
Capítulo 258
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Sou filha do Ferio Voreoti.”
Leonia lembrou claramente do seu começo.
O jardim coberto de neve, ela mesma chamando Ferio de “Papai” pela primeira vez.
Ferio, que havia segurado aquela ‘filha’ em um abraço apertado e esperado pacientemente até que suas lágrimas parassem.
Juntos, deixaram pegadas naquele jardim branco, caminhando de mãos dadas, seguindo o ritmo um do outro.
Aquele foi o momento em que Leonia deu seu primeiro passo para o mundo.
“Papai me reconheceu, e por isso, pude viver sendo quem eu sou.”
“Você não sente nada de ruim?”
“Eu sempre sinto.”
Como ela poderia não sentir?
Leonia sorriu tristemente.
Quanto mais crescia sua confiança e amor por Ferio, mais crescia também sua culpa.
“Ele passou por tanta dificuldade para criar alguém como eu.”
“Então você estava ciente disso......”
“Sei que tenho uma personalidade afiada e gostos exóticos.”
Isso já era verdade mesmo quando ela vivia em outro mundo. Ela até ganhou um apelido monstruoso por desenhar ilustrações grotescas na época.
Mas Leonia não tinha vontade de esconder ou fingir quem ela era.
“Somos família.”
Por serem família, ela queria mostrar seu eu mais verdadeiro ainda mais. Ela esperava que ele a entendesse, e Ferio realmente prezava e amava sua filha.
“Quero ser uma filha que meu pai possa se orgulhar.”
Essa foi a maior razão pela qual Leonia quis se tornar duquesa de Voreoti.
“Graças ao Papai, comecei a amar o Norte, e precisava de força para proteger as pessoas que amo. Por isso, quis ser duquesa.”
“E se Ferio decidir não passar o título para você?”
O deus perguntou, testando-a.
“E se o bebê nesta embarcação nascer e Ferio nomear aquela criança herdeira dele ao invés de mim?”
“Então, eu desisti.”
Leonia respondeu sem hesitar.
“Se essa for a decisão do Papai.”
“Então, se Ferio dissesse que você deveria morrer, você aceitaria?”
“Não, eu não iria tão longe assim.”
Mas ela disse que poderia desaparecer para algum lugar fora de vista.
“Papai nunca mudaria o herdeiro sem uma razão.”
“Então, você acha que haveria uma razão de fato?”
“Ele é a pessoa mais inteligente e sábia que conheço.”
Assim, ela entenderia totalmente e aceitaria — Leonia declarou sua confiança sem limites em Ferio, com segurança.
“Mesmo que eu não me torne herdeira, vou viver como uma vagabunda rica.”
Ela tinha bastante riqueza guardada do negócio de relógios, e seu primeiro sonho sempre foi ser uma gastadora rica, então era uma grande oportunidade — ela sorriu amplamente.
“Claro, eu amo a mamãe também!”
“Você não guarda rancor dela porque ela está grávida do seu irmãozinho?”
“Sou demais para isso.”
Leonia falou com arrogância.
O pequeno bicho não tinha intenção de abrir mão facilmente de seu lugar como herdeira.
“Então, você, cuspir o Remus pra longe e sumir.”
“Mas na questão da dor, o Portão é o melhor, né......”
O deus fez cara feia, reclamando como uma criança birrenta.
“Vocês nunca conseguem reproduzir aquela dor.”
“Que preocupação inútil.”
Leonia descartou como besteira.
“Se você não consegue reproduzir a dor, então trabalhe duro até conseguir.”
Além disso, ela não podia permitir que só Remus sofresse.
Leonia pretendia usar Remus para fazer sofrer a antiga Viscondessa Olor com a dor mais horrenda que pudesse imaginar.
“Uau......”
O deus a olhou com horror genuíno.
“Então.”
Leonia sussurrou no ouvido do deus.
“Sumir.”
Cada sílaba foi cuspida, e nos olhos negros do pequeno bicho, toda a raiva acumulada virou uma tempestade.
“Nunca mais mostre sua cara para nossa família. Se ousar fazer alguma gracinha como essa de novo, vou dilacerar você, custe o que custar.”
O deus fitou Leonia sem entender e ficou em branco.
“Você é meio...... assustadora?”
Parece que ele realmente quis dizer isso. Ele recuou silenciosamente.
“A próxima Voreoti pode ser alguém que nem mesmo os deuses aguentariam.”
“Tão arrogante e sem-vergonha.”
“Bem, é porque sou filha dos meus pais.”
