Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 259

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


‘Ele me chamou... de filha dele.’


Leonia só percebeu tardiamente—Ferio havia se referido a ela como minha filha. A terra que ◈ Nоvеlіgһт ◈ (Continue lendo) vinha desmoronando sob seus pés de repente se firmou novamente.


“Se eu dissesse que não fiquei surpresa, estaria mentindo.”


Ferio falou de forma franca. Mesmo para ele, o que tinha ouvido pela porta—a conversa de Leonia com o deus—foi um choque enorme.


Para ser sincero, foi mais forte que a luta contra Remus.


Um mundo completamente diferente deste.


Uma filha que na verdade não tinha sete anos.


Uma esposa que tinha morrido injustamente e vivia num ciclo de vidas repetidas.


Até mesmo Ferio Voreoti, temido por todo o Império, achou difícil aceitar um segredo assim.


Suas pontas dos dedos ficaram frias, e pela primeira vez, ele quis fugir dali. Sua visão turvou.


“Mas você sabe...”


Ferio torceu os lábios, como se ainda achasse tudo isso absurdo. Só de pensar, uma risada escapou involuntariamente.


“É impressionante o quanto você mudou pouco.”


“Q-que quer dizer...?”


“Lá atrás ou aqui, você ainda é a mesma, Leo...”


Ferio deu uma risada genuína, cobrindo o rosto com uma mão enquanto suas costas davam pequenos arrepios.


O rosto de Leonia ficou vermelho—notAm vergonha, mas porque ele ainda a chamava de “Leo”.


“Você é uma pervertida de primeira.”

Podia parecer uma piada, mas o tom de Ferio era incomum de sério.


“Seu gosto infalível é, na verdade, admirável.”


Leonia fechou um olho. Quanto mais ela ouvia, mais parecia que ele estava debochando dela.


“Não é à toa que nenhum dos meus esforços deu certo.”


Ferio alegou que tinha lido todos os livros de parentalidade do Império.


Porém, nenhum conhecimento sobre criar filhos—seja antigo ou atual—podia curar as tendências “pervertidas” de Leonia.


Ele tinha ruminado bastante para nutrir a inocência de uma criança, mas tudo deu errado. Mais de uma vez, acabou na defensiva, sofrendo as contra-ataques dela.


Houve muitos dias em que questionou se lhe faltava o preparo mental para ser pai.


Mas agora, finalmente, tinha confirmado—ele não tinha errado afinal.


“...Eh...”


Leonia, que tinha escutado toda a conversa num torpor, falou com cautela.


“Esquece criar filhos—seu desenho é catastrófico.”


Ela ainda lembrava quando ele disse que iria desenhar as Presas da Fera pra ela, e acabou fazendo algo que parecia um creme de confeiteiro esmagado e fofo.


A habilidade artística dele—ou a falta dela—era a única área onde o Ferio, normalmente competente, sumia completamente.


“Seu desenho fica entre desastre e apocalipse.”

“Isso se chama estilo primitivo, tridimensional,” Ferio respondeu, sem nem mexer as feições.


Leonia achou que aquilo era uma desculpa brilhante—sem dúvida forjada por incontáveis horas de conflitos internos.


“E ser perfeito demais é enjoativo.”


Para alguém tão impressionante quanto ela, era importante ter pelo menos uma falha, para não deixar os outros desconfortáveis—ela disse com uma confiança absurda.


Leonia ficou pasma... e um pouquinho feliz.


Ele não mudou.


O jeito como eles brincavam, o tom das palavras.


Atitude de Ferio era exatamente como sempre foi, e isso deu a Leonia a coragem que ela precisava.


“Você... não está zangado?”


“Tem alguma razão para eu estar?”


“Porque eu menti...”


“Não foi mentira. Você simplesmente não conseguiu dizer.”


Ferio corrigiu suavemente a própria frase.


“Você e Varia estavam carregando um segredo que facilmente faria qualquer um te achar louca.”


“Mas eu...”

