
Capítulo 247
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
O primeiro que Varia viu foram os dedos branqueados.
“Estão congelados.”
Ela pôde perceber à primeira vista.
Remus, que suportava o frio impiedoso das Montanhas do Norte, já estava como um bloco de gelo.
Seu cabelo vermelho estava coberto de geada, como se estivesse prematuramente grisalho, e os dedos pressionados contra o chão tinham perdidos totalmente a cor, ficando pálidos.
A pele exposta estava rachada, até sangrando.
Ao redor do seu nariz, que mal exalava ar, e dos lábios tremendo, formaram-se cristais de gelo.
“......”
Varia ficou tão atônita que nem conseguiu falar.
Como um humano ainda podia estar se mexendo desse jeito?
‘Pessoas comuns nem conseguem subir até as Montanhas do Norte.’
Era exatamente o que Ferio tinha dito.
Mesmo durante caças a monstros no inverno, os cavaleiros de Voreoti sempre subiam só até a metade e voltavam.
Só um Voreoti ~Noite de Época~ com os Presas da Fera podia ir mais alto.
“......”
Remus finalmente chegou ao cume, mas diferente de quando chegou às Montanhas do Norte pela primeira vez, ele não comemorou.
Não—ele simplesmente não podia.
Ele mal respirava, seu corpo inteiro convulsionando de esforço.
Enquanto lutava, Varia silenciosamente deu um passo para o lado. A leoa moveu-se junto com ela.
Ela permaneceu alerta, nunca desviando o olhar de Remus. Varia acariciou suavemente a cabeça da leoa em sinal de reconhecimento.
‘Esse é seu castigo?’
Varia tentou entender a vontade do deus que trouxe Remus até ali.
Pelo que estava acontecendo agora, Remus provavelmente iria morrer sem que ninguém precisasse tocar nele.
Varia notou o escurecimento dos dedos pálidos de Remus.
Um claro sinal de que seus nervos estavam começando a morrer. Sem dúvida, seus dedos dentro das botas também estavam na mesma situação.
E, no entanto, Remus parecia não sentir o frio.
A frostbite avançou tanto que ele já não conseguia mais perceber nada.
Isso era sério—mas o que realmente o atormentava agora era o ar rarefeito.
O frio podia ser ignorado. Mas não o ar.
O oxigênio rarefeito no topo da montanha cortava sua vida como as Presas da Fera, ameaçando matá-lo a cada respiração.
‘Então é assim que ele deve morrer?’
Seria isso... vontade divina?
Uma punição de um deus?
“...Será que acabou?”
Varia olhou para o sofrimento de Remus com olhos vazios.
“Não pode ser o fim assim!”
Ela gritou.
“Como pode ser punição?!”
Se realmente houvesse um deus, ele nunca deveria permitir que Remus fosse assim.
Isso não era punição—era misericórdia.
Comparado aos pecados que ele cometeu e à dor que causou, Remus estava fechando os olhos de forma pacífica demais.
“Esse filho da mãe merece sofrer mais! E ainda assim ele pode morrer assim? Quietinho, sozinho no meio da natureza?”
Lágrimas encheram os olhos de Varia. Sua garganta se apertou de raiva, e sua visão ficou enevoada. Ela pressionou as mãos contra os olhos.
‘Não chore!’
O que serviria chorar agora?
Ela se esforçou para se acalmar, respirando lentamente.
‘...Isso não pode acabar assim.’
Depois de recuperar o fôlego, Varia pensou novamente.
‘Deve haver uma razão para o trouxeram até aqui.’
Senão, a leoa—que tinha sido abertamente hostil a Remus—já teria rasgado sua garganta.
De acordo com as lendas do Norte, os deuses favoreciam os Voreoti de tal forma que concediam poderes especiais a eles.
Varia lembrou-se de algo que Leonia uma vez lhe contou.
Para os deuses, os Voreoti eram como “preferidos”—os que eles mais amavam.
‘...’
