Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 239

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


“Filha do marquês Ortio. Dê passagem.”


Ferio, com uma voz forçada para parecer calma, dirigiu-se a Unicia. Não havia tempo a perder.


Mas Unicia permaneceu firme.


“Sei o quão egoísta posso parecer. Mas o duque de Voreoti precisa estar presente nesta caçada!”


A próxima caçada envolvia muitos nobres com papéis designados.


Ferio, acima de tudo, era a figura central na operação em si.


Seu objetivo era destruir completamente a família Olor e passar o decreto que nomeava o príncipe Chrisetos como herdeiro ao trono. Era um momento crucial em que Voreoti deveria liderar a ofensiva, reforçando o poder do clã nobiliárquico.


A ausência de Ferio era simplesmente impensável.


“Isso não é o que importa agora—!”


Sem conseguir se conter, Ferio elevou a voz, fazendo com que Unicia congelasse de medo.


Ferio imediatamente se arrependeu. Gritar com uma criança—não importa o quão furioso estivesse—era inaceitável.


Porém, suas emoções estavam instáveis. Sua cabeça rodava, e a ansiedade o consumia.


As Garras da Fera que jaziam há tempos adormecidas estavam agora inquietas, buscando incessantemente pelo parceiro e criança desaparecidos.


“Minha mãe disse...”


Unicia falou, com a voz trêmula de lágrimas.


“Ela disse... que o duque é um ‘símbolo’. Ainda sou inexperiente, mas sei que, sem você...”


“...Hah.”


Naquele momento—


“Que droga de chatice.”


Leonia soltou uma risada sem energia, a voz carregada de amargura e zombaria.


'Ainda dançando nas cordas até o último instante.'


Uma voz ecoou em sua mente—e isso moveu seu corpo.


“Filha do marquês Ortio.”


“S-Sim!”


“O que o conselho precisa... é do ‘Duque’, certo?”


Leonia puxou Ferio pela gola e tentou arrastá-lo na direção dela.


Mas o corpo sólido e pesado de Ferio só a puxou para si.


“Ugh...”


Completamente envergonhada, Leonia calmamente endireitou seu rosto, como se nada tivesse acontecido.


“Então, basta eu fazer isto.”

Ela pegou a insígnia na casaca de Ferio—algo que ele usava sempre que desempenhava seus deveres como duque de Voreoti.


'A maldita profecia.'


Leonia zombou ao arrancá-la.

'Roube o título do seu pai.'


Finalmente, a profecia do duque Aust se realizou.


Leonia colou a insígnia na sua própria casaca e recuou.

“Agora isso é traição.”


“Leo, você...!”


“De agora em diante, sou o duque!”


Um homem patético, que não distinguia o que era público ou privado, não tinha autoridade para liderar Voreoti. Gritando esse absurdo, Leonia segurou a mão de Ferio e o arrastou até o Portão.


“Para acabar com essa traição de verdade, você deve ser banido para o Norte gelado.”


Antes de empurrar Ferio para dentro do Portão, ela sussurrou suavemente:


“Papai, vai.”


Eu irei logo atrás.


Com essas palavras, ela virou as costas.


Ferio olhou fixamente para a mão que escorregava de sua mão.


A mão ossuda de um órfão definhado.


A mão gordinha e macia de uma criança que cresceu linda e brilhante.


A mão calejada de um sucessor que suportara treinamentos e dificuldades implacáveis.


E agora—


“Filha do marquês Ortio.”


“...S-Sim!”


“Vamos lá.”


—Uma mão que liderava todas as outras, a mão de uma fera.


Ferio soltou uma risada breve. A sensação que invadia seu peito era uma mistura de orgulho, admiração—e uma pequena ponta de tristeza.


A filha que ele ainda considerava uma criança já estava no topo, abraçando todos ao seu redor.

'Está tudo bem agora. Posso confiar em você.'

'Você é a fera mais forte de todas.'

Que irritante que a profecia do duque Aust estivesse se mostrando tão precisa.


'Então meu papel está claro.'

Ferio virou-se em direção ao Portão.

'Preciso colocar a correia certa em Varia.'

E começou a preparar toda a irritação que iria despejar na esposa.


