Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 238

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


“Voreoti nunca vai me deixar em paz.”


De forma irônica, Remus tinha plena consciência de sua situação.


E Probo concordava fortemente com esse sentimento. Ele tinha visto inúmeras vezes, na prática, que seu senhor e a jovem senhora estavam totalmente decididos a eliminar a linhagem Olor.


Ele achava que Remus deveria se considerar sortudo por ainda estar respirando.


Remus deu de ombros, como se dissesse “Veja só”.


“Não importa o quão louca seja a família imperial, não há como eles estudarem superstições do norte há séculos desde a fundação sem algum motivo.”


Devem ter alguma certeza, se estavam dispostos a seguir essa loucura por centenas de anos.


E Remus sabia que essa ‘certeza’ vinha do conteúdo da tese de Ardea Bosgruni.


“Sabia disso? A família imperial já praticamente havia desistido das Montanhas do Norte.”


Então Ardea apareceu e reacendeu a obsessão de longa data.


“Isso foi apenas uma hipótese.”


Probo retrucou. O que Ardea tinha publicado não passava de uma análise acadêmica de alguns folclores orais regionais.


“Eu também pensava assim antes.”


O tom depreciativo de Remus vinha da absurdidade de, antes, simplesmente descartar tudo como superstição, só para agora estar fazendo essa loucura por causa dela.


Mas não havia como voltar atrás.


“Então cala a boca como sua dama fez.”


Remus sorriu torto e ergueu o queixo na direção de Varia.


Desde que atravessaram a muralha, Varia não proferira uma única palavra.


Seu olhar permanecia fixo na direção para onde estavam indo — ou seja, em direção ao Portão Norte.


“Minha senhora...”


Probo sentiu pena dela. Preocupava-se que ela estivesse se culpando pelo desfecho da situação.


Mas foi Remus quem tomou a criança como refém e os ameaçou. Varia apenas saiu por um instante para tomar ar, sob a desculpa de comprar um livro.


Probo deu um passo mais perto para consolá-la — mas de repente congelou.

'...Huh?'/p>

Surpreso, Probo esfregou os olhos e olhou novamente para Varia.


Naquele momento, Varia olhou para trás. Seus olhos se encontraram, ela sorriu docemente e inclinou a cabeça como se estivesse perguntando o que havia de errado.


Probo balançou a cabeça como se fosse coisa da cabeça dele. Varia voltou a olhar para frente.

'...Será que foi só minha imaginação?'


Talvez fosse apenas nervosismo.


Mas o arrepio que ele sentiu naquele instante passageiro insistia em não desaparecer.


“Chegamos.”


Remus parou.


Finalmente haviam chegado ao Portão Norte. Ironicamente, ficava bem perto do buraco de cachorro.


Depois de atravessar a floresta próxima à muralha externa e pegar uma trilha escondida, um amplo espaço se abriu.


O Portão, que até então ficava escondido, não se parecia com qualquer outro.


Dois pilares enormes, retorcidos, como se estivessem cerrados firmemente por uma força invisível. Entre eles, podia-se ver claramente a clareira e alguns edifícios distantes.


“Nos anais do Primeiro Imperador...”


Voz de Remus tremia ligeiramente no final.


“Diz que o quinto Portão nas Montanhas do Norte só pode ser usado por um Voreoti.”


“...”


Probo não sabia mais em que acreditar sobre esse império.


A ideia de tamanha bobagem estar registrada nos arquivos do Primeiro Imperador não o deixava zangado, mas vazio. Ele só conseguiu suspirar, sem acreditar.


A legitimidade da nação tinha sido engolida pelo próprio ápice que deveria sustentá-la.


'Ainda bem que somos um sistema federal.'


Se não, o império já poderia ter desmoronado.


De repente, sentiu uma estranha empatia por todos os senhores regionais, especialmente seu próprio mestre, por terem que suportar esse lunático.


“Então, Senhora Voreoti.”


