
Capítulo 236
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Que sorriso grotesco era aquele.
Varia desenterrou uma lembrança que não lembrava há muito tempo.
'Uma vergonha para a família que atrapalha nossa grande causa.'
A última pessoa que ela tinha visto em sua primeira vida—uma que terminou em morte—foi Remus.
'Descarte-a como uma joia de família.'
Antes de matá-la com uma adaga cerimonial passada de geração em geração pelo Conde Erbanu, Remus dissera essas palavras com um sorriso.
'Sua morte será tratada como um caso simples de fuga. As pessoas adoram histórias de filhas rebeldes que sonham com liberdade.'
A lâmina da adaga, ao refletir a luz fraca da lua, havia mostrado o mesmo sorriso repulsivo que ele tinha agora.
Talvez fosse porque ela tinha vivido tantos dias felizes ao lado de seu amado marido e filho...
Ao esquecer aqueles momentos terríveis do passado, Varia chegou a uma outra conclusão.
'Aquela coisa' não era apenas boa em esconder sua monstruosidade por trás de uma máscara charmosa.
Ela manipulava corações com uma habilidade assustadora, e quando deixava de ser útil, descartava as pessoas. Havia várias formas de fazer isso.
Susurrando um amor distorcido e depois abandonando-os.
Depois os culpava e os descartava.
Ou os matava de vez.
A Jovem Regina morreu acreditando que seu desejo sujo era amor.
A astuta Lota, manipulada e controlada como uma marionete, nunca percebeu o quão pervertido Remus realmente era.
O herdeiro da Casa Aust quase morreu, mas ficou com uma perna esfacelada.
E o imperador... foi assassinado.
'Eu também teria...'
Varia não conseguia desviar os olhos do imperador morto.
'Eu também acabei assim.'
Aquele "corpo", que havia estado vivo há poucos momentos, agora era apenas um "cadáver".
Mesmo sem tocá-lo, ela podia sentir a temperatura do corpo começar a desaparecer.
Para Varia, aquele imperador sem vida parecia exatamente com a versão de si mesma assassinada por Remus em sua vida passada.
“Monstro...”
Ela falou com frieza.
Então e agora, Remus não tinha mudado em nada.
Não—ele só tinha ficado mais viperino.
Agora, ele revelava um lado de seu monstro que ela nem tinha visto em sua vida anterior.
Talvez ele tivesse ouvido seu sussurro de insulto. Remus sorriu maliciosamente e pressionou a faca ainda mais perto do pescoço da criança.
“Kea!”
Kella gritou. Seu irmão mais novo, Kea, quase desmaiava.
“Você é uma boa irmã, se importando tanto com seu irmão.”
Remus elogiou Kella. Varia torceu o corpo, protegendo Kella em seus braços.
A criança não precisava ver aquele monstro grotesco.
“O que você está fazendo?”
Ela perguntou com voz calma, forçando a compostura.
“Você percebe o que fez?”
“Eu acabei com algo inútil.”
“Inútil...?”
Varia ficou sem palavras.
“Você matou alguém.”
“Essa coisa conta como pessoa?”
Remus bufou, dizendo que uma pessoa precisava ser digna de ser chamada de humana.
“Como assim?”
Varia ficou atônita.
Remus e o Imperador Subiteo sempre foram como companheiros de armas.
As coisas que aqueles dois fizeram não podiam ser justificadas por qualquer desculpa. Nem mesmo se pulassem de uma arranha-céu de mãos dadas poderiam ser perdoados. Ainda assim, pensaria-se que pelo menos eles mostrariam um pouco de respeito um pelo outro.
“Tolerava muita coisa enquanto arrastava aquele inútil bastardinho por aí.”
Como se estivesse lendo seus pensamentos, Remus começou a chutar a cabeça do imperador no chão.
“Bobo, inadequado, cheio de complexo de inferioridade... nada além de lixo.”
Cheio de raiva, Remus chutou o cadáver com mais força.
Os olhos apagados e nublados do imperador tremeram sob o impacto. As sobrancelhas de Varia se franziu.
O monstro já tinha completamente despido a pele humana.
“Por causa dele, todos os meus planos foram frustrados.”
“......”
“Espera, não...”
Remus arregalou os olhos, corrigindo-se.
“Aquele que realmente destruiu tudo... foi você.”
Ele se aproximou lentamente. Os cavaleiros instantaneous sacaram suas espadas.
