
Capítulo 223
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Isso realmente te incomoda mais do que tudo?”
Não é o resto?
Ferio ficou sem palavras diante das atitudes descaradas da filha e, por fim, fechou a boca.
Não era a primeira ou segunda vez que Leonia era um pouco esquisita, e a maioria das coisas ele conseguia engolir com um amor paternal transbordante ou aceitar como o peso de tê-la trazido à sua vida —mas hoje, era um desafio.
“Vai logo e diz ‘meu filho’ ou ‘nosso filho’!”
Leonia deu um tapa em seu próprio antebraço e protestou alto, mas Ferio teimosamente fingiu não ouvir.
“Se não, vou apresentar a Mamãe aos músculos de outro cara!”
“E quem poderia ser mais impressionante do que eu?”
Ferio bufou pelo nariz.
“Oppa Manus tem mais músculos do que você, sabia?”
“Mas ele não tem o rosto bonito.”
“...Por que esse oppa não é mais bonito que meu pai?!”
Leonia deu um golpe na própria coxa, frustrada —mas, é claro, Ferio já tinha estendido a mão e pegado o golpe antes que tocasse nele.
A princesa Scandia observava silenciosamente a relação selvagem entre pai e filha.
“O antídoto para o efeito colateral.”
Ela finalmente falou baixinho.
“Vou devolver sem falta.”
Ela acrescentou, gentilmente, que eles não precisavam mais brigar.
Ferio e Leonia, que haviam acabado de discutir, piscaram surpresos e olharam para a princesa, incrédulos.
Marquês de Hesperi, ao seu lado, tinha uma expressão igualmente atônita ao olhar para a neta.
“...Vossa Alteza, a Princesa,”
Leonia inclinou a cabeça.
“Você é inesperadamente meio… lerda, né?”
“Não é verdade.”
A princesa balançou a cabeça em negação firme.
“Não deveria dizer isso sozinha, mas sou bastante cautelosa e rápida de raciocínio. Se fosse lenta, minha identidade já teria sido descoberta faz tempo.”
“De fato.”
Não ser descoberta de verdade era um verdadeiro milagre.
Leonia ficou tão perplexa que se sentiu vazia. Agora, pensando bem, o fato de a identidade da princesa não ter sido revelada era pura sorte.
‘A imperatriz sabia, porém.’
Uma das coisas que Leonia aprendeu na conversa com Salus foi que a Concubina Usia tinha tido conhecimento desde sempre sobre a identidade da Princesa Scandia.
Se ela tivesse falado, todo o segredo teria vindo à tona —sem dúvidas.
E então, a imperatriz e toda a facção ocidental teriam sofrido um golpe enorme.
Todo o plano teria desmoronado.
‘Que absurdo...’
Antes que percebesse, seus pensamentos se desviaram para a Concubina Usia —e para o Sul.
Leonia cruzou os braços e franziu a testa. Seus lábios se projetaram um pouco em um bico de descontentamento.
‘Tenho a sensação de que não vou ficar satisfeita até dar uma lição adequada ao Sul.’
Como eles ousavam tentar usar o Norte.
E agir como se nada soubessem.
O orgulho da próxima duquesa, que realmente amava o Norte, jamais perdoaria o arrogante Sul.
“......”
Ferio observava sua filha em silêncio.
Mas seus lábios se curvaram sutilmente, como se já soubesse exatamente o que ela pensava. Seu olhar era inconfundivelmente orgulhoso.
‘Que cena rara essa.’
Marquês de Hesperi achava Ferio absolutamente fascinante. Ferio, que raramente confiava em alguém, claramente tinha plena fé e afeto por sua filha —isso era evidente em tudo nele.
E com isso, o marquês sentiu uma pontada de arrependimento —sabendo que falhara em fazer o mesmo por sua própria filha no passado.
“Enfim.”
Depois de concluir seus pensamentos, Leonia se virou para a Princesa Scandia.
“Como você quer morrer?”
A pequena fera decidiu resolver primeiro a questão mais importante.
***
[ISSO REALMENTE ESTÁ OKAY]
A manchete do jornal estampada na capa não tinha um sujeito.
