
Capítulo 246
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Ferio, pense ao contrário.”
O dedo grosso de Diator traçou o caminho das figuras e dos animais no afresco na inversão.
Ao ouvir essas palavras, Ferio deixou sua imaginação agir livremente.
A pessoa de cabelo preto que, há muito tempo, partira numa longa jornada rumo às Montanhas do Norte agora começava uma jornada de descida dessas mesmas montanhas.
“...Hã?”
Ferio inclinou a cabeça novamente.
“Será que os Voreoti vieram das montanhas?”
Ah, e imediatamente se arrependeu. Até ele achava sua própria pergunta absurda.
Era uma coisa que alguém de cabeça cheia de flores — como Regina — poderia dizer.
Mas Diator não zombou da pergunta de Ferio.
“O deus que vive além daquele lugar —”
Diator corrigiu suavemente Ferio.
“— nos enviou aqui.”
O afresco pintado no teto representava a origem da Casa Voreoti.
***
“...Um deus, hein.”
Relembrar uma das memórias de infância após tanto tempo fez Ferio soltar uma risada silenciosa.
Sem dúvida, não era uma situação que valesse a pena rir.
Ele estava, naquele momento, sozinho nas Montanhas do Norte. Varia tinha sido capturada por Remus e estava em algum lugar dentro desses picos. Leonia lutava sozinha dentro do Palácio Imperial.
E, mesmo assim, essa memórias rara e feliz da infância de Ferio estranhamente lhe trazia um pequeno conforto.
Diator Voreoti — o avô de Ferio — tinha falecido poucos meses após aquele dia.
“Ele devia estar mesmo preocupado.”
Embora há muito tempo tivesse partido, aquele velho excêntrico ainda parecia preocupado o bastante para emergir das lembranças de Ferio, só para consolá-lo.
Um deus os protegeria.
Nada de ruim aconteceria.
Ferio se permitiu descansar na esperança que a lembrança feliz de sua infância lhe dava.
Ele acreditava que Leonia, deixada no palácio, cuidaria de tudo.
Ela sempre estivera ali ao seu lado, preparando tudo desde o começo. Sua herdeira confiável tinha uma personalidade que a faria fazer tudo só para provar seu valor diante do pai.
“E Varia...”
Estava lá em cima.
Ferio tinha certeza disso.
As Presas da Besta, que permaneciam adormecidas dentro de seu corpo, remexiam intensamente, reagindo ao bebê que crescia no ventre de Varia.
“Será que o bebê tem Presas?”
Isso poderia ser ruim, pensou Ferio, e começou a escalar a montanha.
Ele não se importava com o frio que parecia perfurar seus ossos nem com o ar rarefeito.
Movia-se tão leve quanto uma criança correndo morro acima em seu bairro.
Embora seus passos fossem um tanto apressados.
“Que não se pareça com Leo.”
Ferio não conseguia desassociar a inquietação de que o segundo filho deles teria mais semelhanças com Leonia do que com ele ou Varia.
Ele ficava tonto só de imaginar o segundo filho papando nomes de músculos, elefantes de prata ou pavões roxos — palavras decadentes e sem pé nem cabeça.
“Quando eu encontrar a Varia...”
Ferio pensou enquanto se lembrava da esposa, que dava tanto problema quanto a filha.
“...Com certeza, será negra.”
Ele começou a imaginar qual seria a melhor cor de algemas para os tornozelos de Varia.
Ela tinha ficado presa dentro de casa pelos últimos dias, por precaução — e, em troca, ela causara um grande incidente, como se quisesse provocá-lo. Ferio ficou perplexo, embora, de certo modo, admirado.
“Nunca há um dia tranquilo.”
Ferio se divertia ao perceber o quanto sua família tinha se tornado caótica.
“Família...”
A palavra saiu de sua boca tão naturalmente que ele ficou surpreso de novo.
Antes que percebesse, já quase tinha alcançado o topo da montanha.
As Presas da Besta, que permaneciam adormecidas, agitavam-se mais violentamente dentro dele, e suas pernas, que avançavam em direção ao pico, ficaram ainda mais rápidas.
Porém, sua mente nunca estivera tão clara.
“Como foi que eu acabei tendo uma família assim?”
