
Capítulo 89
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
“…De fato. Uma herdeira digna,” disse Echidna com um sorriso pequeno e perturbador.
Um sorriso que fez Inara querer virar-se e correr daquele ser abominável.
Porque foi exatamente assim que ela se sentiu: essa mulher… era uma aberração. Algo anormal. Algo que não deveria existir.
Ela não sabia como ou por quê esses sentimentos surgiam com tanta força dentro de si, mas surgiam.
E, ainda assim, Inara os conteve.
No momento, não importava se essa mulher era uma anomalia, um perigo ou um erro na ordem natural.
Se Echidna pudesse lhe dar o poder que ela precisava, o poder para proteger, o poder para mudar seu destino, sem colocar a si mesma ou quem ela amava em risco…
Então, para ela, não fazia a menor diferença.
Mas, lá no fundo…
Ela sabia.
Nunca é tão simples assim.
Você não consegue o poder de comandar os monstros mais profanos existentes apenas sorrindo educadamente e pedindo com jeitinho.
E Echidna, como se lesse seus pensamentos, finalmente falou.
“Seus pensamentos estavam corretos, pequena,” ela começou, com uma voz suave, quase serena, mas que ecoava por todo o reino como o sussurro de uma mãe falando de dentro de um pesadelo.
“Eu preciso de você para algo. Algo que não posso fazer sozinha. Por isso procurei uma herdeira. Alguém para transmitir meus legados… uma outra eu.”
Ela fez uma pausa, depois sorriu novamente.
Um sorriso cheio de carinho.
Um sorriso maternal.
Mas ainda assim, totalmente errado.
“Outra eu, que possa controlar monstros e fazer toda a criação se ajoelhar… com apenas nossos filhos.”
Ela inclinou a cabeça.
“Consegue imaginar esse tipo de poder, pequena?”
Porém, não era uma pergunta de verdade. Nem realmente.
“Não… não consegue. Mas deixe-me te ensinar algo, criança ingênua…”
A voz de Echidna caiu enquanto seus olhos dourados se fixaram em Inara, que podia sentir seus nervos se desfazendo a cada palavra da monstro.
“Não há poder nesta vida amaldita que venha sem risco.”
“Não há poder que você possa obter sem se colocar em perigo.”
“Não há poder que você conquiste sem colocar todas as pessoas e tudo o que ama no altar do sacrifício.”
“Você me entende, pequena?”
“Esse… é o preço do poder.”
“Esse é o preço que todos nós pagamos.”
Então, Echidna ergueu levemente os braços, como se estivesse concedendo uma escolha.
“Existem dois caminhos diante de você,” ela disse suavemente, como uma canção de ninar do inferno.
“Quer ouvir ambos?”
Inara assentiu lentamente, nervosa. Ela tinha perdido o controle do momento.
O momentum não era mais dela, se alguma vez foi.
Pois, ali parada, sentindo-se encurralada e sobrecarregada, uma amarga compreensão escorregou para sua mente:
'Eu nunca tive vantagem desde o começo.'
Echidna havia permitido que ela falasse primeiro. Isso foi misericórdia e um teste. Nada mais.
Ela não conhecia toda a extensão do poder de Echidna, mas sabia que era muito além da sua compreensão.
E Inara conhecia seus limites.
E como não conheceria? Ela tinha enfrentado tudo isso a vida toda, todos os malditos dias desde que despertou sua origem fraca.
Ela respirou fundo.
Era isso.
Um momento que definiria seu futuro para sempre.
“Sim,” ela disse claramente. “Quero ouvir.”
Echidna não a manteve esperando.
“A primeira opção,” ela falou, com voz calma e firme, “é aceitar o poder que vou te dar… e, com ele, aceitar sua responsabilidade.”
“Você herdará meus inimigos. Você herdará tudo de mim.”
“E, sem dúvida, criará seus próprios inimigos.”
“E esses inimigos… não afetarão apenas você.”
“Podem, e vão, alcançar as pessoas que você ama.”
“Esse é o primeiro caminho.”
Ela fez uma pausa.
Depois veio o segundo.
“A segunda opção,” disse Echidna, sorrindo tão amplamente que os dentes começaram a aparecer.
E foi aí que Inara os viu.
Olhos.
Vinte, cem olhos, olhando para ela de dentro de Echidna. Olhos que não olhavam com curiosidade, mas com fome.
