
Capítulo 336
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Era uma cena estranha.
Lady Sora estava na porta do quarto de Aurora, com os materiais e produtos para limpar o cômodo já em mãos, pronta para cumprir sua tarefa. Mas, claramente, ela não conseguiu.
À sua frente, estava o cachorro feio, observando Lady Sora com seu único olho funcional e de uma inteligência sinistramente assustadora. Acima do cachorro, flutuando levemente sobre sua cabeça, estava a silhueta negra impecável, com olhos de um vermelho profundo e sem pés.
As duas criaturas observavam Lady Sora sem vacilar, bloqueando claramente sua entrada.
E esse já era o sétimo dia consecutivo em que tal evento se repetia. A cada tentativa de Lady Sora de afastar aquelas criaturas estranhas, ela não obtinha sucesso.
Então, desta vez, ela não disse nada, sabendo exatamente que aquelas criaturas não iriam escutá-la. Era como se estivessem escondendo algo dela.
Porém, estranhamente, ela podia sentir as duasuras de Aurora e Kaden dentro do quarto. E às vezes, podia também ouvi-los conversando.
No entanto, era estranho, Lady Sora percebeu. As vozes eram monótonas, e eles repetiam as mesmas palavras incessantemente.
Naque momento, se Lady Sora não tivesse percebido que Aurora e Kaden não estavam na casa, então ela seria uma tola.
Ela olhou novamente para as duas criaturas, e sussurrou sorrindo, com um dente caindo: "Vocês também, não é?"
"Um de vocês tem um olho branco e cego, o outro é uma ave nascida sem pés e que precisa constantemente bater as asas parapairar no ar."
Como se as criaturas pudessem entender suas palavras, elas ergueram as costas, como se se sentissem orgulhosas de sua própria singularidade. Uma singularidade que, se não fossem as criaturas de Aurora — que as fizeram amar suas próprias imperfeições —, elas provavelmente odiariam.
Lady Sora sorriu mais uma vez, virou-se de salto e seguiu em frente. "Vocês são especiais." ela repetiu novamente.
"Vocês dois são realmente especiais."
Ela finalmente desapareceu do campo de visão das criaturas enquanto caminhava em direção ao jardim de prata, pois podia perceber algo estranho no som do vento naquele dia.
Ao mesmo tempo, a cada eco de seus passos arrastados no chão, algo sussurrava dentro de sua mente.
Um sussurro tênue. Um sussurro suave e acolhedor.
"Eles espiaram." A voz sussurrou, "Eles invadiram sua mente."
O sussurro veio acompanhado de uma terrível dor de cabeça que fez as passos de Lady Sora vacilarem por um momento antes dela se recompor. Seu rosto permaneceu impassível, embora um suor frio escorresse por sua bochecha, apesar do sol escaldante lá em cima.
"Tudo?" ela perguntou, ao finalmente chegar ao jardim de prata.
"Não nós." Respondeu a voz baixinho, "Não nós. Não nós."
Lady Sora assentiu, "Então não importa. Deixem que sigam seu próprio caminho."
"Ele é o que esperávamos." A voz repetiu mais uma vez.
Lady Sora sorriu largamente, seu dente caindo ao sentar na cadeira,
"Ah, mas eu já sei."
Ela riu.
"Sei bem."
…
Enquanto isso, dentro da Cidade da Estrela da Manhã, Soleil e Lady Green caminhavam lentamente em direção à Mansão do Lorde da Estrela da Manhã, guiados por um Cavaleiro.
Os Cavaleiros da Floresta de Lady Green estavam com ela, e a região de Onyx de Soleil também os acompanhava, com suas armaduras negras brilhando como fogo negro sob o sol ondulante.
Essas duas forças marchavam fiéis atrás de Soleil, como se demonstrassem sua autoridade e poder sobre eles. Até Lady Green caminhava ligeiramente atrás de Soleil, com olhos cor-de-rosa contraídos em uma expressão de diversão.
Era uma demonstração de lealdade a ele. Mas, para Soleil, apenas despertava nojo, ódio — e, principalmente, medo daquela atitude. Nunca imaginara que Green fosse uma monstra sem coração.
Ele caminhava rumo à família de seu pai, a única que o ajudou desde o início na sua busca pelo trono… tudo para matá-la?
