
Capítulo 208
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Uma irmã mais nova não pode visitá-la de vez em quando?”
Lota reagiu, sua voz elevando-se em um protesto magoado. Ser chamada de rude a deixou envergonhada.
“Somos família, não somos?”
“Exatamente. O que quer dizer que você deveria respeitar limites apropriados.”
Varia, sentada na sua frente, nem sequer olhou na direção dela.
Lota parecia desolada com a frieza da irmã.
“Por que você está assim?”
Como se fosse a parte inocente. Como se ela não soubesse o que tinha feito de errado.
Seus olhos brilhavam com lágrimas.
“Você... me odeia tanto assim?”
Lota perguntou, com a voz embargada pelas lágrimas.
“......”
Varia a olhou quietamente.
“...Lota, você é...”
Ela começou a falar lentamente.
“Realmente sem vergonha.”
O riso que escapou de seus lábios foi mais seco que areia.
“Egoísta.”
Cada palavra fria transformava a rosto desolado de Lota em algo dolorido. Mas Varia não parou.
“Você só pensa em si mesma.”
“C-como você pode dizer isso...!”
###TAG###
“Quando eu tinha quatorze anos.”
Varia rapidamente a interrompeu antes que Lota pudesse gritar.
“Quando você me empurrou para o lago.”
A morte dela na primeira vida — aquilo lhe dera uma segunda chance.
Os olhos de Varia ficaram mais afiados ao se lembrar.
“Você disse que tudo foi um acidente, que aconteceu enquanto eu tava desacordada por causa de uma febre alta, não foi?”
“Claro que foi um acidente!”
“Não foi. Foi intencional.”
Você me empurrou.
A voz de Varia tremia.
Ela tinha ganhado e aprendido muito depois de voltar da morte.
Uma família que a amava de verdade. Amigos com quem podia abrir o coração. Uma casa onde podia descansar em paz.
E a verdade daquele dia no lago.
“Você me empurrou.”
Na sua primeira vida, ela acreditou que tinha sido um acidente. Quando criança, achava que Lota tinha apenas tocado suas costas ao tentar pegá-la.
Depois que a febre passou, ela até pediu desculpas à sua irmã nervosa.
Mas na sua segunda vida, ela via claramente.
“Só porque não lhe dei algum idiota adereço de cabelo.”
Lota a empurrou com toda força.
Quando caiu no lago, Varia viu algo que não tinha percebido na sua primeira vida —
O sorriso de Lota refletido na água enquanto ela a empurrava.
“Você tentou me matar.”
“Foi um acidente!”
“Um acidente?”
“Sim! Eu era só uma criança—não sabia o que estava fazendo!”
“Você não era só uma criança comum.”
Você viu com seus próprios olhos a forma como nossos pais me favoreciam, e usou isso a seu favor — monopolizando o amor deles e conquistando tudo.
Você não era uma criança normal.
“...Pois é. Eu era mesmo uma idiota.”
Varia suspirou, encostando-se na cadeira.
“Deveria ter percebido na época.”
Relembrando, ela percebeu momentos inquietantes que passaram despercebidos.
Uma vez, ela quebrou acidentalmente uma das bonecas de Lota.
Ela ouviu um estalo ao levantar de uma cadeira — e lá estava, a boneca esmagada abaixo dela.
Era a favorita de Lota. Seus pais a repreenderam severamente por ter quebrado as coisas da irmã, enquanto Lota chorava e a culpava.
Mas pensando bem — por que a boneca estava no seu quarto desde o começo?
Sempre que ela estava ocupada, Lota implorava para brincar com ela.
E, quando ela pegava algo que Varia gostava, ela sempre perdia ou quebrava por “acidente”.
Sempre que Lota tinha problemas com os pais, chorava e culpava outra pessoa.
“A irmã não quis brincar comigo!”
“A irmã não deixou eu pegar emprestado!”
“Mas foi ela quem—!”
