
Capítulo 375
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Asael sorriu levemente, observando Valentine dormir tranquilamente, apoiando a cabeça no travesseiro em vez de colocá-la sobre ele.
Valentine nunca gostou disso. Ela sempre preferia deitar a cabeça de perna no colchão.
Asael se perguntou de onde ela tinha tirado esse costume, mas ele bem sabia.
Rose era igual.
O Império dos Condenados estava envolto pelas sombras da noite. Lá em cima, algo que parecia menos uma lua e mais uma rocha rachada unida banhava o império com um brilho moribundo.
Era uma luz triste. Uma que cheirava à morte de uma lua. Mas os habitantes dos condenados estavam acostumados a essa sensação. Pelo contrário, qualquer coisa diferente disso pareceria estranha para eles.
E isso, mesmo para a Valentine dormindo.
Asael, sentado ao lado da cama dela, sentiu, de alguma forma, que era errado deixar sua filha crescer em um império assim. Mas não havia o que fazer.
Ele estendeu a mão, querendo acariciar os cabelos vermelhos lindos da filha, mas parou no meio do caminho.
Olhou para a sua mão.
Estava limpa e pálida. Olhando para ela, ninguém acreditaria que era a mesma mão que matou duas casas principais do império numa única noite.
O Príncipe das Sombras tinha matado as mães, assassinado os pais, sepultado as crianças, decapitado os tios e tias, destruído os velhos e enveredado toda suas casas em sangue antes de engoli-las nas sombras dele.
Mesmo ali, sentando, Asael podia sentir o peso de suas mortes pesando sobre seus ombros, ameaçando desabar.
Mas ele não iria sucumbir.
Algo mais forte que a culpa pulsava no seu peito. E toda vez que ele olhava para o rosto tranquilo e sorridente da filha, seu fardo desaparecia.
Naquele momento, ele sempre sorria, embora se segurasse para não tocar nela com as mãos nuas.
Em vez disso, pegou uma luva preta e a colocou antes de acariciá-la.
Valentine gemeu no sono, murmurando algo como "papa" e "mama".
O sorriso de Asael se alargou.
"Asael." alguém sussurrou.
Então, o sorriso dele desapareceu.
Sem virar a cabeça, ele sabia quem era o culpado. O príncipe não disse nada.
Rose estava atrás dele, com as mãos entrelaçadas à frente, tensa.
Ela tinha ouvido de sua mãe o que Asael havia feito. E tinha ouvido o que ele logo faria.
Hoje seria o seu último dia antes de partir para o Reino do Río, para infiltrar-se.
Rose se obrigou a dizer que Asael fazia isso por Valentine. Assim como a sua mãe lhe dizia com veneno.
Mas uma parte dela, que ainda não havia esquecido Asael, implorava que tudo aquilo fosse por ela. Que ele se importava com ela e não queria que ela fosse de outro homem.
Por isso veio hoje.
E hoje Asael aceitaria conversar com ela, de vontade ou não.
"Se você não responder a mim, vou gritar e acordar Valentine." disse Rose, elevando o volume da voz.
Asael estremeceu ao ver Valentine se mexendo desconfortável.
Ele passou horas fazendo ela dormir. Certamente não podia permitir que ela acordasse agora.
"Você não ouse." sussurrou, virando a cabeça em direção a Rose.
"Tem certeza?" ela perguntou, então, "EU VOU—!"
Uma mão cobriu sua boca antes que ela terminasse a frase.
Seus olhos vermelhos fixos na sombra de Asael, cheios de raiva e irritação.
"Pare com essa besteira." Asael sussurrou, "Uma mulher deve ter dignidade. Eu não quero conversar com você. Me deixe em paz."
Uma barreira de sombras foi erguida ao redor deles, tornando a conversa privada.
Asael deu alguns passos para trás de Rose. A mulher o encarou, os olhos encharcados de injustiça.
"Você está sendo irracional." Rose disse, "Mais do que nunca, você deveria entender por que eu fui embora."
"Você conheceu minha mãe. Viu como ela é, e como a única coisa em seu coração apodrecido é o amor por esse império doentio."
Ela cerruhou as mãos em punhos.
"Você viu como ela está pronta para usar todos para seu próprio benefício. Você sabe de tudo isso, e ainda assim não me entende?"
"Eu entendo." Asael respondeu, "Sei o que você fez. Sei que fez isso para nos salvar de Lydia."
Rose franziu o cenho ao perceber quão familiar Asael falou o nome de sua mãe.
"Mas entender não é sinônimo de perdoar." Asael continuou, fixando os olhos em Rose, "O que você achou que eu era, Rose?"
Perguntou.
Rose ficou em silêncio.
"Eu te dei meu amor, Rose. Dei minha vida junto com ele, porque decidi passar o resto dela com você, como família."
Rose tremia.