Remus mais uma vez colocou a faca na garganta da refém.


“Conto com você.”


“Você realmente...


Pela primeira vez desde que entrou no palácio, Varia falou.


“...Quer ir ‘lá’?”


“-E-Essa, senhora?”


Probo olhou para ela surpreso.


Seu tom era estranho.

Ela falava no mesmo tom de sempre, mas o ritmo e a maneira de falar tinham ficado infantilizados.


Como uma menininha mimada.


“...”


Remus também achou estranho. Ele achava que ela tinha enlouquecido de vez, depois de ser consumida pelo medo.


“Se você está dizendo que vai desistir agora—”


“Se quer tanto assim, vamos.”


Varia colocou uma mão na cintura. Seu tom agora tinha uma alegria sinistra, quase assustadora.


Probo tremeu, mas por um motivo bem diferente agora.

“A gatinha viu, então agora temos que ir.”


“Senhora!”


Probo finalmente gritou.


Os padrões estranhos de fala de Varia lembravam os de Ferio, quando ele embaralhava as palavras e a gramática.


“Se todo mundo cala a boca?!


Remus berrou, e a refém começou a chorar com um soluço.


“Chega! Passa pelo Portão! Se não chegarmos às Montanhas do Norte, eu mato todos vocês—”


Clang.


Remus ficou parado, com parecer de espanto, olhando para a sua própria mão.


A mão que tinha acabado de ameaçar a refém com uma faca agora estava sendo segurada por Varia.


E a faca já jazia no chão.

“Waaaah!”

Naquele instante, Kea conseguiu se soltar e correr atrás de Probo, escondendo-se.


“O que diabos?!”

Perdendo a noção de tudo tarde demais, Remus tentou puxar sua mão livre.

“Solta de mim!”


Mas não conseguiu mover-se.


Probo olhou, incrédulo. Varia estava dominando Remus sem sequer mudar sua expressão.

Na verdade, ela sorriu — como se achasse Remus divertido.


“Quem realmente precisa ir são aqueles dois.”

Varia empurrou Remus quando ele tentou se soltar.

Ele caiu, como um boneco com os fios cortados.

“Você é quem tem que ir.”

Você matou. Então, quem tem que ir é você.


“Então vamos.”


Varia agarrou a mão de Remus e ajudou-o a se levantar. Ela até colocou a adaga de volta na mão dele.


Depois, ela entrou pelo Portão.


Enquanto Probo ficava parado, boquiaberto, uma voz pequena choramingou lá embaixo.

'...Estava preto.'


“O quê?”


“Os olhos dela... Estavam pretos...”

Kea descreveu o que tinha visto segundos antes.

Nessa hora, Probo percebeu que aquilo que vira não tinha sido engano.

'Era real!’

Os olhos verdes de Varia tinham se tornado completamente negros.


***


Quando Ferio chegou ao Portão, Varia já havia desaparecido.


O Portão permanecia ali como qualquer outro, enquanto Probo tentava acalmar uma criança às suas costas.


“Meu senhor!”


Probo o avistou e correu até ele.


“Waaah! Assustador! Assustador!”

Quando Kea viu Ferio, gritou assustado.


Surpreso, Probo parou no lugar.

“...Relato.”


Contendo a vontade de atravessar o Portão ali mesmo, Ferio olhou para Probo com olhos penetrantes.

“O-Então...”


Agora era Probo quem queria chorar. Um passo em falso diante de Ferio poderia custar a vida dele — ◆ Nоvеlіgһt ◆ (Apenas na Nоvеlіgһt) — talvez para sempre.


“Vou explicar.”


Unicia finalmente pronunciou, recuperando o fôlego.

Ela tinha usado magia para acompanhar o ritmo assustador de Ferio e agora estava um pouco exausta.


“Minha mãe ordenou que eu acompanhasse ela nesta caçada.”


Claro, dizer que estava ajudando a mãe era só uma desculpa.


