
Capítulo 234
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Duas pessoas que absolutamente precisavam estar presentes na reunião nobre ainda não haviam chegado.
Naturalmente, todos os olhares voltaram-se para Ferio. Naquele momento, a pessoa de mais alta patente presente era o Duque de Voreoti.
“Eu não tenho autoridade para iniciar a reunião nobre, sabia?”
Ferio arqueou uma sobrancelha.
Organizar e conduzir a reunião nobre era estritamente responsabilidade da família imperial.
“Mas, se precisar de conselho...”
Ele encolheu os ombros como se estivesse oferecendo uma gentileza e continuou.
“Vamos esperar mais um pouco.”
Depois, recostou-se na cadeira e fechou os olhos.
“Se é isso que vocês dizem.”
Carnis concordou, colocando a mão no bolso. O que ele cuidadosamente puxou foi um retrato feito por [N O V E L I G H T] — de seus filhos.
Ferio imediatamente se arrependeu de ter falado.
“Vocês não fazem ideia do quão talentosa nossa Ufi é! Ela é praticamente uma artista profissional! E olhem só esse que Pinu fez! Ele até acertou a cor da minha sobrancelha...”
Enquanto suportava o orgulho sem fim dos comentários sobre os filhos do amigo, prestes a interrompê-lo com um comentário mordaz, as portas fechadas e lacradas se abriram e alguém entrou.
No começo, ninguém reconheceu quem era.
Mas não demorou para perceberem que o homem cansado e envelhecido era justamente o Visconde Olor.
“......”
“......”
Todos ficaram surpresos demais para falar.
O visconde, que já havia sido tão jovem que ninguém conseguia adivinhar sua idade, envelhecera além do reconhecimento.
Em um curto espaço de tempo, ele envelhecera — profundas rugas agora cobriam seu rosto, e sua pele tinha ficado seca e opaca.
Era fácil imaginar a quantidade de sofrimento que o Visconde Olor devia ter enfrentado.
Mas isso não era algo de que Ferio se importasse.
Pelo contrário, ele acreditava que aquele rosto grotesco e assustado era a verdadeira e vil aparência que Olor sempre escondia.
Enquanto ferio pensava assim, seus olhos automaticamente encontraram os do Visconde Olor.
O visconde, ao ver Ferio, rapidamente virou a cabeça e se sentou.
“V-Visconde Olor...”
“Boa tarde.”
Alguns nobres que tinham algum contato com ele se aproximaram cautelosamente para cumprimentá-lo.
Mas o visconde permaneceu em silêncio, com os lábios cerrados, olhando fixamente para o chão.
“Ei.”
Carnis fez um gesto na direção do visconde.
Olor, sentado sozinho e ignorando as saudações, continuava a murmurar para si mesmo.
Sua voz tremia e vacilava, repleta de um tom ansioso — claramente fora do normal. Era como uma oração fervorosa de um fanático perdido em algum culto.
De vez em quando, ele lançava um olhar para Ferio.
Às vezes, ele exibia um sorriso estranho, outras, virava a cabeça com terror.
Seu comportamento bizarro fazia até os nobres próximos recuarem instintivamente, desconfortáveis, e se afastarem.
“Será que ele finalmente perdeu a cabeça?”
Carnis murmurou. Até o Lobo Louco de Revoo achava essa loucura inquietante.
“Se continuar assim, será que ele conseguirá fazer as reparações de verdade?”
O Marquês Ortio, que havia se aproximado silenciosamente em algum momento, interveio.
“Marquês, você já recebeu a compensação?”
Carnis se lembrou de uma matéria de jornal que havia lido recentemente.
A família Olor havia pagado somas enormes de indenização a várias casas nobres — incluindo a do Marquês Ortio.
“Eu recebi pagamento pela fabricação de poções, mas ainda não fui compensado pelos danos causados durante o Ritual da Honra, quando seu filho insultou as habilidades do meu marido.”
O marquês sorriu de lado por trás de seu leque.
'Ela realmente os tira até o osso...'
Carnis comentou, rangeu a língua. Ainda assim, a devoção bem conhecida do marquês por seu marido tornava tudo isso compreensível. Se fosse ela, estaria se segurando bastante, considerando quanto estava suportando.
“Mesmo assim, há algo estranho nele.”
O Marquês Ortio estreitou os olhos para o Visconde Olor.