Se alguém pudesse ouvir o clamor de uma alma, certamente ficaria surdo após ouvir o espírito de Soleil se fragmentando lentamente. No entanto, seu rosto permanecia com um sorriso ansioso ao ver Lorde da Estrela da Manhã aguardando-os na porta da mansão.
"Veio com honra e dignidade, sobrinho," disse Morningstar, abraçando Soleil com força. Ao olhar para eles, qualquer um perceberia o quão próximos eram.
Lorde Morningstar era um homem relativamente baixo, mal chegando a 1,80 m. Seu cabelo era preto, curto, quase até as orelhas, e seus olhos eram de um amarelo profundo e sujo. Seu corpo era bem proporcionado, magro, levemente musculoso, com uma bainha na cintura — uma lâmina em formato de U, com pontas afiadas e que brilhavam como prata líquida.
Ao seu lado, havia uma mulher — com aparência da mesma idade de Soleil — com os mesmos traços de Morningstar, porém com um corpo mais arredondado. Ela olhava para Soleil com amor não disfarçado, mas, ao desviar o olhar para o rosto sorridente de Lady Green, seus olhos se tornaram venenosos, semelhantes aos de um polvo de anéis azuis.
"Lady Green," cumprimentou Morningstar com um breve aceno de cabeça respeitoso, "fico contente em vê-la ao lado dos vencedores."
Lady Green sorriu de volta, "Estou muito satisfeita por ter sido escolhida por milorde. Agora, todos sabemos que este trono certamente pertence ao Primeiro Príncipe."
Morningstar aplaudiu, extremamente feliz, "Pois é, claro." Então, indicou a vasta porta de pedra amarela com um gesto, "Vamos entrar, caros camaradas. Temos planos a fazer. Noelle, por que você não cuida da Lady Green?" Ele acrescentou, voltando-se para sua filha.
Noelle fez uma careta, mas obedeceu mesmo assim.
Soleil sorriu de maneira rígida ao lado de Morningstar, "Vamos, tio."
Com firmeza, todos entraram no prédio, com Morningstar liderando o caminho. Os soldados ficaram atrás das portas, mantendo olhares tão frios quanto a morte ao escurecerem as portas.
Dentro, Morningstar começou a conduzi-los até a sala de reuniões. Caminhava ao lado de Soleil, começando a falar com ele, usando gestos com as mãos.
Seus passos reverberavam alto no espaço fechado, decorado em preto e amarelo, com estrelas espalhadas pelo teto.
Logo atrás, Lady Green andava ao lado de Noelle, que a olhava com evidente nojo.
"Cuidado, pequena," sussurrou Green, "Se olhar assim para os outros, seus olhos podem ser arrancados."
Noelle cuspiu, "E quem ousaria?" ela disparou, "Você?"
Green apenas sorriu, "Eu que não. Acho que não, né?"
Noelle se aproximou de Green, para que seu pai não ouvisse suas próximas palavras, e sussurrou com ousadia perturbadora: "Soleil é meu." Ela rangeu, com a voz como folhas secas ao vento. "Tive sua primeira vez, e ele teve a minha. Não vou desistir dele. Nunca."
Lady Green ficou em silêncio por um momento. Então, lentamente — muito lentamente — seus lábios se curvaram em um sorriso zombeteiro, enquanto ela se aproximava ainda mais, dizendo: "Então, deixarei você o acompanhar até o túmulo, sua cadela."
As palavras mal tiveram tempo de ressoar na mente de Noelle antes que Lady Green a agarrasse com força de ferro na cabeça. Noelle gritou de susto, antes de soltar um grito lancinante ao sentir Green arrancar seus dois olhos amarelos com crueldade esmagadora, puxando-os das órbitas.
Sangue escarlate jorrou com o movimento dela, espirrando pelo ar e espalhando-se pelo chão.
"ARGHHHHHHHHHHH!!!" a boca de Noelle se abriu em um grito de agonia enquanto uma dor inconcebível reverberava na mansão.
Instantaneamente, Morningstar parou, com a cabeça girando perigosamente ao vê-la de joelhos, gritando e chorando, se debatendo como alguém possuído pela loucura, enquanto Lady Green sorria suavemente, observando os olhos amarelos na mão dela.
A mente de Morningstar travou.
Green sorriu, "Agora, por favor, vamos acabar com isso, certo?"
