
Capítulo 233
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Retrato?”
Varia, pega de surpresa pela resposta inesperada, perguntou novamente. Leonia assentiu e revelou o que realmente desejava.
“Um retrato meu, do papai e da mamãe juntos, como uma família.”
Ela explicou que queria pendurá-lo numa moldura grande, na passagem onde eram exibidos os retratos de antepassados de Voreotis. Enquanto falava, imitou o tamanho da moldura com os braços.
“E seria ótimo se fizéssemos isso todo ano, um retrato da família a cada ano...”
“... ”
“Você não quer?”
Leonia perguntou com cautela.
“...Como eu poderia não querer?”
Varia, profundamente emocionada, abraçou Leonia com força. Leonia retribuiu o abraço com igual intensidade.
Os serviçais próximos observavam as mãe e filha com olhos marejados de ternura.
“Que menina doce, Leona.”
Varia delicadamente afastou o cabelo da filha enquanto falava.
“Você sempre foi assim. Leona, você sempre me salvou e me fez feliz.”
Foi Leonia quem trouxe luz e esperança para o segundo capítulo da vida de Varia.
Ela foi quem a levou à fazenda de Voreoti, ajudou a se adaptar a esse lugar estranho e lhe ensinou o que significava ser amada.
Tudo—essa afeição preciosa, essa nova família—era graças a essa adorável criança.
‘Eu amo Leonia mais do que você.’
Varia lembrou do que Ferio uma vez disse durante a proposta de casamento.
Ele confessou que, embora seu amor por ela e pela criança fosse sincero, como pai, haveria momentos em que precisaria priorizar o filho.
Varia ficou profundamente tocada por isso.
Foi a primeira vez na vida que alguém fez uma confissão tão sincera e cuidadosa.
Se ele tivesse dito que a colocaria acima da criança, ela teria ficado decepcionada, e seus sentimentos poderiam ter se esfriado.
‘Agora entendo.’
Com alguém tão amável assim—como não priorizá-la?
Às vezes, as observações indecentes que cruzavam a linha e o amor obsessivo por músculos eram fontes de preocupação e apreensão...
Mas nada disso importava.
Leonia, apenas por existir, era uma filha preciosa e querida. Isso já bastava para perdoar tudo.
‘...Vamos ser corajosas.’
Varia tocou suavemente seu ventre.
‘Leona vai ser feliz.’
E ela decidiu.
Ela faria questão de fazer Leonia nunca se sentir negligenciada ou esquecida por causa do irmão. Protegê-la-ia de palavras insensíveis e prejudiciais, que poderiam surgir por causa da criança na barriga dela.
“Gostaria que o Ferio voltasse logo pra casa.”
“Papai? Ele acabou de sair.”
Leonia inclinou a cabeça, confusa. Varia sorriu suavemente ao ver aquilo.
“Quando toda a família estiver junta... quero dizer algo.”
***
“Gostaria de pedir férias.”
No instante em que a carruagem chegou ao palácio e Lupe desceu, ele manifestou o desejo que guardava no coração.
“Só durante a forte neve, enquanto Sua Graça e a mocinha estiverem caçando monstros.”
“Se alguém ouvir, vão pensar que estou trabalhando você até a exaustão.”
Ferio soltou uma risada seca.
Porém, Lupe lançou um olhar de desaforo para a nuca de Ferio, como querendo dizer: Que nada!
Mas até essa faísca morreu na hora, sob um olhar sério de Ferio.
O secretário pragmático cruzou as mãos de forma ordenada e, num tom mais respeitoso, continuou:
“Certamente, Sua Graça gostaria de um tempo tranquilo com sua família.”
Ele acrescentou que sua presença dificilmente tornaria esses momentos mais agradáveis.
Felizmente, Ferio pareceu concordar. Enquanto passava a mão no queixo de maneira pensativa, as esperanças de Lupe aumentaram.
“Tempo com a família é algo precioso.”
“Exatamente!”
“Pensando bem, tenho sido um pouco negligente com minha esposa e minha filha ultimamente.”
“De jeito nenhum.”
