
Capítulo 207
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Remus estava ali, atordoado, com uma mão na bochecha ensanguentada onde a pele havia se rasgado.
Ele nunca imaginou—nem nos sonhos mais loucos—que Varia fosse lhe acertar. Ela sempre parecia aterrorizada com ele, afinal.
Mas agora, ela parecia uma pessoa completamente diferente.
Não, nem mesmo uma pessoa.
“Por mais insano que alguém fique, há um limite!”
Para Varia, Remus já não parecia mais humano.
Como poderia cada palavra que saía da boca dele ser tão repugnante e vil? Ele era um lixo. Um produto defeituoso que precisava ser jogado fora imediatamente.
“Se o que você disse é verdade!”
Varia rosnou.
“Então a Lady Regina deu à luz o Leo aos dezoito anos! Ela era menor de idade quando engravidou!”
E você ainda ousa chamar isso de amor?
Você chama de algo precioso e alegre?
“Uma união entre duas famílias? Um propósito grandioso além da compreensão?”
Enquanto Remus tentava se levantar, Varia o chutou forte no peito.
Ele caiu novamente. Uma espécie de gemido estranho escapou de seus lábios.
“Nossa…”
Leonia murmurou admirada.
“Isso deve ter doído.”
“Ela tem uma ótima técnica de chute.”
Apesar da situação, Leonia e Ferio—que estavam perto—permaneceram totalmente tranquilos.
Nem um deles fez qualquer esforço para intervir. Ferio até cruzou os braços, sorrindo de satisfação.
Naturalmente, a confusão imediatamente chamou a atenção de quem andava pelo corredor do palácio.
“O mundo inteiro sabe que você gosta de menores!”
Não era segredo que Remus tinha uma atração sexual por garotas menores de idade.
Todo mundo sabia disso. Só fingiam que não. A família dele—Casa Olor—era uma das mais poderosas do Império.
“Você queria se casar com minha irmã mais nova só porque ela era mais nova que eu!”
“Ugh…”
Leonia franziu o rosto, com uma expressão fechada.
Ela não esperava que um segredo tão nojento estivesse por trás do noivado entre as casas Erbanu e Olor.
“Lota tinha apenas dezessete anos na época!”
“Então esperei ela virar adulta…”
Remus gaguejou ao tentar se levantar.
A boca ensanguentada já não sorria. Seus olhos vermelhos brilhavam ferozmente para Varia. A expressão gentil e inocente que antes tinha estava desaparecida.
Mas isso não intimidou Varia.
“Você esperou até ela ficar adulta…”
“Você não devia ter proposto o casamento de início!”
Sete anos e meio e ela ainda tinha menos de vinte?
Varia, prestes a gritar novamente, ficou ali, fervendo de raiva, com o punho cerrado no ar.
“Você é nojento, toda a sua família é nojenta, e meus pais, que venderam a própria filha para vocês, são igualmente nojentos.”
No final, aquele noivado só aconteceu porque o Conde Erbanu e sua esposa concordaram com o pedido de Remus—para a mais nova, Lota.
Nem um pai decente aceitaria isso.
Nem um adulto honesto deveria fazer uma coisa dessas.
“Seu filho da mãe…!”
Varia finalmente levantou uma mão bem alta.
Seu dedo do meio apontou para o céu, como as Montanhas do Norte.
“Vai se engasgar com isso e apodrecer no inferno!”
capa
Remus hesitou, mas o pai e a filha Voreoti ao lado dele ficaram completamente chocados com aquele gesto inesperado.
“Mãe! Onde você aprendeu isso?”
“Leo, foi você, não foi?”𝗳𝚛𝗲𝕖𝕨𝕖𝗯𝚗𝚘𝕧𝕖𝗹.𝗰𝗼𝕞
“Pai! O que é que você está dizendo?”
Mas nenhum deles teve a chance de detê-la.
“Você não vale nada!”
Varia levantou a outra mão também, bem alto.
“Duas e vá se catar no inferno!”
Duas gestos do dedo médio pareciam capazes de perfurar o teto do palácio imperial.
“…Pfff!”
E, de trás da janela, o Príncipe Chrisetos—que assistia toda a confusão à escondidas—não conseguiu mais segurar sua risada.
“Puhahaha!”
Ele rolou no chão, batendo o chão de tanto rir.