Pode parecer infantil.
Ou inocente.
Mas era extremamente malicioso.
“Minha irmãzinha.”
Só aí Varia ergueu a cabeça e encarou a maldade na infância de sua irmã.
Lota recuou sob seu olhar. O olhar na irmã mais velha lhe causou calafrios — era como se ela pudesse enxergar através dela.
“Você tentou me matar.”
Quando me empurrou para o lago.
Quando Remus tentou me matar.
Lota matou a própria irmã duas vezes.
“E mesmo assim, eu...”
Continuava a chamá-la de irmãzinha. Acreditava que poderiam conversar — porque eram família.
Que idiotice da minha parte.
Varia estava cansada. Mesmo que não tivessem conversado por muito tempo, seu corpo inteiro se sentia exausto.
Ela só queria sair daquela sala e voltar à família que amava.
“O que você quer?”
Varia perguntou.
“Você veio até aqui, então ao menos quero ouvir.”
“......”
“Se for para dizer algo ridículo, então—”
“Por favor, me ajude!”
Lota gritou.
“Por favor, estou implorando...!”
Ela se inclinou para a frente sobre a mesa, tremendo.
“Meu marido, Remus...”
Sua voz se quebrou ao falar.
Mas agora que chegou a hora de realmente dizer, as palavras ficaram presas na garganta. Mesmo agora, o orgulho de Lota se recusava a abaixar a cabeça para Varia.
E então, vieram as lágrimas.
Lágrimas quentes e amargas escorreram pelo rosto dela.
“Dizem que a garota Voreoti... ela é filha dele!”
“Sim, acabei de descobrir também.”
“Disseram que a pulseira que eu vi é a prova!”
Lota cobriu o rosto com as mãos. Ela não aguentava a ideia de ter sido ela quem revelou o terrível segredo.
“Sabe o que ele me disse?”
Logo ao mencionar o que viu na festa de chá, Remus saiu do casarão em protesto.
Ele não voltou por dias.
Quando finalmente retornou, beijou-a com paixão — e lançou uma bomba.
'Graças a você, encontrei minha filha!’
Sua filha.
Graças a ela?
Ele falou sobre a amante que tinha perdido, e a filha que tinham juntos.
Remus estava radiante, dizendo que finalmente tinha encontrado esperança. Nem parecia perceber que Lota estava completamente destruída pela notícia.
Lota caiu em desespero.
“Eu não quero isso! Eu odeio!”
Ela odiava a situação na qual se encontrava agora.
“Como ele pôde fazer isso?”
Como isso ainda podia ser aceitável?
Ela havia ficado atormentada até o limite — sendo segurada por Remus enquanto ele a elogiava, a beijava.
Era um tormento.
Isso não era certo.
Ouvir seu marido falar de outra mulher que ele amava, e de uma criança daquela relação — que, na verdade, era uma Voreoti.
Ele ficou feliz por ter encontrado uma filha que nem sabia que existia — graças a ela.
“...Por que aquela garota pode ficar com isso?”
Seu desabafo inesperado deixou Varia surpresa.
“Você está grávida?”
“Ainda não!”
Mas vou ficar — Lota encarou sua irmã com determinação cruel.
“Sou a única que deveria engravidar do Remus!”
A criança que ela teria algum dia.
Ela sempre achou a pressão de engravidar irritante, mas agora, mais do que nunca, desejava isso desesperadamente.
Ela até colocou a mão na barriga — decidida a carregar a semente da Casa Olor.
Varia ficou horrorizada.
“Você está louca?”
Ela implorou sinceramente.
“Depois de tudo isso que ouviu e viu, ainda quer ter o filho daquele homem?”
Varia sacudiu a cabeça, incrédula.
“Remus é um canalha que caça menores! Como você não consegue enxergar que também é uma vítima dele? Por favor, acorde e divórcie—”
“Você é quem não entende nada!”