“Elas estarão ocupadas por um tempo agora.”
“...O quê?”
O sorriso de Lupe se quebrou como argila seca. Ferio, ao ver aquilo, sorriu com uma expressão de satisfação, curvando os lábios numa pose de superioridade.
“Enquanto eu descanso, alguém precisa trabalhar.”
Pensei que ia deixar você descansar também?
Lupe fechou os olhos com força, já percebendo que tinha cavado sua própria cova.
Ferio, indiferente ao desespero do secretário, virou seu olhar para o palácio à frente—tão quieto e calmo que era quase assustador.
“...Alguma notícia sobre onde eles estão?”
Pouco antes de entrar no Palácio Kasus, onde ocorria a reunião do conselho nobre, Ferio parou.
Lupe, arrastando os pés atrás de si, endireitou-se e respondeu.
“Peço desculpas.”
Ainda não havia sinal do imperador.
Mesmo com os Cavaleiros Imperiais, Voreoti, e Revoo vasculhando o palácio, nada foi encontrado.
Até então, Ferio achou aquilo impressionante.
Ele se matou?
Porém logo descartou essa hipótese. O imperador era o tipo de homem que mais se comovia com a própria situação e se assustava facilmente.
Ele não tinha coragem de tirar sua própria vida.
Então, alguém devia estar escondendo ele.
E essa alguém claramente era Olor.
Ferio perguntou sobre os movimentos recentes de Olor.
“De acordo com um relatório de um servo dentro da fazenda de Olor—que foi, é claro, disfarçado—ele está extremamente sensível. Já feriu quatro criadas de fúria.”
“Como sempre, seu forte é ser repulsivo.”
Atacando apenas os mais fracos—uma confissão de quão patético e covarde ele realmente era.
“Porém, o jovem mestre da Casa Olor está calmo.”
“...Calmo?”
Ferio parou de caminhar.
Lupe percebeu que aquilo soava estranho e soube que precisava ser honesto em seu relato.
“Desde a Cerimônia de Honra, ele se tornou violento. Reportaram que ele bateu na esposa com frequência.”
“Tch.”
Ferio soltou um suspiro curto, de pena pela cunhada.
Varia jamais deve descobrir.
Se sua esposa de bom coração soubesse disso, poderia ficar abalada. E sua ternura não deveria jamais ser desperdiçada com um cretino desses.
“Mas, recentemente, como mencionei, ele ficou um pouco assustadoramente calmo.”
“Será drogado?”
Lupe balançou a cabeça.
Ele está arquitetando algo?
Ferio recomeçou a caminhar.
O que se faz com uma águia caída?
Na mão de Olor, só havia um imperador que havia cortado suas próprias asas.
Trazi-lo de volta ao palácio seria um risco enorme. O poder no palácio já estava bastante concentrado na imperatriz.
Finalmente, os dois chegaram ao Palácio Kasus.
No grande salão onde o conselho nobre seria realizado, muitos nobres já estavam sentados.
Quando Ferio entrou, todos se levantaram em sinal de cumprimento. Ele aceitou o gesto como algo natural.
“Então, ficarei lá fora, então.”
Lupe falou a Ferio.
Sem ser listado como membro do conselho, ele teria que esperar o término da sessão.
“Quando voltarmos ao Norte...”
Ferio falou de modo casual às costas de Lupe.
“...Vou conceder aquela férias pra você.”
“Sua Graça...!”
Lupe, profundamente comovido, fez uma reverência repetidamente antes de sair.
“Você não está deixando meu irmão mais novo trabalhar demais?”
O jovem herdeiro do Marquês de Pardus, que assistia tudo, falou com um sorriso irônico.
“Você parece incomumente relaxado.”
Ferio torceu os lábios em desdém.
“Hoje, nem pense em ter a sorte de relaxar.”
Seu sorriso de escárnio fez os nobres próximos recuarem instintivamente.
Por mais que fosse involuntário, Ferio ficou bastante satisfeito.
Agora eles voltaram a temer Voreoti novamente.
E isso era bom. Quando o segundo filho nascesse, ele não queria que esses covardes perdessem o medo e espalhassem boatos ridículos que poderiam incomodar Leonia.