“A duquesa é hilária!”
Ele ficou verdadeiramente impressionado com o lado mais selvagem da duquesa, que sempre parecesse tão elegante, gentil e adoravelmente arredondada.
“Caramba, Olor levou uma bordoadona.”
“Se continuar rindo, vai acabar sendo descoberto.”
A Princesa Scandia, disfarçada de uma de suas guardas, deu uma advertência casual.
“Você não vai parar com isso?”
O Príncipe Chrisetos virou-se para perguntar ao Príncipe Alis, que ficava ao seu lado assistindo silenciosamente.
“Ele ainda é seu tio.”
“……”
“Bom, acho meio embaraçoso ter um tio pedófilo, né?”
Em vez de responder, o príncipe Alis virou-se e foi embora, com a expressão distorcida, como se não pudesse mais suportar assistir àquilo.
“Isso foi tão satisfatório.”
O Príncipe Chrisetos voltou a olhar pela janela.
As coisas tinham acalmado um pouco. Varia limpava as mãos enquanto se virava, com Leonia e Ferio ao seu lado.
Remus, ainda na ala, se levantou cambaleando e cuspiu na direção da família Voreoti, que tinha saído. Um gesto realmente patético.
“Sabe…”
O Príncipe Chrisetos se dirigiu a Scandia.
“Acho que estamos envolvidos em algo grande.”
“Você quer dizer o que aconteceu na viagem ao Oriente?”
“Parece que sim.”
Voreoti é algo pra lá de especial.
O príncipe deu um leve calafrio.
“Algo grande vai acontecer.”
“Tudo vai ficar bem?”
A Princesa Scandia falou com tom de preocupação. Seu olhar estava fixo somente em Leonia, que andava ao lado de Varia.
“Cuide-se você mesma.”
Chrisetos deu um leve tapinha no peito da irmã.
“Você também vai ter problemas vindo pra você.”
***
“Me desculpe de verdade, de coração, eu sinto muito…”
De volta à mansão, Varia abraçou Leonia com força, pedindo desculpas várias vezes.
“Fiquei tão nervosa mais cedo, nem percebi o que estava fazendo. Será que estraguei alguma coisa? Disse algo que não devia?”
“Está tudo bem, mamãe.”
Leonia consolou a mãe preocupada.
“Mãe, você foi incrível lá!”
“Você foi maravilhosa.”
Ferio também elogiou.
Ele até disse que ela estava linda naquele momento—e colocou beijos suaves em todo o rosto dela. Espalhou beijos, como pequenos sinais de carinho, um após o outro.
“Ei, eu estou bem aqui, sabia?”
Leonia empurrou rapidamente os pais para o lado.
Honestamente, essa criança madura tinha muita dificuldade—precisando interromper seus pais toda vez que trocavam olhares e começavam a agir como adolescentes apaixonados. Seu suspiro era pesado.
“Você foi realmente maravilhosa lá atrás.”
Ferio sorriu, confessando o quanto tudo tinha sido satisfatório. Por fim, Varia sorriu aliviada, seu corpo relaxando após a tensão desaparecer.
“Mas, de verdade, ele estava tão confiante.”
Leonia lembrou-se de como os Olors tinham aparecido no palácio imperial.
“E depois, teve a coragem de jurar pela honra do Império.”
“Deve ter um atestado de loucura.”
Ferio chamou isso de um método impressionante de suicídio.
“Eu até tinha ouvido falar, mas nunca vi alguém fazer de verdade.”
Leonia se recordou do que estudara na aula.
Era chamado de ‘Rito da Honra’.
Um nobre colocava toda a sua honra em jogo perante o Imperador e declarava algo como verdade — diante de todos os outros nobres.
O Imperador servia como testemunha do que se passava a seguir.
Por lembrar que se assemelhava a oferecer um sacrifício a um deus e orar com fervor, esse rito tinha esse nome.
Se a alegação do nobre fosse verdadeira, ele ganharia ainda mais prestígio.
Se não fosse…
“Eles acabam pior do que mortos.”
Varia, agora mais calma, explicou.
“Um nobre que for pego mentindo nunca mais pode mostrar a cara na sociedade nobre.”
“Humm…”
Leonia imaginou a cena.
Não poder voltar à sociedade nobre significava nunca mais poder viver como antes.
Ela compreendia o quão devastadora poderia ser uma queda dessas.
