
Capítulo 250
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Ela instintivamente elevou sua guarda contra a sensação estranha e passou a pensar em todas as explicações possíveis.
“Não me diga... Remus de alguma forma conseguiu uma Presa de Fera?”
Leonia sabia que era impossível, e mesmo assim a inquietação a consumia.
A presença estranha lá em cima—sua aura era exatamente como a Presa de Fera.
Não era apenas uma leve sensação de desconforto.
De tempos em tempos, ela podia captar uma intenção de matar violenta, mas Leonia não conseguia determinar se deveria classificá-la como “inimiga”.
“...Preciso ver com meus próprios olhos.”
Ela achava que o melhor era subir e testemunhar tudo pessoalmente.
Leonia acelerou o passo.
O topo estava próximo, e com ele, as presenças de Ferio e Varia também se aproximavam.
Assim que ela começou a se sentir aliviada por seus pais estarem ilesos—
Estalo.
O som de ossos sendo esmagados soou nítido aos ouvidos de Leonia.
Ela, assustada, avançou em disparada, quase tropeçando, mas conseguiu se segurar e empurrou seu corpo ao máximo.
“Mamãe! Papai!”
Quando chegou ao topo, Leonia finalmente viu que seus pais estavam ilesos.
“Caramba, o que diabos é isso?!”
E então—seus olhos se arregalaram diante da visão bizarra à sua frente.
“Leo!”
“Não chegue perto!”
Ferio e Varia rapidamente a puxaram para seus braços.
Pressionada contra seus peitos, Leonia soltou um gemido entrecitante.
“Vocês estão bem... Vocês estão realmente bem...!”
Varia segurou o rosto de Leonia com as duas mãos, verificando freneticamente se ela tinha ferimentos.
Ela respirou fundo ao ver as roupas da criança encharcadas de sangue—mas suspirou com alívio trêmulo ao perceber que Leonia não havia sido ferida. O ar que ela exalava tremia como a última folha do inverno.
“Você está bem, mamãe?”
“Sim, estou bem.”
“Que alívio. Eu ia te dar uma bronca séria assim que chegássemos em casa.”
Leonia exalou fundo, e Varia ficou um pouco abatida com a declaração.
“Deixe a conversa pra depois,”
Ferio as advertiu suavemente.
Mas ele também estava tomado por uma alegria e gratidão imensa por sua filha ter chegado até eles são e salvos.
“Que diabos é aquilo?”
Leonia estreitou os olhos, desconfiada, olhando para a leoa.
No instante em que colocou os pés no topo, ela viu—a leoa negra cerrando as mandíbulas ao redor do pescoço de Remus.
Quanto mais alto o som de ossos se partindo, mais vermelho ficava a neve branca ao redor.
“Leo, você consegue ver a leoa?”
Varia ficou chocada.
“Espere, você não consegue? Ela está praticamente devorando—não, espera!”
Leonia gritou desesperada para a leoa.
“Não mate ele! Ele é nosso! Aquele idiota é nosso!”
Ela tinha medo de que a cabeça de Remus fosse arrancada.
“A gente tem que salgar, transformar em conserva, e dar pra ele de comer até enjoar! Ah, não ouse morder os testículos dele, isso é minha tarefa!”
Ao seu apelo louco e ridículo, a leoa pausou. Ela virou o olhar e calmamente encarou Leonia.
“...O que você tá olhando, hein?!”
Ainda desconfiada, Leonia rosnou de volta para a leoa.
Varia acariciou suavemente a cabeça da filha animada e perguntou, em tom baixo,
“Ferio, agora você consegue enxergar ela?”
“Não, ainda não.”
Ferio entrou em alerta. Ele não via nada, e só quando a leoa ficava super agitada que conseguia sentir vagamente a Presa de Regina novamente.
A leoa lentamente largou Remus e começou a se aproximar.
Leonia a encarou com atenção, toda em guarda.
Mas a leoa apenas farejou seu corpo, aproximando o nariz de vários pontos.
“...O que diabos há com essa leoa?”
Leonia, perplexa, viu a leoa começando a se esfregar nela.
“Por que ela parece ter uma Presa de Fera?”
“Outra coisa?”
Ferio perguntou rapidamente.
