Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 230

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.


Recentemente, o imperador vinha sofrendo de dores de cabeça incessantes.


Não eram apenas ressacas. Algo havia de errado.


A visão girava sem parar, e em seus ouvidos ecoava uma voz carregada de ressentimento, que não parava de falar. Até as alucinações o culpavam.


“Você tentou prejudicar meu marido!”


“Vou passar a minha vida inteira buscando vingança contra você.”


“Vou tirar tudo de você.”


“A família Imperial, Olor—tudo!”


A voz era familiar e, ao mesmo tempo, estranha, e prendia a garganta do imperador num nó.


“Haa... haaa...”


Baba escorria da boca do imperador enquanto ele ofegava, parecendo uma fera semi-consciente.


Na verdade, suas dores de cabeça terríveis e suas alucinações incessantes não eram apenas devido ao álcool.


Era o efeito colateral retardado da Alkina, a substância que a Concubina Usia tinha usado nele por anos, finalmente fazendo efeito.


Junto com suas ressacas, esse efeito provocava uma dor que parecia estar abrindo seu crânio ao meio.


Eventualmente, incapaz de aguentar, o imperador desabou no chão.


Se houvesse alguma sorte, era o frio do chão e a dor aguda dos cacos de vidro que o ajudaram a recobrar a consciência.


Se eu falhar aqui...


Seus olhos turvos tremiam.


Tudo está desmoronando...


O segredo de longa data da família Imperial estaria chegando ao fim inútilamente.


Por minha causa.


Por sua causa.


As vozes acusadoras em seus ouvidos lentamente mudaram de tom.


Por que você é tão incompetente?

Se ao menos tivesse metade das qualidades da filha do Duque de Voreoti...

Você ainda não é suficiente.

Pelo menos, atenda a metade das minhas expectativas...


O falecido imperador sempre culpou seu filho por não conseguir atender às suas expectativas.


Cada vez, o filho baixava a cabeça e apaziguava a situação em silêncio, ao зentender a força do golpe.


Mas agora, não havia mais necessidade disso.


CRASH!


“...Vossa Majestade!”


A porta se abriu de repente, e o criado que havia cochilado do lado de fora se assustou e se levantou de supetão.


Porém, ele não conseguiu se aproximar.


“O que...


O servo recuou horrorizado.


Depois de vários dias, ver o imperador novamente era—francamente—uma visão grotesca.


Seu rosto magro de tanto beber, os olhos vermelhos, os dedos trêmulos, baba escorrendo dos lábios—


—e ele estava coberto de sangue.


Era o sangue das feridas que ele tinha sofrido ao desabar sobre os cacos de vidro mais cedo.


Sem dizer uma palavra, o imperador passou por ele, com um passo lento e instável.


“Vossa Majestade! Para onde vai?!”


Finalmente recuperando o fôlego, o criado correu ao seu lado.


“Precisa de atendimento! Se sair assim, todos vão ficar chocados—!”


Percebendo a gravidade da situação, o criado colocou-se na frente dele.


Se o imperador saísse neste estado, seria uma catástrofe.


Reunindo sua pouca lealdade, o servo implorou.


Mas sua sinceridade não tocou o imperador.


O imperador balançou o braço, e o servo caiu ao chão.


“Urk!”


O servo tossiu sangue. Olhava com incredulidade para o líquido vermelho escorrendo de sua garganta.


“...!”


Ele chamou pelo imperador com uma voz trêmula, mas o gosto metálico na boca sufocou as palavras.


Onde quer que o imperador fosse, gotas de sangue ficavam para trás, como se acompanhassem cada passo.


Era o sangue do servo, que ainda se agarrava à adaga escondida na dobra do longo, que estava na manga dele.


***


Noite tarde.


Quando Ferio voltou para casa no auge da madrugada, fez uma careta.


“Leonia, o que você está fazendo?”


