Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 313

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Kaden e Aurora entraram no portal prateado, seus corpos sentindo de forma aguda a súbita mudança no ar.

Em um instante, estavam na viela úmida, com apenas o brilho das sombras ao redor, e no próximo, se encontravam bem alto no céu, dentro de um espaço fechado totalmente envolto na escuridão tão espessa quanto óleo.

Imediatamente, Kaden abraçou Aurora, usando seu Status de Percepção e Constituição para reduzir exponencialmente sua presença. Em seguida, seus olhos se transformaram, assumindo a forma de espadas, e ele usou sua intenção de matar para apagar completamente sua presença.

N naquela hora, eles poderiam tão bem ser o próprio ar.

Para isso, ele acrescentou sua força anormal, condensando o ar sob seus pés até torná-lo sólido o suficiente para sustentá-lo como se fosse terra firme.

Aurora abraçou seu pescoço por apoio, sua aparência ficando mais firme com o calor de Kaden, enquanto seus olhos varriam ao redor e abaixo deles, captando a visão repulsiva que manchava seu olhar bonito e puro.

O espaço em que estavam era escuro, fechado, sem nenhuma luz penetrando. Uma névoa vermelha tênue flutuava no ar, carregada com o cheiro de ferro, fazendo Aurora franzir o rosto de disgustos.

Mas mesmo essa névoa não conseguia obscurecer a luz, o brilho tênue e assustador das trinta e três tatuagens inscritas na testa de todos os doundous reunidos ali.

Era um silêncio mortal.

No entanto, nunca tinham testemunhado um silêncio tão ensurdecedor... um silêncio tão pesado de miséria e angústia não ditas.

Kaden e Aurora sentiram seus corações ficarem gelados diante da cena à sua frente. O espaço escuro se estendia vasto como uma cidade de médio porte, e ainda assim… cada centímetro dele estava repleto de doundous.

Com seus olhos especiais, podiam ver tudo, claramente e de forma dolorosa, como se fosse plena luz do dia.

Viram as cavidades oculares ainda sangrando lágrimas carmesim, bocas costuradas tremendo violentamente, ouvidos cortados limpo. Mas isso não era tudo. Desta vez, esses doundous estavam completamente nus.

Viram como cada corpo era mal casado, parecendo membros cortados e costurados às pressas, torsos desiguais, pele costurada de forma áspera e inumana. Seus corpos lembravam bonecas quebradas, reparadas inúmeras vezes sem amor ou misericórdia.

Quanto mais Kaden via, mais seus olhos se tornavam vazios, desprovidos até mesmo do mais tênue traço de emoção.

Nos braços dele, o olhar de Aurora refletia o seu. Sua expressão normalmente brincalhona e relaxada desaparecera completamente, substituída por algo frio e sem palavras... o horror silencioso de uma alma forçada a testemunhar crueldades além da compreensão.

Não era a visão em si que os perturbava tanto, mas…

"Como eles encontraram tantos humanos?" Kaden perguntou suavemente, sua voz ouvida apenas por Aurora, e logo abafada pelo seu intento.

Ele não conseguia deixar de pensar. A quantidade de pessoas presas naquele lugar devia chegar a milhões… milhões de homens, mulheres, idosos e até mesmo crianças sangrentas.

Caramba, Kaden até viu um garoto, não maior que seis anos, menor e mais baixo que Eimi. E mesmo assim, ele permanecia ali, transformado numa escultura grotesca, digna de um monumento para exibir a perversidade da humanidade.

E isso não era tudo. Ele viu uma menina, talvez de uns dez anos, com a barriga inchada como a de uma gestante, os mamilos esticados e perfurados impiedosamente, sangue escorrendo e acumulando sob ela numa mancha carmesim.

E ainda assim… eles não se mexiam. Não choravam.

Eles permaneciam em silêncio.

Mas aquele silêncio poderia sufocar o mundo.

Kaden cerrava a mandíbula com força, veias serpenteando pela testa como minhocas inquietas.

"Não sei," Aurora sussurrou, sua voz seca e frágil como algodão antigo. "Não sei, Fraud."

Parece que ela também começava a entender a dimensão do que testemunhavam. E essa percepção pesava em seu peito, esmagando seu coração a cada segundo que passava.

Tudo o que Aurora via era o caminho. Ela sabia onde precisava chegar, o que precisava fazer, mas quanto ao que encontraria ao longo dele…

…isso era um assunto totalmente diferente.


Kaden suspirou ao ouvir sua voz febril, inconscientemente apertando mais seu abraço, puxando-a contra seu peito em silêncio de conforto. Aurora não resistiu.