Mas todos sabiam quem era o sujeito desaparecido.
Era ninguém mais, ninguém menos que a Família Imperial do Império Bellius, atualmente bombardeada por uma crise após a outra.
“Como podem ter tanta azar...”
Um alguém, ao passar as páginas, comentou que parecia que toda a má sorte do mundo tinha se concentrado ali. Outros concordaram, balançando a cabeça.
“Hoje em dia, certamente estão amaldiçoados.”
“Amaldiçoados?”
“Claro, pelo Norte!”
Alguém olhou ao redor e abaixou a voz numa conspiração.
“Todo mundo sabe que a Família Imperial tentou manipular o Norte para controlá-lo.”
“Pois é...”
“Ouvi dizer que o Norte perdeu a cabeça.”
“Eu também perderia.”
Depois do Rito da Honra, o Norte pediu que a Família Imperial investigasse as circunstâncias suspeitas da infiltração de Remus Olor.
Mas o palácio permaneceu em silêncio, não fez nada.
Então, o Norte desistiu de solicitar oficialmente —e iniciou sua própria investigação.
E quase como se tivessem esperado por isso, eles agiram rapidamente e divulgaram tudo o que descobriram.
Remus, quando era cavaleiro sob a Ordem Imperial, tinha se infiltrado no Norte. A razão? Uma superstição passada entre os habitantes locais.
Uma superstição que até os nortistas consideravam um folclore —que o levou a invadir o laboratório do Professor Ardea Bosgruni e tentar roubar seus dados de pesquisa.
Por causa disso, a investigação original foi completamente insuficiente, e, eventualmente, alguém tentou matar o professor.
Há até suspeitas de que isso acontecia há bastante tempo.
“...Então, qual é essa superstição?”
Alguém que ainda não tinha lido o artigo completo perguntou.
“É sobre a Fera Negra.”
“A Fera Negra?”
“Eles se referem às Presas da Fera.”
A superstição que obcecava o palácio era uma “mitologia de criação” de conhecimento exclusivo do Norte.
Segundo ela, a serra montanhosa ao norte, fronteiriça com o Território Voreoti, era perigosa e traiçoeira por causa de um “deus” que supostamente habitava além dela.
“Sabe como só o Norte tem monstros nas montanhas? Dizem que são provações enviadas pelo deus.”
“Provações? Que tipo?”
“Algo como testar a qualificação ou algo assim...”
De acordo com o mito Norte, os deuses criaram os humanos à sua imagem.
Renas, lobos, ursos brancos, iaks —
E bestas.
Entre elas, a besta era a mais querida pelos deuses, que a coloriram de preto —sua cor própria— e lhes concederam poderes especiais.
Era esse poder sobrenatural chamado Presas da Fera.
As feras negras tinham a missão de proteger o domínio do deus. E toda vez que as brutais nevascas cessavam, elas subiam as Montanhas do Norte.
Lá, o julgamento vinha na forma de criaturas monstruosas enviadas pelos deuses para testar sua força. Quando as Feras Negras as derrotavam, passavam nas provações.
Por fim, elas subiam ao cume e encontravam os próprios deuses.
No infinito plano negro.
Onde os deuses habitavam.
Bens que pareciam feras — pais de todas as feras.
“......”
“......”
Aqueles que ouviram esse mito ficaram em silêncio.
“Então a Família Imperial...”
Todos ficaram boquiabertos, quase sem conseguir soltar uma risada amarga.
“Quer dizer que eles se apegaram a esse mito ridículo e fizeram todo esse teatro?”
Surpresa por o palácio ter perdido a razão por causa de uma fantasia absurda e supersticiosa, o público ficou sem fala.
Confiança deles foi destruída —não com raiva, mas com exaustão impotente.
“Isso é um escândalo!”
Finalmente, alguém gritou.
“Neste momento, a própria filha deles — Sua Alteza a Princesa — foi sequestrada por bandidos e ninguém sabe se ela está viva! E eles gastaram dinheiro do povo nessa loucura?!”
Rapidamente, a indignação se espalhou.