“Você consegue ver mais alguma coisa?”
“Hã? Uh...”
Leonia examinou a leoa enquanto ela farejava sob seu queixo.
“Os olhos dela... são azul celeste? Tipo, um azul muito pálido?”
Ao ouvir isso, Varia olhou para Ferio. Os olhos dele tremeram levemente ao falar daquela cor.
“Ugh, ela é pesada!”
De repente, a leoa levantou-se e envolveu as patas dianteiras em volta dos ombros de Leonia.
Sem conseguir suportar o peso da pata gigante, Leonia tropeçou e caiu com um trovão.
“Ai, meu Deus...!”
Lágrimas encheram os olhos de Varia, que assistia com emoção, suas pálpebras molhadas de sentimento.
Até mesmo Ferio—que ainda não conseguia ver a leoa—estava cada vez mais confuso e abalado.
“Não fica aí parado, ajuda aqui!”
Leonia, presa sob a leoa, bateu no chão coberto de neve em protesto.
Por fim, ela se contorceu e conseguiu se libertar, respirando profundamente.
Então, a leoa lambeu seu rosto.
“O que... o que você está fazendo?! Ei, para aí—”
“Nnh! Nnh!”
Leonia fechou a boca com força e se debatia tentando escapar da língua afetuosa da leoa.
“Ela deve estar mesmo apaixonada por você.”
“Só deixe ela ficar mais um pouquinho.”
Ferio e Varia, ao invés de ajudar, seguraram a cabeça de Leonia para que a leoa pudesse se aproximar ainda mais.
“Me solta! Solta, por favor!”
Leonia tremia, traída, lutando bravamente como uma serva leal que aceita a tortura—mas, no final, recebeu todo o carinho da leoa de corpo inteiro.
Depois, seu rosto ficou todo lambuzado de baba.
“Meus lábios...”
Ela sollochou desesperada.
Ela tinha guardado seu primeiro beijo para alguém especial, com músculos bonitos, e agora tinha sido roubado—por uma leoa misteriosa.
“Só uma demonstração de respeito filial.”
Ferio deu umas palmadinhas nas costas dela.
“Que tipo de respeito filial é esse?! Quer que eu dê uma lição de rebeldia ingrata pra vocês dois?!”
“Quando chegarmos em casa, vou deixar vocês verem os cavaleiros sem camisa—sim, até os músculos das coxas.”
“Também encomendamos um livro pra você,”
Varia acrescentou alegremente.
“Um romance disfarçado de história de amizade trágica entre dois homens...”
“Vou cumprir meu dever filial com toda sinceridade!!”
Leonia limpou com força a baba da leoa do casaco de Ferio.
“Isso é dever filial...?”
Ferio lançou um olhar de relance para seu casaco manchado, com expressão de descontentamento.
Varia acariciou seu braço com um sorriso amargo.
“Então... podemos voltar pra casa agora?”
Leonia perguntou, ainda tentando se desvencilhar da leoa grudenta.
“Quero ir pra casa. Estou cansada.”
Ela só queria tirar essas roupas ensanguentadas e colocar-se numa água quente.
Leonia murmurou uma maldição contra o Remus caído, com toda sua fadiga.
“Tudo esse transtorno por causa daquele chamegão sem vergonha, fazendo birra com a parte de baixo...”
“Leo!”
Ferio gritou.
“Que, não posso nem amaldiçoar?”
Leonia respondeu irritada—até que, de repente, foi puxada de lado por Varia, que agarrou seu braço rapidamente.
Só então, Leonia percebeu que algo estava acontecendo atrás dela.
Seus olhos tremeram.
“Ele se mexeu...”
Varia apontou um dedo trêmulo para Remus.
Apesar de estar todo ensanguentado, Remus estremeceu—e lentamente começou a se erguer.
Não havia nada de intacto nele.
Sangue ainda jorrava do ferimento na nuca, a ferida feita pela Presa permanecia aberta, escancarada.
Seus movimentos produziam um som grotesco, como se músculos e ossos congelados fossem forçados a se mover.
Seu corpo mordido era horrendo, e suas roupas estavam rasgadas em pedaços.
Seus dedos congelados estavam negros como breu. A pele exposta sob as roupas começava a escurecer.