Se eles fizessem isso de novo...
...Talvez eu tente arranjar flores para decoração.
Uma fileira de flores “cabeças” ao pé das Montanhas do Norte ficaria uma exibição encantadora.
No final, flores eram conhecidas por acalmar o coração—perfeitas para focar nos cuidados pré-natais.
E nada de mais falar em músculos.
Na verdade, o maior problema de Ferio naquele momento não era o imperador nem Olor.
Era o plano de sua filha para a educação do futuro irmão.
Uma autoproclamada “benfeitora de músculos”, completamente obcecada, tramava criar o irmão para que fosse mais um degenerado.
Ferio ainda ficava tonto só de pensar na proposta de criação do dia em que Leonia a fez.
Ela ameaçou “comer terra antes de deixar alguém impedir que ela use roupa de treino justa”.
Aquela pervertida...
Palavras não a fariam desistir. Ela não abandonaria sua mania por músculos, não importa o que ele dissesse.
O segundo filho precisa ser criado de forma normal.
Havia tanta beleza no mundo—
Flores lindas. Grandes obras-primas.
E ainda assim, por que alguém gostaria de mostrar aglomerações grotescas de fibras musculares a um recém-nascido frágil e fazer esse bebê viciado nisso?
Ferio jurou nunca deixar seu futuro filho rir dos bíceps inchados de um cavaleiro.
A influência de Leonia era assustadora. Varia tentou uma vez “purificá-la”, mas acabou se apaixonando por músculos também.
E depois se apaixonou por Ferio.
...Devo estar preocupado?
Ferio vacilou por um momento.
“Que expressão é essa no seu rosto?”
Carnis, observando seu amigo com atenção, franziu as sobrancelhas.
Quando perguntou se podia sentar ao seu lado, Ferio assentiu sem hesitar.
Ainda havia tempo antes da reunião do conselho começar.
“O que há com a minha cara?”
“Você tinha um sorriso estranho, bem assustador, no rosto tão bonito.”
“...Um sorriso?”
“Pessoalmente, acho que a parte assustadora é mais forte.”
Carnis riu de coração.
“O que te fez sorrir assim? Estava pensando na sua filha?”
“...Talvez.”
De fato, ele pensava nela, embora mais preocupado com o caos que ela poderia trazer à educação do irmão. Ainda assim, acabou sorrindo sem perceber.
Até surpreendeu ele o quanto Carnis tinha adivinhado facilmente.
“Você sempre sorri quando fala da sua filha. Por isso, achei que era isso.”
“... ”
“Claro, quando se preocupa com os hobbies excêntricos dela, parece que o mundo vai acabar.”
“Infelizmente, essa é a segunda opção agora.”
“Ah, sério?”
Carnis riu novamente.
Ainda achava impressionante—Ferio, atormentado por sua própria filha. Mas isso o tornava mais humano, mais relacionável.
Ele uma vez segurou a mãozinha de Leonia e disse:
‘Acho realmente uma benção ela ter se tornado parte da família do Ferio.’
Nesse momento, Carnis percebeu—Leonia foi quem transformou a fera negra solitária do inverno em uma pessoa.
“Você está feliz, não está?”
Carnis perguntou.
“...Você comeu algo estranho?”
Ferio olhou com desconfiança. Carnis explodiu numa risada.
“Só estou dizendo o quanto me importo com você.”
“...Comecei a achar que Leonia me escolheu para você por algum motivo.”
“Ainda está jogando de casamenteira, jovem senhorita?!”
Carnis abraçou os próprios ombros e gritou. Sua exclamação foi tão delicada que os nobres próximos deram um salto de surpresa.
“Não chame de jogo de casamento.”
Mesmo assim, Ferio apoiou sua filha.
“Mas, brincadeiras à parte...”
De repente, um nobre, cauteloso, quebrou o silêncio lentamente.
“Não está ficando um pouco tarde pra isso?”
Já passava do horário marcado para a sessão do conselho.
E, mesmo assim, a imperatriz ainda não tinha aparecido.
Nem Olor.