Como se fosse um comando, do lado de fora, podia-se ouvir os gritos do povo e o estrondo da batalha.
Morningstar virou a cabeça para Soleil, mas recebeu um soco flamejante bem na cara. Sua cabeça virou para trás, o nariz rachou e quebrou, sangue espalhou-se pelo ar, enquanto ele foi lançado para dentro da casa com velocidade devastadora.
Aflorando ao longe, Green sentiu a chegada de seres do Reino do Epíteto e de alguns Grande Mestres.
"Vou lidar com eles," disse Green, olhando para Soleil, "Vá matar seu tio pelo bem maior, príncipe."
Oito dos olhos de Soleil choravam lágrimas de sangue, mas a aliança de sangue de Kaden o impedia de resistir ou desobedecer. Então, ele voou em direção a Morningstar para acabar com ele.
Green baixou sua cabeça em direção à Noelle que chorava aos pés e sussurrou: "Viu, cadela? Cuidado de como olha para os outros da próxima vez, tá?"
Noelle gemia baixinho.
Lady Green chutou sua cabeça sem misericórdia — ela explodiu em uma jorro de sangue e cérebro.
Noelle morreu.
Justamente naquele momento, os oponentes de Lady Green chegaram.
Ela pegou seu bastão de madeira verde do anel de espaço e assumiu sua postura. O bastão se transformou, ficando coberto por cristais verdes.
"Vamos lá, vamos fazer nossa parte, ok?"
Ela riu, seus fios verdes balançando selvagemente.
…
Na mesma hora, no mundo real, em Morningstar City, na sombra da Lua, Sirius se posicionava atrás de Morningstar em seu próprio quarto, vestido como um assassino, com roupas pretas e uma expressão séria.
"Por que uma visita tão tardia, Senhor Sirius?" perguntou Morningstar, sem virar a cabeça, "E seu visual... bem estiloso, não? É uma tendência dos jovens de hoje?"
Sirius sorriu, "Estou aqui para cumprir minha palavra e ver sua filha, Lorde Morningstar. Mas primeiro…"
Do lado dele, na janela, a Lua brilhava com luz prateada, envolvendo-o com carinho.
No exato momento, a forma de Sirius parecia deixar de ser humana, transformando-se em uma fera profunda e feroz, com olhos ainda mais frios que o gelo.
"Vamos conversar como cavalheiros, certo?"
Morningstar sorriu, "O assunto?"
Sirius deu de ombros, à medida que o ambiente ao seu redor lentamente se cobria de trevas, com gelo se espalhando pelas paredes e chão, "Que tal como você quer morrer?"
Morningstar ficou em silêncio por um instante, e então…
"Posso dizer que quero ser estrangulado com seu—!"
BOOOM—!
Sirius atacou, e toda a mansão de Morningstar explodiu em gelo e trevas em movimento. Lá em cima, a Lua parecia brilhar com ainda mais intensidade, enquanto uivos de feras ecoavam por toda parte.
Fora da cidade, Luna ativou uma barreira gigante para esconder o que acontecia dentro.
Começava a caça a Morningstar.
E assim aconteceu em duas linhas do tempo.
…
Enquanto isso, de volta à Corrida Mítica. No alto do céu, Shamsi Apolônia Astreion — A Imperatriz do Sol — tinha os olhos vigilantes sobre Silver City e Morningstar City.
De onde ela estava, com seu poder e com o sol brilhando cegamente acima dela, a Imperatriz do Sol podia enxergar além dos limites da capital.
Seus olhos dourados-brancos começavam a piscar de forma irregular, como fogo inquieto, notando as duas batalhas ocorrendo em Silver e Morningstar. Ela não precisava de ninguém para lhe dizer o que estava acontecendo.
Seu Império estava sendo atacado. E a paz frágil que o cercava finalmente se despedaçara em pedaços.
Não só isso…
'Uma sensação estranha,' refletiu, observando dentro da própria capital, sentindo a herança que havia recebido na juventude agitando-se inquieta. O branco em seus olhos intensificou-se.
Sem compreender realmente esse sentimento estranho ou querer perder tempo com ele, a Imperatriz do Sol decidiu usar esse caos que lentamente se formava em seu Império para realizar uma tarefa que sempre quis.