E naquele instante, a percepção de Kaden captou algo. Segundos depois, Aurora também sentiu. Seus cabelos se deitaram atrás das cabeças, os olhares se voltaram em uma direção, para a ponta mais distante do espaço escuro abaixo deles, ao canto mais à direita daquele reino nauseante.

Lá, eles notaram uma porta prateada que não haviam visto até então.

Momentos depois, uma figura apareceu, vestindo uma túnica prateada como a de um grande mago, uma máscara prateada que cobria todo o rosto, inclusive olhos e ouvidos. Pelas proporções, era um homem. Inscrito em seu peito havia o símbolo de uma espada prateada invertida — um rapier, para ser exato — cercada por estrelas brancas pálidas.

Na breve janela em que a porta se abriu para deixá-lo passar, a percepção de Kaden alcançou o que havia ali, e o sentimento congelou seu sangue.

Havia inúmeras entidades, mas também uma tempestade de gritos, vozes de dor e angústia, de quem implorava por libertação, por morte, pelo fim daquele tormento interminável.

O som lembrava um coro de condenados, tão sofrido e cortante que poderia fazer até pedra tremer e chorar.

"Estão sendo torturados atrás dessa porta," Kaden murmurou, então fez força na mandíbula. "Vamos —!"

"Precisamos voltar."

As palavras de Aurora cortaram como uma lâmina, rápidas e afiadas. Seus olhos fixos no homem de túnica prateada lá embaixo.

Kaden congelou. Lentamente, abaixou a cabeça e olhou para ela, seu olhar carregado de descrença e contenção.

"O quê?" ele rosnou.

"Tive minhas dúvidas quando vi a mana prateada que você imitava para vir aqui," ela falou, a voz aguda e fria como um gelo. "Mas agora tenho certeza."

Ela fez uma pausa, abriu e fechou a boca várias vezes antes que as palavras finalmente saíssem.

"São pessoas do Lorde Prata, de Silver City," Aurora murmurou, com tom mais baixo e contido. "Sei o símbolo deles."

"Então, e daí?" Kaden retrucou, "Que importância tem se são de lá?"

"Importa," Aurora franziu o rosto, "porque agora precisamos andar com mais cuidado. O Lorde Prata é forte. Extremamente forte. E o fato de ele, ou um de seus homens, estar por trás dessa… cena… é uma notícia terrível."

"Entendo agora," ela continuou, os lábios finamente cerrados enquanto os olhos percorriam a multidão de doundous. "Ouvi rumores de que pessoas na região de Silver City têm morrido frequentemente, durante as invasões de calabouços, ou pelas hordas de bestas inquietas."

Ela suspirou. A verdade agora estava ali, exposta, e ela desejava nunca ter descoberto.

Quem disse que ignorar é felicidade talvez estivesse certo. Porque agora, Aurora carregava o peso da verdade em seus ombros frágeis, sem escolha senão suportá-lo.

Porém, Kaden ainda não entendia.

"Por que precisamos voltar?" ele perguntou.

Aurora estalou os dedos, a paciência esgotando-se.

"Para planejar melhor, claro, idiota! Precisamos de mais informações, e isso significa que preciso usar meu poder. Talvez você ainda não perceba, mas não posso usá-lo aqui. Então, vamos voltar."

Kaden escutou suas palavras em silêncio, depois baixou o olhar para o homem de máscara prateada ali embaixo, que parecia contar meticulosamente a quantidade de doundous.

Focou na energia que aquele homem emitia. Um mero Grande Mestre.

E se não estivesse enganado, o mesmo nível de poder pulsava fracamente atrás da porta prateada também.

Não eram ameaças.

Não diante dele.

"Minha senhora," Kaden começou, e Aurora imediatamente percebeu algo ruim na tonalidade da voz dele. "O que aconteceria se eu desobedecesse suas ordens?" perguntou calmo.

Aurora mordeu os lábios. "Você trará mais problemas," ela respondeu sem emoção. "Você não sabe o que há nesse espaço em que nos encontramos. Se agirmos, podemos iniciar um evento do qual ainda não estamos preparados para concluir."

Ela fez uma pausa, depois apertou os braços ao redor do pescoço dele, a voz baixando.

"O Lorde Prata está por trás do Primeiro Príncipe," ela continuou. "E não só ele, o Senhor de Morningstar também. Apenas Lady Green permanece neutra por ora."

"Quer dizer que mexer com o Lorde Prata é o mesmo que tocar no Lorde de Morningstar, além de alertar o Primeiro Príncipe de que sabemos de seus negócios."

Ela olhou fixamente, com intensidade firme e implacável. "E, assim que ele perceber que sabemos de algo que não deveríamos, não tenho dúvidas — virá pessoalmente nos matar. E deixe-me dizer, Fraud…"

Seus olhos se estreitaram, a luz neles ficando sombria e severa.