A princesa Scandia, que tinha partido ao sul para uma reunião de casamento, ainda estava desaparecida.
Desde que foi sequestrada pelos bandidos, nenhuma pista foi encontrada.
Tudo que restou foi o vestido que ela usava.
Naturalmente, as especulações sobre onde ela estaria passaram a correr desenfreadas.
E cada teoria era algo horrível e escandaloso.
“Ainda não enviaram uma equipe de busca?”
“Estão loucos? É a filha deles, independente de serem frios assim.”
“Isso tudo é obra do Olor de novo?”
Dentre as informações que Voreoti descobriu, estavam indícios de cooperação entre a Família Imperial e a Casa Olor.
Provas compiladas pela duquesa de Voreoti, quando ela trabalhava no Tesouro.
Embora algumas já tivessem vindo à tona durante o escândalo do projeto da estrada, desta vez o foco era a suspeita de colaborações entre o palácio e a Casa Olor.
O imperador atual tinha investido grande quantia na Casa Olor sob a justificativa de desenvolvimento nacional.
Mas toda essa grana foi usada para espionagem —para vigiar o Norte e extrair informações.
E não parou por aí: havia esquemas de desvio de verbas, evasão fiscal, fundos ilegais.
Até uma tentativa de tráfico de monstros há seis anos, antes escondida, veio à tona.
Resumindo, o imperador atual era um ninho de corrupção.
“Deveriam era usar esse dinheiro para acabar com os bandidos, não para construir estradas!”
“Ouvi dizer que o Marquês de Hesperi levantou essa questão na assembleia nobre?”
“Mas o setor imperial bloqueou.”
“Além disso, as províncias já estavam cuidando das próprias estradas!”
“E esse aí, que supostamente é o imperador?!”
Ele devia renunciar imediatamente!
A fúria pública agora se voltava completamente para o imperador. Exigiam sua abdicação e a coroação de outro governante.
“Claramente, tem que ser o Segundo Príncipe, filho da Imperatriz!”
“O sangue de Olor nunca deve subir ao trono!”
“Aquela mulher vulgar vendeu a filha para conquistar o título!”
“A imperatriz e o Primeiro Príncipe também precisam ser depostos!”
“Coroar o Segundo Príncipe como herdeiro!”
O clamor pela coroação do Segundo Príncipe aumentava a cada dia. E, junto com isso, cresciam as exigências de remoção do imperador.
Mas ele permanecia impassível.
Não abandonou Olor —e não enviou uma equipe de busca por sua filha.
***
Remus Olor entrou no palácio.
No começo, ninguém percebeu sua chegada.
Em vez do carruagem grandiosa e vistosa que costumava ostentar, ele veio numa carroça modesta, vestido com roupas simples e sem traços de luxo.
“Espere, aquele cabelo vermelho...”
“...Ei, não é ele?”
Servidores do palácio que passavam por ali estremeceram de horror ao reconhecê-lo.
“É o Remus, né? Remus Olor!”
“Nem brinca... É ele mesmo?”
A face antes jovial que desafiar a idade agora parecia completamente cansada e envelhecida.
A pele dele estava seca e opaca, novas rugas escorriam no rosto, e olheiras escureciam seus olhos vermelhos de sono.
Ele ainda exalava um mau cheiro —como se não tivesse se banho há dias —mesmo tentando disfarçar com uma dose pesada de perfume, o que só agravava a situação.
Sem demora, Remus seguiu direto para o imperador.
“Vossa Majestade.”
Um camareiro chamou pelo Imperador Subiteo.
Mas nenhum retorno veio.
“...Vossa Majestade.”
Ele chamou de novo, desta vez com mais cautela. Então—rum-pum! —um barulho vindo de dentro do aposento.
O camareiro mal conteve o calafrio e suspirou silenciosamente.
O estado de humor do imperador vinha sendo instável recentemente. Não era incomum que ele se irritasse e ignorasse visitantes.
“Talvez seja melhor você voltar outro dia...”
Sugeriu educadamente.
Porém, Remus não se mexeu.
Ele apenas encarou a porta com os olhos vermelhos de cansaço.