
Capítulo 260
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Próximo amanhecer.
“Encontramos Remus Olor.”
A Imperatriz Tigria, que havia convocado urgentemente Ferio, transmitiu o relatório que acabara de chegar.
Apesar da convocação matinal, Ferio apareceu impecavelmente vestido, sem qualquer sinal de nervosismo.
Ao contrário, parecia que já esperava ser chamado e estava preparado com antecedência.
“Você sabia que isso aconteceria?”
A Imperatriz o olhou com desconfiança.
“Não sou um deus. Como poderia saber de algo assim?”
“Aquele Deus maldito.”
Com uma expressão de nojo, a Imperatriz acenou com uma mão, numa espécie de gesto que indicava que ela nem queria ouvir a palavra.
“Não quero falar sobre isso.”
Ela já tinha sofrido o suficiente, graças a algum mito inventado pelos velhos contadores de histórias. Por ora, queria evitar o assunto a todo custo.
Ferio compreendeu completamente. Sentia o mesmo.
“Vamos apenas chamar de acidente no Portal.”
“Era exatamente o que eu planejava também.”
“Oficialmente, já consta que Remus Olor morreu nas Montanhas do Norte...”
“Ninguém quer ele.”
A Imperatriz afirmou que ele poderia ser descartado em qualquer lugar — ela não tinha intenção de gastar energia brigando com a Casa Voreoti por aquele pedaço de lixo. Ela já tinha problemas suficientes.
“E a Princesa?”
Ferio perguntou sobre o incidente no Portal ontem. Por causa da boca de Leonia, os aventureiros presentes descobriram a verdadeira identidade da Princesa Scandia.
“Devemos considerar uma sorte?”
A Imperatriz soltou uma risada fraca.
“Graças a Deus, só estavam lá os Cavaleiros Gladiago e Revoo.”
“Ainda assim, os boatos correm rápido.”
“Oh, minha, está dizendo que os Cavaleiros Gladiago gostam de fofocar?”
“Você pronunciou errado Revoo.”
“Ah, certo. Mais precisamente, é a filha do duque, não é?”
“Por que citar minha filha?”
Ao mencionar Leonia, o rosto de Ferio se contorceu de forma sombria.
“Não é graças à sua filha que o segredo veio à tona?”
“Não existe segredo perfeito.”
Ferio afirmou que era melhor que um segredo fosse revelado o quanto antes, se inevitavelmente fosse sair do armário de qualquer jeito.
“Veja o Olor.”
“Isso não é nada comparado.”
A Imperatriz claramente não gostava da comparação entre isso e o segredo de seu filho.
“Não sabia que você podia mudar de opinião tão rápido, Marquês.”
“Sinto-me honrado pelo elogio generoso de Sua Majestade.”
Ferio recostou na cadeira, fingindo gratidão com uma expressão completamente entediada.
“Bom... se você diz assim.”
Se ele achava aquilo um elogio, ela deixaria que acreditasse nisso.
Com esse não-quite-um-elogio, a conversa sobre Remus terminou ali.
A Imperatriz então passou para o segundo assunto.
“Aust chegou ao amanhecer.”
“Que visita nobre.”
Ferio deu uma risada desdenhosa.
“Ele quer te encontrar. O que acha?”
A Imperatriz disse que providenciaria a reunião imediatamente, se Ferio concordasse.
Mas, sem hesitar, Ferio recusou.
A Imperatriz já esperava essa resposta — foi por isso que não convidou Aust ao palácio.
“Então, devo cuidar dele?”
“Agradeceria a gentileza de Sua Majestade.”
“Seria de grande ajuda para mim também.”
Com isso, a família imperial poderia exercer maior influência sobre o Sul. Tigria desejava proporcionar ao Príncipe Chrisetos um cenário político mais estável.
“... Seu Alteza o Príncipe se sairá bem, mesmo sem os esforços de Sua Majestade.”
Ferio tinha uma alta opinião do Príncipe Chrisetos.
Ele não tinha características especialmente notáveis, mas compreendia suas limitações e tinha capacidade de ouvir os outros.
Seu comportamento calmo, porém firme, na última assembleia dos nobres, ao destruir o antigo Visconde Olor, tinha provado sua habilidade de liderar uma nação.