Mas ninguém teve coragem de atacar. Por causa da criança que ele tinha como refém.
Remus puxou Kea para frente. O menino não conseguia nem chorar mais. Com a lâmina gelada contra o pescoço, ele tinha molhado as calças.
Felizmente, Remus não tinha percebido. Caso tivesse, quem sabe qual humilhação ainda pior ele poderia ter sofrido.
“Se você chegar mais perto, esse(diabo) morre.”
Remus apertou a lâmina ainda mais contra o pescoço de Kea.
“Pare com isso. Deixe a criança ir.”
Varia implorou. “Isso só te prejudica. Por que correr em direção à sua própria morte?”
“Já deu. Não adianta mais nada para mim. Qualquer coisa que eu faça daqui pra frente não fará diferença.”
“Pelo menos você ainda está vivo!”
“Já estou quase morto de qualquer jeito!”
Remus gritou, cuspe voando de sua boca. Seus olhos vermelhos giravam de loucura.
“Nem consigo mais mostrar a cara! As pessoas me veem como um freak que gosta de menores! Me chamam de lunático, dizendo que quero uma criança alheia como minha!”
“......”
“Meu amor era puro! Aquela criança era sangue do meu sangue!”
Ele acreditava estar dizendo a verdade.
Mas o mundo o tinha rotulado como mentiroso e pedófilo.
Sua fama e popularidade tinham desaparecido como um castelo de areia levado pelas ondas.
O Remus que antes era admirado e confiável não suportava sua queda vergonhosa.
“Então...”
Em algum momento, Remus passou bem diante dos cavaleiros.
“...Preciso pelo menos fazer uma última exibição.”
Agora, de pé diante de Varia, ele apontou para a carruagem.
“Conduza o caminho, Voreoti.”
Por trás do sorriso vile, pulsava a loucura.
“Tenho negócios com o deus que, dizem, habita além das montanhas.”
“...Senhor.”
Leonia, concentrada copiando textos clássicos, de repente parou sua mão.
“Por que você estudou tanto a mitologia do Norte?”
“Hum, essa foi uma pergunta de repente.”
Ardea, que vinha lendo um trecho em voz alta, retirou os óculos.
A areia na ampulheta sobre a mesa já tinha passado da metade.
“Achei interessante.”
Ardea decidiu manter a conversa, dando uma pausa em Leonia.
“Desde os tempos da academia, sempre gostei de folclore e lendas regionais.”
Embora tenha tido que abandonar os estudos formais para herdar seu título, Ardea continuou coletando registros e pesquisando por hobby.
Ele recordava esse período com nostalgia.
“......”
Leonia lançou um olhar seco para ele.
Ficava irritada ao ver esse homem—que abandonara esposa e filho por obsessão pelos estudos—ficar tão melancólico ao falar do passado.
“Mas então percebi algo estranho.”
“Algo estranho?”
“Sim. Nas tradições orais e lendas antigas passadas de geração em geração em várias regiões, sempre aparecia um elemento comum.”
As cadeias de montanhas.
“Atualmente, a teoria predominante é que a vida teve origem nos mares do sul. Mas até nas tradições orais do sul e nos antigos vestígios, as cadeias de montanhas aparecem.”
Ardea descobriu que o tema referente era a cadeia de montanhas do Norte.
Leonia inclinou a cabeça.
“Como você descobriu isso?”
“Foi surpreendentemente simples.”
Ardea enrugou os lábios e apontou para cima com um dedo.
Os olhos de Leonia se arregalaram.
“A pintura no terceiro andar?”
Ardea assentiu.
A pintura no teto do corredor que leva ao escritório do terceiro andar.
“É uma cena narrativa. Dizem que foi deixada pelo primeiro Duque.”
“O primeiro Duque...”
“Há símbolos antigos sob aquelas imagens. Eles combinam com os encontrados nas ruínas.”
Ele explicou com orgulho suas descobertas, claramente satisfeito consigo mesmo.
‘...Que raio?’
Porém, Leonia ficou desconcertada.
‘Como esse velho pesquisador conseguiu interpretar aquilo?’
Ardea tinha se obcecado tanto pelos estudos que abandonara suas obrigações nobres e fugira de casa.
Para sua esposa, ele era imperdoável. Para o Norte, uma vergonha.
Então, como um homem assim conseguiu estudar uma pintura na propriedade do palácio?