Logo que Marquês Ortio entrou no Palácio de Kasus, Unicia começou a escanear o perímetro.

Ela precisava memorizar as rotas com os próprios olhos para cumprir sua missão.


“Mas senti algo estranho.”


Foi a primeira vez que ela percebeu algo tão bizarro.

Sentia-se puro e limpo. Uma criança com pouco mais de dez anos, pensou Unicia, que parecia brilhante e inocente.


E ainda assim, dava arrepios na espinha dela.

“Foi assustador — tão limpo que quase parecia que iria sufocar se me engolisse.”

O rosto de Ferio escureceu ao ouvir suas palavras.

'Não pode ser...'

Um pensamento atravessou sua mente, e o ar ao redor deles ficou mais cortante.

Agora até Unicia parecia à beira das lágrimas.

“Papai!”

A filha do marquês parecia prestes a chorar de verdade.


Naquele momento, o som de cascos rasgou o ar ao longe. Girando em direção ao ruído, viram Leonia galopando em um cavalo preto.


Graças à sua chegada pontual, Unicia conseguiu segurar as lágrimas.

“Minha senhora!”

Probo gritou aliviado, como um cachorrinho que finalmente vê seu dono.


“Minha senhora!”


Mas quando viu Leonia desmontar, coberta de sangue na camisa branca e no manto escuro, ele deu um grito de susto.

“Está bem?! Esse sangue — o que é?!”

“Não é meu, estou bem!”

Leonia afastou a preocupação de Probo e foi direto até Ferio.

“Ouvi o resumo rápido dos cavaleiros, pai.”

Ela indicou os cavaleiros que a acompanhavam.

Meleis, Paavo e Manus se aproximaram de Probo para trocar informações.

“Cadê minha mãe? Ela passou pelo Portão?”

“Sim.”

“Aquele desgraçado!”

Leonia bateu com força em uma das colunas do Portão.

“Deveria tê-lo morto antes!”

“Vamos direto para o Norte.”

“Eu vou também!”

“Meu senhor! Minha senhora!”

Exatamente quando o pai e a filha Voreoti estavam prestes a atravessar o Portão, Meleis correu e os deteve.

“Probo tem uma coisa importante pra dizer!”

“Não é hora!”

Leonia respondeu irritada, sem o tom habitual de respeito.

“Preciso que escutem. Vou ser rápida.”

Probo se recompôs ao máximo e fez seu relato rapidamente.

“Os olhos da minha dama ficaram negros.”

Ferio e Leonia ficaram boquiabertos.

Probo reforçou que não tinha sido uma ilusão — a criança refém também tinha visto.

“Ela também tinha algo estranho.”

“De que jeito exatamente?”

Ferio perguntou, apressado.

“Ela se comportou... assim como a jovem senhorita quando era pequena.”

“Eu?”

Leonia apontou para si mesma, incrédula.

“Ela agiu estranho. Assim que entrou no palácio, mudou. Murmurou coisas estranhas, sorriu sem motivo...”

O Varia na testemunha de Probo não parecia alguém que tivesse sido arrastada lá por ameaça.

“Será que ela ficou tão assustada que enlouqueceu?”

Leonia, cheia de preocupação filial, estava visivelmente ansiosa.

Se fosse realmente assim, ela prometeu cortar Remus em pedaços e alimentá-lo ao pai dele pelo buraco daquele portão.

Ferio, por outro lado, se manteve calmo.

Todos os sinais de agitação anterior tinham desaparecido.

“...”

Ferio pensava profundamente. Sua expressão séria deixava todos segurando a respiração.

Apenas Leonia mostrou impaciência.

Felizmente, a contemplação de Ferio acabou rápido.

“Vamos para o Norte.”

“Sabia!”

Leonia apertou o punho e comemorou.

“N-Não faça isso!”

Unicia avançou na frente do Portão.

“Meu senhor, o senhor não pode ir!”

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