
Capítulo 209
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“Como—o quê—não, quero dizer, eu sabia disso!”
Leonia se lembrou claramente.
Há seis anos, durante um banquete, o noivado entre as famílias Olor e Erbanu era um assunto bastante comentado, assim como a diferença de idade entre os noivos. Ela ficou horrorizada na época quando descobriu os detalhes pela primeira vez.
'Mas mesmo assim...'
Nunca imaginaria que algo ainda mais terrível viria à tona.
Leonia passou a massagear os braços. Uma onda de medo a invadiu ao testemunhar pela primeira vez a crueldade da humanidade.
“...Pai!”
Nesse momento, uma possibilidade arrepiante surgiu na cabeça de Leonia.
“Não me diga... minha mãe biológica também...!”
“Sim.”
Ferio exalou um longo suspiro pesado, relutante em admitir.
“Provavelmente, aconteceu do mesmo jeito.”
Regina tinha sido ingênua, algo incomum para uma Voreoti.
Costumava dizerem que ela tinha flores desabrochando na cabeça — presa fácil para alguém como Remus.
“Ele deve ter manipulado seus sentimentos...”
Não havia necessidade de imaginar como.
‘Você acha que sua família vai perdoar você por ter fugido?’
‘Você só precisa aguentar um pouco.’
‘Você não consegue nem fazer isso?’
‘Sou quem verdadeiramente te ama.’
Embora a morte de Regina tivesse sido confirmada, os detalhes de como tudo aconteceu continuavam um mistério.
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E agora, com a súbita aparição de Lota, um fio daquele mistério começou a se desfazer.
“Aquele nojento safado!”
Leonia não conseguiu segurar sua maldição.
Ferio concordou silenciosamente.
Remus Olor tinha demonstrado pessoalmente o quão cruel e vil uma pessoa pode ser.
‘Então a verdade começa a se revelar...’
Embora esse não fosse o modo que Ferio queria descobrir.
“Haa...”
Ele soltou mais um suspiro cheio de arrependimento. Se ao menos tivesse prestado mais atenção em Regina na época, talvez nada disso tivesse acontecido.
Sabia que era uma mera especulação inútil. Que não era culpa dele.
E mesmo assim, não conseguia desprender-se do arrependimento. Se Varia estivesse sendo consumida pelo mesmo sentimento de culpa, então ele não tinha o direito de consolá-la.
Ele também se atormentava pensando no que poderia ter feito de diferente.
Questionava o que Varia deve ter sentido ao ver Lota ainda presa pelas correntes que Remus havia colocado nela.
Remus Olor tinha arrastado várias pessoas para o lixo junto com ele.
“...Não faça essa cara!”
Observando a expressão sofrida de seu pai, Leonia gritou.
“Por que você está fazendo essa cara de culpado, como se fosse o vilão aqui?”
Suas omoplatas tremiam de frustração. Ferio piscou surpreso.
“Você não fez nada de errado!”
“......”
“O que fez de errado foi aquele pedaço de lixo, não você! Por que está se afogando em culpa?”
Ela gritou tão alto que todo o corpo tremia, e então caminhou furiosamente em direção ao quarto onde Varia estava deitada.
Sem bater, ela abriu a porta de paravento e lá estava Varia sentada na cama, com a expressão abatida e séria.
Isso só deixou Leonia ainda mais furiosa.
“Estúpida mamãe!”
“...Huh?”
Surpresa com a explosão repentina, Varia piscou confusa.
“L-Leo? O que aconteceu de repente...”
“Não é sua culpa!”
Leonia exigiu que ela explicasse por que sua mãe estava ali, tão pensativa como se tivesse feito algo errado. Varia não conseguiu dizer uma palavra em resposta.
“Até o papai!”
Ela virou o olhar para Ferio, que tinha seguido logo atrás.
“O que vocês poderiam ter feito naquela época? Quer que eu seja honesta? Mesmo se voltassem no tempo, nenhum de vocês conseguiria fazer alguma coisa.”
Sabe por quê?
Leonia respondeu sua própria pergunta antes que pudesse terminar.