Seus olhos se moveram profundamente pelo castelo real, até uma sala desagrada que ela relutava em olhar, tão nojenta que era.
"E agora," ela disse, sorrindo com uma frieza profunda, "sua vida chegou ao fim." Ela terminou, levantou a mão para o céu e, lentamente, fechou a mão em um punho apertado.
O processo foi lento, como se uma força invisível estivesse desafiando-a.
No quarto de Klaus, podia-se ver ele de repente congelando em silêncio, sua respiração presa na garganta. Em seguida, a temperatura de seu corpo começou a subir, a ponto de ser aquecido e derreter por dentro, seu rosto pintado de vermelho intenso.
Seus brinquedos ao redor começaram a dispersar, assustados com a cena inesperada. Uma chama branca começou a sussurrar e a lamber todo seu corpo, mas, naquele instante… tudo parou.
Klaus caiu desmaiado no chão, com o peito arfando para cima e para baixo, enquanto, lá em cima, a Imperatriz do Sol olhava fria para o homem diante dela.
"O que você está fazendo aqui, Sirius?" perguntou Shamsi, sua aura crescendo a cada segundo.
O espaço começou a derreter.
Sirius, envolto em escuridão e gelo, suspirou, "Você conhece as leis, Shamsi." Ele disse seu nome como se estivesse muito familiarizado com ela.
"E você também sabe de nossa obrigação," acrescentou, "você não pode matar um membro de Astreion como um Astreion. Você sabe disso, então, como imperatriz, o que está fazendo?"
Os olhos de Shamsi ficavam cada vez mais frios, e a temperatura aumentava exponencialmente por toda a capital, enquanto o próprio sol começava a queimar com mais intensidade.
"Não é você quem foi traída e humilhada diante de todos ao longo desses anos, Sirius." ela rosnou, "Não é você quem dormiu à noite com os gemidos de seu marido sendo satisfeito por homens e mulheres naquele outro lado da sala."
Os lábios de Sirius se comprimiram, formando uma linha fina.
"Não é você, Sirius. Então, pare de falar sobre leis enquanto viu tudo isso acontecer. Você não agiu na época, mas agora ousa agir?"
"Ele, tecnicamente, não violou nenhuma lei," Sirius se defendeu, "eu não tinha direito de intervir."
"Então, não tem direito de fazer nada agora," respondeu Shamsi, frio, sua voz como bolas de sol girando, "Eu sou a Imperatriz do Sol, Eu sou a Lei. E hoje, Klaus Morningstar irá perecer. E você, Sirius Moonborn, se tentar me impedir, também."
Sirius suspirou novamente, por dentro.
"Leis existem para serem respeitadas, Shamsi," tentou explicar, "você sabe que é pelo bem de todos nós. Podemos encontrar outro caminho, que não envolva matar outro Astreion."
Shamsi não falou mais nada. Todas as palavras já estavam ditas. Ela apenas olhou para Sirius, enquanto uma chibata dourada flamejante surgia em sua mão direita.
"Então, você escolheu a morte," ela murmurou.
"Desculpe," respondeu Sirius.
Depois…
"Aspecto — O Sol."
Ao ouvir suas palavras, o sol que pairava sobre a capital foi arrancado do céu e começou a descer lentamente, ficando atrás de Shamsi.
Os prédios e as pessoas da cidade começaram a derreter, enquanto o mundo se cobria de uma névoa alaranjada e nebulosa.
"Aspecto — A Lua."
Instantaneamente, o mundo escureceu, envolto por trevas. A lua, que deveria surgir mais tarde, apareceu no céu com o rastro da noite, antes de também ser desprendida do firmamento e aparecer atrás de Sirius.
A capital começou a congelar, sombras surgiram e começaram a dançar.
Com o Sol e a Lua tão próximas, os Aspectos de Shamsi e Sirius eram tão poderosos que o espaço entre elesRangeçava, rachava, e se fragmentava em pedaços flutuantes de espaço.
No lugar deles, nasceu uma massa de vazio em redemoinho, negra e imaculada em sua cor, assustadora na energia que emitia. Ela engoliu ambos, Shamsi e Sirius, para uma camada diferente de realidade, pois sua batalha era demasiado terrível para o mundo suportar.
Assim, teve início a batalha entre Sol e Lua.
—Fim do capítulo 336—