Ser gentil, mas ao mesmo tempo temeroso quando necessário — esse equilíbrio era fundamental.
“Fico feliz que veja assim.”
A Imperatriz sorriu orgulhosa.
“E quanto à nossa querida Skan?”
“Sua Alteza a Princesa...”
Ferio de repente fez uma expressão de dor ao lembrar a cavaleira de cabelos prateados.
“...Ela cresceu bem.”
Respondeu de forma monótona. Hoje, a Princesa Scandia era uma ameaça crescente à sua saúde mental.
De certos aspectos, pior que Olor.
“Você é tipo um padrinho da Skan, não é?”
“Isso é um exagero...”
“Oh, minha, estou sendo presunçoso?”
“De jeito nenhum.”
Ferio sentia apenas arrependimento.
Se pudesse voltar no tempo, como Varia, não teria contado à Imperatriz ou ao Lorde Ibecks sobre aquela área escondida no hall de exposições.
Que dor de cabeça.
Ele queria fazer o Imperador Subiteo sofrer — e agora era quem tinha encrenca na mão.
“Quando voltará ao Norte?”
A Imperatriz perguntou, sem perceber o turbilhão interior de Ferio.
“Pretendo retornar à fazenda real ainda hoje de manhã e decidir a partir de lá, mas retornarei o mais rápido possível.”
“Seria melhor se apressar, pelo bem da sua esposa.”
“Obrigado pela preocupação.”
“O que acha de usar o Portal Imperial?”
Ao sugestão da Imperatriz, as pálpebras de Ferio moveram-se lentamente. Seus olhos negros, calmos e sem emoção, fixaram-se na Imperatriz.
“Quer dizer que Sua Majestade pretende reabrir o Portal do Norte?”
“Não imediatamente.”
Ela acrescentou que essa era sua intenção.
“Cidadãos inocentes e bondosos do Norte já sofreram tempo demais. Eles merecem um caminho seguro e confortável.”
“Ou seja, a região oeste reluta em gastar dinheiro e esforço para eliminar os bandidos?”
“Você está questionando minha sinceridade.”
A Imperatriz fingiu decepção, sem um pingo de arrependimento genuíno no rosto.
“Felizmente, o Portal do Norte é o mais remoto do palácio. Vai levar tempo, mas não é impossível.”
Com as mãos apoiadas na queixo, a Imperatriz sorriu. Acrescentou que seria bom encontrar uma solução que beneficiaria ambos os lados.
“E o Oeste, ganhará algo com isso?”
Se o Portal do Norte fosse reaberto, as terras do Oeste sofreriam perdas econômicas.
Poucos nortistas passariam pelo Oeste na direção da capital, reduzindo o rendimento do tráfego e do comércio.
“Você acha que não considerei isso?”
A Imperatriz Tigria sorriu novamente.
“A compensação das famílias nobres que estamos prestes a confiscar será destinada ao Oeste.”
“E você pretende usar esse dinheiro para algo?”
“Por exemplo, transformar a rota por onde os nortistas costumavam passar em uma zona turística.”
“Isso é possível?”
“Se não, o Portal do Norte não se abrirá.”
A Imperatriz nunca disse que abriria o Portal—apenas que estava disposta a reabri-lo, se fosse o caso.
Ferio se pegou desejando momentaneamente que essa mulher tivesse sido imperatriz.
Pelo menos assim, valeria a pena lutar.
Depois de encerrar sua conversa com a Imperatriz, Ferio voltou ao local onde sua família aguardava.
Do corredor, já podia ouvir risadas alegres. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios, e seus passos aceleraram perceptivelmente.
As criadas do tribunal, ao verem, ficaram congeladas, com as faces corando de vergonha.
Do lado de fora da porta, ouvia-se a voz empolgada de sua filha e de sua esposa.
Leonia e Varia estavam sentadas frente a frente numa mesa coberta de papéis, conversando alegremente.
“...Quando a enjoo fica muito forte, olha só isso.”
“Oh, meu Deus...!”
Leonia passou uma ilustração como quem tenta esconder o que estava levando. Varia pegou, com o rosto corado, e soltou um grito de alegria.
“A vida no orfanato era difícil principalmente porque eu não tinha nada bonito pra olhar.”
