Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 243

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Varia teve a sensação de que a leoa estava tomada por um certo remorso silencioso.


Seus olhos negros, incomum e tão claros, pareciam brilhar timidamente com lágrimas não derramadas.


Suas orelhas arredondadas, suavemente caídas, transmitiam uma impressão de tristeza.


Varia cuidadosamente estendeu a mão. Ela tinha uma certeza inexplicável de que a leoa não a morderia nem a machucaria.


A leoa nunca rosnara de forma ameaçadora ou riscara as garras no chão.


Em vez disso, ela cheirou a mão estendida de Varia, depois inclinou suavemente a cabeça contra a palma e fechou os olhos em paz.


“......”


Varia sentiu uma estranha sensação de déjà-vu em relação à leoa.


‘...Leo?’


Sempre que sua filha queria ser acariciada, ela vinha com o rosto colado como desta vez.


Era um daqueles gestos carinhosos que Varia amava, pois lembrava um gatinho fofo.


“Ugh...”


Justamente naquele momento, um gemido foi ouvido.


A neve que tinha se acumulado em rolos macios mexeu-se, e lá estava a figura desmoronada de Remus.


Varia rapidamente recuou. Ela ficou tão surpresa que esqueceu de pegar sua espada.


Não que isso importasse—ela não conseguiria matar Remus com aquela espada de qualquer jeito. Pelo menos a neve agora a cobria, o que trouxe um pouco de alívio para Varia.


Pelo menos assim, Remus também não conseguiria encontrá-la.


Demorou um bom tempo até que o quase inconsciente Remus finalmente abrisse os olhos.


‘Deveria esmagar a cabeça dele com uma pedra?’


Pedras e pedras estavam espalhadas na área, e Varia achou que talvez fosse uma boa ideia acertar a parte de trás do crânio enquanto ele ainda estivesse zonzo.


Era uma técnica que Leonia um dia lhe ensinara—chamada “Quebrar o Crânio.”


“...Ha, hahaha!”


Varia se assustou justo quando ia procurar uma pedra adequada.


“Foi real! Tudo foi real!”


Vagando até os seus pés, Remus soltou uma risada enlouquecida enquanto olhava ao redor.


Para Varia, sua respiração branca subindo ao ar junto com o riso parecia algo tóxico.


“As Montanhas do Norte! Essa lenda... era verdade!”


Porém, a reação maníaca de Remus logo diminuiu.


Ofegando pesadamente enquanto olhava para o campo de neve desolado, ele finalmente notou Varia.


De imediato, a leoa se colocou à frente de Varia, protegendo-a.


Varia ficou surpresa com a atitude repentina. A leoa tinha sido tão gentil quanto um filhote minutos atrás.


Mas ela não avançou contra Remus. Apenas mostrou seus presas e garras, mantendo o olhar feroz fixo nele, em alerta total.


“...Voreoti é realmente algo,” disse Remus com uma voz lenta e zombeteira.


“Tudo o que precisou foi uma mudança de sobrenome por causa do casamento, e agora ela tem tanto poder.”


“ Aposto que deve estar levando uma sorte danada de ganhar essa aposta.”


Varia deu uma risada seca.


Por dentro, ela estava em alerta máximo.


Remus olhava para ela com uma expressão inescrutável. Varia cruzou o olhar com uma carranca, claramente desconfortável com o jeito que ele a encarava.


“O que aconteceu agora?” perguntou ele.


“O quê?”


“Você que me trouxe aqui.”


“...Quem sabe.”


Varia não tinha absolutamente nenhuma lembrança daquilo. Na verdade, desde o momento em que entrou no Palácio Imperial até passar pelo Portão, tudo era um vazio completo.


Mas ela forçou-se a agir como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse parte de um plano grandioso.


Seja o que for que tivesse acontecido, ou o que ela tivesse feito enquanto sua memória estava em branco, era o suficiente para—/N_o_v_e_l_i_g_h_t/—laçar visivelmente Remus; isso era claro.


Pelo menos, uma pequena consolação.

“Então, como é estar aqui?”


Varia forçou um sorriso.


A leoa que estava de pé, protegendo-a, ainda não tirara os olhos de Remus. Era uma sensação incrivelmente reconfortante.


“...A Família Imperial tinha razão, afinal.


O rosto de Remus perdeu o frenesi e ficou mais calmo.