No entanto, Varia tinha uma certa desconfiança dessa ideia.
Tudo o que tinha acontecido aos Voreoti, incluindo o que ocorreu com Regina e Leonia, não parecia exatamente uma bênção divina.
Mas a verdade permanecia: os Voreoti ficavam no topo. E Remus, ao servir a família imperial, tinha cometido o crime de atacar e perturbar o Norte protegido pelos Voreoti.
Assim, a possibilidade de os deuses terem pena de Remus ou serem complacentes com ele era impossível.
‘Então, por quê?’
Ela olhou para o Remus inconsciente e mergulhou novamente em reflexão.
‘Por que o trouxeram até aqui?’
Seu raciocínio voltou ao começo.
‘Será que...’
Os olhos de Varia se estreitaram enquanto ela observava além do topo, em direção às planícies negras.
‘Eles nos disseram para trazê-lo.’
A voz que ela ouviu claramente dizia para trazer Remus.
Pelo que as lendas do Norte e tudo que ela tinha experimentado até agora indicam, o deus devia estar além daquela vastidão sem fim, preta como a noite.
“Devo rolá-lo lá embaixo?”
Ela perguntou à leoa. Achava que conseguiria fazer isso pelo menos.
Mas a leoa apenas mexeu as orelhas e não respondeu.
Varia se sentiu desanimada com a falta de reação.
“...!”
De repente, ela virou a cabeça rapidamente.
Algo se aproximava—subindo o caminho que ela e a leoa tinham escalado.
Era uma sensação diferente de tudo que já tinha sentido antes.
Mas o estranho era, quanto mais se aproximava, mais aquilo parecia familiar e reconfortante.
A leoa começou a balançar o rabo e olhou na mesma direção.
“Varia.”
Seu nome foi chamado—e isso quebrou a barreira.
“Ferio!”
Sua amada—ela tinha sentido tanta falta dele.
“Vamos pra casa agora.”
Varia lançou os braços ao redor dele e se segurou firme às costas dele. Seu cheiro familiar e seu calor quase fizeram ela chorar de novo.
“Quando chegarmos em casa, vai estar tudo na maior confusão.”
“Vou apanhar feio! Vai me deixar de castigo!”
“E também do Leo, melhor se preparar para o sermão dele.”
“Snif... sim!”
Até a ameaça de ser castigada pela filha fez Varia assentir com força, fungando.
“Você fala feito uma Tocaia, só pra deixar todo mundo preocupado.”
Ferio respondeu de modo direto.
Porém, seus olhos e mãos, enquanto a examinavam, eram infinitamente gentis e cuidadosos.
Ele a inspecionou minuciosamente—buscando por ferimentos, dores, sinais de medo ou angústia. Não descansou nem por um instante.
“Que bom que você está bem.”
Somente depois de confirmar sua segurança que Ferio finalmente relaxou um pouco.
“Sinto muito...”
Varia desviou o olhar por um momento, depois olhou novamente para ele e pediu desculpas.
“Fui negligente. Os outros estão bem?”
“Os guardas? Quando eu acabar com eles, já terão morrido. As crianças que estavam de reféns estão todas seguras.”
“E o Leo?”
“Nossa filha traquina roubou meu título e baniu meu pai pro Norte.”
“...O quê?”
Os olhos de Varia se arregalaram diante do resumo repentino de Ferio.
“...Ah.”
Mas, ao perceber que o insígnia desaparecido de seu casaco—que ele usara quando saiu—E ao lembrar que o conselho nobre se reuniu hoje, ela juntou as peças.
“Então, agora você é o ex-duque?”
“Aposentei-me, então pretendo aproveitar a vida.”
Ferio sorriu de forma despreocupada, orgulhoso da filha que lhe tinha dado esse descanso.
“Mas aquela...”
No instante em que viu Remus caído na neve, sua expressão se torceu em carranca.
“Ele ainda está vivo?”
Ferio cutucou Remus com bota. Mais tarde, teria que jogar essas botas fora.