"Ele vai nos matar, Fraud. É mais forte do que tudo que já vi. Mais forte até que meu príncipe."

Ela suspirou, a tensão na respiração pesada. "Precisamos retornar e planejar. Eu completarei o caminho e encontrarei uma saída," ela finalizou, a voz mais suave, mas carregada de esperança, tentando convencê-lo.

Mas todas as palavras apenas alimentaram a questão que pulsava na cabeça de Kaden, uma questão que se recusava a sair, exigindo uma resposta.

"Por quê?" ele perguntou, em voz baixa, com o olhar vermelho ardendo como o de um deus irado para o que havia abaixo. "Por que você faz tanto pelo Príncipe?"

Aurora apertou os lábios, sem dizer uma palavra.

"Não sou cega, minha senhora, para não perceber que usar seu poder te enfraquece. Na verdade, vai além disso."

Ele a lançou um olhar sombrio, seus olhos se encontrando de forma obstinada.

"É como se, toda vez que você usa seu poder para ver o caminho, estivesse pagando com a sua própria vida."

Ele cerrava a mandíbula com força.

"Então por quê? Por favor, não me diga que é amor."

"Então, tenho que desapontar você," Aurora franziu o rosto, os olhos frios. "Porque é amor."

Ela nem sabia por que estava conversando assim. Ele era seu cavaleiro, suas ordens deviam ser seguidas sem questionamentos. E, mesmo assim, aqui estava ela, tentando explicar, tentando convencer ao invés de ordenar.

Desde quando ela se importava tanto com esse homem?

"Você morreria por amor?" Kaden perguntou, voz baixa, incrédula.

"Por favor, Fraud," Aurora zombou sem humor, "dizer assim soa como algo novo. Pessoas morrem por amor todo dia."

"Não," ele balançou a cabeça lentamente, os olhos vermelhos se estreitando. "O que quero saber é… ele é digno do seu amor?"

Aurora ficou em silêncio, a língua travada, a mente de repente vazia.

"Ele é digno de você acabar sua vida por ele para que se torne Imperador?" Kaden pressionou, "O que exatamente você gosta no Príncipe?"

"Ele é arrogante, ambicioso por poder, e tenho certeza de que conhece o preço da sua habilidade. Ele sabe disso, e ainda assim, permite que você a use por causa dele."

Os dentes de Kaden rangiam tão forte que parecia que estavam rachando como pedra.

"Ele está usando você para se tornar Imperador, minha senhora!" ele rosnou, a voz carregada de fúria contida. "Não vê? Ou o amor te cega?"

Aurora sorriu fracamente com suas palavras, ainda mantendo-se na sua warmth, sentindo a raiva e preocupação escondidas ali, sem saber se devia rir ou ficar brava com seu cavaleiro por dar uma lição na sua vida amorosa.

No entanto, ela respondeu, porque, na verdade, precisava. Precisava para que seu coração continuasse a seguir o caminho que escolheu.

Ela precisava dizer… para que acreditasse ainda mais.

Disseram que as palavras têm poder de criar, não foi?

Por favor… que isso seja verdade.

"Meu príncipe me ama," ela disse, sorrindo de leve, o coração apertado pelas palavras. "Mas suas inúmeras obrigações o mantêm longe de mim."

"E por que eu o amo? Justamente por quem ele é."

"Ele é arrogante, ganancioso, manipulador e egoísta. E mesmo assim… foi gentil. Se importava. Costumava me dar barra de chocolate toda vez que eu chorava, depois de perder meus pais," ela sussurrou suavemente.

"Ele é humano, Fraud. É imperfeito, nos piores e melhores sentidos."

"Aquilo chocolate me manteve firme. Sua presença me sustentou. Sua lembrança me impulsionou. Então, prometi fazê-lo sorrir do mesmo jeito que ele fazia comigo."

Ela olhou fundo nos olhos vermelhos de Kaden.

"Prometi usar meu poder amaldiçoado… e torná-lo um imperador."

"E se eu morrer? Eu já teria morrido se não fosse por ele. Então, tudo bem, Fraud…"

Ela sorriu, mas o que Kaden viu não foi paz. Foi dor. Dor e solidão insuportável.

"Tudo bem, porque vou morrer por quem me deu propósito. Vou ser sua estrela-guia, Fraud."

Quanto mais ela pronunciava essas palavras, mais elas se aprofundavam na mente dela, até que acreditar nelas ficava mais fácil do que ouvir a própria dor gritar.

E naquele momento, olhando para Aurora, Kaden finalmente compreendeu o quão horrenda era sua missão, e seu coração ficou frio ao perceber.

Depois de tudo…

Como salvar alguém que não quer ser salvo?

—Fim do Capítulo 313—

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