Pois tinha vivenciado isso—no orfanato.
‘...Não.’
Talvez fosse muito pior do que sua experiência no orfanato.
O mundo continuaria igual—mas tudo no mundo se voltaria contra eles.
“Assustador, não é?”
Ferio disse, observando a testa de sua filha franzir ao imaginar a situação.
“Por isso, a maioria dos nobres não faz isso.”
“Muitos preferem passar por um julgamento caro mesmo.”
Varia concordou, mencionando a tendência atual.
“Eu também faria.”
A criança assentiu às palavras dos pais. O risco era grande demais.
“Mas, mamãe.”
Leonia virou-se para Varia.
“Você realmente está bem?”
“Hm? Sobre o quê?”
“Mais cedo… sua irmãzinha…”
Leonia lembrou-se de como Varia tinha perguntado sobre Lota no palácio. Ficou pensando nisso. Suspeitava que Varia ainda nutrisse alguma empatia remanescente.
Ferio provavelmente tinha pensado o mesmo. Esperou silenciosamente a resposta de Varia.
“Eu…”
Varia começou a responder—
“Minha senhora.”
Justamente nesse momento, uma criada se aproximou de Varia.
“Tem alguém aqui que deseja vê-la.”
“Mamãe?”
Leonia perguntou quem era.
“Hum… ela diz que é sua irmã…”
Ao ouvir isso, a expressão de Varia mudou sutilmente.
“Devo trazê-la?”
Ferio perguntou. Leonia também olhou para Varia, esperando sua resposta.
“...Por favor, prepare a sala de recepção.”
Varia pediu à criada. A criada fez uma reverência e saiu.
“Quem manda o feiticeiro, vem a ele.”
Leonia murmurou.
“Leo, a leoa vem do Oeste.”
Ferio a corrigiu.
“Pai, era uma figura de linguagem.”
“Era uma metáfora bem ruim.”
“Aff, que implicância!”
Enquanto o pai e a filha, completamente tagarelas, discutiam bobagens, Varia soltou uma risada.
“Vocês nunca deixam espaço pra ser sério, né?”
“Isso é um insulto?”
“Ou um elogio?”
Ferio e Leonia hesitaram.
“Claro que é um elogio!”
Com o coração um pouco mais leve, a mãe fera plantou beijos barulhentos nas bochechas dos dois.
Leonia sorriu, enquanto Ferio parecia emburrado, como se estivesse aborrecido por não ter levado um beijo na boca.
“Cresce logo aí…”
Se apaixonar o transformou realmente num filhote.
Leonia olhou decepcionada para o pai. Em seus olhos, ele parecia com orelhas de cachorro caídas e um rabo arrastando no chão. Um pouco assustador.
“Voltarei já.”
Mas antes de sair, Varia se inclinou e apertou Ferio contra o peito, o que fez suas orelhas ficarem em pé e o rabo se levantar.
Ainda mais assustador.
“…Eu posso conquistar o mundo agora mesmo.”
A sensação de independência e autoproteção da jovem fera voltou com força renovada.
***
Varia foi direto para o salão onde Lota a aguardava.
Lá estava Lota, tensa e silenciosa.
Varia achou a cena estranhamente fascinante. Sua irmã mais nova, sempre tão confiante e deslumbrante, agora parecia encolhida e tímida.
‘Será que é por causa da casa Voreoti?’
Varia pensou nisso e balançou a cabeça.
Não podia ser só isso.
Ela conhecia bem Lota. A garota, normalmente, se orgulhava de ser recebida como convidada na propriedade Voreoti.
Se não fosse isso—talvez fosse inveja da irmã que se casou na Casa Voreoti?
“Lota.”
Varia entrou na sala de convidados e chamou pelo nome dela.
Lota, que estava de costas, virou lentamente a cabeça.
“Irmã…”
Mesmo depois de tanto tempo, sua irmã mais nova ainda era bonita. Mas, aos olhos de Varia, algo claramente tinha mudado. Ela não irradiava mais vida.
Pela primeira vez, Varia sentiu pena dela.
“Você apareceu sem nem avisar.”
Mas, ao invés de perguntar “Você está bem?” de forma calorosa, ela apontou a grosseria da irmã de aparecer sem aviso prévio.
Só porque sentia pena, não significava que pudesse perdoar.