‘Tem alguma coisa errada.’
A condessa atual de Bosgruni era esposa de Ardea.
Ela tinha se tornado a cabeça da família graças ao apoio do ex-Duque Voreoti.
Com a condição de permanecer casada com Ardea.
Um nobre banido de sua casa era menos que um verme. Ainda assim, Ardea continuava protegido pela família Bosgruni.
Ou seja, o ex-Duque tinha tomado o lado de Ardea.
‘...O ex-Duque.’
Leonia prendeu a respiração.
‘Ele sabia que isso iria acontecer?’
Apesar do rancor entre as duas casas, o ex-Duque e o ex-Imperador eram conhecidos por manterem boas relações.
Eles até se encontravam várias vezes com os filhos, formando uma conexão pública.
Porém, o falecido imperador tinha centrado sua atenção na cadeia de montanhas do Norte, usando a família Olor e enviando Remus para o Norte como uma peça de xadrez.
‘Então, o que o ex-Duque estava fazendo...?’
O que ele realmente era?
Leonia não hesitou em amaldiçoar até seu avô.
‘Ele sabia que o imperador tava mirando o Norte? E ainda assim agiu como se estivessem em bons termos?’
Seu coração pulsava forte.
Aquela amizade tão elogiada tinha sido só fachada—um cortinado escondendo o palco.
Por trás daquele cortinado, os dois puxavam suas espadas um contra o outro.
‘E então, e Regina?’
Ferio tinha procurado Regina depois que ela fugiu, mas ela nunca ouvira dizer que o ex-Duque—que supostamente a amava mais do que seu próprio filho—havia ordenado essa busca.
‘Nem pensar...’
Ele sabia algo sobre Regina e Remus?
Ele sabia onde elas estavam?
Ele decidiu não procurar?
‘...Ele sabia de mim?’
O ano em que o ex-Duque e a ex-condessa morreram em um acidente... foi o mesmo em que Leonia nasceu.
“......”
Uma terrível hipótese cruzou sua mente, e Leonia rapidamente balançou a cabeça.
‘Isso não importa agora!’
Ela pressionou a mão contra o peito acelerado, tentando se acalmar.
Ela poderia perguntar a seu pai sobre essas suspeitas sombrias depois—depois que tudo acabasse.
‘Então, quem venceu?’
Ela não podia levantar as mãos em triunfo. Não—não queria.
‘Perdedores, todos eles.’
O pequeno bicho quis cuspir no chão.
Eles já estavam mortos—fantasmas que não tinham mais lugar neste mundo.
O fato de esses espectros lamentáveis ainda estarem presos ao mundo com seus arrependimentos era risível.
‘Somos nós quem ganhamos.’
Sua família, que arquitetou toda essa caçada—aquele que observava do lugar mais alto e puxava as cordas—eram os verdadeiros vencedores.
Os fantasmas derrotados podiam apenas se sentar e tragar seus dedos.
“Moça?”
Ardea olhou com preocupação para Leonia.
“Você está bem?”
“Só estou um pouco irritada.”
Leonia empurrou as sobrancelhas para trás casualmente, como se fosse algo sem importância.
Batida, batida.
“...Huh?”
O ritmo no peito dela ficou mais forte.
“Que diabo...?”
Ela achava que era só nervosismo por causa daqueles velhos chatos, mas a agitação no peito só aumentava—não diminuía, piorava.
“...O que é isso?”
Assustada com aquela sensação estranha, Leonia levantou de repente.
Sua cadeira virou para trás, e os papéis na mesa tremeram.
“N-Minha senhora!”
Ardea gritou com dificuldade.
“Seus olhos...!”
“Jovem senhora!”
Nesse instante, Tra chamou, em voz assustada.
“HáProblemas! Senhora...!”
Porém, Leonia não esperou para ouvir o restante. Correu direto para a entrada.
As presas do monstro que a consumiam dentro dela a impulsionavam—não, a arrastavam—para fora.
Lá estava Meleis, ofegando intensamente.
Ele mal conseguia olhar nos olhos de Leonia. Baixou a cabeça.
Era tudo o que ela precisava para entender tudo.
“...Traga minha espada e meu manto!”
Ela ordenou a Tra, que a acompanhara. Ele virou rapidamente e trouxe o que ela pediu.
Vestindo o manto e prendendo a espada na cintura, Leonia declarou:
“De agora em diante, vamos ao Palácio Imperial!”