***


Assim que a Imperatriz Tigria saiu de seu escritório, ela hesitou.


“Olhe ali.”


As damas de companhia que a seguiam olharam pela janela.


“Não está o céu tão azul?”


A voz preguiçosa da Imperatriz fez as damas sorrirem.


O calor opressivo finalmente diminuiu—perfeito para uma caminhada.

“Preparem-se para um passeio, por favor.”


Ela ordenou para chamarem quando tudo estivesse pronto, e as damas fizeram uma reverência e se afastaram.


Exceto uma—uma dama de meia-idade que servia à Imperatriz há muitos anos.

“Vossa Majestade.”


“O Imperador morreu.”

A pálpebra de uma das olhos da Imperatriz piscou levemente ao ouvir a notícia inesperada.


“Seu corpo foi encontrado na praça. Confirmado como sendo o do Imperador.”

“Quem roubou minha glória?”


A Imperatriz falou com um sincero pesar.

Ela havia imaginado tirar a sua garganta inúmeras vezes, se preparando para isso—e agora a oportunidade lhe fora roubada.


“Remus Olor.”

“Faz sentido. Aquele lixo ainda pior.”


Embora ela zombasse com conhecimento, a voz da Imperatriz carregava uma profunda decepção.

“E...”—a empregada cochichou algo em seu ouvido—“Meu Deus.”


O rosto da Imperatriz escureceu—mas apenas por um instante.


Logo, ela chegou a uma porta. Quando a empregada a abriu, o aroma doce do chá invadiu o ambiente.

“Desculpe-me pelo atraso.”


A Imperatriz entrou e sentou-se.

“De jeito nenhum. Acabei de chegar também.”


De frente para ela, a consorte Usia arregalou os olhos.

“Embora eu deva pedir desculpas—já tomei uma xícara.”


“Como poderia não? Você não sabia quando eu chegaria.”

“Assim como, preparei o seu chá com antecedência.”


“Que gentil.”


A Imperatriz Tigria olhou para a xícara de chá à sua frente.

O aroma doce de antes vinha exatamente deste chá.


Os olhos da consorte refletiam-se na taça, estreitando-se.

“Consorte.”


A Imperatriz virou sua xícara de chá de cabeça para baixo.

“Você foi longe demais.”


A xícara virou-se delicadamente sobre o pires, e o chá derramado a molhou, transbordando sobre a mesa.

“A fragrância não lhe agradou?”


Usia tocou levemente o lábio inferior com o polegar e o indicador. Sua expressão preocupada e de desculpa não parecia sincera nem um pouco.


“Bom, deixe pra lá.”


A Imperatriz reclinou-se confortavelmente na cadeira.

“Que tal desistir agora?”


“Desistir do quê?”


“Eu gostava de você, sabia?”


Ela olhou para a poça de chá no chão, depois fixou os olhos na consorte.

O líquido agora se infiltrava pelo tapete abaixo.

“Eu também gosto de você, Sua Majestade.”


A consorte Usia deu um sorriso amargo e tênue.

“Então, desista também.”


“Você odeia tanto o Império assim?”


“Vossa Majestade.”

A consorte Usia baixou o olhar, como se evitasse os olhos da Imperatriz.


“Sou um bastardo da família Olor. Minha mãe foi assassinada por aquele homem.”


“Oh, meu Deus, por quê?”


“Por um colar.”

Havia muitos bastardos Olor, mas apenas uma garota com um colar de cisne era reconhecida como legítima.

E, por isso, sua mãe fora morta.

“Aquele homem me odiava.”

Ele ansiava pelo respeito de todos, mas tremia diante das consequências de seus atos.

Foi assim que o nome ‘Usia’ foi imposto à criança.

“Significa ‘parasita’.”

Olor tratou sua filha como uma parasita, e os servos, embora a admirem, evitavam-no por medo do que poderia acontecer.

Seu ‘irmão’, que deveria ser gentil, virou um animal ávido por prazer, que a alcançava com as mãos sujas.

“Não pude suportar e fugi. Felizmente, ele não me procurou.”

E ela conheceu alguém que amava.