Sangue escorria do nariz e da boca a cada respiração.
E, mesmo assim... Remus se movia.
De pé—sozinho, sustentando-se com as próprias pernas.
Nos olhos injetados de sangue, reluzia uma clareza assustadora.
“...Haha.”
Leonia forçou seus lábios endurecidos a sorrir.
“Que diabos é aquele idiota?”
“Leo, volte!”
Ferio a protegeu atrás dele. Leonia hesitou, recuando lentamente. Até o pequeno monstro, por mais que fosse forte, sentia-se perturbado por Remus.
‘Não tenho medo.’
Ela se convencia de que era apenas nojo—que simplesmente não queria estar perto dele.
Mesmo em um mundo onde mana, aura e fenômenos não científicos eram normais, aquilo ia além da compreensão.
Naquele momento, a leoa rosnou.
Garras estendidas, ela se agachou, pronta para atacar Remus novamente—
Não.
Um comando sem voz passou por seus ouvidos.
A leoa olhou para cima.
Ferio, Varia e Leonia todos observavam Remus com extremo receio.
Você prometeu, disse a voz silenciosa.
Essa era a condição.
Uma mão de um dos três Voreotis suavemente acariciou a cabeça da leoa.
Está quase acabando.
Então, por favor, aguarde só mais um pouquinho, acalmou-a a voz sem som.
A leoa lançou um olhar para Varia, que a encarava com medo nos olhos.
Um tênue nevoeiro negro de sombra pairou por entre seus olhos verdes—e seus lábios se curvaram numa sutil smile.
***
No instante em que a leoa cravou os dentes nele—
Enquanto seu corpo se congelava e sua consciência escurecia, a visão de Remus lentamente se tornou mais clara.
Ele podia ouvir as vozes altas dos Voreotis.
Ver flocos de neve caindo sobre a neve manchada de sangue ao seu redor.
E, de algum lugar bem fundo dentro de si, uma sensação de calor começou a se espalhar.
Primeiro queimou como uma lâmina, mas logo a temperatura alcançou até mesmo os dedos que tinham perdido toda a sensibilidade.
“...É agora! Era isso!”
Admirado pelo poder desconhecido que despertava dentro dele, Remus segurou o rosto e soltou uma risada distorcida.
Seus dedos negros, necrosados, puxaram seus cabelos vermelhos cobertos de geada.
“A lenda era verdadeira!”
Parando a risada, Remus virou rapidamente na direção dos três Voreotis.
“Eu tenho nas mãos—aquele poder é meu!”
Sangue escorria de seus olhos arregalados. Como lágrimas, se reuniam de uma ferida aberta.
“...Hã?”
Leonia franziu os olhos.
Por sorte, sua boca boquiaberta não chegou aos ouvidos de Remus.
“Consegui a Presa de Fera!”
Ela não podia ouvir o uivo do vento, nem mesmo a observação de Leonia, que rodava o dedo na testa com um “Ele realmente pirou.”
Enquanto isso, Ferio acompanhava tudo em silêncio.
E, como Leonia, ele franziu a testa.
“Não tem... nada aí?”
Leonia não sentia nenhuma energia de Remus.
“Papai, também não sente, né?”
“...Sim.”
Ferio também não percebia a Presa de Fera em Remus.
Na verdade, o único lugar onde eles podiam detectá-la era na leoa negra ao lado deles.
E ainda assim, o olhar de Remus permanecia violento.
Não há nada. Absolutamente nada.
E isso tornava tudo mais perigoso.
Um homem à beira da morte, agora de pé, alegando que havia conquistado poder—não era normal.
Seria melhor se ele tivesse obtido uma Presa.
Pelo menos assim, poderiam identificar a origem e agir de modo adequado.
“...Ah, agora vejo.”
Remus sussurrou, olhando para o céu. Seu sorriso torto se estendia tanto que parecia que ia se partir.
Seus lábios ressecados se abriram e sangraram com o esforço.
Depois, virou a cabeça rapidamente. Ferio e Leonia se prepararam de novo.
Essa reação só fez Remus sorrir ainda mais.
Sangue escorrendo de seus lábios dilacerados aumentava a grotesquice.