“Parece que ele não está sob efeito de nenhuma droga.”
Todos sabiam que o Visconde Olor tinha passado por momentos difíceis.
Mas envelhecer tanto em um curto período — algo grave deve ter acontecido.
“Vossa Graça.”
Omarquis Ortio murmurou.
“Dizem que está para ‘começar’.”
“A Imperatriz?”
“Ela está com a consorte.”
Nessas palavras, Ferio olhou para seu relógio de pulso. Hoje, ele usava o primeiro modelo que Leonia fabricou e presenteou a ele.
“......”
Ferio franziu a testa.
'...O que é isso?’
De repente, seu estômago embrulhou.
Na verdade, desde que o Visconde Olor entrou na sala — desde que ele se sentou e começou a agir de forma estranha, desde que seus olhares para Ferio tinham aquele sorriso perturbado — uma inexplicável sensação de pressentimento vinha se formando dentro dele.
'As Presas...'
Ferio colocou uma mão sobre o peito.
Desde a gravidez de Varia, as Presas da Fera permaneciam adormecidas, como um rato que dorme, mas agora estavam se mexendo.
Aquela movimentação misteriosa ficava cada vez mais forte, e agora até seus batimentos cardíacos estavam acelerando.
“O que há com você?”
“Vossa Graça?”
Carnis e Marquês Ortio perceberam que algo estava errado. Mas Ferio não tinha espaço para responder.
Sua respiração ficou difícil.
Algo estava errado.
As Presas tinham ajudado a prever inúmeros eventos, mas nunca antes fizeram Ferio se sentir tão ansioso.
Justo quando ele se levantou, incapaz de suportar esse medo estranho—
“...O que foi?”
Coincidentemente, o jovem herdeiro do Marquês Pardus também se levantou e se dirigiu à janela.
Ele deu uma feição de preocupação ao notar o tumulto crescente do lado de fora do palácio.
Sua expressão normalmente calorosa tinha ficado visivelmente séria.
“Agora que você mencionou, as coisas parecem estar um pouco agitadas.”
“Está acontecendo algo?”
“Se for, alguém deve estar chegando aqui também em breve.”
A atmosfera tensa do lado de fora agora começava a transbordar para a sala da reunião. Marquês Ortio e Carnis trocaram olhares significativos.
Somente Ferio permaneceu isolado naquele momento.
Ele podia ouvir Carnis chamando-o perto do ouvido.
Após várias tentativas sem resposta, a voz de Carnis ficou cada vez mais séria.
Mas Ferio ainda não respondeu.
Ele estava totalmente concentrado nas Presas da Fera, que rosnavam incessantemente dentro dele. Se relaxasse até um pouco sua concentração, parecia que as presas iriam explodir dele para fora.
Agora, junto com a ansiedade, Ferio sentia um choque de susto.
Na sua vida orgulhosa e bem planejada, esta era a primeira vez desde Leonia e Varia que ele tinha dificuldades em manter o controle.
“Com licença.”
Nesse momento.
Um leve apito, acompanhado de uma voz desconhecida, soou como uma batida na porta.
A porta se abriu logo depois. Mas ninguém apareceu.
“Com licença.”
Novamente, a voz anunciou sua presença. Só então os nobres olharam para baixo.
Lá estava uma criança, vestida com uma capa azul escura.
A criança fez uma reverência educada aos adultos, seus curtos cabelos azuis escuros balançando levemente.
“Saudações. Sou Unicia Ortio.”
Era nada mais, nada menos, que a filha do Marquês Ortio.
Ela explicou com firmeza que tinha vindo como parte do treinamento de sucessora e que atualmente atuava como secretária de sua mãe para a reunião nobre.
“Duque Voreoti.”
Então ela se aproximou de Ferio e falou.
“Seu assessor, Visconde Ricoss, diz que há uma questão urgente.”
“Visconde Ricoss?”
“Você vem comigo?”
“...Então, peço licença por um momento.”
Ao deixar a sala, Ferio passou pelo Visconde Olor e lançou um olhar para ele.
O visconde estava sorrindo enquanto assistia à saída de Ferio.
Um sorriso cheio de medo.
“Vossa Graça.”
Depois que eles se afastaram da sala da reunião, Unicia se virou para Ferio.
“Peço desculpas. O Visconde Ricoss na verdade não chamou por você.”