Leonia se gabou.
“......Tudo bem.”
Por fim, o deus ergueu as mãos em sinal de rendição.
“Vou te dar os Cisnes Vermelhos.”
“Não me dêem mortos! Quero eles vivos e pulando!”
“Que chatice.”
O deus concordou em devolvê-los assim que o efeito colateral da ‘dissonância existencial’ causado pelo Portão passasse.
“Talvez meu maior erro foi te transformar numa Voreoti.”
“Ora, quem foi que mandou você mexer com os Voreotis?”
“Por que meus pais até me designaram pra essa tarefa......”
Falando consigo mesmo, o deus acabou sorrindo de lado e acenou com a mão. Ele iria embora.
Leonia ergueu os dois dedos do meio para mandá-lo embora.
“Quando eu desaparecer, cuide bem do corpo da sua mãe. Vou dormir agora.”
“Você é sem-vergonha até o final.”
“Bem, até a próxima when morrer.”
“Se nos encontrarmos na morte, é melhor você torcer pra eu não te matar.”
Apesar de não querer mais ver os deuses, a pequena besta bondosa ainda deixou espaço para uma próxima vez.
“E cuide do seu relacionamento com o Papai.”
Com essas palavras de despedida, o deus fechou os olhos.
“Ah, céus, ah, céus.”
Depois que o deus saiu, Varia desabou no chão onde estava.
Leonia, que a segurou com segurança, deixou escapar um suspiro profundo de alívio e calmamente colocou Varia na cama.
‘Ela está dormindo.’
Leonia alisou os cabelos de Varia.
‘A mamãe passou por tanta coisa.’
Pensar que ela foi usada pelo deus três vezes só por estar destinada a ser parceira do Voreoti—uma vida assim era longe de ser uma prova de protagonista, era demasiado triste e injusta.
‘Você aguentou bem.’
Com admiração, Leonia ajustou cuidadosamente a roupa de cama de Varia.
“A mamãe é mesmo uma pessoa incrível.”
Ela beijou suavemente a testa de Varia, onde ela dormia.
Nem fez barulho—esse beijo silencioso estava cheio de respeito sincero de uma criança por sua mãe.
“Nosso irmãozinho também.”
Leonia olhando para a barriga ainda lisa de Varia, falou.
“Cresça saudável e forte.”
O olhar dela estava cheio de calor ao olhar para a barriguinha que logo começaria a ficar inchada.
Leonia tinha certeza de que poderia oferecer ao seu irmãozinho uma afeição genuína.
“Que tal chamar de ‘Músculo’ enquanto estiver no ventre?”
Ela sussurrou o apelido que havia escolhido secretamente.
“Quando você nascer, vou te ensinar várias coisas divertidas. Existem muitas coisas no mundo que você precisa aproveitar em segredo, e precisa aprendê-las com seus maiores.”
Como músculo, ou união entre pessoas do mesmo sexo.
“Vou falar com você todos os dias daqui pra frente.”
Ela beijou a mão, soprou suavemente, e saiu cuidadosamente do quarto. Claro, não esqueceu de apagar a luz.
“Mmmrrrgh...!”
Esticando-se ao máximo, Leonia foi direto para seu próprio quarto ao lado.
‘Primeiro, preciso falar com o papai sobre o Remus...’
O deus provavelmente ia mandar o Remus pelo Portão do Norte, no palácio imperial. Mas havia chance de usar o Portão do Norte na região deles.
‘Seria melhor se ele jogasse ele pra cá.’
Assim, ela poderia atormentá-lo um pouco no caminho para o Norte.
Leonia já tinha na cabeça uma montanha de métodos de tortura, tão alta quanto as Montanhas do Norte.
Ela pensava alegremente onde começar, quando—
“Papai!”
Ferio aguardava na porta dela. Ele a chamou lentamente, fazendo um gesto para ela se aproximar.
“Seu papo com a Sua Majestade foi bem?”
Leonia correu até ele, sorrindo e pulando de empolgação.
“Você deixou tudo na lista de ordens do conselho, né? Nada complicado sobrando, né? Achava que sim—sou a melhor, né?”
“......Se eu te elogiar agora, vai fazer birra pedindo um título, né?”
Ferio olhou silenciosamente para a filha tagarelista.
Depois, levantou a mão e carinhosamente abanou sua cabeça. Leonia encheu o peito de orgulho, encantada com o elogio.
Ferio não pôde evitar soltar uma risadinha suave diante da cena.
“Mas, papai...”
Leonia olhou para ele com um olhar curioso.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Por quê?”
