
Capítulo 356
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden encarou o Asterion com um olhar calmo, seus olhos celestiais oscilando entre eles de repente, de forma preguiçosa.
O espaço ao redor era amplo, com partes do chão carbonizadas em cinzas douradas ainda fumegantes e outras cobertas por uma névoa sutil de gelo prateado.
O ar tinha gosto de cinzas, mas também estava humidificado, como se uma chuva tivesse passado há pouco tempo, embora não houvesse sinal dela.
Havia uma certa opressão naquele espaço, como se alguém tivesse colocado uma pedra gigante sobre os ombros de todos, sem fazer perguntas.
Porém, o Asterion percebeu, especialmente Sora e Sirius, que essa pressão nada mais era do que o efeito do olhar estrelado de Kaden sobre eles.
Sora não conseguiu segurar um calafrio, enquanto Sirius deixou um sorriso se expandir sutilmente.
'Mestre, cuidado. Ele é poderoso,' disse Rab dentro da mente de Sirius, 'Muito poderoso, na verdade.'
'Mais do que eu?' Sirius perguntou, divertido e curioso ao mesmo tempo.
O parasita não respondeu imediatamente. Parecia refletir seriamente sobre a pergunta, mas logo deu sua resposta:
'Sim.' Rab falou, com uma voz estranhamente grave, 'Mais forte que você. Mais forte que sua irmã. Mesmo comigo, mestre, talvez perca a longo prazo.' Rab fez uma pausa, sua voz ficando mais tensa: 'Mestre, posso sentir que ele consegue entreter seus pais por um bom tempo numa batalha.'
À medida que essas palavras penetravam sua mente, os olhos de Sirius se arregalaram de surpresa, suas sobrancelhas se franziram formando uma fenda profunda na testa.
'O que você disse?'
Sirius ficou boquiaberto. Mas, se precisasse de seu parasita para alertá-lo do perigo de Kaden, Luminary e Mahina também saborariam a ameaça.
Eles perceberam na hora, assim que o espírito de Kaden colocou um pé fora do MadHouse.
"Foi um passeio intenso, Empressa," disse Kaden com franqueza, olhando para Mahina de forma neutra, "e depois do passeio, não sei se devo te agradecer ou simplesmente fazer o que meu coração está sussurrando para mim."
"E o que seu coração está sussurrando, garoto?" retorquiu Mahina, com os olhos azuis brilhando.
"Algo mais ou menos assim: transformar todo esse lugar numa criatura do Inferno pareceria estar em casa." Kaden sorriu, "Uma ideia boa, não acha?"
O rosto de Mahina se abriu em um sorriso frio, "Bom o suficiente para me divertir. Agora, por que não paramos de conversa inútil e vamos direto à parte em que você me entrega aquilo que te pedi, garoto?" Ela estreitou seus olhos semelhantes à lua, "Ou você falhou?"
Sora fez uma careta, virando a cabeça abruptamente na direção da mãe. "Qual coisa, mãe?" perguntou com uma leve ameaça na voz.
Ela tinha as memórias de Lady Sora, mas não sabia por que Kaden estava naquela parte distante da história ou como aquilo aconteceu.
Na verdade, nenhum deles entenderia como Kaden fez aquilo. Nenhum, exceto os deuses, os Encantados e algumas criaturas únicas que vagam pelos mundos.
Afinal, mudar o passado não era uma tarefa simples. Mudar isso equivalia a alterar a linha do tempo atual e, por extensão, o próprio futuro.
Isso era um poder que nenhum deus, muito menos mortais, tinha nas mãos.
E tudo isso por causa de uma criatura. Um ser que se fez o único arquiteto do passado e, assim, o escultor de futuros distantes.
Ele se tornou temido. Ele se tornou odiado. E, ainda assim…
Ele se tornou amado.
Porém, esse não era o tema daquele dia, pois Kaden estava cansado e sentia muita saudade do abraço apertado da sua cama.
Então, abriu os lábios para perguntar onde seu irmão estava, mas fechou-os de novo.
Sua ferramenta de comunicação rúnica brilhou em branco e começou a tocar.
Imediatamente, o silêncio se instalou ao redor, como um pesado cobertor.
Indiferente, Kadenpegou o dispositivo, sabendo quem era a pessoa ao telefone.
"Faz tempo," disse Kaden com um sorriso, vendo o Asterion olhar para ele com surpresa variada diante de sua audácia.
Sirius tremia enquanto tentava segurar a risada.