“Aquele imperador maldito... deve ter morrido carregando um arrependimento. Depois de desejar tanto isso...”


Ele não conseguiu completar a frase. Seus lábios hesitantes se moveram cada vez menos, e seu corpo lentamente encolheu-se sobre si mesmo.


‘...Ele está tremendo?’


Mesmo estando no mesmo lugar, sob o mesmo frio cortante e os ventos ferozes, as condições deles eram drasticamente diferentes.


Varia não sentia frio algum. Pelo contrário, ela se sentia aconchegante.


Seu corpo parecia estranho de leve—tão leve que ela achava que poderia correr a toda velocidade se apenas tirasse os sapatos.


Mas Remus era outra história.


Ele tremia com o calafrio que cortava até os ossos. Até seus lábios estavam congelados, dificultando pronunciá-lo alguma palavra.


Ele até tinha dificuldade de respirar, ofegando pesadamente.

‘Estas são as Montanhas do Norte...!’


Varia se deu conta de novamente onde estava.


Este era o lugar onde se poderia encontrar o deus que havia presenteado os Voreoti com as Presas da Besta.


O deus havia permitido que ela e Remus entrassem.


Mas apenas a 'Voreoti' era bem-vinda.


Varia sabia que tinha sobrevivido graças à criança que crescia em seu ventre.


Remus, por outro lado, não.


O frio insuportável, o ar rarefeito—ele estava vivendo toda a severidade das Montanhas do Norte.


Pum.


A leoa, que estivera silenciosamente observando, empurrou o braço de Varia com o focinho.


Depois virou-se como se dissesse: “Siga-me.”


Varia fez exatamente isso, subindo a montanha atrás da leoa. Agradeceu por ter escolhido sapatos de salto baixo.


Remus, que finalmente avistou Varia à sua frente, amaldiçoou baixinho e foi lentamente atrás dela, com dificuldade.

A cada cinco passos que Varia dava, Remus só conseguia dar um.


Quando teve certeza de que não seria atacada por trás, Varia permitiu-se um momento de alívio e simplesmente seguiu o caminho que a leoa lhe indicou.


A planície nevada não oferecia nada à frente—apenas o céu enevoado, escondido sob uma camada de nuvens.


‘Está ali.’


Ela sabia que quem a trouxe até ali—a voz que sussurrou em seu ouvido—estava sob aquele céu.


Enquanto a tensão aumentava no ar, a cauda da leoa roçou a mão de Varia.

‘...Ele não consegue te ver?’


Pelando pela reação anterior de Remus, parecia que essa linda leoa nem era visível para ele.


***


Já se passara uma hora do horário marcado para a inauguração do conselho nobre.


Empressa Tigria ainda não tinha chegado, e o duque de Voreoti, que havia saído por um curto período, ainda não retornara.


“Por que ninguém está chegando?”


“Mais importante: as coisas fora do palácio parecem estar mais caóticas a cada momento.”


“Aconteceu algo?”


Os nobres que permaneciam sentados estavam cada vez mais inquietos.


Principalmente porque o barulho lá fora só aumentava, e sua ansiedade crescia ainda mais.


Grandes nobres, que permaneciam na cadeira por formalidade, agora se aproximavam das janelas, olhando para fora.

“Estão atrasando mais do que o previsto.”


Marquês Ortio falou tranquilamente, na ponta da voz, para que Carnis ouvisse.


Carnis assentiu concordando. Ele também sentia que algo não estava certo.


Ele olhou na direção de onde Ferio estivera sentado.

‘Uma variável inesperada.’


Uma dessas variáveis foi a aparição de Unicia Ortio.


Originalmente, a missão da criança era usar magia para amarrar Meridio e marcar a chegada da Imperatriz aqui.


Ou seja, Unicia não deveria se mostrar em público.


E, no entanto, ela apareceu na câmara do conselho—e levou Ferio embora.

Mas a variável mais crítica era a ausência de Ferio.


“Aquele caras... tinha algo errado com ele, não tinha?”


“Eu também achei. Será que ele está doente?”


“Nunca ouvi falar de Ferio estar doente.”


No máximo, ele já reclamou para Carnis de uma dor de cabeça por causa da educação da filha.

Mas alguém como ele, com febre ou doença normal? Nunca ouvi falar.


No entanto, algo estranho tinha acontecido. Ele suava frio e ficava pressionando a mão contra o peito.


“...Por Deus!”