“Porque ambos estavam lutando só para sobreviver!”
Nenhum dos pais conseguiu contestar a avaliação fria da criança. Porque ela tinha razão.
Ferio tinha sido praticamente privado do amor dos pais. Sendo intencional ou não, tinha sido profundamente marcado.
Varia não era diferente. Ela foi completamente abandonada pela família, sofreu incontáveis feridas, e foi morta sem nem uma chance de defesa.
“Como vocês poderiam ajudar alguém se nem conseguiam cuidar de si mesmos!”
Acham que eram uns santos?
Ninguém conseguiu responder aquilo.
“Tudo bem, você foi meio que incrível.”
Mais uma vez, Leonia respondeu a si mesma.
“Você é bonita e talentosa.”
Ferio e Varia ficaram sem palavras. Estavam sendo repreendidos e, de repente, veio um elogio.
“Mas mesmo naquela época, vocês precisavam de alguém para cuidar de vocês. Sinceramente, pelo que vejo, vocês sofreram tanto por causa daqueles dois. Já pensaram nisso?”
Leonia sabia o quão egoísta eram suas palavras.
Mas as únicas pessoas que importavam para ela eram aquelas que estavam ao seu lado agora. Ela não precisava se importar com mais ninguém.
Regina já tinha morrido.
Lota tinha rejeitado ajuda.
Portanto, Leonia achava que seus pais não precisavam mais sentir pena ou remorso por nenhuma das duas.
Porque elas não tinham feito nada de errado.
Claro, Leonia ainda sentia pena de Regina. Sempre havia um cantinho do coração dela cheio de piedade por ela.
E até Lota, que havia sido manipulada por Remus, despertava uma leve gota de simpatia.
‘Mas e daí?’
Esse era o limite da compaixão de Leonia.
“Algum adulto ajudou vocês durante o inferno que vocês passaram?”
Os que deveriam se sentir culpados e arrependidos eram os supostos responsáveis na época.
>E quem realmente deveria ser castigado era outra pessoa completamente diferente.
“Aquele safado foi quem fez errado.”
Leonia declarou com firmeza. Sua postura inabalável fez os olhos de ambos os pais tremerem levemente.
“Se vocês realmente têm alguma pena deles, então arregacem as mangas e derrotem aquele safado.”
Essa era a única coisa que poderiam fazer. E Leonia as alertou para não deixarem que a vingança se tornasse uma forma equivocada de remorso.
A pena deve permanecer como pena.
Porque, para Leonia, o que mais importava eram Ferio e Varia.
Ela não queria que eles fossem consumidos por culpas desnecessárias.
***
Leonia só foi dormir depois de se acalmar bastante. Ela fazia seu desabafo interno.
‘Se isso acontecer de novo, vou para Olor!’
‘Para quê? Para matar todos eles!’
‘Vai atrás, faz de mim filha de um assassino!’
‘Agora estou com sono, vou dormir!’
‘De qualquer forma, boas sonhos!’
Ela estava com raiva — mas ainda com sono. Mesmo resmungando, Leonia beijou as bochechas de Ferio e Varia para desejar boa noite.
Ela até fechou a porta suavemente.
Porém, o som dos seus passos ecoou alto do lado de dentro da porta.
Os dois pais ficaram ali em silêncio, como se uma tempestade tivesse acabado de passar.
E, de alguma forma, suas mentes estavam muito mais claras.
“O Leo é mais maduro que a gente.”
Varia foi a primeira a falar.
“Certo, Rio?”
“Na verdade, não tenho mais o que dizer desta vez.”
Ferio concordou sem hesitar.
“Mais importante, como está seu corpo?”
“Incrivelmente, depois de toda aquela bronca, estou me sentindo muito melhor.”
“Vamos lá.”
“Estou falando sério. Minha cabeça está bem mais clara agora.”
De forma estranha, a dor muscular já tinha desaparecido desde que Leonia a repreendeu. Os pensamentos que estavam emaranhados na cabeça dela agora estavam completamente organizados.
“Quando vi minha irmã mais cedo...”
Varia falou calmamente.
“Fiquei realmente chocada.”