"Mestre," a voz animada do Abominação soou suave dentro do seu ouvido, "esperamos por você há tanto tempo. Aconteceu alguma coisa? Está bem?"
"Nunca me senti melhor," respondeu Kaden, "estou só ocupado com uma coisa que quero resolver antes de voltar para vocês."
"Ah, então, vou te contar a mensagem que me foi confiada para te informar." disse o Abominação, e Kaden levantou uma sobrancelha.
"Ele está aqui com a gente," o Abominação simplesmente disse.
Mas Kaden não precisou de mais nada. Imediatamente, entendeu. Seu coração aliviou-se bastante, e seus olhos ficaram menos assustadores. Porém, o Abominação não parou por aí,
"A ferreira negra ajudou ele a fundir-se com o artefato mítico, mas ela é escrava da Empressa. Ela pede salvação pelo auxílio dela."
"E a Empressa o enganou."
Ela acrescentou, por fim, desligando em seguida, sabendo que seu mestre estava ocupado.
Kaden permaneceu naquela posição por alguns segundos antes de guardar de volta sua ferramenta de comunicação rúnica.
"Agora," disse Kaden, levantando a cabeça para olhar somente para Mahina, "diga-me, por quê, Empressa?"
Luminary ficou ao lado, calado e observando.
"Por quê?" repetiu Mahina, "sobre o quê, menino?"
"Por que você enganou meu irmão para roubar o artefato mítico? Por que me obrigou a enfrentar o corpo da Mad Sun Empress para recuperar aquele fragmento para você?"
Nenhum deles ficou surpreso com suas palavras. Todos já sabiam que Mahina era a verdadeira culpada.
E, estranhamente, só Sora ainda estava enraivecida com isso.
"Mãe!" Sora rosnou, "Como—!"
"Ah, irmã, por favor, não de novo," Sirius suspirou, exasperado. Ele olhou para ela, e pela primeira vez, seus olhos azuis não tinham humor algum.
"Você é tão tola? Ou esse seu amor pela nossa querida amiga aqui te cega para o óbvio?"
O rosto de Sora ficou vermelho, misturando raiva e vergonha. "E eu te mandei cuidar da sua vida e não me falar! Talvez você seja o tolo por não entender palavras simples!"Ela cuspiu, "e estou falando com minha mãe. Agora, é você minha mãe? Ou vai, como sempre, agir como o mascote dela?"
Sirius ergueu uma sobrancelha, "Isso é ousado de sua parte, irmã," disse calmamente, "mas não vou discutir com uma ingênua como você. E agradeça às Celestes por ser minha irmã, pois sua ousadia repentina só é charmosa por isso."
Seu tom ficou mais frio.
"Qualquer outro teria sido morto por ousar me desafiar assim."
Luminary cortou o clima tenso entre seus filhos, "Silêncio, vocês dois." Ele os silenciou, depois olhou de relance para Mahina, "Quer responder?"
Mahina não se incomodou com isso. Ela apenas encolheu os ombros, "Se vocês querem tanto saber a resposta, então não vou escondê-la."
Ela fitou Kaden com frieza, "Fiz isso porque era a única maneira da minha família não ser despedaçada por uma brincadeira inútil de tronos." Ela disse sem hesitar.
Ela virou o olhar para Luminary, "Sim, marido, desafiei a regra central dos Asterion. E não me arrependo nem por um instante."
Luminary franziu levemente o rosto.
Depois, olhou para Sora, "E sim, Sora, usei sua amiga e seu amor para meu plano. Novamente, não me arrependo, porque fiz por você. Fiz por nós." Seus olhos ficaram mais frios, mas havia uma fragilidade sob a máscara: "Fiz pelo bem da nossa família."
Por fim, ela voltou sua atenção para Kaden:
"Você já tem sua resposta, mas deixa eu te contar de um jeito que entenda melhor, garoto." Ela deu um passo à frente, caminhando em direção a Kaden,
"Usei seu irmão para poder te ter sob controle, e te utilizei para libertar minha família do caos."
"E como, por quê decidi usar você? Chame isso de destino ou como quiser. Mas você foi escolhido."
Kaden não falou, apenas escutou calmamente.
Ela deu mais alguns passos até parar bem perto dele, então sorriu sem humor, justo no momento em que Sirius falou:
"E parece que está funcionando." Ele acrescentou, "Não faço ideia do que você fez, grande amigo meu, mas já não desejo mais o trono."