“E Leo, não é como se você tivesse realmente tentado esconder seu segredo.”


Uma menina comum de sete anos não olha para músculos ou ri maliciosamente ao pensar em dois homens juntos.


Além disso, Leonia já tinha mencionado sua idade real uma vez.


“Eu?”

Leonia ficou chocada. Ela não lembrava nada disso—mas Ferio recordava com clareza.


“Na festa do chá das crianças.”

Ferio tinha a levado a uma festa de chá organizada pelo casal Kerata, para ela socializar com crianças da sua idade e cultivar alguma inocência infantil.


Porém, Leonia não tinha ficado empolgada. Em certo momento, olhou para Ferio e perguntou:


‘Você sabe quantos anos eu tenho?’


‘Você parece uma menina de cinco anos, na verdade sete.’


‘Na verdade... tenho mais de vinte. Vou fazer—’

Ela tinha revelado sua idade real naquele instante, para Ferio.


“Você sempre me mostrou a verdade.”


Embora tivesse se transformado em criança, ela nunca se comportou como uma. Leonia sempre foi honesta. Nunca mentiu—jamais.


“Deve ter sido difícil.”

Uma criança carregando um segredo tão pesado sozinha... Ferio só pôde sentir pena e dor no coração.


Ele se levantou e sentou ao lado dela. Leonia, agora chorando, olhou para ele com olhos trêmulos.


“Já te repreendi por gostar de músculos?”


“N-ntanto... nunca...”


“Já te chamei de velhinha assustadora?”

Nunca...”


“Já me arrependi de ter te trazido pra casa?”

Jamais...!”


Finalmente, lágrimas brotaram dos olhos dela, escorrendo quente por suas pestanas.


Leonia abaixou a cabeça, tentando conter a avalanche emocional, mas Ferio gentilmente levantou seu rosto com as mãos.


“Nada mudou.”


Ferio sorriu, de forma deslumbrante.


“Pessoas especiais estão sempre carregando um ou dois segredos surpreendentes.”


E seu sussurro—que o seu segredo é justamente um desses—transbordava de carinho, fazendo-a chorar ainda mais forte.


As mãos de Ferio, segurando seu rosto, estavam molhadas de suas lágrimas.


Porém, ao invés de se afastar, ele cuidadosamente enxugou suas bochechas.


“Não precisa chorar.”


Ele a repreendeu com suavidade, com uma voz um pouco firme.


“Somos família.”


Desde o momento em que caminharam de mãos dadas pela neve, eles se tornaram algo especial um para o outro.


Mesmo se brigassem, sempre poderiam se reconciliar.


Quando algo delicioso surgisse, seriam as primeiras pessoas que veriam na cabeça.


Quando a felicidade chegasse, eram as primeiras que queriam contar.


E quando a tristeza fosse aparecer, desejavam o consolo um do outro.


“... Waaaah!”


O queixo de Leonia tremia—e então ela desabou em soluços.


Lágrimas grandes, cristalinas, escorreram por suas bochechas, formando poças sob seu queixo e caindo pesadamente.


“Você é mesmo uma chorona.”

A voz de Ferio era brincalhona, mas extremamente suave.


“Papai...”

Leonia fungou e chamou.


“Obrigada, obrigada...!”

“Você me agradecendo por isso?”


Ferio sorriu suavemente, com uma expressão tranquila.


“É assim que uma família faz.”


***


Ferio saiu do quarto de Leonia exatamente uma hora depois.


Ele tinha limpado as lágrimas de seus olhos com uma toalha úmida, a colocado na cama e ficou ao lado até ela adormecer.


Porém, Leonia tinha dificuldade para dormir.

‘...Você não tem nenhuma dúvida?’

Ela hesitou e ofereceu responder a qualquer coisa que ele quisesse saber.


Ferio não a forçou a dormir. Em vez disso, fez várias perguntas.

Principalmente sobre a família que ela tinha no outro mundo.