“Mas algo definitivamente está acontecendo.”
“Por favor, tente não se alarmar.”
Parando, Unicia olhou para ele com uma expressão séria e calma.
“Há pouco tempo, o filho do Visconde Olor passou pelo portão do palácio.”
Com a Duquesa de Voreoti.
***
Logo depois que Ferio saiu, Varia também começou a se preparar para sair.
“Eu quero ir também!”
Leonia se agarrou à perna de Varia e caiu no chão.
Desde que Ardea retornou à mansão, Leonia vinha recebendo aulas particulares todas as manhãs e não podia sair com Varia.
Varia riu da birra insistente da filha.
“Voltarei logo, então aproveite bem suas aulas, tá?”
“Não quero essas aulas de bobeira!”
“Se diz isso, a Professora Ardea vai ficar triste.”
“Humpf. O vovô vai ficar feliz e vai direto para a biblioteca, então!”
Leonia, que já tinha se levantado, ajustou a bainha do vestido de Varia enquanto falava.
Devido ao clima mais frio, Varia usava uma saia que gostava há bastante tempo.
Uma saia verde que combinava bem com seu cabelo cor-de-rosa.
Porém, seus sapatos tinham salto bastante baixo.
“Só estou indo buscar um livro que encomendou.”
Ela tinha recebido a notícia de que os livros que pediu tinham chegado a uma livraria que abria cedo de manhã.
Como Ferio não estava por perto, ela achou que era a oportunidade perfeita para respirar um pouco e dar uma saída rápida.
“Você poderia só mandar alguém...”
Leonia ainda não estava satisfeita com a situação.
“Mas, se não agora, quando Ferio hatcharia de me deixar sair?”
Nos últimos dias, Ferio vinha sendo extremamente sensível ao fato de Varia sair de casa.
Ele tentava impedir que ela fosse sozinha a qualquer custo, e se fosse inevitável, insistia em acompanhá-la ou enviava Leonia junto.
“Só vou pegar ar puro e já volto.”
Após ficar trancada na mansão durante todo o verão — com as poucas saídas limitadas ao jardim — Varia queria ver o mundo além dos muros da propriedade.
“Então, volte rapidinho, por favor.”
Compreendendo o quanto Varia devia estar se sentindo sufocada, Leonia desistiu, desde que ela levasse seus cavaleiros de escolta. Varia aceitou de bom grado.
Finalmente, entrando na carruagem, Varia virou-se para Meleis e disse orgulhosa:
“Quem será que deu na cabeça da Leo de ser tão preocupada?”
“Sem dúvida, o senhor dela, seu pai.”
“O Sir Levipes também acha isso, né?”
“Pode ser uma expressão dura, mas... às vezes é quase assustador.”
“Huhu.”
Varia deu uma risadinha suave.
“... Mas hoje, foi um pouco diferente, né?”
Ela então se lembrou da teimosia de Leonia mais cedo.
“Ela deitada no chão desse jeito.”
Embora resmungar e queixar-se fosse rotina diária de Leonia, se jogar no chão agarrada às pernas de alguém era algo inédito.
Ela ficou realmente surpreendida quando sua filha agarrou sua perna daquele jeito.
“Ela já fez isso com Sua Graça quando era mais nova.”
Meleis lembrou.
“Ela enganou ele e chantageou um cavaleiro para levá-la a cavalo, para encontrar seu perseguidor.”
“Já ouvi essa história.”
Era a história de Inseréa Hieina, a antiga perseguidora que agora era secretária na Casa Voreoti.
Leonia tinha contado com orgulho sua façanha audaciosa, mas Varia quase desmaiou ao ouvir a história.
“Dizem que Ferio a repreendeu severamente naquela época.”
“Ele a repreendeu duramente.”
Até mesmo Meleis tremeu um pouco, dizendo que nenhuma repreensão tinha sido tão severa quanto aquela.
“Eu teria feito o mesmo.”
Se ela estivesse na propriedade Voreoti na época, teria repreendido Leonia com a mesma severidade — ou até pior.
“Na minha opinião,”
Meleis falou,
“quando a moça se agarra a você ou a Vossa Graça assim, talvez seja uma forma dela expressar ansiedade.”
Ao ouvir a palavra ‘ansiedade’, os olhos de Varia se arregalaram.