De imediato, todos olharam para Sirius com os olhos arregalados.
"O quê?" exclamou Sora, com os olhos descontrolados.
"Este dia só fica mais estranho," sussurrou Luminary, fechando os olhos de cansaço, com os braços cruzados.
Mahina, por sua vez, olhava para o filho com um espanto igual ao dos outros, mas, de algum modo, pior: "Você…sério?"
Sirius sorriu carinhosamente para sua mãe, acenando com a cabeça de forma tranquilizadora.
"Sim, sou. E peço desculpas por causar preocupações," disse. "Você fez tudo que pôde para evitar que sangue fosse derramado entre nós, mãe. E fez isso carregando o peso sozinha, de forma consciente de que pareceu a vilã nesta história."
"Por isso, levante a cabeça. Você não tem motivo para se envergonhar, mãe."
Discretamente, bem de leve, o corpo de Mahina tremeu.
Luminary percebeu, e suspirou suavemente por baixo da respiração.
Sua esposa era astuta, gostava de fazer as coisas sozinha, sob o véu das sombras. Mas ela era sua esposa, e a mãe de seus filhos.
Ela era a pessoa pronta a sujar as mãos pelo bem da felicidade da família deles, sem hesitar.
Luminary não aprovava suas ações, mas não a condenaria na frente de um estranho ou dos filhos.
A punição ficaria para depois.
Por ora,
"Nós te decepcionamos," disse Luminary, olhando para Kaden, "Vamos pagar o preço por isso."
Sora ficou calada, levantou a cabeça e mordeu os lábios até sair sangue dourado, apertando os punhos até as juntas ficarem brancas.
Seu corpo tremia.
Ela queria falar por Kaden, repreender a mãe depois de tudo que ele tinha feito por ela. Mas não tinha força para amaldiçoar a mãe por algo que ela fez por elas.
Ela não conseguiu.
Mas pelo menos poderia fazer algo.
Ela levantou a cabeça, enxugou as lágrimas que enchiam seus olhos e, com determinação misturada à hesitação, avançou.
Enquanto isso, Kaden escutava tudo de olhos calmos, quando Sora de repente apareceu na frente dele.
Sem palavras, ela baixou a cabeça: "Desculpe." murmurou, com a voz rouca.
Imediatamente, Mahina, Sirius e Luminary arregalaram os olhos.
"O que você está fazendo, irmã? Os Asterion não—!"
"CALA A BOCA!!" Sora berrou, com o rosto vermelho, lágrimas de culpa escorrendo e ela encarando Sirius fixamente.
Um poder invisível envolveu a garganta de Sirius ao som da voz de Sora, fazendo-o se calar na hora.
Algumas palavras simplesmente não saíram de sua boca por um momento.
Era um poder que todos sentiram.
Sem dar tempo de se recuperarem, Sora voltou seu olhar molhado para Kaden:
"Desculpe por tudo que fizemos com você e seu irmão." ela repetiu, "Desculpe pelas ações da minha mãe e espero que nos perdoe."
Kaden sorriu: "Eu quase morri, voz dourada. Bem, morri sim. Mas a morte foi doce comparada ao que passei." ele disse, "E não sei quão próximo meu irmão também chegou da morte."
Ele inclinou a cabeça:
"E você espera que eu apenas perdoe e esqueça como se nada tivesse acontecido?"
Sora abaixou ainda mais a cabeça, quase tocando o chão.
O Asterion sentiu uma sensação instintiva de que algo estava errado. Seus corpos reagiam de forma revoltada. Não, sua linhagem clamava por isso.
Para Sora, era ainda pior. Era como se algo estivesse asfixiando ela por dentro.
"Sora…" começou Mahina, mas silenciou ao ver como Sora se ajoelhava contra sua própria natureza.
Os olhos de Luminary se estreitaram, mas ele não disse nada.
"Por mim." disse Sora, esperançosa de que Kaden não esquecesse do tempo que passaram na masmorra, "Sei que estou pedindo algo irracional, mas, por mim, Kaden. Faça isso por mim. Me perdoe, por favor. Perdoe minha mãe, por favor. Perdoe minha família, por favor."
Finalmente, sua testa tocou a terra queimada.
"Eu—por favor—!"
"Já chega," Kaden disse com um suspiro forte, fechando os olhos, "Já chega." Ele repetiu.
Estava cansado. E não tinha força para passar por tudo aquilo.