Depois, com orgulho de sua própria evolução, Leonia apontou para seu corpo alto e musculoso — muito além dos seus colegas.
“Um corpo bonito alimenta a alma.”
“Exatamente, mãe!”
Leonia fez um punho no ar.
“Bunda é pura beleza!”
Somente então Ferio percebeu o que estava desenhado no papel.
Era um esboço de suas nádegas enquanto ele brandia uma espada — seus quadris, estranhamente, quase grotescamente, enfatizados.
“As nádegas do papai são verdadeiras obras de arte. Devemos preservá-las como uma escultura e passá-las adiante!”
“Não, de jeito nenhum! Agora são minhas!”
Varia rapidamente balançou a cabeça.
“Que injustiça...”
Leonia fez bico. Tomar um tesouro público para si?
“Ah, tudo bem!”
Ela deixou de insistir, generosa. Afinal, as nádegas do pai eram como uma obra de arte que ela nunca poderia tocar.
Nenhuma escultura jamais faria jus a elas.
"""
“Verdadeiras músculos são as asas ao lado do peitoral! As costas!”
“Você, criança ingrata.”
Incapaz de suportar mais, Ferio pressionou os dedos nas bochechas de Leonia.
“Mmrph!”
Leonia fez bico, como um peixinho, com os olhos levemente marejados.
“-você voltou?”
Varia, escondendo discretamente o desenho na o bolso da saia, tinha um olhar tão embaraçado quanto o dele.
Ferio percebeu que, enquanto ele estava fora, as duas provavelmente choraram bastante.
Se abraçaram, compartilharam segredos, choraram juntas.
Tantas lágrimas...
Com esse pensamento silencioso, Ferio estendeu a mão para Varia. Como uma criança culpada, ela lhe entregou o desenho.
“...Será que eu realmente pareço tão largo?”
Ele olhou para a curva exagerada de seus quadris.
“Pode ser que eu tenha... exagerado um pouco.”
Leonia sorriu brilhantemente. Em vez de elogios, Ferio pinçou seu nariz. O gemido nasal que ela fez foi estranho, mas engraçado.
“Mas, é mesmo relaxante de olhar...”
Varia sorriu suavemente, puxando o desenho de volta para ela mesma.
“Nosso pequeno Musculoso parece adorar papai!”
“Não me diga...”
Ferio ficou tão pasmo que nem conseguiu falar. Só de imaginar a segunda criança sendo chamada de Musculoso enquanto Varia grávida, sua cabeça girou.
Mas Varia parecia satisfeita.
“Não parece que vão ser um neném bem saudável?”
“Tão saudável que pode acabar virando meus pulmões.”
Já conseguia imaginar a segunda criança copiando tudo que a irmã mais velha fazia.
...Irmã?
Ferio congelou no meio do alcance, com outro desenho de músculos na mão. A imagem da segunda filha apareceu tão naturalmente em sua cabeça.
Se era menino ou menina, não fazia diferença. Desde que nascesse saudável, ele não tinha outros desejos.
Mas, mesmo assim, a visão de uma segunda filha era vívida.
“O que foi, papai?”
Um dedinho bateu na parte de trás da mão dele, descansando sobre o desenho.
“...Não é nada.”
Ferio bagunçou o cabelo de sua primogênita, que era bastante sentimental.
Sua grande mão balançou a cabeça dela de um lado para o outro enquanto passava.
“Papai!”
Leonia saiu com o cabelo bagunçado e perguntou:
“Vamos agora?”
“Vamos sim.”
Seu rosto iluminou-se com a resposta.
“Vamos para casa.”
***
Quando a família Voreoti chegou à fazenda principal, a equipe ansiosa explodiu em comemoração aliviada.
Até Lupe, normalmente sério, tinha olhos chorosos ao dar as boas-vindas ao mestre.
Depois de trocar de roupa por uma mais leve, Ferio foi até o jardim dos fundos.
Lá, os cavaleiros Gladiago aguardavam com expressões tensas.
Eles vestiam o mesmo uniforme relaxado de treino de Ferio — mas suas expressões nada de relaxado tinham.
Sem palavra, Ferio apontou para o chão.
Os cavaleiros imediatamente se ajoelharam.
Começava a tão esperada sessão disciplinar da Ordem Gladiago.