“No começo fiquei assustadíssima. Mas ele e a família dele me confortaram. Foi a primeira sensação de calor desde que minha mãe morreu.”

Vieram crianças. Construíram um lar feliz.

“Quando se aproximava o dia de entrar na Casa Aust, fiquei feliz.”


“...”—ainda sem dizer nada, ela revelou.


“Não preciso dizer o resto, não é?”


“...Não.”


A Imperatriz não tinha paciência para se apegar às tragédias alheias com teimosia.


Silêncio caiu sobre a mesa.


Imperatriz Tigria desembainhou as pernas, trocando a posição, e tocou suavemente sua bochecha com os dedos, descansando-os contra o rosto.


A consorte a observou e perguntou:


“Você já odiou isso alguma vez?”


“O quê?”


“O Império. A família Imperial.”


E seu pai.


Naquele momento, a mão da Imperatriz parou.


“...Eu odiei isso sem parar.”


A respiração pesada que seguiu revelou anos de dor abafada.


“Ignoraram meus desejos e me forçaram a gastar minha juventude com aquele homem.”


“A vida de Vossa Majestade foi destruída.”


“Hahaha!”


A Imperatriz soltou uma risada tão zombeteira que assustou a consorte, que falava com preocupação sincera.


Contornando sua própria risada, a Imperatriz olhou para a consorte como quem admira uma coisinha fofa.

“Isso não é algo que vocês podem julgar.”

Ela limpou o sorriso e voltou a reclinar na cadeira.

“Sim, foi difícil.”

Mas ela tentou cumprir seu papel de Imperatriz.

Quando estava grávida do Chrisetos, decidiu separar-se de Ibex.

Porém, corações humanos não são tão fáceis de controlar.

“Sabe como é a aparência de Scandia?”

“Como eu saberia?”

“Graças ao duque Voreoti.”

Os olhos da consorte se arregalaram.

“Não é estranho? Acho que ele não quis, mas graças a ele, me reencontrei com Ibex.”

E uma nova vida se formou dentro dela.

“O duque Voreoti é como um padrinho para nossa segunda criança.”

Portanto, era seu dever ajudar na caçada dele. A Imperatriz levantou-se.

A consorte engoliu em seco. O movimento lento e autoritário encheu a sala de tensão.

“...Meridio já se infiltrou no palácio.”

A voz da consorte Usia ficou mais aguda.

“Vossa Majestade! Cometeu um erro! Nunca devia ter permitido que eles supervisionassem as reparações na zona de risco!”

“Ah, mas foi justamente isso que permitiu que eles entrassem tão facilmente, não foi?”

A Imperatriz deliberadamente deu a Meridio o projeto de restauração, para que se infiltrassem sob o pretexto de relatar.

“Um erro! Mesmo que Voreoti venha para impedi-los—!”

“Consorte.”


A Imperatriz a interrompeu.

“Estou um pouco decepcionada.”

“...”—ela ficou em silêncio.

“Eu achava que você era inteligente. Mas ainda é tão ingênua.”

Ela deu de ombros.

“Você acha que ficamos anos esperando só porque Voreoti é burro?”

“Ele só finge estar se preparando, exibindo-se, como se fosse cuidar da sua preciosa ‘caçada’.”

“Não.”

A Imperatriz corrigiu novamente.

“Voreoti... uma vez que fixam o olhar num presa, eles continuam até acabar.”

“E o final é a morte, não é?”

“De verdade?”

A Imperatriz respondeu com uma voz suave, como se explicasse verdades duras para uma criança de sonhos grandiosos.

“Morte é misericórdia.”

“...”

“Você não entende o mundo. Voreoti nunca se limita apenas a matar.”

Eles acabam com tudo.

“Qualquer coisa e qualquer um ligado ao Olor—a quem ajudou, ou teve alguma ligação mínima.”

Voreoti estava disposto a apagar a existência do ‘Olor’ do passado, presente e futuro.

“...Finalmente chegaram.”

A Imperatriz sorriu.

Foi só então que a consorte percebeu o barulho do lado de fora da porta.

“A fera que destruirá seus planos.”

E naquele instante, a porta foi escancarada com um estrondo.

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