A visão fez Inara recuar, seu corpo tremendo descontroladamente.
Era… horror.
Horror cru, inconcebível.
Mesmo ao lembrar daquele vislumbre, o cabelo de seu corpo eriçava de puro terror.
Então Echidna falou novamente, mas desta vez, não era mais sua voz.
Era muitas vozes. Uma sinfonia de dissonância. Um som que rasgava a própria realidade. Um som tão vil, tão errado, que fez os ouvidos de Inara sangrarem enquanto ela caía de joelhos.
E somente então, as palavras finalmente foram compreendidas.
“Então, você se tornará uma de mim, pequena. Você será minha filha.”
Inara imediatamente cuspiu sangue preto. Seu corpo convulsionou de horror.
Seu espírito tremeu. Seus instintos gritaram.
Não era apenas medo. Não era pânico.
Era um pavor existencial.
Era a compreensão de que você é nada diante de algo que poderia apagar sua alma com um simples sopro.
Ela se sentiu pequena.
Se sentiu impotente.
Se sentiu inútil.
Sentiu—
‘PRONTO, QUE PORRA!’ interiormente, gritou Inara, sua voz reverberando dentro de sua alma.
Raiva inflamou.
Não por Echidna. Não pelo destino. Nem mesmo pelo teste.
Mas por si mesma.
‘Por que… por que fui tão idiota de pedir um poder que vem sem preço?’
Potência não vem de graça.
Nem neste mundo.
Nem em qualquer mundo.
E Inara, mais do que ninguém, sabia disso.
Para conquistar o poder, é preciso sacrificar.
Às vezes, até os maiores sacrifícios não são suficientes.
Às vezes… você precisa se tornar algo totalmente diferente.
Portanto, se ela tivesse chance, por mais assustadora que fosse, por mais alto que fosse o custo, se houvesse uma maneira de obter o poder de controlar monstros, de se tornar algo mais…
Ela suportaria.
Ela carregaria o peso.
Ela não fugiria.
Ela não se esconderia.
Ela não falharia com sua mãe.
Ela não falharia o homem que salvou sua vida inútil.
Ela não… ela não poderia.
Seu caminho agora estava claro.
Sem hesitação. Sem medo.
Apenas uma determinação fria e ardente.
“Eu aceito,” sussurrou Inara, cuspindo sangue, com a voz crescendo a cada palavra. “Aceito os fardos do seu legado.”
“Carregarei todos eles. Então me conceda seu poder.”
“Dê-me força… a capacidade de controlar monstros.”
Consuma minha fraqueza, minha nulidade, e me deixe renascer como…
“…como um monstro.”
Seus olhos verdes, quase fechados, brilhavam com um fluxo inquietante, obsesso e intenso.
E Echidna sorriu.
Porque era exatamente isso que ela aguardava.
Ela não buscava apenas potencial.
Ela desejava obsessão.
E Inara tinha isso.
Echidna levantou-se, e assim que deu um passo à frente, o espaço ao seu redor distorceu-se e se desfez, colapsando a realidade enquanto ela se materializava diante de Inara num instante.
Inara vacilou.
Mas não quebrou.
Ficou ali, tremendo, mas ainda encarando ela nos olhos.
Echidna, sorrindo ainda mais amplamente, levantou lentamente um dedo esguio… e pressionou contra a testa de Inara.
Depois, suavemente,
“Eu aceito você como minha herdeira, Inara Serpentina.”
“A partir de agora, você não é mais quem era.”
“Você não é mais fraca.”
“Você é…”
“A Herdeira de Echidna, a Monstra das Monstros.”
Ela sorriu uma última vez, de forma inquietante e maternal ao mesmo tempo.
“Então, viva à altura desse título… minha herdeira.”
Inara retribuiu o sorriso.
O mesmo sorriso estranho.
O mesmo sorriso aterrorizante e bonito ao mesmo tempo.
Então—
“Vou sim.”
Instantaneamente, o sangue, ossos e cadáveres apodrecidos do reino ganharam vida, rodopiando e levantando-se ao redor dela.
Este… foi a transformação final.
O rito supremo.
A última evolução.
O momento em que Inara Serpenteia se tornou aquilo que sempre esteve destinada a ser.
E naquele instante,
Ela ascendeu.
Ela evoluiu.
Ela mudou.
Aquele dia…
Inara… não era mais fraca.