Visconde Olor, que até então estivera silencioso, de repente se levantou.


“O que é isso? Todos fomos convocados aqui e agora estamos trancados assim?”


“Não é você quem está fora de lugar, Visconde?”


Marquês Ortio franziu o cenho e advertiu severamente.


“Sua Majestade a Imperatriz ainda não chegou. Devemos esperar até que ela assuma seu assento...”


“Quando é que essa maldita Imperatriz vai aparecer?!”


“Visconde!”


O marquês Ortio não conseguiu esconder sua insatisfação com a explosão.


Os demais nobres voltaram-se para Olor com olhos de choque e incredulidade.


“Que absurdo falar assim!”


O marquês Ortio ficou boquiaberto.

“Você nem percebe onde está? Como ousa falar assim da mãe reverenciada do Império...!”

“Não disse nenhuma bobagem, não é?”


Visconde Olor, incapaz de suportar a agonia da espera, parecia perder a noção da realidade.

“Vou perder meu título e minha vida—o que há de sagrado nisso?!”

“V-Vizconde! Isso é uma grosseria sem limites!”

“Mantenha a calma e preserve a dignidade!”


Vários nobres, incapazes de suportar mais, tentaram conter Olor e o convenceram a sentar-se.


Mas, já tendo desistido de tudo, Olor empurrou os nobres de lado e começou a xingar.


“Tudo já era mesmo!”


As veias de seus olhos saltaram enquanto ele soltava uma risada insana.


“Se meu filho encontrar o deus, todos vocês irão se ajoelhar diante de nós!”


“Ele pirou.”


Carnis franziu o cenho.


“Nem me diga que acredita nessa superstição do Norte? Nem Voreoti acredita nisso—”


“L-olhe ali!”


No momento seguinte, um nobre apontou para fora da janela.


Cavaleiros de uniformes brancos vívidos estavam começando a cercar o Palácio Kasus.

Mesmo de longe, dava para ver que suas espadas estavam ensangüentadas.

E entre eles, alguém de cabelo preto se aproximava.

‘Ferio?’

O instinto de Carnis fez lembrar-se de seu velho amigo—mas sua expressão congelou ao perceber a verdade.

“...Senhora Voreoti!”

A figura que entrou no Palácio Kasus era Leonia.

Foi um instante para ela invadir às pressas os corredores da câmara do conselho.

“Desculpem a demora,” disse, sem demonstrar nem um pouco de arrependimento.

Leonia ergueu casualmente sua espada manchada de sangue por uma vez antes de guardá-la na bainha.

O sangue espirrado na parede parecia gotas de chuva numa tempestade violenta.

“Senhora, o que foi isso—?”

Antes que Carnis pudesse questionar o que tinha acontecido, seus olhos notaram o símbolo no peito dela.

Era o emblema usado apenas pelos duques sucessores de Voreoti.

“Onde devo me sentar?”

Leonia olhou ao redor da sala tensa.

“......Aqui.”


Ainda nervosa, o marquês Ortio indicou para ela o assento que Ferio havia ocupado.

“Hmm.”

Leonia tomou seu assento de imediato.

“Todos aqui, então?”

“Ah, bem...”

“Aguardamos apenas Sua Majestade, a Imperatriz.”

Marquês Ortio respondeu em nome de Carnis, que resistia a falar por causa do nervosismo.

Ao ouvir que todos, exceto a Imperatriz, tinham chegado, Leonia assentiu lentamente.

“Então, também está aqui o Visconde Olor?”

Ela lançou um sorriso no rosto surpreso do visconde.

“Vamos aproveitar bem hoje.”

“......”

“Como nobre, farei questão de tornar seu último momento inesquecível.”

Quase no instante em que terminou sua declaração arrepiante, a Imperatriz entrou na sala.

“Desculpem pelo atraso.”

Mesmo na mão da Imperatriz, havia uma espada manchada de sangue. Ela entregou tanto a espada quanto sua bainha ao criado que a acompanhava.

“Sua Majestade, está tudo bem?”

O jovem herdeiro do Marquês Pardus perguntou respeitosamente pelo bem-estar da Imperatriz.

Satisfeita com o gesto leal, Tigria sorriu levemente e confirmou com a cabeça.

Até a mancha de sangue em sua face parecia mover-se com sua expressão.

“Peço desculpas pelo atraso,” disse sinceramente.

“Estive ocupada acabando com uma rebelião.”

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