O fato de Leonia ter morrido jovem naquela vida pesava sobre ele, e ele se preocupava com a família que ela deixou para trás.

Ele compreendia aquela tristeza agora—ele também era pai.

‘Como eram seus pais?’

‘Meio normais. Um pouco antiquados.’

‘Algum irmão ou irmã?’

‘Um irmão mais novo.’

‘Algum sonho ou objetivo?’

‘Na verdade, queria ser artista.’

Leonia tinha um brilho especial nos olhos ao falar do seu sonho.

‘Gostava de desenhar desde pequena. Mas minha família era contra, então consegui um emprego comum.’

‘Mesmo assim, sua filha queria fazer isso?’

‘Eles tinham boas intenções. Por aqui, é difícil sobreviver de arte.’

Porém, ela não conseguiu desistir e continuava desenhando nas horas vagas, após o trabalho ou nos dias de folga.

Eventualmente, ganhou uma reputação peculiar—“Deusa dos Campos de Rosas”, “Sacerdotisa do Musculoso.”


‘Esses nomes são meio escandalosos.’


‘São títulos sagrados!’

‘Leo, como foi que você acabou com esses gostos?’

Liking músculos não era o problema—era a extremidade.

‘Bem...’

E então ela revelou algo verdadeiramente chocante.

‘Meu primeiro amor...’

Ferio fez uma careta, como se tivesse ouvido uma palavra amaldiçoada.

Ao que parece, seu primeiro amor tinha sido um fanático por músculos. Só de conversar com ele, ela aprendeu tudo sobre treinos e grupos musculares—até chegar ao dia em que cruzou uma linha sem volta.

Eles ficaram apenas trocando conversas bobas por um curto período, até que Leonia adormeceu.

Ferio beijou sua testa, fechou a coberta mais uma vez ao redor dela e, por fim, saiu para o quarto onde Varia estava.

Ele bateu suavemente, anunciou sua presença e logo a voz de Varia respondeu:

“Ainda acordada, né?”

“Você também.”

Elas se olharam e sorriram, um pouco amargamente.

“...Você ouviu tudo, né?”

Ferio perguntou enquanto puxava uma cadeira ao lado da cama.

A fadiga no rosto de Varia não era só pelo que acontecera nas Montanhas do Norte.

“Nunca soube de nada...”

Sempre que a interferência divina a fazia perder a consciência, ela nunca tinha ideia do que se passara durante esse tempo.

“Mas desta vez... Ouvi tudo.”

“Quem sabe o deus quis que você ouvisse de propósito.”

“Acho que sim.”

Varia mexeu na ponta do cobertor com os dedos.

“...A Leonia está bem?”

A primeira preocupação de Varia era a criança. Ferio respondeu que tinha acabado de vê-la adormecida.

“Parecia um pouco abalada.”

“Ela não pareceu—ela certamente ficou chocada.”

“Mas isso não muda o fato de que ela é nossa filha.”

Ferio sabia que nenhum segredo poderia criar uma barreira entre ele e Leonia.

Se fosse por ele, sentiria até um orgulho infantil de que a filha deles fosse mais especial que as demais.

E o mesmo valia para Varia—querendo dizer que sua esposa também era extraordinária.

Porém, Varia sentia vergonha. Seu segredo, agora revelado aos outros, a fazia se sentir exposta e humilhada.

Sua primeira vida tinha terminado em completa desgraça.

“Varia.”

Ferio acariciou suavemente sua face com as costas da mão.

“A culpa sempre é do que faz mal.”

Ela não devia se culpar por ter sido tola, disse ele.

“Já derrubaste o Remus Olor duas vezes. Já não é suficiente?”

Brincou que ela só ficaria satisfeita se liderasse uma revolta na próxima.

Finalmente, um sorriso fraco escapou dos lábios de Varia.

“Já está bom.”

Ela balançou suavemente a cabeça.

“Com você e a Leo...”

Com sua nova família.

“Quero apenas viver feliz daqui pra frente—por tudo o que passamos.”

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