"Mas parece que eu me apaixonei por uma mentirosa. Você nunca me contou sua verdadeira história, usou um nome falso quando nos conhecemos. E depois desapareceu depois de dar à luz Valentine."
"Se você tivesse explicado sua situação para mim, tudo isso poderia ter sido evitado."
Os olhos de Asael estavam gelados.
"Eu não estaria aqui como um escravo. E a vida da minha filha não seria usada como moeda de troca contra mim."
E eu não seria o monstro que estou me tornando.
"Você só precisava acreditar em mim. Mas não acreditou. Então, por favor, não tente vir aqui dando desculpas."
Seus olhos como punhais perfuraram sem misericórdia o coração de Rose.
"Não há nenhuma." ela respondeu em silêncio, os olhos vermelhos brilhando com lágrimas contidas, mas ela mordeu o interior dos lábios com força. Sentiu sangue, mas a princesa não se importou. Era necessário para impedir que as lágrimas escorressem pelo rosto.
O pior era que Asael tinha razão.
Ela não acreditava nele. E achava que era melhor deixá-lo sem saber do que com a sensação de peso sobre ele.
Rose acreditava que esse conhecimento pesaria demais para ele. Que, se soubesse que ela era filha da Imperatriz Tirana, que fez sua família de barões murchar assim, ele não a gostaria.
Ele a abandonaria.
Algo que ela não podia permitir.
Asael era o homem que ela amava desde antes mesmo dele saber que ela existia. Ela o conhecia bem antes, na infância, quando houve um evento na capital.
Naquele dia, brigou com a mãe e fugiu do dever real.
Foi aí que conheceu Asael.
O rapaz usava um traje nobre semelhante ao dela, embora menos suntuoso. Ainda assim, brincava na terra com mendigos ao redor.
Sorria alto e de forma contagiante. Sem se importar com nada.
Gostava de chamá-los de "meus amigos", como se procurasse por algo que nunca teve.
Para Rose, Asael era uma lufada de ar fresco. Um homem que vivia livre, mesmo dentro da gaiola da nobreza.
Aquela imagem ficou na sua cabeça.
E naquele dia, Asael brincou com ela mesmo sem conhecê-la.
Tinham sete anos na época.
Asael esqueceu. Ela nunca esqueceu.
Ela conseguiu, na sequência, conquistar seu coração. Mas o medo da mãe fez ela agir de uma forma que destruiu todo seu esforço e até piorou tudo.
Seu Asael a odiava. E Rose sentia como se fosse morrer.
Todo dia.
Toda noite.
Mas ela já tinha chegado ao limite.
Naquele momento, ela lentamente se aproximou do Príncipe das Sombras, com passos trêmulos, lágrimas caindo pelo rosto.
Asael estremeceu. Apertou os lábios e virou a cabeça, relutante em ver aquela cena.
A Princesa da Seca se aproximou, parando a poucos centímetros dele.
"Tenho dignidade." Rose finalmente falou, sua voz como um gemido. "Sou Rose Seca, descendente de Melantha Seca, A Donzela Condenada do Sol."
"Minha mãe é a Imperatriz Tirana, Lydia Seca."
"Minha linhagem não é fraca. E eu sou portadora de uma Origem Lendária."
Ela esticou a mão e segurou as bochechas de Asael, forçando-o a encará-la.
Surpreendentemente, Asael permitiu.
Ele olhou em seus olhos cheios de lágrimas e lembrou-se do dia em que aquelas lágrimas caíram em seu rosto quando Valentine nasceu.
Eram lágrimas que ele conhecia demais.
Lágrimas de amor.
Asael mordeu ainda mais forte seus lábios, seu coração gritando por dentro. Mas ele ignorou.
"Olhe para mim, Asael." ordenou Rose.
Asael fez o que ela pediu.
E então…
"Desculpe-me." disse a Princesa da Seca. "Desculpe por tudo que fiz. Mas se, por você, não ter dignidade significa deixar de falar com você, então eu não tenho mais essa dignidade."
"Quero que voltemos a ficar juntos, Asael. Primeiro por mim. Mas também pela Valentine."
Ela sorriu tristemente.
"Qualquer coisa. Diga o que eu preciso fazer. Eu farei."
Asael a olhou.
Sentiu todas as emoções dela se despedaçando sobre ele e soube da sinceridade.
Sabia que ela se arrependeu.
E ela queria que voltassem a ficar juntos.
E seu coração, malditamente, traidor, desejava acreditar nela. Desejava estar com ela novamente. Sentia falta do calor dela, do toque suave dela.
Ele queria. De verdade, queria.
Mas…
Um copo esmigalhado, mesmo consertado, nunca mais pareceria completo. Algumas partes, por menores que sejam, sempre faltariam.
E nos assuntos do coração, isso era algo fatal.
Assim, Asael segurou a mão de Rose no rosto dele e a afastou como se fosse calor se apagando.
"Eu também sinto muito."