Enquanto passava pelo corredor, notou uma luz acesa em um dos aposentos. Lá dentro, Leonia estava sentada no chão, de pijama.


“Ah, já voltou?”


A criança simplesmente levantou a mão como cumprimento.


Com a outra mão, ela relaxadamente coçava a coxa e o lado como se não fosse grande coisa.


Espantado, Ferio chegou até ela.


“Você não está dormindo no meio da noite?”


“Não é nada. É só que…”


Ela se levantou, apontando para o que tinha estado fazendo.


“Não consegui dormir. Essa sensação de que algo estava errado não me largava.”


Havia mapas grandes espalhados pelo chão, pregados por todo lado, com linhas de caneta conectando-os.


“...Tsc.”

Ferio rangeu a língua.

Não por ela, mas pelo imperador, que havia levado sua filha a ficar acordada até tarde trabalhando.


O paradeiro do Imperador Subiteo ainda era desconhecido.


Obviamente, isso era mantido em segredo de alta prioridade. A Imperatriz ordenou silêncio entre os funcionários do palácio e enviou o atendente agredido para um setor isolado do palácio para tratamento.


De forma oficial, dizia-se que o imperador estava gravemente doente e em reclusão.


Enquanto isso, a Imperatriz mobilizou uma unidade de elite de cavaleiros imperiais para localizar o imperador.


Porém, alguns nobres já sabendo de seu desaparecimento — e até ajudando na busca.


Por exemplo, a Casa Voreoti.


“Algum progresso?”


Leonia perguntou se haviam encontrado o imperador. Ferio balançou a cabeça.


Ela parecia não estar especialmente decepcionada, como se esperasse isso.


“Você devia ter colocado um documento na parede,” disse Ferio, observando sua postura curvada. “Costas e pescoço devem estar doendo ao fazer isso no chão.”


Sentou ao lado dela e analisou o que ela tinha preparado.

“Alguma pista?”


“Marquei locais onde ele pode estar.”


Leonia apontou para o mapa da cidade.


“Os pinos amarelos indicam os lugares que ele visitou pelo menos uma vez. Os azuis, onde foi mais de uma vez...”


Ela explicou cada marca em detalhes.


O imperador tinha saído mais vezes do que o esperado—ele gostava de se exibir em público.


Porém, os lugares que visitou várias vezes eram bem poucos.

“E esses vermelhos?”


Ferio apontou para três pinos vermelhos.


“Locais ligados a Olor.”


As visitas recorrentes do imperador aos lugares marcados com °• N 𝑜 v 𝑒 l i g h t •° tinham um fator em comum: uma conexão com Olor.


“Conectado a Olor?”


Ferio estreitou os olhos, analisando o mapa.


O palácio já tinha vasculhado todos os possíveis esconderijos, e a propriedade de Olor também — mas o imperador não estava lá.


“Uma é uma empresa suspeita de lavagem de dinheiro para Olor. Outra é um restaurante de alto padrão no qual ele investiu. Essa última é uma galeria que ele patrocinou.”


“...E como você sabe tudo isso?”


Ferio raramente parecia surpreso—mas agora, mostrou-se impressionado.


Mesmo ele só tomara conhecimento dessas localidades através de um relatório recente de Lupe.


Ainda não tinham sido reportadas à Imperatriz—Ferio planejava enviar os Cavaleiros Gladiago para uma operação sigilosa.


“Minha mãe me contou.”


Leonia trouxe a fonte da informação.

“Ela rastreou os fluxos financeiros de Olor quando trabalhava no Tesouro.”


Varia, ao recordar esses registros, tinha apontado facilmente os três locais.

Deveria tê-la contratado como secretária, não como tutora, pensou Ferio.

Ele ficou mais uma vez impressionado com sua capacidade. Os documentos sobre corrupção entregues por ela, do grupo do Imperador, tinham sido meticulosamente compilados.


Quando voltarem ao Norte, devia perguntar se ela consideraria trabalhar como minha secretária.