“Você ficou?”
Ferio sentou ao lado dela, colocando seu braço ao redor, puxando-a suavemente para que ela se apoiasse em seu ombro.
Varia aceitou o conforto sem hesitação. Sua expressão ficou mais serena, embora uma sombra sutil permanecesse em seus olhos verdes, enquanto ela lembrava da irmã.
“A Lota que eu conhecia... ela nunca foi alguém que se deixaria enganar e usar daquele jeito.”
“Ainda quer ajudá-la?”
Ferio perguntou.
Varia sacudiu a cabeça.
Leonia tinha razão. A compaixão não é perdão — e também não deve se transformar em culpa.
Varia sabia disso, mas quase cometeu esse erro.
“Estendi a minha mão. Mas a Lota a rejeitou.”
Não havia mais nada a fazer.
Ela também foi profundamente ferida por Lota — ela era uma vítima também.
E, no final, a maior culpa recai sobre Remus. O mal menor foi seus próprios pais, que enviaram a filha para aquele homem.
“...É de arrepiar ao pensar nisso.”
Ferio falou.
“Você também poderia ter acabado assim.”
“Remus Olor é alguém que nunca pode ser perdoado.”
“Concordo.”
“Ainda assim, isso me torna cruel?”
Varia perguntou baixinho.
“Ela é minha irmã, afinal...”
“Se fosse comigo, uma irmã desse tipo não estaria mais por perto.”
Ferio bufou. Achava Varia muito sensível demais.
“Me diga uma coisa, Ferio. Você já pensou igual a mim?”
Varia perguntou. Ferio disse que seus pensamentos eram parecidos, mas também um pouco diferentes.
“Minha culpa sempre volta pra Leo.”
“Leo?”
“Nossa filha obediente já me repreendeu várias vezes por não me culpar... como se eu pudesse não me culpar?”
Se ao menos tivesse prestado um pouco mais atenção em Regina. Se tivesse buscado mais quando ela desapareceu. Se tivesse se esforçado até uma fração do que se dedica ao seu tinteiro.
Talvez Leonia não teria sofrido tanto naquele orfanato infernal.
“Adotei Leo com o coração leve.”
Pela primeira vez, Ferio falou sobre o dia em que adotou Leonia.
“Fui influenciado pelo que um amigo me falou... pensei: ‘Se eu encontrar alguém decente, talvez eu acolha e crie’.”
Parecia irresponsável. Mas Ferio falou como um pecador que faz uma confissão séria. Varia escutou atentamente.
“Kara me disse — ela perguntou se eu tinha trazido um animal de estimação.”
Ela o repreendeu por tratar uma criança como se fosse um brinquedo.
“E, olhando para trás, ela tinha razão.”
“Mas agora, vocês duas são uma verdadeira família. Eu vi com meus próprios olhos.”
“Isso só faz eu me sentir mais idiota e arrependida do passado.”
Fazer algo assim com uma filha tão bonita e amável...
Logicamente, Ferio não tinha feito nada errado.
Regina escolheu fugir. Foi Remus quem a manipulou.
Porém, as fatídicas consequências recairam toda sobre a pequena Leonia.
As cicatrizes que antes marcavam seu corpo fraco agora tinham desaparecido — mas ficaram gravadas na mente e no coração de Ferio.
“Se ao menos eu tivesse prestado mais atenção em Regina. Se ao menos tivesse procurado mais. Se ao menos não tivesse desistido...”
Talvez, assim, Leonia não teria que passar por aquele pesadelo.
“...Não é culpa.”
Varia segurou a mão de Ferio e apertou-a.
“Isso é o amor de um pai por sua filha.”
Essa coisa simples e bonita — Varia nunca a recebeu de verdade. Por isso tinha certeza absoluta.
“Então, não confunda esse amor com culpa.”
“Talvez foi isso que deixou Leo tão bravo.”
“Pais — pensando umas bobagens dessas.”
“Nosso Leo é realmente inteligente e gentil.”
“Nem precisa dizer.”
Nessa noite, o casal Voreoti se encheu de orgulho por sua filha amada.