Sua mente doía. Mas, além disso, Kaden podia ver o esforço enorme que Sora fazia só para se ajoelhar.
Isso certamente não mudava a atitude de sua mãe, que ainda não pedia perdão.
Mas, mesmo assim…
Sorrindo para Sora, disse: "Nunca imaginei que veria uma princesa abaixar a cabeça por um bandido chantagista como eu."
Com suas palavras, Sora ergueu a cabeça, esperança brilhando nos olhos, "Você... você não está bravo comigo?"
Essa pergunta tinha um peso profundo em muitos sentidos.
Você não está bravo por eu ter te capturado?
Você não está bravo por eu te usar pelo meu bem, mesmo que não fosse exatamente por mim?
Você não fica bravo comigo e com minha família por tudo isso—capturá-lo, usar seu irmão, quase te matar—tudo pelo próprio prazer deles, sem se importar com seu sofrimento?
Era tudo isso. Essas perguntas.
E Kaden as entendeu todas.
"O pecado do pai não é para o filho pagar," disse Kaden, "e além do mais…" sorriu, "não somos amigos, voz dourada?"
Sora assentiu com força, "Somos! Você é meu único amigo, chantagista!!" Ela acrescentou instintivamente, antes de se alarmar com a própria boca.
Kaden riu suavemente: "Incrivelmente, não duvido. Você é insuportável demais para ser querida. Eu sou demais pra você, voz dourada."
Sora estava prestes a reclamar, quando Kaden virou a atenção para Mahina,
"Eu te faço três pedidos." disse, levantando três dedos, "e eu deixarei passar tudo, por voz dourada."
"Fale." Mahina respondeu, com a voz restrita.
Kaden fez exatamente o que ela queria, e ela percebeu com dor que sua filha gostava mais dele do que ela pensava inicialmente.
Mahina podia ser fria com os outros. Mas com sua família, ela estava disposta a tudo. E sabia que ir mais fundo contra Kaden faria sua filha odiá-la.
Ela não escapou de sangue derramado só para se atirar em algo igualmente pior.
E Kaden percebeu isso.
"Quero um pedido de desculpas de você, Empressa. Também quero que liberte o Velho Ferreiro do seu contrato de escravidão. E, finalmente… quero a posse do artefato mítico."
Ele falou, fazendo os Asterion ampliarem os olhos.
"Aceite, e acabamos aqui," concluiu, enquanto suas chamas vermelhas-escarlate começavam a envolver seu corpo em ondas de fogo.
Seu fogo subiu ao céu e se transformou na figura de uma fênix de asas abertas, olhando para eles com olhos que brilhavam como estrelas.
Não acabou aí.
Uma Vontade pressionou todo o espaço, seguida por uma sensação de vazio que começava a penetrar qualquer ser presente ali.
Exceto Sora.
De forma inconsciente, todos estremeceram.
O rosto de Kaden era só fogo. Não havia carne, nem sangue, nem ossos.
Era feito de fogo soulfumegante, que fazia o espaço toda recuar de medo.
Os Asterion, instintivamente, assumiram postura de luta, músculos tensos, mana e intenções pulsando ao redor deles.
"Agora, isso é absurdo," disse Sirius, sentindo uma ameaça letal à própria vida.
Instantaneamente, soube.
'Vou morrer se lutar contra ele.'
De um jeito estranho, o pensamento lhe arrancou um sorriso largo.
Luminary e Mahina também ficaram chocados.
"Agora, você sabe o que fez, Mahina?" Luminary perguntou.
Mahina rangeu os lábios, "Criei um monstro."
Sora, por sua vez, só pensava em como Kaden era incrível.
'NÃO! Sora! Não pense isso! Ele ainda é um chantagista! Mas ele é tão gentil comigo…' Seus pensamentos estavam um caos, seu coração pulsando com sentimentos que ela não queria aceitar, mas desejava abraçar.
De repente, a fênix lá em cima berrou, criando uma rajada de vento quente que inflou o espaço ao redor.
Os Asterion focaram ainda mais em Kaden.
Os olhos estrelados de Kaden, vermelhos como carmesim, os observavam.
"Sua resposta?" Sua voz era vazia.
"Deixe-me lembrar que recusar minha oferta generosa," Kaden sorriu, "me obrigaria a lutar contra você."
"E não me faça." acrescentou, "Eu odiaria fazer uma amiga chorar matando a família dela."
Ele estalou o pescoço. No alto, surgiu uma estrela carmesim.
"Estou ouvindo."