Ser apenas duquesa parecia desperdício para ela.


“Na verdade, ela estava me ajudando há pouco tempo.”


Ferio olhou para a filha.

“Mas ela acabou adormecendo...”


Varia estava bem há poucos instantes. Leonia a carregou até a cama, quando ela de repente cochilou.


“A mamãe realmente não está se sentindo bem?”


A pequena beastie perguntou com um leve tom de preocupação.


“Ela parece extremamente cansada ultimamente e foi assim de repente.”


“O médico veio hoje?”


Ferio perguntou. Leonia assentiu.

O médico que veio naquela manhã examinou Varia e disse que não havia nada de errado.


“Ela está apenas muito fatigada. Disse que ela deve comer alimentos nutritivos, evitar muito trabalho, fazer caminhadas no jardim e descansar bastante.”


Ferio apenas concordou com a cabeça.


Era gravidez mesmo.

Ele suspeitava disso há algum tempo.

A Fera de Presa—que por um tempo foi uma extensão dele—ficava quieta sempre que ele se aproximava de Varia.

Quando ele as convocava cautelosamente perto dela, se dissipavam tão rapidamente que o assustava.

Sabia que as Presas enfraqueciam quando a parceira ligada estava grávida—mas experimentar isso na prática era chocante.

Por pouco tempo, porém.

Agora, Ferio se encontrava dividido.

Sentia alegria ao pensar na chegada de um novo membro à família.

Mas também se preocupava com Leonia—o que ela sentiria, se se machucasse ou fosse deixada de lado?

E havia a questão da percepção pública.

A criança entre ele e Varia seria herdeira legítima.

Ferio temia que os reles que menosprezavam Leonia por ela ser uma “filha ilegítima” agora contestassem seu direito à herança.

Ele sabia que ela era sensível a esse tipo de comentário.

Ela já tinha ouvido essas coisas desde pequena—e seu orgulho pelo nome Voreoti era imensurável.

“...Leonia.”

Ferio falou em tom suave.

“O que você acha... de ter um irmão ou irmã mais novo?”

“Irmão(a)? Do nada?”

Os olhos de Leonia se arregalaram. Ela tinha acabado de planejar como derrotar o imperador uma vez que o pegassem.

“Mamãe está grávida? É por isso que está tão cansada?”

“Não, nada disso. Só estou perguntando ‘e se’.”

Pelando pelo que o médico disse, Varia provavelmente já sabia.

Mas ela ainda não tinha contado para Leonia.

Ela deve estar pensando exatamente o que eu estou pensando...

Varia provavelmente estava preocupada que a notícia da gravidez pudesse machucar Leonia.

E, de forma estranha, Leonia—que geralmente é tão exigente com as pessoas—acabou se afeiçoando a Varia instantaneamente.

Varia, por sua vez, genuinamente gostava de Leonia. Ela tinha ficado com ela até ela quase desmaiar de sono.

Claro que ela estaria cautelosa ao compartilhar a notícia.

“Um irmão ou irmã...”

Leonia cruzou os braços, pensativa, e então assentiu.

“Bem, já estaria estranho se não tivesse um até agora.”

Ela olhou de lado para Ferio.

“Se você tem feito isso tanto e ainda nada, talvez o problema seja sua fertilidade.”

“...Quer dizer que eu talvez não tenha filhos?”

Ela perguntou com uma expressão de pena.

“Será que é por isso que até agora não tivemos notícias?”

“Minha autoconfiança vem do fato de eu ser muito fértil.”

Ferio, com o orgulho ferido, se gabou de sua excelente fertilidade.

“Se eu não me segurasse, vocês já teriam três irmãos mais novos correndo por aí.”

“Uau. Quem estivesse ouvindo ia pensar que quem está dando à luz sou eu.”

Rindo, Leonia parou para considerar a ideia de ter um irmão ou irmã.

“Hmm...”

E, então, respondeu:

“...Vou criá-los!”

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