Inspecionou o homem que respirava com dificuldade.
Remus estava rígido, como um peixe congelado. Seus dedos, agora brancos como a neve, estavam escurecendo notavelmente.
Seus lábios estavam congelados e visivelmente azuis.
‘Ele vai morrer por conta própria.’
Ferio fez uma rápida análise e concluiu que Remus estava à beira da morte.
Porém, algo insistia nele.
“Como esse cara conseguiu rastejar até aqui?”
Ele perguntou à Varia.
“Eu também quero saber. Me disseram para trazê-lo até aqui, e eu fiz isso, mas...”
Varia explicou tudo o que tinha vivido.
Uma voz dizendo para não matar Remus.
A leoa que a guiara até ali.
E como Remus, de alguma forma, havia conseguido chegar sozinho.
“Ele parece não conseguir ver essa criança.”
“......”
“Ele é realmente bondoso e confiável. Honestamente, se não fosse essa criança, eu...”
“Varia.”
Ferio a interrompeu, com expressão sombria.
“Onde exatamente está essa leoa?”
“Ela está bem aqui...”
Varia apontou para o espaço logo abaixo de suas pernas. Mas sua voz morreu no final.
Ela olhou para Ferio, incrédula. Ele deu um pequeno aceno de cabeça.
“Não vejo nada.”
Desde o momento em que chegou, só havia Varia ali.
“Mas ela está bem aqui!”
Varia ajoelhou-se, abraçando a leoa. Ela passou a face dela com carinho na face da gata.
“Eu acredito em você.”
Ferio claramente tinha visto a bochecha de Varia sendo pressionada.
“Parece que não é perigoso.”
“Também não acho. Ela é tão meiga...”
“Provavelmente, essa leoa veio de lá de trás.”
“De lá...”
Varia olhou novamente para a planície negra.
“...Você quer dizer, o deus?”
Ela voltou a olhar para a leoa. Sua pele negra, brilhante e elegante, era tão escura e bonita quanto o cabelo de Ferio.
Talvez ela tivesse sido enviada por esse deus daquele lugar.
Ou talvez... fosse o próprio deus.
“Essa criança não é um deus.”
Ferio foi o primeiro a rejeitar a ideia. Seus olhos fixaram no espaço vazio onde Varia dizia que a leoa estava.
Mesmo assim, ele não sentia nada.
“De qualquer forma, esse é o problema agora.”
Ele voltou sua atenção para Remus e deu um novo empurrão com a bota.
“Ainda não morreu.”
“......”
“Provavelmente, o deus está mantendo ele vivo de propósito agora.”
“Você também pensa assim?”
Varia franziu o cenho.
“Talvez eles queiram matá-lo eles próprios.”
Se fosse verdade, então o deus além das montanhas seria cruel, murmurou Ferio.
“Eles assistiram tudo esse tempo todo—e agora decidem aplicar a punição?”
Quem deveria dar essa punição era Voreoti.
“Ferio...”
“Não precisa se importar com o que algum maldito deus pensa. Se quisessem justiça, já tinham descartado um raio há eras.”
Ferio agarrou rapidamente a gola do casaco de Remus.
O corpo superior dele foi levantado sem resistência. Ele nem conseguiu gemer.
“Vamos embora,—”
Ferio parou de repente.
Depois, virou-se rapidamente.
“O que está acontecendo? Você está dizendo que não podemos sair?”
Varia, ainda abraçando o pescoço da leoa, perguntou, com expressão de dúvida. A leoa puxou ainda mais a gola do casaco de Ferio, como se dissesse que sim.
“Ferio, acho que não podemos levar ele.”
“......”
“Mas se ficarmos aqui tempo demais, o Leo vai se preocupar.”
“...Hã?”
Justo quando Varia tentava entender o que fazer, Ferio murmurou algo enquanto olhava para a leoa.
“Vocês... conseguem ver isso?”
Mas, ao invés de responder, Ferio disse algo completamente inesperado.
“...Regina?”