“Você parece... um pouco diferente do que o de costume.”
“Tô sim.”
Ferio respondeu que hoje tinha sido cheio de calamidades que uma pessoa normal nem experimentaria uma vez na vida.
“Pois é, tô meio cansada também.”
Aliás, ela tinha acabado de aprender algo esmagador com um deus—não é de se espantar que estivesse exausta.
Leonia entrou no quarto, e Ferio a seguiu.
O quarto de hóspedes que a imperatriz preparou era exatamente igual ao de Varia, onde ela dormia. Só que a decoração era um pouco mais elegante.
“Você não vai ver a mamãe?”
Leonia se sentou em um sofá perto da janela. Foi até um pouco estranho ela não estar correndo para ver Varia, já que era uma boba tão dedicada.
“Ela acabou de adormecer. Não quero acordar.”
Ferio sentou-se do outro lado. Sabendo que alguém mais cansado do que qualquer um tinha acabado de dormir, ele não tinha intenção de perturbá-la nem mesmo de leve.
“Verdade. Ela estava em sono profundo.”
“Você ajeitou bem o cobertor?”
“Claro! Ah, e também cumprimentei o bebê!”
“E como era mesmo o nome?”
“Hã? Que nome?”
Ferio recostou-se no sofá. Seus olhos escuros piscaram lentamente enquanto olhava para a garota à sua frente.
“Qual é o nome pré-natal do seu irmãozinho?”
“Tem um som forte e resistente, não é bom?”
Leonia coçou a orelha com o mindinho, como quem diz “Não queira me encher o saco”.
“Nomes pré-natais costumam ser um pouco estranhos...”
Ela ia explicar orgulhosamente o significado do nome, mas sua voz morreu na garganta.
Ao mesmo tempo, ela deu um solavanco e congelou. Seus olhos se arregalaram de pânico—e lá estava, Ferio, olhando para ela do jeito de sempre.
“......Hã?”
A mão dela, que repousava na mesa, caiu frouxamente ao lado.
“H-Como você......!”
Um frio de terror percorreu seu corpo, como se o coração tivesse caído direto pelo peito.
Ninguém sabia que ela tinha chamado o bebê de “Músculo”. Esse era um segredo que Leonia guardou só para si.
Desde que soube da gravidez de Varia, ela gostava de pensar nesse nome todas as noites antes de dormir, junto com todos os jogos que fariam.
Então, se Ferio soubesse...
Significava que ele tinha ouvido a conversa que ela acabou de ter com o deus através de Varia.
“......”
Leonia sentiu como se o chão abaixo dela tivesse se desfeito. O mundo sólido que ela tinha construído ruiu e se lançou contra a pequena fera.
‘Ele ouviu.’
Ela descobriu que ele havia ouvido. Que ele sabia do seu segredo......!
No momento em que percebeu isso, Leonia não conseguiu nem olhar para Ferio novamente.
Sua face ficou pálida, enquanto o desespero e o medo sombreavam seus olhos.
“......Exatamente como você imaginou.”
Ferio finally spoke, observando-a.
Leonia, incapaz de encontrar coragem para encará-lo, não tinha ideia do olhar que ele estava lhe dirigindo.
“Eu ouvi.”
Ah... Leonia fechou os olhos com força, seu rosto marcado pela desesperança.
Suas mãos, agora apoiadas no colo, começaram a tremer.
“Eu não tinha intenção de *escutar de supetão*.”
A voz de Ferio foi mais cuidadosa e suave do que nunca. Mas, confusa como ela estava, Leonia não percebeu a mudança.
“Achava que você e Varia estavam brigando.”
“......”
“Então, lembrei que—você nunca faria isso com ela.”
“Porque o deus......”
“Eu sei.”
Pelo fato de ter ouvido tudo.
Ferio confirmou o que tinha descoberto.
“Não admira que algo estivesse estranho.”
Toque, toque.
Os dedos de Ferio batiam lentamente na mesa. O som cortou o silêncio pesado, sufocante, e ecoou forte nos ouvidos de Leonia.
“Então, é por isso que minha filha é mais especial e extraordinária do que qualquer outra.”
“......O quê?”
Leonia levantou a cabeça reflexivamente ao ouvir suas palavras inesperadas.
E lá estava—Ferio, olhando para ela com os mesmos olhos de sempre.
Gentil. Bondoso.
Olhos que diziam que ele confiava nela mais do que qualquer outra pessoa.
Os olhos do “Papai” que sempre esteve vigilante por ela.