Mas o apelo sincero de Varia foi rejeitado.
“Você não entende! Ele é tão gentil, tão maravilhoso!”
Os olhos verdes de Lota estavam perdidos, já não brilhando como antes. Não tinham vida.
Varia percebeu — era assim que a desespero se apresentava.
“Tudo isso aconteceu antes mesmo de nos casarmos! Eu consigo entender!”
“Remus admitiu com orgulho que tocou naquela garota quando ela ainda era menor de idade.”
“Então e daí?”
Ela provavelmente foi quem seduziu ele primeiro.
Essa única frase fez Varia sentir como se o chão tivesse se desmoronado sob ela.
“...Ugh.”
Sintiu uma onda de náusea. Ajuntou-se rapidamente, cobrindo a boca, sua visão escurecendo.
“Por isso você precisa me ajudar.”
Lota implorou novamente. E agora, lágrimas também encheram os olhos de Varia.
Por favor, não deixe que seja isso que eu estou pensando.
Se ela dissesse que não queria mais viver com Remus, se quisesse se divorciar...
Poderia ajudá-la, mesmo que odiando.
Porque ela ainda era sua irmã.
“Por favor, pare com o teste de paternidade. Você é uma Voreoti agora — pode fazer isso!”
Mas era uma esperança inútil.
“Remus também não sabia. Ele realmente não sabia! Mas eu não quero isso.”
A criança tinha que ser dela.
Ela não podia criar a filha de outra mulher.
Mesmo que essa criança tivesse sangue Voreoti, Lota não conseguia aceitá-la.
“Se eu tivesse engravidado um pouco mais cedo — tudo teria sido diferente. Mas como não engravidei, preciso engravidar agora, né...?”
Sua justificativa desesperada torcia seu rosto numa expressão assustadora.
Era desespero — à beira de uma ruptura.
“Remus diz que me ama. Ele é o único que me ama...!”
BANG!
Um baque forte atingiu as duas irmãs.
“...Isso já é suficiente.”
Varia murmurou, a mão cerrada no lugar onde havia batido na mesa.
“Por favor. Vá embora.”
Ela não conseguiu mais olhar para Lota.
***
Embora tivesse reunido coragem para ir até a mansão Voreoti, Lota saiu sem obter a ajuda que desejava.
Ela passou o caminho de volta xingando Varia — e depois implorando novamente — mas foi em vão.
Varia, como se estivesse fugindo, caiu na cama.
Instantaneamente, a exaustão a dominou.
Dores atormentavam seus músculos, febre percorria seu corpo.
Ferio imediatamente chamou um médico, e Leonia caminhava inquieta do lado de fora do quarto de sua mãe.
“Pai.”
Naquele momento, Ferio saiu do cômodo. Leonia correu rapidamente até ele.
“Está tudo bem com a mamãe? Ela está muito doente?”
“Ela tomou o remédio e acabou de dormir.”
Leonia abaixou a voz imediatamente.
“...Foi por causa daquela mulher, não foi?”
Sua voz estava baixa — mas carregada de raiva.
“É por isso que a mamãe ficou doente?”
A pequena besta do bebê não conseguiu mais esconder sua fúria. Ela resmungou um pouco sobre como algumas pessoas eram inúteis.
Normalmente, teria xingado abertamente, mas por aquela mulher ainda ser, tecnicamente, parte da família, segurou o mal-estar.
“Leo.”
Ferio falou suavemente.
Depois, compartilhou o que Varia tinha lhe contado — as palavras chocantes de Lota.
Como esperado, o rosto de Leonia se torceu numa carranca feia.
“......”
Por um longo momento, ela sequer conseguiu falar. Abriu e fechou a boca sem verborreia, soltando um suspiro de cansaço e frustração.
“Aquela maluca!”
E finalmente explodiu.
Desta vez, Ferio concordou em silêncio e fingiu não ouvir a maldição da filha.