seus velhos olhos cinzentos no homem deitado no chão.
Não exatamente um homem. Um semi-beste com traços de lobo.
Seu corpo estava coberto de feridas, sangue jorrando de todos os buracos. Ele olhou para a velha, o rosto contorcido de medo.
— P-por quê? Eu não fiz nada além de ajudar você! — gritou, com a respiração ofegante— Eu te encontrei na rua e te coloquei sob meu teto! W—!
— Não perca meu tempo — ela interrompeu bruscamente, agachando-se enquanto acariciava com cuidado a garganta peluda do homem com sua adaga.
Ele tremeu ainda mais.
Ela o olhava com olhos suaves. — Não me faça torturá-lo. Já perdi tempo demais. A Carmim daria risada se me visse reclamando.
Ela sorriu. — Então seja rápido e diga.
— Diga o quê? — ele conseguiu sussurrar com voz trêmula.
— Louve o Ceifador — ordenou a velha bruxa.
O homem ficou confuso, mas antes que pudesse pensar, ela espetou seu olho esquerdo.
— ARGHHHHHHHHHH!! — gritou, com a mandíbula estalando, enquanto solava um grito de dor.
Lágrimas começaram a escorrer, mucos e saliva espalhando-se no ar.
— Louve o Ceifador. — repetiu ela.
— VOCÊ—!! —
Na sequência, sua orelha esquerda foi cortada limpidamente.
Outro berro de agonia.
— Louve o Ceifador. — ela ordenou novamente.
Desta vez, a besta entendeu a mensagem. Sem hesitar,
— LOUVE O CEIFADOR! LOUVE O CEIFADOR! P-LOV—!
ESFAQUEAMENTO—!
A garganta dele foi perfurada, fazendo o homem engasgar com seu próprio sangue, enquanto seus olhos amarelos de besta se dilatavam de horror ao ver o sorriso suave da velha diante dele, agonizando.
Seus olhos perderam toda vitalidade, fixando-se inertes no teto.
A velha observou a cena com uma alegria sombria. Depois, jogou fora a adaga ao lado do cadáver.
Nesse momento, seu corpo começou a shifting e transmutar, como água que vira gelo. Em segundos, apareceu um menino de cerca de doze anos.
Cabelos, olhos, cílios e pele tão pálidos quanto neve. Vestia uma túnica preta, com olhos de sangue gravados nas costas.
Branco sorriu, virou-se e saiu da sala luxuosa. Passou por uma taça derramada de substância roxa, que deixou o tapete queimado e escurecido.
Ao sair, passou por várias dezenas de corpos, todos mortos, com o choque congelado nos olhos.
— Precisava terminar as missões mais rápido — sussurrou Branco. — Não quero ouvir a Carmim tagarelando na minha cabeça, nem ver a cara arrogante da Prata. Quanto ao Careca, droga dele. Sempre querendo me atacar.
Ele amaldiçoou, embora seu rosto continuasse com um sorriso.
Chegando à porta da mansão, virou a cabeça e observou a cena que tinha criado. Seu sorriso se alargou.
— Você me salvou? Que tolice. Você não passa de um homem que conseguiu seu dinheiro vendendo órgãos de mendigos. —
Ele balançou a cabeça, pegou uma ampola de sangue e a bebeu. Logo em seguida, seu corpo se transformou em um gato branco pouco antes de passar pela porta.
Porém, pouco depois, sua ferramenta de comunicação rúnica se acendeu, e uma voz sussurrou em seus ouvidos.
— Apóstolo Branco, mais uma missão da Vidente. Localização: Reino dos Lobos. Olhe para o céu à noite em dois dias, uma Estrela Carmesim guiará você.
— Louvado seja o Ceifador. — disse ele apenas sorrindo enquanto corria sobre quatro patas,
— Mais uma missão? Heheheh. —
— Louvado seja o Ceifador! —