Será que foi por ter me apaixonado por Varia?
Então, por que me apaixonei por ela?
“Ela me lembra o Leo.”
Teimosa, bizarra de formas estranhas, e incrivelmente hábil em mexer com músculos. Ela não hesitava em xingar quando estava brava e tinha um punho razoável também.
Era questão de tempo até Ferio se sentir atraído por alguém daquele jeito.
“Então por que eu tenho carinho pelo Leo?”
Objetivamente, ele não tinha motivo lógico para se importar ou amar aquela pequena pervertida.
Desde o primeiro encontro, ela era uma ameaça.
Mesmo quando estava exausta e tonta de enjoo, encontrava forças para agarrar seus músculos do peito. Estava sempre infernizando os cavaleiros musculosos e adorava massagear suas coxas e canelas.
Além disso, tinha uma obsessão bizarra por unir homens.
Ferio foi arrastado para várias combinações imaginárias — Lupe, Mono, Tra, até o Conde Urmariti e o Marquês de Pardus não escaparam.
Quando era jovem, até fingiu ter um stalker e fugiu de casa.
Não importava quantas vezes fosse repreendida, ela nunca refletia. Sua boca era mais áspera que lixa e suas palavras de xingamento eram tão extremas que poderiam acrescentar anos à sua vida só de choque.
“Se ela não fosse minha filha, sério...”
Que diabo tinha com essa palavra “filha”?
Ferio pensou em tudo que teve de suportar e tolerar daquela pervertida bocuda só porque ela era sua filha.
De certa forma, a juventude de Ferio tinha sido consumida pelo sofrimento de criar uma criança.
“...E eu fui feliz.”
Mas o sorriso que se curvou nos lábios dele não condizia nem um pouco com aquele sofrimento.
Ferio aceitou isso sem hesitação.
Sua vida mudou completamente após conhecer Leonia.
Claro, tiveram muitas dores de cabeça. Mas tiveram também ainda mais momentos de felicidade e alegria.
Chegou a pensar que o mundo era mais suportável do que imaginava.
O que devo fazer com Leo amanhã?
Ela vai gostar deste lanche?
Ele escolheu presentes para Varia com Leo e presentes para Leo com Varia.
Hoje, a vida de Ferio transbordava de família.
Uma mudança impressionante para o homem que antes via uma rua cheia de famílias felizes de uma carruagem solitária.
“Eu devia estar sozinho.”
Muito, muito sozinho.
Reconhecer essa verdade vergonhosa revelou-se surpreendentemente fácil.
“...Então, agora é hora.”
Ferio parou de caminhar e falou suavemente.
“Vamos para casa.”
Um redemoinho de cabelo rosa-pálido chamou sua atenção.
“Ferio!”
Varia gritou seu nome, com a voz trêmula.
À seus pés, caiu e pigarreou, Remus — como uma participação especial.
***
A leonina tinha guiado Varia até o topo da montanha.
Estranhamente, Varia não se sentia desconcertada. Na verdade, ela agora achava estranho também. Seu corpo simplesmente se movia sozinho, seguindo a leoa.
‘Minha insegurança desapareceu?’
Ou ela simplesmente ficou insensível?
Conviver com pessoas tão extraordinariamente fortes como Ferio e Leonia devia ter embotado suas reações a quase tudo.
Essa ideia a fez rir levemente, mesmo nessa situação absurda.
Sua resistência estava mais forte do que nunca.
Mas o riso desapareceu ao ouvir a respiração ofegante de Remus ecoando atrás dela.
Ela desejava que ele simplesmente desmaiasse no meio do caminho e rolasse morro abaixo.
Quem sabe um monstro o comeria.
Porém, Remus se agarrou com firmeza.
Mesmo com as pernas enrijecidas pelo frio e assumindo uma respiração de moribundo, ele de alguma forma conseguia acompanhar.
‘Ainda agora...’
Sempre que Varia hesitava, imaginando impulsos assassinos, a leoa de pelagem preta parava de andar e olhava para trás.
Se ela ainda não se mexesse, a leoa empurraria suavemente com o focinho.
Mas, no caso de Remus, a leoa bagnava seus dentes e rosnava ameaçadoramente.
Não que Remus percebesse isso.
“... Você é mesmo estranho.”
Quando Varia estendeu a mão, a leoa se pressionou contra ela, carinhosamente.
“Você não é um monstro, né?”
A leoa balançou lentamente o rabo.
“Você é exatamente como o Leo.”
O rabo, que antes se agitava no ar, parou no meio do movimento.
Gradualmente, seu vigor diminuiu e o rabo caiu baixinho.
“Leo é minha filha. Minha primogênita.”
Varia já estava completamente no modo exibicionista.
“Ela é gentil, doce, inteligente, atlética — e tão maravilhosa e impressionante que até fico sem fala, mesmo sendo mãe dela!”
Suas elogios fluíam incessantemente.
A leoa escutava silenciosa, com as orelhas erguidas.
“...Na verdade, eu não só parei de a criar. Eu nem dei à luz a ela.”
Varia cochichou como se fosse um segredo.
“Mas fico tão feliz por ter me tornado mãe dela. Leo é a luz que me deu uma segunda chance.”
Uma presença quase divina que trouxe sua verdadeira família e felicidade.
Foi assim que Varia sempre pensou de Leonia.
“Se só Lady Regina pudesse ter visto ela.”
Ela costumava visitar a sepultura de Regina enquanto ficava no Norte, se gabando de como sua filha tinha ficado incrível.
Roncado.
A leoa roncou na garganta e esfregou seu corpo contra a de Varia.
O afeto repentino a fez cambalejar um pouco, mas ela sorriu e afagou a leoa.
“...Ah.”
Logo, Varia alcançou o topo da montanha.
A tensão retornou, apertando todo o seu corpo.
O ponto mais alto das Montanhas do Norte era surpreendentemente plano. Ela tinha imaginado picos escarpados e cristas afiadas, mas a realidade era bem diferente do esperado.
Porém, além do topo—
“...!”
A visão a deixou sem palavras.
A leoa, que havia concluído sua orientação, deitou aos pés de Varia, pressionando seu corpo contra o chão. Mantinha um olhar atento à trilha que haviam percorrido.
Remus chegaria em breve.
“O-Que é aquilo...?!”
Varia ficou horrorizada ao ver a leoa levantar a cabeça.
Ela ainda não conseguia desviar os olhos do que se estendia além da montanha.
Planícies negras infinitas se estendiam além dos picos nevados.
Nenhuma árvore, rio ou até uma colina alterava aquela terra sem vida.
E, mesmo assim, algo vivia ali.
Varia nem conseguiu descrever sua forma.
Não havia um único animal que ela conhecesse que se parecesse com aquilo.
Mas uma coisa era certa — as criaturas negras que se moviam pelo solo negro eram enormes.
De fato, tão gigantes que Varia podia vê-las claramente de longe.
E não era só uma.
Enquanto Varia permanecia congelada, tonta, a leoa de repente se levantou.
Ela virou a cabeça e olhou com atenção para o caminho da montanha.
A leoa rosnou e fixou seu olhar agudamente na direção.
Fuu, fuu...!
O esforço ofegante se aproximava cada vez mais.
‘O que devo fazer agora?’
Neste penhasco, com a planície negra além das montanhas, Varia tentou pensar no que poderia fazer.
Na condição atual, talvez ela conseguisse apenas derrotar Remus.
Porém, seu corpo mal se sustentava. Já era um milagre ela ter chegado até ali.
SeT⊛ Novelight⊛ (Leia a história completa) eles lutassem fisicamente, ela poderia cair do penhasco.
‘O que você quer de mim?’
Ela perguntou à voz que a trouxe até ali.
Mas somente o vento forte respondeu.
‘...Droga de você, deus!’
Varia puxou o lábio para trás.
Arrastada até aqui sem conselho nem escapatória — e agora, no momento mais crítico, o deus ficou em silêncio.
Nem uma pedra ou galho perto para usar como arma.
Foi quando um brilho piscou — uma névoa vermelha, como cabelo tocado por geada.
Os olhos de Varia arregalaram, como se fossem saltar das órbitas.
Ao contrário dela, que tinha chegado ao topo em segurança, Remus parecia prestes a congelar até a morte.